CAPÍTULO VI O ACTO DE COMPRA, A COMPRA POR IMPULSO E O
6.4. CONCLUSÕES GERAIS: BRASIL
Inicialmente, constatámos que quando falamos de adolescentes brasileiros que estudam na escola privada ou pública, falamos de adolescentes de realidades socioeconómicas completamente diferentes. Verificámos que o número de irmãos, o rendimento familiar, e as práticas sociais e hábitos online diferenciam os alunos dos dois tipos de escola, sendo os alunos de escola privada os mais favorecidos, por pertencerem a famílias com rendimentos mais elevados, por frequentarem mais ambientes de compra (lojas e centros e comerciais), e por terem mais acesso a facilidades como o acesso à internet e o uso dos media sociais.
Relativamente ao valor médio de mesada/salário fornecido pelo aluno, que pode não ter sido um dado credível, para estudos futuros, recomenda-se perguntar ao respondente se ele exerce algum tipo de actividade remunerada, e qual o valor recebido por esta actividade, ou seja, não perguntar o valor médio da ´mesada/salário´ em apenas um único item, mas separar e questionar se o respondente recebe mesada, ou se recebe salário, ou os dois. Talvez, desta forma, ao identificar a origem do recurso financeiro disponibilizado pelos adolescentes, ou seja, se é fornecido pelos pais (mesada) ou resultante de uma ocupação (salário), conseguiríamos compreender o porquê das semelhanças dos valores indicados pelos alunos da escola pública e da escola privada.
No que diz respeito ao nosso primeiro objectivo, verificámos que as representações da compra dos adolescentes brasileiros dizem respeito principalmente aos produtos que eles desejam adquirir, às dimensões da actividade de compra, e ao ambiente onde a compra é realizada.
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Relativamente aos produtos que eles desejam adquirir, identificámos duas classes relacionadas com o sexo de pertença do respondente. Uma classe com produtos relacionados com a tecnologia e com a autonomia (carro, computador, telemóvel, mota, jogos), típicos do público masculino, e outra classe com produtos relacionados à estética e a acessórios pessoais (sapatos, bolsa, maquilhagem), comum ao público feminino. É importante sublinhar que, para compreender estas diferenças, não devemos nos focar em explicações essencialistas, mas devemos compreender a história das relações entre os sexos.
No que diz respeito às dimensões da actividade de compra, encontramos uma classe que abordava os aspectos emocionais (alegria, satisfação, conforto, prazer, e realização), e outra classe que abordava aspectos cognitivos da actividade de compra (necessidade, pagamento, prejuízo, ganhar). Ambos aspectos são inerentes ao comportamento de compra e devem ser compreendidos como complementares e não como excludentes.
Por último, encontrámos a classe que abordou aspectos do ambiente de compra (loja, dinheiro, shopping, moda), mais representativa dos adolescentes da escola privada que, por terem um maior poder de compra, costumam frequentar mais ambientes de compra como lojas e centros comerciais, em comparação com os alunos da escola pública. Estas cinco classes circunscrevem o mundo em que os adolescentes desempenham o seu papel de consumidores, e evidenciam a influência da classe social e do sexo de pertença na representação da compra do adolescente brasileiro.
Em conformidade com nosso segundo objectivo, que pretendia verificar a existência de eventuais diferenças em função da escola e do sexo de pertença, observámos diferenças em apenas algumas variáveis.
No que respeita à escola de pertença, nas variáveis psicológicas e de influência
grupal, verificámos diferenças significativas na importância atribuída à marca pelos
outros, na satisfação com a vida e na influência dos pares nas compras, sendo os adolescentes da escola privada os que obtiveram maiores médias. No que diz respeito
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aos valores, os alunos de escola pública atribuíram maior importância aos valores de bem-estar social, bem-estar profissional, e aos valores religiosos.
Relativamente às diferenças encontradas entre os rapazes e as raparigas, nas
variáveis psicológicas e de influência grupal, observámos que os rapazes atribuíram
maior importância à marca e costumam ver mais publicidade, enquanto as raparigas sentem mais prazer na actividade de compra, circulam mais na loja, preferem comprar acompanhadas do que sozinhas e identificam-se mais com o seu grupo de amigos. Além disso, os rapazes atribuem maior importância aos valores hedonistas e materialistas, e as raparigas atribuem maior importância aos valores religiosos que, no entanto, não tem efeito sobre a compra por impulso.
Os nossos resultados não mostraram diferenças significativas entre os sexos na compra por impulso, contradizendo a literatura, que indica que o público feminino é mais impulsivo nas compras (Grewal et al., 2003) A diferença entre sexos é habitualmente explicada pelo facto de a compra impulsiva ser mais observada no ambiente de retalho, como nos centros comerciais, onde existe mais apelo promocional e uma maior quantidade de produtos e lojas destinadas ao público feminino.
Parece-nos, contudo, que esta diferenciação aplica-se mais à fase adulta, em que as mulheres passam mais tempo do que os homens a fazer compras, facilitando a compra impulsiva, ou quando os desejos de consumo dos homens passam a visar produtos mais caros (carros e aparelhos electrónicos) que não podem ser comprados facilmente por impulso. É necessário portanto conduzir outras investigações com o público adolescente a fim de verificar a consistência destes resultados, ou de realizar estudos longitudinais que avaliem a tendência da compra por impulso desde a adolescência até a fase adulta.
O efeito de interacção entre as duas variáveis foi observado na importância atribuída à marca, na influência dos pares nas compras, nos valores hedonistas e materialistas, e no materialismo nas compras. Os rapazes da escola privada atribuíram maior importância à marca e aos valores hedonistas, e são os que menos preferem fazer compras acompanhados. Os rapazes de escola pública apresentaram as menores médias
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no materialismo nas compras, enquanto as raparigas da escola privada atribuíram menos importância aos valores materialistas.
Estas diferenças evidenciam mais uma vez a influência da classe social e do sexo de pertença do adolescente nas variáveis do estudo (variáveis psicológicas, de
influência grupal e valores).
Na análise relacional efectuada de acordo com o nosso terceiro objectivo, identificamos correlações positivas em quase todas as variáveis do estudo. Constatámos a relação entre a compra por impulso com os recursos financeiros, práticas sociais e hábitos online (rendimento familiar, frequência de visitas a centros comerciais, frequência de acesso à internet e uso dos media sociais), com as variáveis psicológicas (prazer nas compras, importância atribuída à marca e importância atribuída à marca pelos outros), com as variáveis de influência grupal (spendmore – tendência a gastar mais na presença de amigos), influência dos pares nas compras, e identificação com o grupo de amigos, e com os valores (bem-estar pessoal, valores hedonistas e materialistas, e o materialismo nas compras). As correlações encontradas são suportadas pela literatura, entretanto, a maioria das correlações foram fracas.
Contudo, observou-se que o prazer nas compras e o materialismo foram as variáveis que obtiveram maiores correlações com a compra por impulso, o que nos levou a propor um modelo de mediação do materialismo entre o prazer nas compras e a impulsividade. O modelo foi testado e apresentou alguns problemas nos índices de ajustamento do modelo de medida, entretanto, mesmo com estes problemas o modelo pôde ser aplicado para a amostra brasileira.
A compra por impulso é intrinsecamente emocional, contudo há também uma dimensão cognitiva (Youn et al., 2002) que não foi abordada no instrumento de medida deste estudo, pois os itens faziam referência predominantemente aos aspectos emocionais. Sugere-se para estudos futuros, verificar se este modelo também se aplica à dimensão cognitiva da impulsividade da compra.
No próximo capítulo apresentaremos os resultados do estudo realizado em Portugal.
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