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O mercado da aeronave KC-390 Millennium

No documento JOINT VENTURE EMBRAER E BOEING: (páginas 50-0)

4 O MERCADO AERONÁUTICO

4.4 O mercado da aeronave KC-390 Millennium

O KC-390 Millenium (Figura 17) é a aeronave de transporte multimissão, fabricado pela empresa Embraer Defesa e Segurança – subsidiária da Embraer S/A - de médio porte capaz de transportar e lançar cargas e tropas, além de realizar uma ampla gama de missões, dentre elas: evacuação aeromédica, busca e resgate, combate a incêndios, reabastecimento em voo e ajuda humanitária. (EMBRAER, 2020b).

1600 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 -200

Figura 17 - Aeronave KC-390 Millenium.

Fonte: FAB, 2020.

Do ponto de vista tecnológico, é uma aeronave que embarca sistemas de guerra eletrônica de última geração, com capacidade ativa e passiva contra mísseis infravermelhos e comunicação segura; sistema de comando de voo fly-by-wire;

sistema de reabastecimento em voo; sistema de navegação própria integrada com o sistema de lançamento de carga; dentre outros. É o maior avião já concebido e fabricado pela indústria aeronáutica brasileira. O KC-390 conta com capacidade para transportar 23 toneladas. Em seu compartimento de carga é possível realizar o transporte de helicópteros semidesmontados, peças de artilharia, blindados e armamentos. Dependendo do perfil da missão, a aeronave pode transportar oitenta soldados equipados, 64 paraquedistas ou 74 macas mais uma equipe médica. Foi projetado para realizar pousos em pistas semipreparadas e não preparadas e operar em condições climáticas extremas.

O programa KC-390 Millenium é o resultado prático da implementação da Estratégia Nacional de Defesa (END) brasileira. Segundo as suas diretrizes (BRASIL, 2020a, p.13), os recursos orçamentários destinados à defesa devem permitir os programas de desenvolvimento de tecnologias, na busca pela redução da defasagem tecnológica, com o objetivo de alavancar a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira.

Os primeiros estudos de viabilidade do KC-390 Millenium, conforme apontado por Ribeiro (2017, p.11), foram iniciados pela Embraer no ano de 2006. O governo brasileiro, representado pela FAB, em 2009 assinou o contrato para o desenvolvimento, a certificação e a entrega de dois protótipos no valor de R$ 4,9 bilhões. O voo inaugural da aeronave ocorreu no dia 3 de fevereiro de 2015.

Concomitantemente à assinatura do contrato de desenvolvimento, foi assinado um segundo contrato no valor de R$ 7,4 bilhões para a produção de 28 aeronaves, para serem anexadas ao acervo da FAB para substituírem as aeronaves C-130 Hércules.

Apesar desses impactos positivos do programa, Ribeiro (2017, p.13) reporta que na investigação das encomendas do KC-390 foram identificados alguns problemas concernentes à implementação do referido programa. Inicialmente, cumpre ressaltar o atraso em seu cronograma decorrente de dificuldades orçamentárias do governo federal. Trata-se de um problema observado de maneira recorrente nos programas de defesa do país, e que acabou por adiar em 18 meses a certificação inicial do novo produto. Há inclusive o temor de que esse atraso no cronograma tenha afetado potenciais vendas a outros clientes.

De com os balanços financeiros da Embraer (Figura 18), a receita líquida da empresa vem decrescendo nos últimos anos. Entre 2016 e 2018 houve queda de 18%.

Nesse mesmo período, a distribuição das receitas por segmento se manteve estável, se consolidando no ano de 2018 com 47% de participação da aviação comercial e 12% de participação do segmento de Defesa e Segurança, onde está inserido o programa KC-390. Em termos geográficos, a região da América do Norte lidera o portfolio de aquisições da empresa com 59%; ou seja, mais da metade de toda receita, sendo que as aquisições do mercado brasileiro correspondem com apenas 8%.

Figura 18 - Receita líquida da Embraer por semento e região.

Fonte: EMBRAER, 2019b.

Considerando a receita gerada pelo segmento de Defesa e Segurança da Embraer, o programa do KC-390, no ano de 2017, foi o responsável por 33% do total arrecadado e no ano de 2018, sofreu uma redução na participação, quando atingiu a marca de 20% (Figura 19).

USD Bi.

Figura 19 - Distribuição da receita de Segurança e Defesa por projeto 2017 – 2018.

Fonte: EMBRAER, 2019b.

Atualmente, a Embraer possui um portfolio de mais de sessenta clientes na área de segurança e defesa, distribuídos em diversos países (Figura 20).

Figura 20 - Distribuição de clientes no segmento Segurança e Defesa.

Fonte: EMBRAER, 2019b.

Essa demanda é basicamente sustentada pela substituição da atual frota de aeronaves C-130 Hércules. Com a média de 31,5 anos de serviço, a família de aeronaves C-130 estabeleceu um sólido recorde de confiabilidade e durabilidade.

Existem mais de 40 modelos do Hércules sendo utilizados em mais de 50 nações.

Entretanto, o custo da manutenção operacional dessas aeronaves tem estimulado o mercado para novas soluções. O concorrente mais próximo, na categoria do KC-390 é a aeronave C-130J (Figura 21). Porém, o C-130J trata-se de uma modernização de um projeto com mais de 60 anos, que possui 4 motores turbo hélices, o que implica em custos maiores de manutenção ao longo da vida útil.

KC-390

Figura 21 – Payload versus preços dos concorrentes do KC-390.

Fonte: BRASIL, 2020d.

A previsão do mercado global de aeronaves na categoria do KC-390, transporte de médio porte com capacidade entre 10 e 30 toneladas, para os próximos vinte anos é de aproximadamente 2700 novas unidades (Figura 22).

Figura 22 - Visão geral do mercado para o KC-390.

Fonte: EMBRAER, 2019b.

A Embraer estima a capacidade de realizar a venda de 700 unidades do KC-390 no mercado global. Entretanto, considera em suas previsões a efetivação da joint venture com a Boeing (JV KC-390). Até dezembro de 2019, a empresa contabilizou a venda de 28 aeronaves no Brasil e 5 em Portugal, sendo que há pedidos de intenção para mais 32 unidades. (EMBRAER, 2019b).

O impacto que a América do Norte representa no escopo do mercado para aeronaves de transporte médio corresponde a 34% da demanda global. Outro aspecto relevante é que quando os americanos operam determinado modelo de aeronave, indiretamente essa escolha exerce forte influência nas aquisições de outras nações,

pois muitos países aliados utilizam as facilidades proporcionadas pelo programa americano de vendas militares a estrangeiros - Foreign Military Sales (FMS).

Por fim, a comercialização do KC-390 Millenium para o mercado externo possibilitará ao Estado brasileiro gerar receitas através de royalties e impostos. Esses recursos poderão ser injetados em projetos prioritários da Nação, seja na esfera da educação, da saúde ou na própria defesa; portanto, os benefícios do projeto permearão áreas multidimensionais. Com base no amparo legal da Estratégia Nacional de Defesa, na medida do possível, a indústria nacional está sendo privilegiada. A previsão econômica é que serão gerados mais de 20 bilhões de dólares em exportação. No escopo social, o projeto prevê a oferta e a manutenção de empregos de alto nível no parque industrial brasileiro. Na parte tecnológica, a criação de tecnologias duais e competências de engenharia se desdobrarão em novos produtos no futuro. Quanto ao aspecto institucional, a aeronave trará maior integração regional e capacidade de mobilização, pois quase a metade do País, situada na região Norte, é apoiada por uma infraestrutura de transporte muito precária, onde os modais fluvial e aéreo são essenciais para o desenvolvimento da região. Finalmente, do ponto de vista estratégico, se as perspectivas de venda se concretizarem, o sucesso do projeto permitirá a projeção Indústria de Defesa brasileira em mais de 70 países ao redor do mundo. (BONOTTO, 2017).

5 JOINT VENTURE EMBRAER & BOEING

No dia 26 de fevereiro de 2019, em assembleia geral extraordinária, composta estruturalmente de acordo com a figura 23, 97% dos acionistas da Embraer aprovaram a proposição da parceria com a empresa americana Boeing.

Figura 23 – Composição da estrutura acionária da Embraer.

Fonte: EMBRAER, 2019a.

O acordo em questão teve como objetivo a realização de duas operações interdependentes. A primeira tratava-se da aquisição pela Boeing Brasil Serviços Técnicos Aeronáuticos Ltda., subsidiária da empresa americana Boeing com sede no Brasil, de 80% do capital social sobre uma nova empresa a ser fundada em solo brasileiro, e a Embraer seria proprietária de 20% das demais ações. Essa nova companhia a ser formada - JV Aviação Comercial - receberia os ativos, passivos, bens, direitos e obrigações referentes à unidade de negócios de aviação comercial do grupo Embraer, que passaria ao controle exclusivo da Boeing. A segunda operação seria a criação, em solo americano, da empresa JV KC-390, que teria o seu capital social dividido em 51% para o grupo Embraer e 49% para o grupo Boeing. Essa nova unidade teria como responsabilidade primária a fabricação final e a promoção de novos mercados para o avião multimissão KC-390 Millennium, desenvolvido pela Embraer (Figura 24).

Figura 24 – Modelo da parceria Embraer e Boeing.

Fonte: EMBRAER, 2019a.

De acordo com o Artigo n⁰ 9 do Estatuto Social da Embraer (Anexo B), o governo brasileiro é detentor de uma ação de classe especial, conhecida no mercado como Golden Share, que o habilita ao poder de veto em matérias de transferência do controle acionário da companhia. Em razão dessa condição, o Presidente da República do Brasil, Sr. Jair Bolsonaro, assessorado pelos Ministros da Defesa, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), das Relações Exteriores, da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Economia e dos Comandos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, em nota divulgada à imprensa no dia 16 de abril de 2019 (Anexo C), afiançou a junção das empresas, pois entendeu que a operação não afetava a soberania e os interesses nacionais.

O CADE, órgão brasileiro responsável por analisar os aspectos concorrenciais de atos de concentração, também aprovou no dia 27 de janeiro de 2020 a requisição da joint venture. Em Petição Pública, a autarquia oficializou que se tratava de uma oportunidade única e pró-competitiva para indústria aeroespacial brasileira. Segundo os analistas do CADE, (BRASIL, 2020c, p. 2), a junção das requerentes impulsionaria a produção de aeronaves, através da criação de sinergias, por meio da combinação das linhas de produtos complementares e das capacidades de inovação. No curto prazo, foi identificado pelos especialistas que o Ato de Concentração possibilitaria aos clientes maior flexibilidade, otimizando a aquisição das aeronaves, e permitiria aos respectivos fabricantes a redução dos custos de produção.

Após passar pela aprovação das agências antitrustes dos EUA e do Brasil, a próxima fase seria a análise do processo pelas autoridades europeias. No dia 4 de outubro de 2019, a Comissão Europeia Antitruste emitiu uma nota à imprensa

KC-390

informando a preocupação com a possibilidade da operação em questão reduzir a concorrência no que se refere às aeronaves comerciais. O comissário europeu responsável pela política de concorrência, afirmou:

Os mercados de aeronaves precisam funcionar bem para fornecer produtos inovadores e eficientes aos clientes a um preço justo. Portanto, com a nossa investigação aprofundada, queremos garantir que as fusões em aeronaves comerciais não reduzem significativamente a concorrência efetiva em preços e desenvolvimento de produtos. (EU, 2019, tradução nossa).

Cabe ressaltar que, segundo Gomes, Barcellos e Tucci (2018, p. 98), há unanimidade nas projeções de mercado feitas pelos principais fabricantes de aeronaves quanto ao crescimento da frota mundial para os próximos 20 anos.

5.1 Joint Venture Aviação Comercial

Com base no Acordo Global de Operações - Master Transaction Agreement (MTA) - segundo a Embraer (2019c, p. 15), para a formação da JV Aviação Comercial, a Embraer deveria transferir para a nova empresa os projetos das aeronaves comerciais com capacidade acima de cinquenta assentos - incluindo as aeronaves da famílias Ejets, bem como seus respectivos serviços de suporte e pós-venda relacionados. A proposta era que a futura empresa se tornasse, em solo brasileiro, um novo centro de excelência da Boeing no desenvolvimento, fabricação, comercialização e suporte às aeronaves comerciais de corredor único com menos de 150 assentos.

Essa nova planta industrial seria conectada à ampla cadeia de produção e fornecimento da matriz americana, com o propósito de atender ao mercado global, principalmente, dos modelos da família E-Jets, ilustrado na figura 25.

Figura 25 – Projeção de mercado para as aeronaves E-Jets.

Fonte: EMBRAER, 2019a.

O controle acionário e o estatuto da matriz da Embraer S/A não seriam alterados como resultado do ato de concentração. Seriam mantidos os negócios da aviação executiva, serviços, defesa e segurança. O governo brasileiro permaneceria com as prerrogativas das ações Golden Share na matriz, mas não sobre a JV Aviação Comercial. A Embraer teria o direito de nomear um observador para o Conselho de Administração da nova empresa, porém sem direito a voto.

Segundo o formulário de notificação público elaborado pelo CADE, (BRASIL, 2020a, p. 7), a operação comercial iria permitir à Boeing expandir a sua participação no segmento de aeronaves comerciais de corredor único com menos de 150 assentos, pois a linha de aeronaves comerciais da JV Aviação Comercial é totalmente complementar à da Boeing. Outra vantagem estratégica para a Boeing seria absorver a elevada capacidade criativa do design da Embraer, assim como as suas competências na área de engenharia de projetos, que resultariam no desenvolvimento de novas aeronaves em períodos menores de tempo e com custos altamente competitivos.

Para a Embraer, a JV Aviação Comercial seria uma oportunidade de aumentar o seu fluxo de caixa, através de novas vendas, ao se beneficiar da extensa rede global da estrutura de negócio da fabricante americana, além da participação no desenvolvimento conjunto de novas aeronaves comerciais. Com esse cenário, a Embraer se beneficiaria dessa força produtiva e tenderia a competir com mais robustez, no longo prazo, contra rivais maiores e mais capitalizados.

Em termos financeiros, segundo os relatos da Embraer (2019c, p.19), o valor de 100% da JV Aviação Comercial seria de US$ 5,26 bilhões. É interessante enfatizar que o Conselho de Administração da Embraer contratou a empresa Citigroup Global Markets, instituição financeira de reputação internacional, para assessorar no processo de tomada de decisão com relação aos parâmetros financeiros da negociação.

O ato permitiria que a Boeing no Brasil adquirisse a participação de 80% do capital social total e votante da JV Aviação Comercial no fechamento da operação, que incluiria a subscrição de novas ações pela Boeing Brasil e a aquisição de ações diretamente da Embraer, por um valor agregado de aproximadamente US$ 4,2 bilhões. Esse valor estaria sujeito aos ajustes típicos de operações dessa natureza, incluindo a compensação da dívida líquida e o capital de giro da nova empresa na data de fechamento da operação. (Quadro 1)

Figura 26 - Acervo estimado JV Aviação Comercial.

Fonte: EMBRAER, 2019c, p. 17.

5.2 Joint venture KC-390 Millennium

A JV KC-390 foi formalizada através de um Acordo de Contribuição (Contribution Agreement), no qual se estabeleceu a formação de uma sociedade de responsabilidade limitada, constituída segundo as leis do estado americano de Delaware, com a nomenclatura de EB Defense LLC (JV KC-390).

O objetivo da JV KC-390 será a montagem final da aeronave KC-390 Millennium em uma instalação a ser construída nos Estados Unidos para a comercialização e a prestação de serviços de suporte logísticos no âmbito global. De acordo com o CADE, (BRASIL, 2020a, p. 75), em termos financeiros, a Boeing contribuiria com US$ 275 milhões em dinheiro por uma participação de 49% na JV KC-390, ao passo que a Embraer entraria com US$ 75 milhões em dinheiro e com uma outra parcela em espécie, constituída por ativos intangíveis, como licenças de propriedade intelectual e direitos contratuais, por uma participação de 51%. O Conselho de Administração da nova empresa seria composto por cinco membros, dos quais a Boeing indicaria um membro e a Embraer indicaria os outros quatro membros.

Cabe ressaltar que, segundo o CADE, (BRASIL, 2020a, p. 90), a indústria de defesa é altamente especializada; ou seja, há certa restrição sob o ponto de vista da demanda e da oferta entre os diferentes produtos e serviços oferecidos. Os projetos são personalizados para clientes específicos, geralmente representados por Estados soberanos, que possuem requisitos bem específicos, fundamentados nas suas estratégias de defesa. Para aproveitar os efeitos econômicos e sociais recorrentes, havendo a disponibilidade do equipamento requerido no âmbito doméstico, os governos dão preferência à contratação de players locais, dificultando a penetração nos mercados externos. Nesse sentido, a Embraer costuma ser a primeira opção da FAB, sendo os players estrangeiros considerados somente quando o portfolio da Embraer não é capaz de atender à sua demanda e vice versa no caso americano com a Boeing.

Por fim, na visão dos analistas do CADE, (BRASIL, 2020a, p. 9), considerando que a montagem final, o teste e a parte da certificação do KC-390 Millennium poderia ocorrer nos Estados Unidos, essa conexão facilitaria a comercialização da aeronave para aquele mercado; que, atualmente, é o maior comprador individual de aeronaves militares no mundo. A Embraer se beneficiaria do suporte e da influência da Boeing, particularmente quanto às vendas para a Força Aérea dos Estados Unidos e seus aliados. As conectividades globais da Boeing também poderiam oferecer maiores oportunidades de marketing e suporte pós-venda para maximizar as vendas fora do Brasil e dos Estados Unidos. Portanto, a concentração das empresas aumentaria a concorrência no mercado de aeronaves de transporte de médio porte.

6 CONCLUSÃO

O Brasil é um dos poucos países do mundo que conta com uma empresa fabricante de aviões comerciais, executivos e militares. A criação da Embraer foi o resultado da convergência de visões de longo prazo bem específicas de vários agentes da administração pública, em especial da FAB. Apesar dos grandes desafios vivenciados no seu momento embrionário, por ter iniciado as suas operações em um período em que a base industrial brasileira era pouco desenvolvida, na atualidade é a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo.

Nesse contexto, o papel estatal nos primórdios da empresa foi fundamental para alicerçar as capacitações básicas, desenvolvidas principalmente no CTA, assim como no estabelecimento das primeiras estruturas fabris no complexo de São José dos Campos. A implantação na Embraer de uma estratégia empresarial independente, apesar da forte participação acionária do Estado, foi forjada em uma gestão baseada na eficiência técnica, advinda da influência da formação dos seus fundadores no ITA.

Como resultado dessa sinergia, o primeiro projeto desenvolvido, a aeronave EMB-110 Bandeirante, tornou-se um sucesso de vendas internacional, que sustentou o futuro da empresa; pois, a aeronave atendeu perfeitamente às demandas do mercado com qualidade e preço competitivos.

A Embraer, do momento da sua criação em 1969 até o ano de 1990, praticamente vivenciou três fases distintas, que proporcionaram uma contínua e estável expansão da sua estrutura física e financeira. Nesse período a empresa se estabeleceu como um novo player no mercado mundial de produção de aeronaves.

No entanto, considerada como uma quarta fase, que ocorreu entre os anos de 1990 e 1994, houve uma redução acentuada no faturamento, causada por questões de adaptabilidade a um novo período de retração do mercado externo, combinado com um quadro de crise fiscal e institucional no Brasil. O endividamento da Embraer, até então estatal, alcançou valores insustentáveis para serem resgatados pelo governo brasileiro, e resultou no colapso da sua contabilidade.

Catalisada principalmente pela crise financeira, a empresa seguiu um processo evolutivo de acordo com os padrões de um sistema dinâmico complexo, estruturalmente instável. Foi um momento no ciclo de vida da companhia em que houve o afastamento do equilíbrio sustentável, onde o ponto crítico de instabilidade foi ultrapassado. O resultado inevitável para a sobrevivência foi a emergência de uma

nova empresa através do processo de privatização, que pode ser caracterizado como um “ponto de bifurcação” na sua evolução estrutural. Naquela ocasião a EMBRAER se transformou em Embraer S/A, inclusive com uma nova inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. A característica principal dessa nova fase foi a desverticalização da produção e, consequentemente, a redução nos custos dos programas, através do amplo emprego de subcontratados de parcerias de risco. A participação do governo brasileiro na gestão da empresa ficou restrita a uma posição no Conselho de Administração, por meio da posse da ação Golden Share, que assegurou o direito de veto em matérias de programas militares, mudança do objeto social e transferência do controle acionário. A flexibilização na gerência dos processos e no desenvolvimento dos projetos foi totalmente ancorada nas demandas do mercado, que resultou no enorme sucesso de vendas das aeronaves desenvolvidas a partir de então. A empresa passou a ser considerada um grande player do mercado global de produção de aeronaves.

A fabricação de aviões envolve um processo produtivo complexo e de capital intensivo, envolvendo relevantes investimentos iniciais relacionados à concepção, à inovação e ao desenvolvimento. Os projetos demandam anos para serem concretizados, exigindo dos fabricantes acurada pesquisa de mercado de longo prazo.

A demanda da aquisição é dominada por um número relativamente pequeno de potenciais clientes. Em termos numéricos industriais, as unidades são produzidas em baixa escala. É um bem durável com um ciclo de vida útil relativamente longo, que em média ultrapassa os trinta anos de operação. Os custos da linha de montagem são elevados na medida em que exigem máquinas e sistemas de última geração, equipamentos de testes e insumos específicos, mão de obra com elevada capacitação

A demanda da aquisição é dominada por um número relativamente pequeno de potenciais clientes. Em termos numéricos industriais, as unidades são produzidas em baixa escala. É um bem durável com um ciclo de vida útil relativamente longo, que em média ultrapassa os trinta anos de operação. Os custos da linha de montagem são elevados na medida em que exigem máquinas e sistemas de última geração, equipamentos de testes e insumos específicos, mão de obra com elevada capacitação

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