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CONCEPÇÕES E ESTRATÉGIAS DE ALTERAÇÃO INSTITUCIONAL

5 ALTERAÇÃO INSTITUCIONAL QUALITATIVA CONTEMPORÂNEA

5.2 CONCEPÇÕES E ESTRATÉGIAS DE ALTERAÇÃO INSTITUCIONAL

A abordagem da concepção da negatividade é colocada de maneira contundente, a partir de uma questão prática. Pergunta-se sobre a possibilidade de utilizar-se das realizações tecno-científicas atuais para a construção de uma nova sociedade de qualidade diversa do capitalismo. Pergunta-se, a revolução social, revolução de alteração qualitativa poderá ser uma reconstrução a partir do já estabelecido econômico social e político? O quê destruir, o quê construir ou reconstruir?

Não se trata aqui de uma exigência abstrata, mas de um problema bastante concreto em relação à questão de se e em que medida a etapa tardia da sociedade industrial ocidental, pelo menos no que se refere à base técnica do desenvolvimento das forças produtivas, pode servir como modelo para a construção de uma nova sociedade. (Marcuse, 1972, p. 161)

Para poder responder a essa questão prática, Marcuse fará uma longa excursão sobre como poderemos compreender tal possibilidade. O processo dialético de compreensão e de intervenção estratégica no status quo, denominado no texto de sociedade antagônica,

16 Apesar de utilizarmos a denominação de capitalismo avançado nas citações da tradução de Fausto Guimarães, (Marcuse, 1972, p. 5), preferimos a denominação de capitalismo tardio, utilizada por Isabel Loureiro, (Loureiro, 2009, 203)

contraposta às necessidades do trabalho vivo, será exposto a partir duas concepções sobre a negatividade, ele afirma:

Gostaria de explicitar a questão em função dos dois conceitos dialéticos essenciais: a negação da negação como desenvolvimento imanente de um todo social antagônico, e o conceito de todo no qual cada elemento singular encontra seu valor e sua verdade. (Marcuse, 1972, p. 162)

Primeiro, a alteração institucional qualitativa compreendida como um desenvolvimento imanente de um todo social antagônico está fundada no que Marcuse classificou com o primeiro conceito dialético essencial. Ao se propor a “negação da negação como desenvolvimento imanente de um todo social antagônico” (Marcuse, 1972, p. 162), se pressupõe que uma alteração institucional qualitativa, negação da negação, é resultante da contraposição entre uma unidade determinada, uma totalidade já instituída, o todo social antagônico, o trabalho objetivado pelo aparato técnico do capitalismo tardio e sua contraposição, a negação já imanente a esse todo. Imanente ao todo antagônico há elementos que o contrariam, as necessidades do trabalho vivo. A negação da negação é compreendida como resultante sintético, como resultado a partir de intervenção de dentro do próprio sistema, desenvolvimento imanente ao todo. Todo em si, já antagônico, porque o trabalho objetivado estabelecido pela força do aparato técnico tinha em si imanente necessidades do trabalho vivo contrariadas. Negatividade é síntese como dissemos em capítulo anterior:

A verdadeira negatividade só estará completa se prosseguir o processo de síntese entre esses dois primeiros passos, esses dois aspectos da negatividade. O processo continuará pela constituição de uma segunda harmonia, compreendida como superação, como o terceiro princípio lógico, o princípio da coerência.17

Compreender a negatividade enquanto síntese, é compreeender a negação como superação. “Essencialmente, tanto para Marx como para Hegel, as forças negadoras que rompem e levam a uma nova etapa as contradições que se desdobram em um sistema se desenvolvem no interior desse sistema.” (Marcuse, 1972, p. 162) Esta superação é o pressuposto para se compreender dialeticamente a revolução. “Gostaria de ir até o ponto de dizer que a negação na dialética hegeliana adquire um caráter aparente, no qual, por meio de toda a negação, por meio de toda a destruição, em última instância, o já existente se desdobra e, por meio da negação, é elevado a um estágio histórico superior.” (Marcuse, 1972, p. 161)

Revolução é superação do status quo existente, e sob este aspecto da negação, a revolução origina-se na interioridade do status quo, a negação está determinada no interior e contra o todo. “...negação determinada no sentido dessa posição contra o todo já no interior do todo.” (Marcuse, 1972, p. 161) Porque compreendemos que pelo desdobramento revolucionário, com a transformação do existente, a essência já existente que não podia efetivar-se devido às forças estabelecidas, efetiva-se como si própria, a essência se estabelece como própria do existente, o universal diferenciado das singularidades se efetiva como o já próprio delas. Esta é uma etapa superior de libertação do sistema estabelecido. “Mais ainda. Por meio dessa negação que se desenvolve no interior de um sistema o movimento no sentido da nova etapa se transforma necessariamente em etapa superior, na qual liberta as forças produtivas contidas no sistema estabelecido” (Marcuse, 1972, p. 162)

Transformação é revolucionária se houver a libertação das forças reprimidas no sistema. Marcuse em 1964 já o especificou: “... o que entendo por revolução: a queda de um governo e de uma constituição legalmente estabelecidos por uma classe social ou um movimento com o objetivo de transformar tanto a estrutura social quanto a política.” (Marcuse, 1998, 138) A alteração institucional qualitativa da sociedade antagônica às necessidades do trabalho vivo é o anseio pela revolução. “Ou seja, temos também aqui o desdobramento, com toda a transformação revolucionária do todo existente, de uma essência já existente que não pode tornar-se realidade nos quadros do existente” (Marcuse, 1972, p. 162)

A alteração institucional qualitativa da sociedade antagônica não possibilita que se abstraia a base técnica da produção capitalista de suas características políticas, isto é, dos objetivos aos quais está determinada. Há dois elementos a serem considerados, a produção técnica e os valores que essa produção pressupõe. A base técnica da produção se caracteriza pelo know how, pelo saber como fazer os produtos necessários para a sociedade. Podemos discriminar a base técnica como o desenvolvimento técnico da produção desde as suas etapas de planejamento, de execução e de avaliação da produção até os elementos que envolvem este processo, a saber: a) os recursos a serem utilizados, b) as atividades necessárias a serem executadas e c) os resultados ou os objetivos a serem obtidos, determinados pela decisão política. A partir do pressuposto de que não é possível abstrair do processo da produção a teleologia que a determina, é que podemos compreender a análise da hipótese: “Assim, já existe na base técnica altamente desenvolvida da produção capitalista o fundamento material para o desdobramento da produtividade socialista.” (Marcuse, 1972, p. 162)

Marcuse detém-se na análise da hipótese de que a alteração qualitativa da sociedade antagônica às necessidades do trabalho vivo, poderá ser desenvolvida a partir da própria totalidade que tem como objetivo o trabalho objetivado pelas exigências do aparato técnico controlado pelo capital. Esta estratégia de alteração institucional qualitativa se apresenta como um desenvolvimento imanente ao todo social antagônico. Esta intervenção da negatividade se dá a partir da própria interioridade do sistema. Chega-se à compreensão de que a libertação das necessidades reprimidas no sistema capitalista funda-se na própria base técnica da produção capitalista. Chega-se à compreensão de que a produção capitalista propicia um desdobramento para a produtividade socialista. Tal hipótese chega a referir-se à posição tanto de Hegel como à de Marx da negatividade como superação interna, de que o desenvolvimento da alteração já esteja imanente no elemento a ser alterado.

A análise de Marcuse da proposição de uma estratégia de alteração qualitativa vai incluir além da primeira possibilidade, negatividade como superação interna, uma segunda, a negatividade como superação externa, porque ao analisar a primeira, de que a base técnica da produção capitalista pudesse ser utilizada para uma produção de qualidade socialista, ele compreendeu como consequência a efetivação do inverso de tal proposta. A atuação contra- revolucionária absorveria toda negatividade surgida no interior do próprio sistema como estratégia de anulação da alteração e de confirmação do status quo. Diante da possibilidade de que a negatividade interna presente na base técnica capitalista pudesse ser utilizada como base técnica da produção socialista, mas também tendo presente a possibilidade da transformação da negatividade em reforço contra-revolucionário, Marcuse vai acrescentar a essa primeira estratégia de libertação das forças reprimidas no sistema como uma superação interna, uma outra estratégia de intervenção fundada na concepção da negatividade de origem externa.

A alteração institucional qualitativa é compreendida a partir do segundo conceito dialético essencial, a partir do conceito de todo pelo qual cada elemento singular encontra seu valor e sua verdade. Como tal, como um todo, o sistema poderá ser alterado por uma intervenção de fora para dentro do sistema, porque o todo-parte, organização do capitalismo tardio, faz parte de uma totalidade maior. Marcuse fundamenta tal intervenção na concepção de negação enquanto integridade de partes ao todo. Alteração institucional qualitativa por causalidade externa, alteração que será uma saída ao sistema já saturado, no qual a entropia negativa, a negação enquanto força interna de destruição do sistema, vem sendo reprimida. A coerência a uma universalidade superior é expressa por exigências de complementariedade alternativa. Esta noção de negação, a negação advinda de fora do sistema, é um acréscimo diferenciado e Marcuse especificará o quanto necessário e importante é para a determinação

da eficácia da negatividade em relação ao capitalismo instituído social, política e culturalmente. Para isso destacará a insuficiência da concepção de negatividade como superação interna.

5.3 INSUFICIÊNCIA DA CONCEPÇÃO DE NEGATIVIDADE COMO SUPERAÇÃO