CAPÍTULO 2. O PENSAMENTO DE GIORGIO DEL VECCHIO
2.4.7 O Estado
DEL VECCHIO também estudou profundamente o Estado, visando principalmente entender as suas relações com o Direito e com a Justiça 229. Mircea DJUVARA, jusfilósofo romeno, profundo conhecedor do pensamento delvecchiano, e estreitamente ligado a ele tanto pela afinidade de idéias quanto por uma amizade pessoal 230, considera que o Professor da Universidade de Roma elaborou uma teoria geral do Estado e de suas funções com acento propriamente jurídico 231.
Guido GONELLA entende que o estudo de DEL VECCHIO sobre o Estado é uma nova fase de sua atividade especulativa, que se seguiu a uma primeira fase, na qual se realizou o estudo filosófico do problema do Direito232.
228
Cf. El Derecho Natural en Giorgio Del Vecchio cit., p. 209. (Tradução do autor).
229
DEL VECCHIO justifica da seguinte maneira a necessidade de dirigir sua atenção para o estudo do Estado: “O problema da Justiça se conecta com o do Estado, ao qual, portanto, não poderia
deixar de dirigir a minha atenção”. Cf. Questioni antiche e nuove di Filosofia del diritto cit. (nota
63, supra), p. 53. (Tradução do autor).
230
Cf. Vitale VIGLIETTI,Le premesse metafisiche cit., p. 15; e também: DEL VECCHIO, Lezioni cit., pp. 175-176.
231 Cf. La pensée de Giorgio Del Vecchio cit. (nota 109, supra), p. 214. 232 Cf. a nota 75, supra.
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O pensamento de delvecchiano sobre o Estado consubstanciou-se tanto nas Lezioni di Filosofia del diritto quanto nos artigos e ensaios específicos, que foram também reunidos em dois volumes de coletâneas, intituladas Saggi intorno allo Stato e Studi sullo Stato 233.
A doutrina delvecchiana do Estado tem como base de sustentação a idéia de que o Estado e o indivíduo são duas realidades que o Direito deve conciliar, sem suprimir nenhuma delas 234.
Na busca de uma definição do Estado, DEL VECCHIO
inicialmente diferencia Estado e sociedade, afirmando que entre ambos há uma relação de gênero e espécie, pois o Estado é um vínculo de indivíduos (ou seja, uma sociedade) com o acréscimo de um vínculo jurídico, que seria a diferença específica 235 .
Depois, apresenta sua definição de Estado, considerando-o como o sujeito da vontade que cria um ordenamento jurídico, ou seja, “o
sujeito da ordem jurídica, em que se realiza a comunidade de vida de um povo” 236.
Nessa definição, o Estado consiste essencialmente na ordem jurídica, considerando-se esta como “a coluna vertebral da sociedade: a ossatura em torno da qual se dispõem os diversos tecidos sociais” 237.
233
Cf. item 2.3, supra.
234 Cf. M. D
JUVARA ,La pensée de Giorgio Del Vecchio cit., p. 215. DEL VECCHIO desenvolve assim essa idéia de que Estado e indivíduo devem ser realidades conciliáveis: “No Estado e pelo Estado
uma multidão de indivíduos adquire a faculdade de querer e de agir como ente autônomo, e pode dar uma direção unitária e coerente à sua vida; disso decorre uma verdadeira síntese, uma união das pessoas singulares, para constituir um novo ente”. Cf. Lezioni cit., p. 287. (Tradução do
autor).
235
Cf. Lezioni cit., p. 287. V. também Studi sullo Stato cit. (nota 107, supra), p. 3.
236
Cf. Lezioni cit., p. 287. (Tradução do autor).
Em Studi sullo Stato cit., pp. 6-7, é apresentada a mesma definição de Estado em outros termos:
“unidade de um sistema jurídico que tem em si mesmo o centro autônomo”. 237 Lezioni cit., p. 287,
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Assim, DEL VECCHIO apresenta os três elementos do Estado: o povo, o território e o vínculo jurídico, com a observação de que o Estado não
é uma simples soma de indivíduos, mas forma um outro ente distinto 238. No que tange ao vínculo jurídico, considerando-se que o Direito implica sempre um determinado comando – um imperativo – é necessária a existência de alguém que comande; e esse “alguém” é exatamente o Estado, que exerce a coação, caracterizando-se, pois, como “o sujeito do ordenamento
jurídico” 239.
DEL VECCHIO acrescenta também à definição de Estado a idéia de soberania, pois a considera como correlativa ao Estado, que não atingiria sua perfeição sem essa característica 240.
Tal soberania apresenta um aspecto externo (no sentido de que o Estado não está submetido a outro Estado) e outro interno (pois há um exercício do “imperium” sobre território e população, e um dever geral de obediência às leis) 241.
Assentada a questão conceitual do Estado, cabe ressaltar ainda que DEL VECCHIO, em consonância com sua concepção da pessoa humana, acima mencionada, aponta que o Estado não pode tornar-se um Estado absoluto e autoritário, mas sim deve servir para a defesa dos direitos individuais 242 .
238
Cf. Lezioni cit., p. 288, e Studi sullo Stato cit., p. 7.
239
Lezioni cit., p. 291.
240
Lezioni cit., p. 291.
241 Lezioni cit., pp. 291-292.
242 Cf. Lezioni cit., p. 306 . Como remate a suas observações, assevera: “Lo Stato è il supremo organo del diritto, e il diritto è un’emanazione della natura umana. Lo Stato è dunque l’uomo stesso riguardato sub specie juris” (idem). No mesmo sentido, defendendo ser finalidade do Estado a
defesa dos direitos essenciais da pessoa humana: cf. Su le funzioni e i fini dello stato. In: Parerga II, pp. 43-51; e Diritto, Stato e politica, in: Parerga III, p. 50, onde DEL VECCHIO assevera que esse Estado de Justiça deve ser entendido como “uno Stato che si conformi all’ideale della giustizia,
ossia riconosca i diritti fondamentali della persona umana” . E, por fim, no ensaio Individuo, Stato e Corporazione (in: Saggi intorno allo Stato cit., p. 117), nosso autor consigna expressamente que “Uno Stato che non riconosca l’eguaglianza giuridica e l’autonomia fondamentale di tutti i suoi componenti, è uno Stato illegittimo”.
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Por tudo isso, defende um “Estado de Direito” (ou melhor, como
ele mesmo prefere, um “Estado de Justiça” 243) que tenha por finalidade
exatamente essa defesa dos direitos individuais 244.
Em que pese registrar a importância do Estado, como centro e sujeito da ordem jurídica, nosso autor aceita a existência de outros ordenamentos jurídicos que não os estatais – e exemplifica citando o Direito da Igreja e aquele da
chamada comunidade internacional 245. Defende também a importância das
chamadas “associações intermédias” entre o Estado e os cidadãos, pois considera que:
“o espírito associativo deriva da própria natureza humana, e se explica naturalmente por uma série de graus, ascendendo do indivíduo até o Estado. Nenhuma lei arbitrária pode destruir essa tendência, que corresponde a um direito imanente à pessoa; e numerosas experiências históricas demonstraram claramente que as excessivas restrições a este direito não puderam nunca perdurar por muito tempo, ou tiveram somente o efeito de transformar as sociedades visíveis em sociedades secretas” 246.
A mesma idéia é desenvolvida no ensaio Sulla politicità del
diritto, quando DEL VECCHIO defende que o Estado não detém o monopólio do Direito, mas possui apenas “o maior grau de positividade” entre os diversos ordenamentos jurídicos existentes na vida social, o que não exclui a
“possibilidade de um Direito não-estatal” – como por exemplo as
organizações sindicais e profissionais 247 .
Por tudo isso, vê-se que está longe do pensamento delvecchiano a defesa de qualquer “estatolatria”, de qualquer preponderância
243
Cf. Diritto, Stato e politica cit., pp. 49-50; e também: La Giustizia cit., p. 132.
244
Cf. Su le funzioni e i fini dello Stato cit., pp. 45-46 e 50.
245
Cf. Su le funzioni e i fini dello Stato cit., pp. 46.
246 Cf. Su le funzioni e i fini dello Stato cit., pp. 47-48. (Tradução livre do autor). 247 In: Studi sul diritto, vol. I, pp. 125-126.
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do Estado sobre o indivíduo, ou de qualquer outro tipo de hipertrofia do Estado nas relações com os cidadãos 248.
Mostra de tal pensamento é o que consta do ensaio Diritto,
società e solitudine 249, no qual DEL VECCHIO consigna que a individualidade do ser humano não pode ser desrespeitada pelo Estado, pois este, em sua atividade, não pode prescindir do respeito devido à personalidade humana, no que ela tem de irredutível e de sagrado. Assim, se o Estado não exorbita de seus limites, a individualidade se desenvolve e se reforça, pari passu com o desenvolvimento do Estado, que dessa maneira se torna o próprio tutor da individualidade, e não o seu destruidor.
248
A propósito, como bem observa Federico LACROZE, no prólogo à edição argentina da obra
Contributi tomistici alla filosofia del diritto, de G. GRANERIS,o Estado nunca pode prevalecer sobre o indivíduo, pois no plano ontológico somente a pessoa é substância, ao passo que a sociedade organizada é acidente (cf. pp. XIII-XIV).
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