1 REVISÃO TEÓRICA
1.1 Planejamento
1.1.1 Conceitos e características do planejamento
O planejamento é considerado um exercício mental, um processo lógico, racional e analítico próprio do ser humano, que tem como princípio básico a determinação de ações no tempo presente que poderão levar ao alcance de objetivos futuros. Embora fortemente vinculado à realidade das empresas, o planejamento é uma atividade complexa e abrangente encontrada nas mais diversas organizações, contribuindo, inclusive, para o desenvolvimento econômico e social de países e regiões ao longo da história.
Carvalho (1979, p. 14) proporciona uma compreensão do papel desempenhado pelo planejamento no processo histórico e observa que, a partir do que se sabe sobre as mais remotas civilizações, é possível perceber que planos, programas, projetos e, principalmente, o processo de planejamento sempre foram adotados. O referido autor cita como exemplo a construção das pirâmides do Egito, a qual não poderia ter sido concretizada sem complexos planos e projetos de arquitetos e administradores da época. Carvalho (1979, p. 14) lembra, ainda, que os princípios básicos do planejamento também foram úteis na construção dos aquedutos romanos, na irrigação agrícola da Mesopotâmia antiga, nas obras civis, nas cidades gregas e romanas e nas embarcações das mais distintas civilizações antigas. Megginson, Mosley e Pietri Junior (1998, p. 128) constatam que o planejamento é um recurso existente há muitos séculos e é praticado desde que os povos começaram a levar em conta as implicações
no futuro das ações tomadas no presente. Com a intenção de registrar a existência e o uso do planejamento por parte das pessoas ao longo do tempo, Jain (1993, p. 4) lembra que na história da vida humana os indivíduos têm buscado atingir diferentes objetivos, e, neste esforço, algum tipo de planejamento sempre esteve presente.
Ackoff (1981, p. 1) conceitua o planejamento como o processo de “[...] definição de um futuro desejado e de meios eficazes de alcançá-lo.” Hax e Majluf (1984, p. 1) complementam que a essência do planejamento é organizar, de uma maneira disciplinada, as principais tarefas a que uma organização deve se dedicar para sustentar a eficiência atual, bem como guiar a organização para um futuro melhor. A definição de um futuro desejado que aparece nas colocações acima traz consigo a condição de que o planejamento é um processo racional e antecipado de decisão, que conduz os responsáveis por essa função a decidir intencionalmente o que fazer, antes que uma ação seja efetivamente realizada. Megginson, Mosley e Pietri Junior (1998, p. 128) reforçam e ampliam esse entendimento ao afirmarem que planejar é escolher um curso de ação e decidir de forma antecipada o que deve ser feito, a sequência das ações que serão realizadas e o momento em que elas serão executadas. Carvalho (1979, p. 16) compreende o planejamento como um processo que pode tornar mais eficiente o alcance de determinados objetivos. Ainda segundo o autor, o planejamento é considerado “[...] como um processo lógico que auxilia o comportamento humano racional na consecução de atividades intencionais voltadas para o futuro.”
A consideração de Baptista (2002, p. 14) serve de apoio para sustentar que o ato de planejar é inerente ao ser humano e auxilia a compreendê-lo como um processo de reflexão e ação, utilizado para determinar alternativas viáveis para a solução de problemas. Assim, Baptista (2002, p. 14) afirma que, já no início dos tempos, o homem refletia sobre as questões que o desafiavam, estudava as diferentes alternativas para solucioná-las e organizava sua ação de maneira lógica. Em resumo, para a referida autora, quando esse processo é posto em funcionamento, a prática de planejamento é efetivada.
Dado que o planejamento figura como um processo sistematizado de decisão, é válido lembrar que essa função, segundo Oliveira (2009, p. 4), não deve ser confundida com previsão (esforço para verificar quais serão os eventos que poderão ocorrer), projeção (situação em que o futuro tende a ser igual ao passado), predição (situação em que o futuro tende a ser diferente do passado, porém a empresa não tem controle sobre seu processo e
desenvolvimento), resolução de problemas (correção de certas descontinuidades e desajustes entre a empresa e as forças externas) e, por fim, planos (documentos formais que consolidam as informações e atividades desenvolvidas no processo de planejamento).
Bateman e Snell (2006, p. 117) destacam o papel do planejamento para o direcionamento de ações visando ao alcance de determinados objetivos e afirmam que a atividade é um processo consciente, sistemático e intencional de tomada de decisão sobre metas que um indivíduo, um grupo, uma unidade de trabalho ou uma organização buscarão no futuro, não sendo, portanto, uma simples resposta a uma crise.
Os conceitos fundamentais e princípios gerais do planejamento são elementos que não se alteram em virtude do contexto no qual a atividade é executada, seja para determinar as diretrizes gerais de um plano econômico de um país, seja para a instalação de uma nova unidade fabril de uma grande empresa. Assim, o universo do planejamento, como observado por Steiner (1969, p. 6) é bastante amplo. Os aspectos que sofrem variação vão se situar nas particularidades de cada empreendimento, na complexidade de sua execução, na sua finalidade, no impacto econômico e social gerado, dentre outros fatores. Com isso, nota-se que o planejamento tem um campo de atuação abrangente, além de caracterizar-se de diferentes formas dependendo da realidade onde é empregado. Portanto, como argumenta Kunsch (2003, p. 213), qualquer esforço de buscar sistematizar os tipos de planejamento aplicados às mais diversas áreas e derivações seria um exercício muito complexo, dada a grande diversidade existente.
Porém, considerando a aplicação do planejamento no domínio empresarial, os escritos de Steiner (1969, p. 12) a respeito das cinco dimensões do planejamento nessa realidade constituem um esforço válido por permitir visualizar a atividade sob diferentes pontos de vista e, ao mesmo tempo, perceber as diferentes configurações que o planejamento pode assumir no ambiente empresarial. A primeira dimensão comentada pelo autor diz respeito ao objeto ou foco do planejamento, podendo a atividade ser empregada na área de produção, finanças,
marketing, desenvolvimento de novos produtos etc. A segunda dimensão envolve os
diferentes elementos ou componentes relacionados ao planejamento. Nesse caso, Steiner (1969, p. 12) inclui as regras, propósitos, procedimentos, orçamentos, programas, políticas, objetivos, dentre outros. A dimensão de tempo é a terceira proposta pelo autor, a qual indica que o planejamento pode ser de curto, médio ou longo prazo, por exemplo. A quarta dimensão
relaciona-se com a unidade organizacional para a qual os planos são elaborados (corporação, unidade de negócio, divisões, departamentos).
Por fim, a quinta dimensão é pautada nas características gerais do planejamento. Assim, o planejamento pode ser caracterizado como simples ou complexo, estratégico ou tático, formalizado ou não formalizado, confidencial ou público, amplo ou restrito. Consciente das limitações de sua proposta, Steiner (1969, p. 12) afirma que ela não representa uma lista exaustiva de dimensões e que elas não são mutuamente exclusivas. Além disso, o autor salienta que novos itens podem ser incluídos em cada dimensão e que novas dimensões também podem ser acrescentadas no sentido de ampliar os elementos de caracterização, como o tamanho da organização, estilos de gestão e capacidade gerencial, por exemplo. O autor pontua, ainda, que pode existir uma subdivisão do planejamento, como na área de marketing,
por exemplo. Nesse caso, o planejamento seria aplicado nas atividades de vendas, distribuição, programas promocionais etc. A ilustração 2 representa as dimensões discutidas pelo autor.
Ilustração 2: As cinco dimensões do planejamento
Fonte: adaptada de Steiner (1969, p. 12).
Dias (1982, p. 19) contribui para uma melhor compreensão do planejamento desenvolvido no contexto empresarial e apresenta os elementos que caracterizam a atividade nessa circunstância. Ademais, as colocações do autor reforçam as diferenças entre planejamento e
outras atividades, como previsão e solução de problemas, discutidas por Oliveira (2009, p. 4) e mencionadas anteriormente. As características básicas do planejamento na perspectiva de Dias (1982, p. 19) estão apresentadas no quadro 1.
Quadro 1: Características básicas do planejamento
Abrangência O planejamento deve ser abrangente e considerar a organização como um todo.
Integração A integração é refletida na estrutura dos planos organizacionais, que devem ser compatíveis entre si, levar em conta todos os componentes e unidades da organização e se interligarem de modo que o conjunto possa representar o planejamento global da organização. Assim, o planejamento deve ser integrado e não visto como um simples agregado de planos, projetos, programas ou funções.
Dimensão temporal O planejamento tem uma dimensão de longo prazo e é orientado para o futuro de uma organização, resultante de decisões atuais tomadas a partir de uma análise das suas consequências futuras e não com base em pressões imediatistas.
Processo O planejamento é um processo que define estratégias e planos, detalhando programas e projetos orientados para sua implementação, além de incluir formas de avaliação de desempenho e sistemas de feedback, garantindo seu dinamismo para atender às constantes mudanças do ambiente.
Flexibilidade Dias (1982, p. 20) ressalta que o planejamento deve ser flexível e orientado para a ação, sendo rígido o suficiente para promover uma orientação segura e ao mesmo tempo flexível para adaptar-se às mudanças.
Filosofia O planejamento representa muito mais uma filosofia do que uma técnica. Segundo Dias (1982, p. 20), “Muito mais importante que os instrumentos que se usam para planejar é a atitude dos indivíduos que dirigem uma organização em face do planejamento.” Para o autor, o primeiro passo a ser dado na direção de um planejamento adequado refere-se à criação de um clima apropriado dentro da organização.
Fonte: adaptado de Dias (1982, p. 19).
Tendo como base as considerações apresentadas, pode-se caracterizar o planejamento como uma forma de abordagem gerencial que é desenvolvido mediante um processo integrado e flexível, que envolve a organização como um todo e que direciona suas ações para o futuro.