CAPÍTULO II: ALIENAÇÃO PARENTAL, DE QUE TRATA?
3.2 Conceitos
Alienação Parental (AP) é uma ferramenta maliciosa utilizada por pais do mundo todo (Gardner 1998). Geralmente, faz-se uso desta prática quando outras táticas de indução e alienação não produzem os efeitos esperados (Weigel & Donovan, 2006). Inicialmente, a AP foi definida como “ato de difamação, injúria e manipulação de crianças, contando com posteriores contribuições da criança que acaba por cooperar com esse processo” (Gardner, 1985; 2003).
Esta forma de abuso emocional impressa à criança pode ocasionar prejuízos incalculáveis, dentre eles, a quebra do vínculo com o pai que sofre o processo de alienação (Gardner, 2003). Isto porque o progenitor alienador se empenha com dedicação para destruir o vínculo entre a criança e o pai alienado, sem medir o prejuízo emocional e psicológico que pode estar gerando à criança (Gardner, 2003), a qual pode desenvolver um quadro de negação, vergonha, ansiedade, pessimismo, depressão e culpa (Dreman, 1991). Segundo o mesmo autor, os danos ocasionados à criança, maior vítima desse processo, podem ser equiparados, por exemplo, a crianças que passaram por momentos traumáticos como homicídio dos pais ou sequestro.
Entende-se, portanto, que pais alienadores podem apresentar distintas formas de maltratar psicologicamente (práticas alienadoras) seus filhos. Isto se constitui quando a alienação parental é bem sucedida, e as crianças ficam suscetíveis a experimentar a si mesmas como “imperfeitas, mal amadas, não desejadas ou em perigo” (Baker, 2010). Outra forma de maltratar uma criança é fazê-la acreditar que seu pai/mãe é uma pessoa ruim, uma vez que a criança pode interiorizar a identidade negativa e concluir: "Devo ser uma criança terrível, por ter um pai tão terrível assim." (Baker, 2010). Deste modo, conclui-se que ensinar a criança a odiar um dos pais é ensiná-la a odiar a si mesma. Reafirma-se que o processo da alienação parental como um todo incide na criança sob a forma de maus tratos psicológicos, podendo ser associada a diferentes tipos de abuso, a saber: abuso físico, sexual, negligência e abuso emocional (Baker, 2010).
Essas práticas de alienação podem se apresentar de forma explícita e implícita. Na primeira, explícita, é realizada de forma verbal, expressando sua raiva e repúdio ao outro progenitor, proferindo frases como: "Seu pai/mãe não quis que você nascesse", "Eu sempre fui seu pai e mãe", "Me chame, se o teu pai te tocar, em qualquer lugar, vou lhe defender", "Tenho certeza que ele/a não virá assistir sua apresentação, como sempre". Como também, podem ser expressas de forma indireta, podendo incluir insinuações de abuso sexual e implicações de periculosidade do/a pai/mãe (Kelly & Johnston, 2001).
De tal modo, a prática mais destacada no processo de alienação é, sobretudo, a campanha denegritória realizada por um dos pais, de forma constante e persuasiva (Baker, 2011). Várias estratégias reforçam essa mensagem para a criança, como fazê-la acreditar que seu/sua pai/mãe a rejeitou, induzir um confronto entre o filho e o outro progenitor incitado, exigindo da criança uma fidelidade de apoio contra o pai alienado,
como também desenvolver de forma doentia uma dependência da criança para consigo (Baker, 2010).
Dessa forma, o genitor alienador faz uso de uma série de comportamentos sabotadores para denegrir a imagem do pai, como se pode observar na Tabela 1.
Tabela 1. Comportamentos sabotadores clássicos segundo Silva (2009) Comportamentos Sabotadores
1. Interceptar correspondências, tentativas de contato dos pais (e-mail, mensagens, ligações, cartas);
2. Planejar atividades com os filhos durante o período em que o outro genitor deve normalmente exercer o direito de visitas;
3. Interceptar as chamadas telefônicas dos filhos; 4. Insultar o outro genitor na presença dos filhos;
5. Não comunicar o outro genitor sobre as atividades em que os filhos estão envolvidos (esportes, atividades escolares, grupos teatrais, escotismo, etc.) para evitar o contato deles;
6. “Esquecer” de avisar o outro genitor de compromissos importantes, a exemplo de atendimentos médicos e psicológicos dos filhos;
7. Tomar para si o direito de administrar todas as decisões importantes a respeito dos filhos sem consultar o outro genitor (escolha da religião, escolha da escola, etc.);
8. Impedir o outro genitor de ter acesso às informações escolares;
9. Atribuir características ruins e pejorativas aos objetos que o outro progenitor deu aos filhos;
10. Ameaçar punir os filhos se eles telefonarem, escreverem, ou se comunicarem com o outro genitor de qualquer maneira;
11. Associar possíveis comportamentos negativos dos filhos ao outro genitor.
Nota. Silva (2009; pp. 55-56).
Em vista destes comportamentos, entende-se que um fator que recorrentemente tem sido citado como potencializador dessas práticas é a separação conjugal, uma vez que um dos genitores, como forma de vingança do ex-cônjuge, seja por ter sido abandonado, traído ou se frustrado em relação à vida conjugal, alicia a criança contra
um progenitor alvo, ou seja, confunde conjugalidade com parentalidade, pois permite que os problemas do casal se estendam à prole (Costa, 2011). Segundo a mesma autora, em geral, isso tem início quando o cônjuge julga ter sido prejudicado na relação, associando tal situação a sentimentos vingativos, principalmente quando o outro genitor já constituiu uma nova família.
Outro fator interessante acerca da AP é que, muitas vezes, pode acontecer ainda na vigência da relação conjugal (Costa, 2011). Neste momento, as estratégias utilizadas pelo genitor alienador podem ser sutis, não despertando o entendimento da situação, como, por exemplo, propor um maior contato com o filho do que o outro genitor, ou mesmo de forma pouco agressiva, limitar o contato do filho com o outro progenitor, tudo para manter a situação sob seu controle (Costa, 2011).
Assim, o objetivo do alienador consiste em proporcionar um ônus ao genitor alienado, distanciando seu filho deste, processo operacionalizado de forma consciente e/ou inconscientemente (Simão, 2012). O genitor alienador faz uso de suas próprias frustrações e insucessos conjugais para iludir, fantasiar e até “programar” seu filho contra o(a) pai/mãe, com um único propósito: a vingança. Isto evidencia que a AP refere-se à campanha denegritória empregada pelo genitor, já a Síndrome de Alienação Parental (SAP) está ligada às consequências emocionais e comportamentais apresentadas pela criança, alvo do processo de alienação (Darnall, 1999).
Desta forma, o ator principal desta ação, fere os princípios constitucionais de respeito ao ser humano, pois ao praticar esse ato, desrespeita os direitos de personalidade, parentalidade digna e busca do melhor interesse para os membros familiares (Simão, 2012). Isto ressalta a relevância do entendimento jurídico desta temática.