• Nenhum resultado encontrado

A concepção da pessoa humana

No documento GIORGIO DEL VECCHIO E O DIREITO NATURAL (páginas 72-77)

CAPÍTULO 2. O PENSAMENTO DE GIORGIO DEL VECCHIO

2.4.6 A concepção da pessoa humana

A concepção da pessoa humana em DEL VECCHIO, já delineada no item anterior, dentro do estudo da Justiça, é ponto importante de seu pensamento, e acaba por iluminar sua visão do Direito e do Estado.

Suma de Teologia I-IIae. Tratado da Lei em geral, questão 96, art.4 (consultada a 3a edição da BAC- Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid: 1997, pp. 750-751).

201

La Giustizia cit., p. 158.

202

“Se un qualunque moto della coscienza individuale bastasse a giustificare l’infrazione e il

sovvertimento dell’ordine giuridico stabilito, la conseguenza sarebbe non l’instaurarsi di una più alta giustizia, ma l’impossibilità di ogni instaurazione siffata, per la perpetua incertezza delle sue basi. La giustizia medesima impone dunque che si riconosca e si salvi, anzi tutto, quel tanto di giustizia, che deve pur essere incorporato nel sistema vigente, quali che siano le sue imperfezioni (...)”. Cf. La Giustizia cit., pp. 158-159, e Lezioni cit., pp. 363-364.

203

“Chiunque sappia (ed ogni giurista lo sa) qual largo margine lascino necessariamente

all’interprete le formulazioni giuridiche positive, e come ogni sistema, anche apparentemente ‘chiuso’, abbia in realtà le sue ‘valvole’ e i suoi mezzi naturali di rinnovazione, di trasformazione e di accrescimento, non può disconoscere questa elementare esigenza, che anche di fronte ad ordinamenti ingiusti si ricorra in primo luogo a cotesti mezzi, e non si distrugga alla leggiera o ad arbitrio ciò che assai difficilmente si costruisce”. Cf. La Giustizia cit., p. 160, e Lezioni cit., p.

364.

204

63

A visão antropológica de DEL VECCHIO é bastante rica, e vislumbra o homem em sua integralidade, física e espiritual, com suas respectivas especificidades.

Como já vimos acima, entende ele que todo homem tem a expectativa de ser tratado como ser racional, que tem em si mesmo valor de fim; mas, em contrapartida, tem a obrigação de tratar os outros em conformidade com essa mesma exigência 206.

Essa conclusão decorre da própria essência espiritual da pessoa 207, e do princípio geral que valoriza o ser humano como ente dotado de razão e de liberdade 208.

É esse mesmo homem que, segundo DEL VECCHIO, pertence a uma dupla ordem de realidades: a física e a metafísica, pois faz parte da natureza e está compreendido nela; mas não apenas isso, porque o homem também compreende a natureza; e se por um lado está sujeito às leis físicas e à causalidade física, por sua natureza racional possui também a capacidade de se determinar livremente, agindo como sujeito, e não como mero objeto. Essa é uma exigência ética para o homem, que o eleva e o aperfeiçoa 209.

DEL VECCHIO complementa essa visão filosófica e antropológica com a observação de que o homem é social por natureza, pois o espírito associativo decorre da própria natureza humana 210.

205 La Giustizia cit., p. 167. 206

Il diritto naturale. In: Rivista L’Eloquenza, nov-dez 1967, p. 4.

207

“A essência espiritual da pessoa, partícipe por sua natureza do Absoluto, é o valor supremo

afirmado, de formas distintas mas coerentes, tanto pelo Direito como pela Moral”. Cf. Mutabilità ed eternità del diritto. In: Studi sul diritto, vol. II, p. 12. (Tradução do autor).

208

Cf. Il diritto naturale cit., p. 7.

209

Cf. L’uomo e la natura. In: Parerga I, pp. 3, 6 e 7. No mesmo sentido: Il concetto della natura e il

principio del dirito cit. (item 2.3, supra), p. 266.

210 Cf. L’uomo e la natura cit., p. 10; e também Lo stato e i problemi della vita sociale. In: Parerga III,

64

Ele adota essa visão do ser humano desde as suas primeiras obras, pois já em Il concetto della natura e il principio del diritto (1908) 211 afirma o caráter absoluto da pessoa, a supremacia do sujeito sobre o objeto, e a necessidade de se ter consciência da própria liberdade e imputabilidade 212. Tudo isso leva à obrigação de agir como sujeito, e não como objeto, pois se o homem fosse simplesmente um fenômeno, não existiria o problema ético 213.

Destarte, o ser humano não pode ser considerado como objeto, como meio, mas deve ser aceito como um fim em si mesmo 214.

Assim, é principalmente na obra Il concetto della natura e il

principio del diritto – integrante da Trilogia 215, que se registra a dupla condição do homem: sujeito, como qualquer ser irracional, à natureza num sentido físico e causal; mas também, como ser inteligente, livre e racional, vinculado à natureza num sentido metafísico-finalista, no qual prepondera a liberdade humana, e não a mera causalidade física.

É por isso que DEL VECCHIO considera que a violação do direito de uma pessoa é tão grave quanto a violação de um milhão 216.

Corolários dessa concepção delvecchiana da pessoa são as considerações no sentido de que o Direito pressupõe o reconhecimento

211

Cf. item 2.3, supra.

212

Cf. pp. 263 e 265.

213 Cf. Il principio della natura cit., pp. 263 e 265.

214 “Nelle complesse strutture degli umani rapporti, l’individuo non deve dunque essere adoperato come un mero stromento, ‘quase fosse morto legno, o ferro insensibile’ (ripetiamo parole del Rosmini); ma deve essere rispettato come ente avente in sè il proprio fine. In massima, tutte le relazioni sociali debbono fondarsi sopra il consenso di coloro che vi partecipano”. Cf. Diritto, società e solitudine. In: Studi sul diritto, vol. II, pp. 252-253.

215

Cf. item 2.3, supra.

216

“il diritto di un uomo è tanto sacro, quanto quello di milioni di uomini” : cf. Lo Stato e i problemi

della vita sociale. In: Parerga III, p. 77. A mesma frase consta também do ensaio Individuo, Stato e Corporazione. In: Saggi intorno allo Stato cit., p. 117.

65

recíproco do caráter absoluto da pessoa 217 , e a indicação da razão essencial de todo o Direito: “la dignità insopprimibile dell’umana persona” 218.

Decorre também dessa concepção da pessoa humana a assertiva de que é princípio universal do Direito a prerrogativa inviolável de ser a pessoa reconhecida por todos como princípio e fim em si mesma, o que implica em limites ao arbítrio individual 219.

Esse princípio universal do Direito foi enunciado por DEL VECCHIO da seguinte forma:

“todo homem, só por ser tal, pode aspirar a não ser tratado pelos outros homens como se fosse tão só meio ou elemento do mundo sensível; pode exigir seja por todos respeitado, como ele próprio é obrigado a respeitar, este imperativo: ‘não imponhas aos outros o teu arbítrio; não queiras submeter a ti quem, por sua natureza, é já dono de si mesmo’ ” 220.

Assim, para DEL VECCHIO o Direito justo deverá impor o respeito à personalidade humana e estabelecer uma limitação ao arbítrio individual. É o que ele denomina “diritto alla solitudine”, ou seja, o direito de se ter respeitada a própria individualidade 221.

E é este homem, visto em sua integralidade física e espiritual, que, no recôndito de sua consciência, tem a capacidade de captar nas relações sociais o justo e o injusto, com a “vocação ideal” que a nossa subjetividade possui em relação à Justiça 222 .

217

L’uomo e la natura . In: Parerga I, p. 11. 218

Cf. La parola di Pio XII e i giuristi. In: Studi sul diritto, vol. II, p. 46.

219

Cf. Sui principî generali del diritto cit. (nota 94, supra), pp. 242-243.

220

Lezioni cit., p. 354 (tradução do autor). O pensamento de DEL VECCHIO acerca do tema encontra-se exposto justamente na Seção III dessa mesma obra (“O Fundamento racional do Direito”), onde se estuda “a natureza humana como fundamento do Direito” (p. 344).

221 Cf. Lezioni cit.. p. 354. V. também Diritto, società e solitudine. In: Studi sul diritto, vol. II, p. 252. 222 Cf. Il sentimento giuridico. In: Studi sul diritto, vol. I, p. 19.

66

É por tudo isso que importantes estudiosos da obra de DEL VECCHIO consideram o seu pensamento um “humanismo jurídico” 223.

Enrico VIDAL, por exemplo, considera que DEL VECCHIO

desenvolveu uma “concepção humanística do Direito”, pois sempre dirigiu seu olhar para o homem e sua natureza 224.

No mesmo sentido é a posição de Rinaldo ORECCHIA 225, ao afirmar que o termo que melhor define na sua totalidade o pensamento de DEL VECCHIO é o de humanismo jurídico: “Humanismo jurídico, acrescentamos nós, que partindo de Kant foi sempre se avizinhando daquela philosophia perennis, da qual desde 1936 Pio XI tinha assinalado ‘não lânguidos traços’ no pensamento de Del Vecchio” 226.

Outro autor que destaca bastante o “Humanismo jurídico” de DEL VECCHIO é Emilio SERRANO VILLAFAÑE. Nesse sentido, assevera que tal posicionamento decorre, por exemplo, da harmônica consideração por ele feita entre a Filosofia prática e a Antropologia Filosófica; da reiterada afirmação delvecchiana de uma “humanidade” do Direito; do princípio ético que domina sua concepção jurídica, que leva à consideração do Direito sempre em relação ao ser humano; pela fundamentação do Direito na natureza humana 227.

223

Cabe ressaltar, todavia, em consonância com Benigno MANTILLA PINEDA (cf. o já citado artigo El

Humanismo Juridico de Giorgio Del Vecchio, especialmente as págs.. 431-433) que o termo “humanismo” exige seja esclarecido o seu significado, por se tratar de um termo com múltiplos

sentidos e matizes; isso acaba levando a uma equivocidade, ao ponto de se afirmar – como se afirmou – a existência de um “humanismo totalitário”, e até mesmo de um “humanismo nazista” – o que, à evidência, é inaceitável. Deve ser também evitado que o termo “humanismo” se torne um lugar-comum, que o esvazia de significado. Para MANTILLA PINEDA, quando se fala em

“humanismo jurídico”, deve ser ressaltado que ele precisa derivar da própria consideração da

preponderância do Homem sobre todas as metodologias e todos os sistemas (cf. p. 433).

224

La filosofia giuridica di Giorgio Del Vecchio. Milano: Giuffrè, 1953, p. 119.

225

L’umanesimo giuridico di Giorgio Del Vecchio. Studium: Roma, 1958, p. 8.

226

Veja-se, a propósito, o teor integral das palavras de Pio XI, citadas na nota 54, supra.

227

Cf. Del Vecchio: del idealismo crítico y ético al iusnaturalismo personalista. In: Revista de Ciencias

Sociales. Facultad de Ciencias Jurídicas, Económicas y Sociales. Universidad de Valparaiso – Chile,

67

Por fim, Luis VELA assim sintetiza as característicaa concretas desse “Humanismo jurídico” de DEL VECCHIO:

“O homem, essa rara peça do universo, é a chave para entender o sistema delvecchiano. É o homem de carne e osso, ponto de convergência de dois mundos ou duas naturezas antagônicas que Del Vecchio analisa com o dramatismo de São Paulo e de Santo Agostinho. O ser do homem tem um caráter e uma estrutura bipolar. Dentro desta dupla estrutura de seu ser, de sua natureza (“o objeto”), o homem, SUJEITO (agente) trata de explicá-la e dar-lhe unidade” 228.

No documento GIORGIO DEL VECCHIO E O DIREITO NATURAL (páginas 72-77)