• Nenhum resultado encontrado

INTRODUÇÃO

No documento JOINT VENTURE EMBRAER E BOEING: (páginas 13-17)

Um dos maiores desafios para uma empresa que atua em um mercado extremamente competitivo e especializado, como é o caso da indústria aeronáutica, é justamente ter a visão estratégica de como estruturar o desenvolvimento e a produção de produtos e serviços que possuam vantagens mercadológicas no âmbito global.

Nesse sentido, a empresa Embraer, criada por iniciativa do Governo Federal no dia 19 de agosto de 1969 e fundada em 2 de janeiro de 1970, foi o resultado de um projeto idealizado pela Força Aérea Brasileira (FAB) para desenvolver a indústria aeronáutica no território brasileiro. Ao longo da sua história, a empresa vivenciou alguns marcos decisivos, que a tornaram uma referência mundial na fabricação de aeronaves.

Na sua origem, vinculada ao então Ministério da Aeronáutica, a Embraer foi criada sob o regramento da capitalização mista; ou seja, além do aporte de recursos públicos, foi permitida e incentivada a participação de capital privado na sua fundação.

Entretanto, em razão dos riscos que envolviam o projeto naquela época, houve pouca participação do empresariado brasileiro. Consequentemente, o governo federal permaneceu como sócio majoritário da companhia desde a criação até o momento da sua privatização.

A abertura de capital da Embraer, que ocorreu no ano de 1994, foi um dos maiores marcos de mudança estrutural da sua história. A partir dessa reestruturação acionária, uma nova visão empresarial emergiu; a companhia passou a ser gerenciada por um Conselho de Administração que, desde o início, teve a missão de estabelecer a orientação geral dos negócios e decidir sobre as questões estratégicas. No ato da privatização, o governo federal vendeu praticamente todas as ações, permanecendo apenas na qualidade de titular da ação de classe especial, conhecida como golden share. Com essa nova configuração, o Estado brasileiro deixou de ser o principal acionista, porém permaneceu com o poder de veto nas principais decisões. A União reduziu a sua influência na gestão, mas ficou com o direito de eleger um membro efetivo do Conselho de Administração, que é composto de, no mínimo, 9 e, no máximo, 11 membros eleitos pela Assembleia Geral; sendo que dois desses membros efetivos são eleitos pelos empregados, em votação em separado.

Atualmente, a Embraer é formada por um grupo de empresas com atuação global, dentre as quais, a unidade da aviação comercial disputa a liderança no

mercado de jatos comerciais de até 150 lugares. Segundo os dados do Ministério da Economia, é a maior empresa brasileira exportadora de bens agregados de alto valor.

Atuando principalmente nos segmentos da aviação comercial, executiva e militar, opera com uma força de trabalho que totaliza mais de 18.000 colaboradores, distribuídos por 28 diferentes localidades no Brasil e no exterior.

Entretanto, no embate pela conquista de uma fatia maior do mercado, no ano de 2017 a empresa multinacional europeia AIRBUS, atualmente a maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo, adquiriu os direitos de produção das aeronaves CS100 e CS300, ambas projetos da empresa canadense Bombardier. A fusão teve como objetivo principal permitir à AIRBUS uma entrada agressiva no mercado de aeronaves comerciais de até 150 lugares. O consórcio europeu inclusive construiu uma fábrica nos Estados Unidos da América (EUA) específica para produzir e ofertar essas aeronaves com “origem” americana.

De acordo com o relatório anual da Embraer do ano de 2018, o mercado de aeronaves comerciais correspondeu a 47% das receitas da Embraer, sendo que o mercado estadunidense contribuiu com 59% dessas aquisições.

O resultado da união entre a AIRBUS e a Bombardier desequilibrou diretamente o mercado de aeronaves comerciais de corredor único de até 150 lugares, em que a Embraer atualmente disputa a liderança. Indiretamente, também houve reflexos no mercado de aeronaves de grande porte, em que a Boeing opera diretamente rivalizando com a AIRBUS.

No sentido de se contrapor a esse novo cenário, no ano de 2019, as fabricantes Embraer e Boeing firmaram um memorando de entendimento com a intenção de criar duas novas empresas, através da modalidade de joint venture. Uma empresa, fundada em solo brasileiro, que seria responsável por produzir e comercializar o segmento de aeronaves comerciais, ora produzidas pela Embraer – a Família Ejets; e a outra empresa seria habilitada a finalizar a fabricação, em solo americano, da aeronave KC-390 Millennium e comercializá-la no mercado global.

Procurando justamente entender a dinâmica dessas fusões no mercado aeronáutico, o objetivo geral desta pesquisa é compreender que fatores motivaram a empresa Embraer a negociar em favor da criação dessas duas novas empresas, em que haveria participação majoritária da fabricante americana Boeing. Para tanto, como forma de orientar o caminho a ser seguido pelos estudos, foram contemplados os seguintes objetivos intermediários.

a) Com base nos fundamentos teóricos, identificar as características e as vantagens da concentração econômica do tipo joint venture para as empresas.

b) Identificar a importância da participação estatal, através da FAB, na criação da empresa Embraer.

c) Analisar os impactos da privatização na gestão da Embraer.

d) Compreender as particularidades no processo de fabricação e aquisição de aviões.

e) Dimensionar as projeções para o mercado de aeronaves regionais e para o mercado da aeronave KC-390 Millennium.

f) Analisar as especificidades da joint venture entre as empresas Embraer e Boeing.

A presente pesquisa foi conduzida de modo exploratório e com vistas a descrever os eventos mencionados acima, pois a intenção foi reconhecer os fatores que motivaram o processo de negociação a partir da ótica da empresa Embraer, analisando-os sob uma perspectiva sistêmica global, de acordo com as percepções adquiridas no âmbito das relações comerciais. Trata-se de um estudo de caso com pesquisa bibliográfica e documental

Na verificação dos elementos conceituais foram ressaltadas como fontes primárias as obras sobre a teoria da conectividade, abordada por Khrana (2016), a teoria dos sistemas complexos, estudada por Capra e Luisi (2019), gestão empresarial, livros de história, matérias de jornais e revistas especializados, bem como teses relacionadas ao tema. A pesquisa também foi documental porque, a partir da análise bibliográfica, as informações foram complementadas e validadas por relatórios, audiências, apresentações e laudos técnicos elaborados pelas empresas Embraer e Boeing e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

As informações e dados obtidos foram organizados e filtrados de forma a permitir um encadeamento lógico dos fatos, que resultou na percepção sistêmica dos fatores que motivaram a empresa brasileira Embraer a negociar e assinar no dia 24 de janeiro de 2019 um acordo de joint venture com a fabricante Boeing.

Entre as possibilidades de análise do problema, o trabalho em questão está focado no ponto de vista da empresa Embraer, especificamente, no sentido de apresentar o seu processo histórico de criação e desenvolvimento, as influências da

dinâmica sistêmica do mercado na produção de suas aeronaves comerciais regionais, a expansão da produção e da comercialização da aeronave de transporte militar KC-390 Millennium e as motivações para as negociações com a empresa Boeing.

Por fim, em razão das drásticas mudanças ocorridas durante o primeiro semestre do ano de 2020 no contexto econômico global, não foram escopo desta pesquisa os resultados das negociações após a assinatura do acordo entre as empresas Embraer e Boeing, firmado no dia 24 de janeiro de 2019. Também, não foram alvos deste trabalho os impactos desses entendimentos no mercado de aeronaves comerciais de grande porte, acima de 150 assentos, pois não fazem parte do portfolio de produtos da Embraer.

No documento JOINT VENTURE EMBRAER E BOEING: (páginas 13-17)

Documentos relacionados