6.2 Múltiplas dimensões do conselho de classe e aspectos conexos
6.2.1 Concepções dos sujeitos sobre o conselho de classe
Para verificarmos as concepções dos sujeitos sobre o CC, perguntámos aos mesmos se já fizeram algum curso sobre o CC e toda a equipe gestora e equipe de apoio afirmaram não ter feito nenhum curso nessa área. Por outro lado, entre os professores, apenas quatro (20%) afirmaram que fizeram superficialmente um curso, como na escrita do P5 “sim, de forma superficial. Participei de algumas reuniões, mas nada muito aprofundado”. Isso corrobora as ideias de Dalben (1992) que afirma que “a grande maioria dos profissionais desconhece as origens dos CC, os objetivos que o levaram a ser uma instância coletiva na organização escolar e os pressupostos básicos que embasaram sua forma de inserção na instituição” (p. 188).
Paralelamente, perguntámos aos participantes sobre o conceito de CC e verificámos que, para a maioria dos gestores (66,7%), o CC é um meio de avaliação do processo de ensino e de aprendizagem, como podemos observar na resposta do G2: “momento de reflexão sobre o processo de ensino aprendizagem e construir estratégias para o próximo
68 bimestre. Construção coletiva”. Para apenas um gestor (33,3%), o CC é um meio de avaliação apenas da aprendizagem do aluno. Por outro lado, ao serem questionados sobre o objetivo do CC, percebemos que os gestores não têm um consenso sobre isso, se posicionando, cada um, numa categoria diferente.
Porém, de modo geral, verificámos que a maioria acredita que o CC da escola tem o objetivo de avaliar a aprendizagem do aluno ou o processo de ensino e aprendizagem (avaliação do aluno e do professor), mas nenhum gestor acredita que o CC sirva apenas para avaliar o professor, como por exemplo, o G2: “avaliar a aprendizagem dos estudantes e o trabalho realizado” ou o G3: “avaliar o desempenho do aluno e da turma”. Analisando as respostas da equipe de apoio, percebemos que todos acreditam que o CC é um meio de avaliação do processo de ensino e de aprendizagem, mas em relação ao objetivo do CC da escola, um deles (50%) acredita que avalia apenas a aprendizagem do aluno, como podemos ver em A2: “esse momento é utilizado para relatar a situação de cada turma e discutir os casos mais complexos”. Nas respostas dos professores, percebemos que nove (45%) acreditam que o CC é uma reunião deliberativa apenas sobre o processo de aprendizagem do aluno, como podemos ver em P16: “é o momento no qual o professor expõe para o grupo o desenvolvimento e as dificuldades encontradas com sua turma” ou em P8: “reunião para discutir sobre os alunos, avanços e dificuldades das turmas”. Por outro lado, oito (40%) professores acreditam que o CC é uma reunião avaliativa da prática pedagógica em sala de aula, como podemos observar em P3: “uma espécie de colegiado, que se reúne em momentos específicos, nos quais se delibera sobre avanços e dificuldades encontrados nas ações pedagógicas”. Como afirma Santos (2006), pelo que podemos perceber com esses resultados é que “o Conselho de Classe segue o modelo proposto nos anos 1980, com foco somente no desempenho do aluno responsabilizando-o pelo fracasso ou sucesso”. (p. 87). Ora, se a maioria das respostas relaciona as deliberações do CC apenas ao aprendizado do aluno, então o CC realizado nessa escola irá avaliar somente o aluno, sem levar em consideração toda a proposta pedagógica da escola e sua influência na aprendizagem dos mesmos.
Também perguntámos aos pais se eles sabem o que é o CC e, se sabem, o que é. A maioria, vinte e dois (73,3%), afirma que sabe. Entre esses, sete (31,8%) acredita que é uma reunião para discutir assuntos pedagógicos da escola, como vemos em R16: “encontro para tratar de assuntos relacionados aos alunos, professores e à escola como um todo”; outros sete (31,8%), que é uma reunião de professores para avaliar os alunos, como vemos em R5: “reunião de professores para falar sobre os alunos”; cinco (22,7%), que é uma reunião de todos os segmentos da escola para avaliar os alunos, como vemos em R7: “reunião dos professores e membros da escola para debater as dificuldades em sala de aula e fazer avaliação dos alunos”; e três (13,6%) não definiram o CC. Ao serem perguntados se o CC é importante e porquê, vinte e um pais (70%) afirmam que sim. Entre esses, oito
69 (38,1%) afirmam que é porque os resultados são divulgados e são decididas melhorias para a escola, como vemos em R12: “acredito que se discutirem juntos sobre qualquer assunto relacionado à escola podem melhorar o ambiente escolar”; quatro (19%) afirmam que é porque eles ficam cientes das dificuldades dos filhos, como vemos em R4: “somos informados dos problemas de relacionamento de nossos filhos na escola”; três (14,3%) afirmam que é porque permite uma avaliação coletiva do aluno, como vemos em R13: “é nele que outros professores podem estar ajudando o outro colega, dando opiniões em que pode ser melhorado para ajudar o aluno”; um (4,8%) que é porque eles tomam conhecimento das práticas pedagógicas da escola, como vemos em R11: “assim teremos o resultado de todo ensinamento da escola”; e um (4,8%) afirma que o CC é importante quando é eficiente e eficaz, como vemos em R1: “quando se é cumprido as considerações feitas, por algumas vezes fica somente no papel”. Essa última fala de um responsável por aluno vai ao encontro das observações feitas por Dalben (1992, p. 92): “propostas avulsas, desarticuladas de objetivos comuns que consigam aglutinar necessidades de cunho totalizante, com características de significado para o grupo, não serão realmente abraçadas pelos participantes, que, num processo superficial de adesão, acabam por sancioná-las.”
Todos da equipe de apoio, dois (66,7%) da equipe gestora e cinco (25%) da equipe docente afirmam que o CC desenvolvido na escola é participativo. Juntando todos os profissionais, percebemos que nove (36%) acreditam que o CC é participativo, oito (32%) afirmam que essa participação é parcial e sete (28%) acreditam que o CC não é participativo. Percebemos, com as respostas abertas, que isso se deve à concepção de participação que cada membro possui. Entre os que consideram o CC participativo, eles analisam apenas a presença (passiva) de todos os segmentos, como vemos em G2: “sempre realizado com todos da comunidade escolar” ou a presença e a opinião de todos (ativa); como vemos em A1: “os pais são convidados e todos têm a oportunidade de falar”. Devemos considerar que participar é muito mais do que estar presente. Dentre os que não consideram os CC participativos, destacamos: o P6: “considero eles expositivos. O tempo curto é mais utilizado para os professores exporem suas dificuldades” e o P8: “... serve apenas para apresentar resultados”.
Com essas questões, voltamos à burocratização da gestão escolar (Araújo 2012), como vimos no segundo capítulo deste estudo; na tendência de se fazer uma avaliação burocratizada e sem significado (Lima, 2012), como vimos no terceiro capítulo; e no desafio de se fazer um CC que não se torne meramente uma formalidade burocrática (Santos, 2006), como vimos no quarto capítulo.
Por outro lado, ao analisarmos as respostas sobre quem participa dos CC, percebemos que os segmentos citados por todos os gestores foram: a equipe gestora, a equipe docente e a equipe de apoio. O único segmento citado por toda a equipe de apoio fo i o dos responsáveis pelos alunos e, a equipe gestora foi o único segmento citado por todos
70 os professores. Analisando as respostas de todos os participantes, percebemos que nenhum segmento foi citado por todos. Contudo, os segmentos mais citados como participantes do CC foram: a equipe gestora (96%), a equipe docente (92%), a equipe de apoio (88%), os professores coordenadores (64%) e os pais dos alunos (48%). Percebemos que os alunos não participam do CC. Podemos inferir que seja pelo fato de que nos documentos legais a participação dos alunos só é prevista a partir do 6º ano do Ensino Fundamental. No entanto, se o objetivo da escola é “assegurar uma aprendizagem de qualidade, em que o educando possa ser um agente de transformação social, exercitando plenamente a sua cidadania” (PPP, 2018, p. 6), não seria interessante trazer os alunos do 1º ano 5º ano para as reuniões do CC? Tendo o CC como espaço de avaliação, podemos inferir que a não participação dos alunos “reforça a ideia de que o aluno é objeto de trabalho e não sujeito de sua educação, por isso é excluído da avaliação.” (Cruz, 2011, p. 7).