O Brasil é um dos poucos países do mundo que conta com uma empresa fabricante de aviões comerciais, executivos e militares. A criação da Embraer foi o resultado da convergência de visões de longo prazo bem específicas de vários agentes da administração pública, em especial da FAB. Apesar dos grandes desafios vivenciados no seu momento embrionário, por ter iniciado as suas operações em um período em que a base industrial brasileira era pouco desenvolvida, na atualidade é a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo.
Nesse contexto, o papel estatal nos primórdios da empresa foi fundamental para alicerçar as capacitações básicas, desenvolvidas principalmente no CTA, assim como no estabelecimento das primeiras estruturas fabris no complexo de São José dos Campos. A implantação na Embraer de uma estratégia empresarial independente, apesar da forte participação acionária do Estado, foi forjada em uma gestão baseada na eficiência técnica, advinda da influência da formação dos seus fundadores no ITA.
Como resultado dessa sinergia, o primeiro projeto desenvolvido, a aeronave EMB-110 Bandeirante, tornou-se um sucesso de vendas internacional, que sustentou o futuro da empresa; pois, a aeronave atendeu perfeitamente às demandas do mercado com qualidade e preço competitivos.
A Embraer, do momento da sua criação em 1969 até o ano de 1990, praticamente vivenciou três fases distintas, que proporcionaram uma contínua e estável expansão da sua estrutura física e financeira. Nesse período a empresa se estabeleceu como um novo player no mercado mundial de produção de aeronaves.
No entanto, considerada como uma quarta fase, que ocorreu entre os anos de 1990 e 1994, houve uma redução acentuada no faturamento, causada por questões de adaptabilidade a um novo período de retração do mercado externo, combinado com um quadro de crise fiscal e institucional no Brasil. O endividamento da Embraer, até então estatal, alcançou valores insustentáveis para serem resgatados pelo governo brasileiro, e resultou no colapso da sua contabilidade.
Catalisada principalmente pela crise financeira, a empresa seguiu um processo evolutivo de acordo com os padrões de um sistema dinâmico complexo, estruturalmente instável. Foi um momento no ciclo de vida da companhia em que houve o afastamento do equilíbrio sustentável, onde o ponto crítico de instabilidade foi ultrapassado. O resultado inevitável para a sobrevivência foi a emergência de uma
nova empresa através do processo de privatização, que pode ser caracterizado como um “ponto de bifurcação” na sua evolução estrutural. Naquela ocasião a EMBRAER se transformou em Embraer S/A, inclusive com uma nova inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. A característica principal dessa nova fase foi a desverticalização da produção e, consequentemente, a redução nos custos dos programas, através do amplo emprego de subcontratados de parcerias de risco. A participação do governo brasileiro na gestão da empresa ficou restrita a uma posição no Conselho de Administração, por meio da posse da ação Golden Share, que assegurou o direito de veto em matérias de programas militares, mudança do objeto social e transferência do controle acionário. A flexibilização na gerência dos processos e no desenvolvimento dos projetos foi totalmente ancorada nas demandas do mercado, que resultou no enorme sucesso de vendas das aeronaves desenvolvidas a partir de então. A empresa passou a ser considerada um grande player do mercado global de produção de aeronaves.
A fabricação de aviões envolve um processo produtivo complexo e de capital intensivo, envolvendo relevantes investimentos iniciais relacionados à concepção, à inovação e ao desenvolvimento. Os projetos demandam anos para serem concretizados, exigindo dos fabricantes acurada pesquisa de mercado de longo prazo.
A demanda da aquisição é dominada por um número relativamente pequeno de potenciais clientes. Em termos numéricos industriais, as unidades são produzidas em baixa escala. É um bem durável com um ciclo de vida útil relativamente longo, que em média ultrapassa os trinta anos de operação. Os custos da linha de montagem são elevados na medida em que exigem máquinas e sistemas de última geração, equipamentos de testes e insumos específicos, mão de obra com elevada capacitação técnica; enfim, uma grande e dispendiosa variedade de itens são necessários para permitir a fabricação da estrutura e dos variados sistemas que compõem um avião.
Não é irracional afirmar que um cenário de mercado mal concebido pode facilmente comprometer a sobrevivência comercial de uma nova aeronave e consequentemente da própria empresa. Portanto, devido aos elevados riscos inerentes e à capacidade de transbordamento tecnológico, a atenção governamental para as especificidades e, consequentemente, para a sobrevivência da indústria aeronáutica é fundamental.
Considerando o referencial temporal de janeiro de 2020, vários fatores impulsionaram, até então, a demanda global por novos aviões de corredor único.
Esses modelos, devido ao tamanho e à flexibilidade, tornaram-se a espinha dorsal da
estratégia de negócios das companhias aéreas de baixo custo. A expectativa é que, até o ano de 2038, haverá a demanda por mais 10.550 novas aeronaves de corredor único de até 150 assentos, e que essa frota será concentrada nos mercados do Sudeste Asiático e da América do Norte. É evidente que os aviões da família E-Jets da Embraer e da família A220 da AIRBUS convergem pela disputa desse mercado emergente. Entretanto, do ponto de vista técnico, a análise comparativa operacional sinaliza 10% de economicidade em favor dos modelos da Embraer, que, ao final do ano de 2018, já havia capturado 29% do mercado global.
Estudos de mercado de longo prazo sinalizam que nos próximos 20 anos haverá uma demanda aproximada de 2700 unidades de novas aeronaves na categoria do K390 Millenium, visto que haverá a substituição da atual frota de aeronaves C-130 Hércules, que está com a média de vida de 31,5 anos de serviço. Nesse sentido, a Embraer estima a produção e a venda de 700 unidades do KC-390 no mercado global. Entretanto, é importante frisar que essa expectativa está ancorada na tese da efetivação da joint venture entre a Embraer e a Boeing (JV KC-390), a qual, caso não se concretize, pode ser alterada de modo imprevisível. É importante observar que apesar dos impactos positivos da performance técnica do projeto, atrasos no cronograma, decorrentes de dificuldades orçamentárias do governo federal brasileiro, resultaram em 18 meses de adiamento na certificação inicial do avião. Levando em consideração a expectativa e a demanda do mercado, o atraso na entrada em serviço do projeto pode ter afetado potenciais vendas. Cabe ressaltar, que atualmente o mercado norte-americano corresponde a 34% da demanda global. Outro aspecto relevante é o spill-over das aquisições americanas nas outras nações, pois muitos países aliados utilizam as facilidades proporcionadas peloprograma americano de vendas militares a estrangeiros, o FMS.
A recente junção entre as empresas AIRBUS e Bombardier provocou um aumento exponencial nas vendas da família A220. No ano de 2019 o consórcio europeu AIRBUS superou o grupo Boeing no número total de pedidos e entregas de aeronaves.
Entre os anos de 2016 e 2018, os balanços financeiros da Embraer evidenciaram uma queda de 18 % na receita líquida da empresa. No ano de 2018, a distribuição das receitas por segmento permaneceu 47% na aviação comercial e 12%
no segmento de Defesa e Segurança, onde está inserido o programa KC-390, sendo
que, em termos geográficos, a região da América do Norte lidera o portfolio de aquisições com 59%.
A parceria estratégica advinda da joint venture, principalmente na área de defesa (JV KC-390), seria para a Embraer, na medida em que há grandes incertezas geradas pelas condições dinâmicas e pela conectividade do mercado, a oportunidade de aliar forças e obter maior proteção contra as inseguranças de eventos futuros. A complementação de ativos críticos, principalmente nas áreas de distribuição logística e serviço pós-venda, também seria outro ponto extremamente favorável. Obter novos conjuntos de habilidades e novas tecnologias seriam vantagens que ambas as empresas poderiam galvanizar. Por operar no mesmo setor, as respectivas companhias seriam beneficiadas pela economia de escala, fortalecendo a posição competitiva para contrapor a concorrência do consórcio europeu AIRBUS.
Portanto, todo o processo de criação da joint venture entre a empresa brasileira Embraer e a empresa americana Boeing pode ser observado como um processo adaptativo de sobrevivência, pois o objetivo final é capturar as vantagens da simbiose e alavancar a liderança no mercado global. O grande desafio para o futuro da Embraer será justamente realizar as suas alianças sem incorrer no risco de ter a sua produção absorvida de forma predatória.
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GLOSSÁRIO
AERONAVES CORPORATIVAS - são aeronaves que acomodam assentos para quatro a 19 passageiros. São projetadas para atividades corporativas e normalmente custam entre US$ 3 milhões e US$ 70 milhões. Clientes de aeronaves corporativas incluem pessoas físicas e jurídicas.
AERONAVES REGIONAIS – são aeronaves de corredor único com capacidade de 30 a 90 assentos. São projetadas para atendem a aplicações regionais específicas, em voos de curta distância, inferior a 2.000 NM, e normalmente custam até US$ 30 milhões.
AERONAVES COMERCIAIS DE GRANDE PORTE – são aeronaves equipadas com mais de 100 assentos (duas classes), são capazes de voar mais de 2.000 NM e custam mais de US$ 35 milhões. Há duas grandes categorias ou segmentos de aeronaves comerciais de grande porte: aeronaves “de corredor único” e “de corredor duplo”.
AIRBUS - empresa europeia que atua nos segmentos de aeronáutica, espacial e defesa. A AIRBUS é organizada em quatro divisões principais: aeronaves comerciais, helicópteros, defesa e segurança e espacial.
ANTITRUSTE – ação de combater a coligação econômica ou financeira que controla um conjunto de empresas, visando à monopolização de certas mercadorias.
(Dicionário Online de Português. Acessado: )
ATO DE CONCENTRAÇÃO ECONÔMICA - são as fusões de duas ou mais empresas anteriormente independentes; as aquisições de controle ou de partes de uma ou mais empresas por outras.
BARREIRAS NÃO TARIFÁRIAS (BNT) - são instrumentos de política econômica que influenciam o comércio internacional sem o uso de mecanismos tarifários. O tipo clássico de BNT são as quotas de importação.
BOEING - é uma corporação multinacional norte-americana que atua na concepção, desenvolvimento, fabricação e venda de aeronaves, sistemas e soluções para os segmentos de Aviação Comercial, Aviação Executiva, Defesa, Segurança e Espacial.
Atua em mais de 65 países e fornece produtos e suporte a clientes em mais de 150 países.
CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) - autarquia federal, vinculada ao Ministério da Justiça, com sede e foro no Distrito Federal, que exerce, em todo o Território nacional, as atribuições dadas pela Lei nº 12.529/2011.
EMBRAER - conglomerado transnacional brasileiro que atua na concepção, desenvolvimento, fabricação e venda de aeronaves, sistemas e soluções para os segmentos de Aviação Comercial, Aviação Executiva e Defesa, Segurança e espacial.
Atua em mais de 17 países e fornece produtos e suporte em mais de 100 países.
ENCOMENDA DE BACKLOG - encomenda de produtos que ainda não foram produzidos.
FAMÍLIA EJET-E2 - são aviões com dois turbofans Pratt & Whitney PW1000G, de médio porte, desenvolvidos pela Embraer: E175-E2, E190-E2, e E195-E2.
FLY-BY-WIRE - é um sistema que controla os comandos das superfícies móveis de um avião através de sinais digitais. Possui um peso reduzido quando comparado com os antigos sistemas mecânicos e hidráulicos.
FOREIGN MILITARY SALES (FMS) – trata-se de um programa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que facilita as vendas de armas, equipamentos de defesa, serviços e treinamento militar dos Estados Unidos a governos estrangeiros.
GOLDEN SHARE - são ações de classe especial presentes em empresas estatais ou de capital misto que pertencem ao Estado e garantem direitos especiais de caráter estratégico, como o poder de veto de algumas decisões.
HUB - são designações dadas ao aeroporto utilizado por uma companhia aérea como ponto de conexão para transferir seus passageiros para o destino pretendido.
IATA - International Air Transport Association - organização internacional, fundada em 1945, que representa, lidera e atende o setor das companhias aéreas.
INVESTIMENTO - gasto que irá trazer benefícios financeiros futuros.
JOINT VENTURE - associação entre dois ou mais agentes econômicos para a criação de um novo agente econômico, sem a extinção dos agentes que lhe deram origem.
LCC – Low Cost Company - é uma companhia aérea que oferece baixas tarifas eliminando custos derivados de serviços tradicionais oferecidos aos passageiros, baseando-se na simplicidade do serviço sem distinção de classes.
LIMITED LIABILITY COMPANY (LLC) – é uma empresa com sociedade limitada nos EUA. Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde os sócios respondem pelos passivos da empresa, no mercado norte-americano, os donos de uma LLC não assumem esse tipo de compromisso.
NAUTICAL MILE (NM) - MILHA NÁUTICA - é uma unidade de medida de distância, equivalente a 1,852 quilômetro, utilizada em navegação aérea.
PAYLOAD (CARGA PAGA) - capacidade de carga útil de transporte de um avião.
REVENUE TONNE KILOMETRES (RTK) - é uma unidade de medida que representa o transporte de uma tonelada a uma distância de um quilômetro.
STAKEHOLDER (PÚBLICO ESTRATÉGICO) - descreve grupo que tem interesse em uma empresa, negócio ou indústria, podendo ou não ter feito um investimento neles.
TECNOLOGIA DE COMPÓSITOS - compósitos poliméricos de uso aeronáutico.
ANEXO A – DECRETO-LEI DE CRIAÇÃO DA EMBRAER
DECRETO-LEI Nº 770, DE 19 DE AGOSTO DE 1969.
(Vide Decreto nº 65.484, de 1969) Autoriza a União a constituir a EMBRAER - Emprêsa Brasileira de Aeronáutica S.A. e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso das atribuições que lhe confere o § 1º do art. 2º do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968,
DECRETA:
CAPÍTULO I
Da Constituição da EMBRAER
Art. 1º Fica a União autorizada a constituir, vinculada ao Ministério da Aeronáutica, na forma dêste Decreto-lei, uma sociedade de economia mista que se denominará EMBRAER - Emprêsa Brasileira de Aeronáutica S.A.
Parágrafo único. A EMBRAER terá sede e fôro na cidade de São José dos Campos, Estado de São Paulo.
Art. 2º A EMBRAER terá por objeto promover o desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira e atividades correlatas, inclusive projetar e construir aeronaves e respectivas acessórios, componentes e equipamentos e promover ou executar atividades técnicas vinculadas a produção e manutenção do material aeronáutico, de acôrdo com programas e projetos aprovados pelo Poder Executivo.
§ 1º A EMBRAER recorrerá sempre que possível, à execução indireta, mediante contrato desde que
§ 1º A EMBRAER recorrerá sempre que possível, à execução indireta, mediante contrato desde que