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As conclusões a retirar desta dissertação não podem ser descoladas da ambição do trabalho em si. A tentativa de delimitação dos conceitos de “versão” e “variante”, tema que levanta algumas questões e convida à reflexão, complica-se quando aliada ao tipo de texto aqui tratado. O presente trabalho teve como objetivo enriquecer esta reflexão, assim como fazer um exercício de algumas formas de edição que podem ser utilizadas para textos com estas características. Todavia, a (re)teorização dos conceitos e a análise aqui feita é apenas um

“levantar do véu” de toda a investigação que ainda se mostra necessária e pertinente. Os dois casos de estudo selecionados, embora expressivos de polos diferentes da questão, são somente uma pequena amostra do panorama do teatro breve português.

Para concluir sumariamente o estudo feito aos entremezes aqui apresentados observamos que, nos entremezes do Sapateiro, ainda que encontremos alguma variação, a importância das variantes não tem grande peso no desenrolar da história. Talvez a diferença mais significativa entre os textos seja as referências geográficas, mas já foi estabelecido que estas representam um padrão de variação comum em vários textos. A edição crítica deste entremez com recurso a aparato de variantes, permite, por isso, uma comparação simples e objetiva entre os dois textos, sem comprometer a legibilidade.

O caso dos entremezes da Vaca e do Trapaceiro Castigado, por outro lado, mostra-se um pouco mais complexo. Primeiramente, tendo ficado estabelecido desde o início que as diferenças textuais entre as peças ultrapassam as semelhanças, a maior questão era encontrar uma base comum aos dois textos que permitisse a comparação. Tendo encontrado essas lições e conseguido estabelecer a ligação entre os entremezes, era agora necessário perceber como poderiam ser editados de forma a que as suas características tivessem o destaque suficiente. A opção por, além de editar cada um individualmente, incluir uma edição sinóptica, permite ao leitor familiarizar-se primeiramente com os textos para depois mais facilmente identificar e analisar as parecenças entre eles. Uma edição sinóptica que destaca as passagens mais importantes para confirmar a ligação (mesmo que indireta) entre os textos é útil para esta tarefa e não compromete a legibilidade nem a funcionalidade da edição.

Após a contextualização do género e dos problemas que levanta, o estudo das variantes encontradas e a decisão de como editar os textos, resta a tentativa de resposta à principal pergunta que esta dissertação levanta. Na tentativa de estabelecer uma delimitação entre os conceitos de “versão” e “variante”, a análise destes dois pares de entremezes parece ter-se mostrado útil. Recuperando as cinco técnicas que Ruano de la Haza menciona no artigo “Las

dos versiones de El mayor monstruo del mundo, de Calderón” — refundição, reelaboração, reconstrução, adaptação e reutilização —, poderíamos talvez encaixar os entremezes da Vaca e do Trapaceiro Castigado na noção de refundição, ainda que não conheçamos a data de produção exata de nenhum destes textos, e, por isso, não seja possível esclarecer totalmente a ligação entre eles. Os entremezes apresentam, efetivamente, textos diferentes, “reciclando”, ainda assim, a mesma temática, as mesmas personagens (mesmo que com nomes distintos) e, na sua maioria, os mesmos episódios. A possibilidade de que estes entremezes descendam de um tronco comum deve ser tida em conta, já que a especificidade dos versos em que encontramos correspondência nos pode encaminhar também nesse sentido.

Em relação aos entremezes do Sapateiro, não sabendo qual o texto mais antigo, não podemos afirmar que estejamos perante um caso de reelaboração, em que um texto é modificado e melhorado propositadamente. Objetivamente, observamos que o testemunho de Coimbra apresenta melhores lições, com encaixe na métrica e no esquema rimático em lugares onde o texto da Biblioteca da Ajuda está em falta. Ainda assim, afirmar que se trata de variantes com objetivo de correção é especulativo. Podemos apenas afirmar que existem variantes entre os dois entremezes. As asserções que são feitas destes textos têm, muitas vezes, de basear-se apenas na datação aproximada que conseguimos fazer dos códices. É também daqui, em parte, que surge a necessidade de distinguir os conceitos de “variante” e de “versão”, que nos permitem classificar de forma mais eficaz estas peças.

Com estes dados em mente, dentro do contexto da tradição entremezil portuguesa, demarcar-se-ia uma separação entre os dois pares de entremezes aqui estudados e editados. Os entremezes do Sapateiro, pela quantidade de variação e pelo teor das variantes que apresentam, poderiam recair sobre a designação de “entremez com variantes”. No contexto teatral, as diferenças entre eles não são significativas o suficiente para que se possam considerar versões.

No que aos entremezes da Vaca e do Trapaceiro Castigado diz respeito, todavia, dadas as extensas diferenças, quer a nível textual, quer episódico, a definição mais abrangente recai sobre “versão”. Agrupar estes dois conjuntos dentro do mesmo conceito geral afirmando que uma versão é qualquer texto que apresente variantes parece diminuir as especificidades de cada texto e de cada conjunto. Talvez a forma mais simples de “arrumar” esta questão seja delimitar os conceitos da seguinte forma:

a) Entremez com variantes: texto cujos locais de variação, quando comparados com um ou mais testemunhos do mesmo entremez, não são significativos e não influenciam significativamente o desenrolar da narrativa.

b) Versão: entremez que apresenta variação extensa e significativa, com influência direta no desenvolvimento da narrativa.

Ainda assim, estas propostas de definição apresentam lacunas que só um estudo mais extenso e completo de todo o corpus entremezil português pode preencher. Não podemos ignorar o género nem o contexto de criação e produção destes textos que, por si só, levantam os problemas já mencionados ao longo deste trabalho. O facto de desconhecermos uma grande parte da história destes textos, códices e manuscritos influencia tremendamente a análise desta questão, pelo que, com o avanço da investigação na área, é possível que surjam novas pistas para complementar aquilo que até aqui sabemos. As conclusões a que chegamos hoje estarão sempre pendentes das descobertas que fizermos amanhã.

No documento UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS (páginas 132-135)

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