5. Como editar?
5.2. Entremez da Vaca (Fixação de texto e notas)
Entremez da Vaca
Um Marchante; um Compadre; um Gracioso; ũa Molher.
Sai a Molher dando no marido.
GRACIOSO Áque de el rei sobre esta atrevida!
MOLHER Ande, magano, que lhe hei de tirar a vida!
GRACIOSO Áque de el rei, que me derreia.
MOLHER Hei de desancá-lo, pernas de çantopea.
GRACIOSO Não há quem me acuda? 5 MOLHER Quem lhe acode, que está na muda!
Tomara que o levara o demo com baceira.
GRACIOSO Levara-a ela, focinho de toupeira!
Dá-lhe.
Ai, ai, que me derreou!
MOLHER Pois para que de minha casa me desenquietou? 10 Qu’é de o que trouxe para seu poder?
Diga, mandrião, quero comer.
GRACIOSO Pois ele sempre há de durar andando você sempre a mastigar?
MOLHER Eu quero o meu sustento, 15 senão me irei para um convento,
que já o não posso aturar.
GRACIOSO Você não tem rezão para se absentar, porque eu desde que casei
sempre convosco na cama me deitei 20 e tem em mim um tal abrigo
que todas as noites se cobre comigo, sendo eu da casa o servidor,
que até me obriguei a servir de cobertor,
e casados há tanto tempo assim 25 se quer você ir e dexar-me a mim?
MOLHER Eu não me quero de você descasar, digo que trate de me sustentar.
GRACIOSO Eu não tenho já que vender
nem cama em que possa adormecer. 30 MOLHER Pois eu trouxe para seu poder
muito para vestir e de comer.
GRACIOSO Sim, senhora, todo o seu dote tive por primeira alfaia: um bispote,
um tacho, um espeto, ũa candea, 35
1 Gracioso ] C Marido
8 A forma pronominal de 3ª pessoa refere-se à Molher.
31 trouxe ] C troux
um telhador, ũa trempe e ũa joeira, duas palanganas, um alguidar e ũa tina, pois em nada sua mãe foi mui mesquinha, que em casamento a cada ũa das filhas
sempre deu um apontoado de rodilhas. 40 E os dotes com que se costuma
pôr ũa filha na rua
é ũa grande esteira de tábua, a qual, sem enxergão,
nos servia de lançol e de colchão 45 e bem sabe que no outro dia, ao pôr da lua,
tendo você a cama ao sol na rua, veio Marta Ribeira
e leva-nos da nossa porta a esteira
e que o provaria com a lama da rua 50 e que somente a tinha emprestado
para passar somente os dias de noivado, e fez tais exclamações
que com medo borrei os meus calções,
e se a molher prova a sua rezão 55 ficaríamos dormindo no chão.
MOLHER Isso não me importa. O que quero saber:
donde nos há de vir o comer?
GRACIOSO Eu não o hei de ir pedir à vezinha,
e trato logo de vender a vaquinha. 60 MOLHER Isso logo e já seja averiguado,
que estou ainda sem comer bocado.
GRACIOSO Pois, molher, ficai-vos embora que teremos dinheiro daqui a ũa hora.
Vá-se.
Sai o Marchante e o Compadre.
MARCHANTE Compadre, eu tomara algum gado comprar 65 porém, não tenho dinheiro para o pagar
e, se não for por algum modo, eu estou perdido de todo.
COMPADRE De algũa traça vos haveis de valer
para poder ò açougue socorrer. 70 Esperai, que aquele toleirão lá vem
e me parece ũa vaca tem.
Podeis-vos com ele ajustar
e que logo pelo dinheiro poderá tornar.
MARCHANTE A traça não é má 75 se ela se cumprir já.
Sai o Gracioso à porta:
37 palanganas ] C planganas
40 apontoado ] C apontado. Corrige-se para apontoado de modo a preservar o sentido da expressão idiomática.
54 os ] C o
Quem me quer comprar ũa vaquinha que por certo está mui chea e gordinha?
COMPADRE Eu agora quero-me retirar
para que vós com ele a possais ajustar. 80 GRACIOSO Quem me quer ũa vaca comprar?
MARCHANTE Senhor, venha cá, que quero ajustar.
GRACIOSO Guarde Deos a vossa mercê, meu senhor, é ũa vaquinha gorda que é primor.
MARCHANTE Em que preço a tem vossa mercê? 85 GRACIOSO Em três moedas, e faço-lhe mercê.
MARCHANTE Pois vamos, que a quero ver
e no preço nos não hemos de desaver.
GRACIOSO Eu disso sou muito contente.
Ai, hoje sou eu gente 90 pois farei a barriga como um touro
se colho na mão as moedas de ouro.
Sai o Compadre:
A história já vai armada, ela há de ser falada,
pois não podia vir melhor ao intento, 95 que ele tem orelhas de jumento.
Sai o Marchante:
Por certo que esteve boa asneira o modo com que ele caiu na ratoeira.
COMPADRE E a vaca já está guardada?
MARCHANTE Já está cá muito abafada 100 e logo com ele me hei de preparar
quando o dinheiro vier buscar.
COMPADRE Oh, esperai que ele lá vem,
dexai-me retirar, que assim convém.
Sai o Gracioso:
Para servir a vossa mercê, meu cavalheiro, 105 eu vinha cobrar o meu dinheiro.
MARCHANTE Que dinheiro? Você endoudeceu?
Devia de ser outrem e não eu.
GRACIOSO Ai, meus pecados, estou bem aviado!
O dinheiro da vaca que com você tinha ajustado. 110 MARCHANTE Homem, eu não te entendo:
se eu não sou o que compro, sou o que vendo.
88 hemos de desaver ] C hem deshaver
GRACIOSO Trate vossa mercê de me logo pagar, se não minha molher me há de desancar.
Ande isso depressa, averiguemos, 115 que o dar-me ele certo temos.
MARCHANTE Você já pode entender
que eu cousa nenhũa lhe venho a dever.
GRACIOSO Não me arme agora essa tagarela,
que a vaquinha me dexou minha parentela. 120 Isto não se atura! Está galante!
Ainda me lembra como a venda foi.
MARCHANTE Digo que não era vaca, era boi, e assim fico logo excluído
de lhe não pagar nada. Tem entendido? 125 GRACIOSO Isso é não querer pagar o que se deve.
Ela, enquanto esteve
em minha casa, três partos teve, daqui se pode logo inferir
que se fora boi não havia de parir. 130 MARCHANTE Escusa de mais rezões,
que o que tenho dito lhe hei de provar.
GRACIOSO Eu quasi doudo já estou,
entendo que vossa mercê dela provou.
MARCHANTE Não se meta em tanta provadura 135 porque levará algũa sacudidura.
GRACIOSO Áque de el rei sobre este ladrão
que me roubou e diz que não tenho rezão!
MARCHANTE Ora para que você dexe já esse enfado
irá muito bem convidado. 140 Dá-lhe.
GRACIOSO Áque de el rei, que me querem matar!
O dinheiro da vaca em murros vim buscar!
Vá-se.
MARCHANTE Por certo que não é muito má paga, não dexara você ir a vaca fiada.
Sai o Compadre:
Dize-me o que passaste 145 e se o dinheiro lhe pagaste.
MARCHANTE Muito havia ele de saber
se o dinheiro na mão chegasse a colher.
COMPADRE Como foi essa matraca?
MARCHANTE Dizendo-lhe que era boi e não vaca. 150 COMPADRE Por certo que está mui bem armada.
MARCHANTE E de caminho levou ũa maçada.
COMPADRE Tratemo-nos daqui retirar, que pode ele a justiça ir chamar.
MARCHANTE Tendes vós muita rezão 155 e logo veremos se há outro toleirão.
Sai a Molher:
Tomara que viera já este excomungado com o dinheiro da vaca em bocado.
Sai o Gracioso:
Adeos, molher, como vos tem cá ido?
Porque a mim muita cousa me tem sucedido. 160 MOLHER Muito tempo tendes gastado.
Em que estivestes vós tão ocupado?
GRACIOSO Em a vaca vender,
e, então, para o dinheiro acolher...
não sei o que vos diga. 165 MOLHER Aviai, valha-vos os diabos.
GRACIOSO Isto são contos largos.
MOLHER Sempre me haveis de dar cuidado.
Dai cá o dinheiro, homem desalmado.
GRACIOSO Aqui troce a porca o rabo. 170 De modo que o dinheiro, isso sim...
MOLHER Vós zombais agora de mim?
GRACIOSO Dinheiro foi e tornou e vou o dinheiro buscar...
MOLHER Eu entendo que me estais a lograr.
GRACIOSO Qual lograr? Esta é a verdade. 175 MOLHER O que dizeis? Há tal asnidade?
GRACIOSO Eu digo, mas que hei de dizer e que direi?
Quando eu com ele a vaca ajustei, disse-me que fosse logo pelo dinheiro.
MOLHER Então não fostes, sendeiro? 180 GRACIOSO Eu logo fui mas quando lho cheguei a pedir,
disse que torna e que volve, que lhe fui mentir.
MOLHER Eu tal já não posso aturar.
Dizei, não podeis falar?
GRACIOSO Quando o vou dizer parece que me sofoco 185 e torna-me logo a fala ao corpo.
MOLHER Algũa peça lhe pregaram e muito enxuto o mandaram!
Dá-lhe.
GRACIOSO Estai quieta, não me deis
que ainda o demais não sabeis. 190
156 veremos ] C viremos. Foi adotada a grafia atualizada para desfazer equívocos com o verbo “vir”.
185 parece ] C pareçem
MOLHER Já agora que hei de saber?
Suponho que dinheiro não heis de trazer.
GRACIOSO Eu bem sei isto como foi:
disse-me que a vaquinha era boi.
MOLHER Porque me estais a amofinar? 195 E então não vos quis pagar?
GRACIOSO Não, minha rica molher,
e vim nos dedos chupando sem ser mel.
MOLHER Anda daqui para fora, cara de atafoneiro,
que faremos sem vaca e sem dinheiro? 200 Dá-lhe.
GRACIOSO Quê? Virar para o vento o traseiro, que depois da barriga aventada não faltará por baxo trovoada.
MOLHER Qual? Eu não estou zombando,
estas pancadas vá apanhando. 205 Dá-lhe.
GRACIOSO Áque del rei! Quereis-vos aquietar,
que eu o dinheiro da vaca hei de arrecadar.
Calai-vos e não cuideis em vos afligir que eu pelo dinheiro da vaca hei de ir.
MOLHER Como há de isso então de ser? 210 GRACIOSO Eu velha me hei de fazer
e outra vaca lhe hei de ir vender e, quanto que ela estiver afastada, levará a primeira maçada.
MOLHER Ora vamos e não vos detenhais. 215 GRACIOSO Vamos, que ainda lhe acontecerá mais.
Saem o Marchante e Compadre.
MARCHANTE Por certo que a peça não esteve má.
Se terá ele aparecido por cá?
COMPADRE Deixai vós essa canseira,
tomáramos nós outro na ratoeira. 220 MARCHANTE Eu pelo preço não se me dera de comprar
se outro comigo a vier ajustar.
COMPADRE Como vós a não pagais, ajustai-a por muito mais.
MARCHANTE Se acaso ela sortir 225 por certo que me não hei de desavir.
COMPADRE Preparai-vos muito bem que suponho gente aí vem.
204 Em C não existe indicação da personagem.
MARCHANTE Pois por mim, só, cá ficarei.
Preparai-vos que suponho gente vem 230 e com o preço eu me havei.
COMPADRE Pois dexai-me ir embora, não me vejam convosco agora.
Sai o Gracioso, vestido de velha saloia.
GRACIOSO (à parte) Cá está o cavalheiro
que me logrou com o meu dinheiro. 235 Meu senhor, tomara saber
se queria vossa mercê ũa vaca que venho vender.
MARCHANTE Sempre hemos i vê-la.
E quanto quer vossa mercê por ela?
GRACIOSO Eu vendo-a com grande necessidade. 240 Dar-me-á por ela, sua maternidade,
pela carne de vaca e pelo couro três moedas de ouro.
MARCHANTE Nós não nos havemos de desaver
se acaso isso ela valer. 245 GRACIOSO (à parte) Se o caso lhe não sair avesso,
ele não a rejeita pelo preço.
MARCHANTE E donde essa vaca lhe veio?
GRACIOSO Pode marcá-la sem receio,
que me ficou de meu avô, que muita vaca fez, 250 casado com Branca Gil, que era sobrinha
de sua avó, tia minha, cunhada de Marta Inês, a qual vem por outra linha,
porque de meu visavô 255 nasceu Pedr’Anes só,
filho de molher primeira, que foi casada e meeira por descendência da avó.
De sorte que teve outro sobrinho, 260 e seu pai, Jorge Godinho,
e Marta Vaz, sua mãe, ex visavô de seu pai
Brás Álv’res e João Toucinho
e seu sogro Godofre Vaz 265 e a nora de Lucas Brás,
229 Em C não existe indicação de personagem.
Rúbrica v. 234: Em C não existe indicação de aparte.
244 de desaver ] C deshaver
Rúbrica v. 246: Em C não existe indicação de aparte.
251 casado ] C cazada
256 O nome Pedr’Anes (que pode ter várias grafias como Pedr’Eanes, Pedrianes, Pêro Anes, etc.) surge associado a entidade sobrenatural em dois autos do século XVI: Clérigo da Beira, de Gil Vicente, referido no Índice de 1551 como Auto de Pedr'Eanes e no Auto do Duque de Florença, de autor desconhecido.
258 casada ] C caza 263 ex: em latim, de.
primeira molher que tinha, que tinha sido mãe da sobrinha que em santa glória jaz.
Deste bom grado a Cristo, 270 que tem ouvido e tem visto,
é a vaca que vossa mercê quer
que por linha direita minha veio a ser.
MARCHANTE A mim que me vem a importar
a parentela que aí está a nomear? 275 GRACIOSO Isto para que sem escrúpolo possa mercar,
porque sabendo-lhe a geração tê-la-á em mais estimação.
MARCHANTE Vamos já com isto aviando
que não posso estar mais tempo esperando. 280 GRACIOSO (à parte) Como ele está delampeiro,
cuida que tem outra pelo mesmo dinheiro!
Pois, senhor, se da geração quer mais saber, até a da vaca lhe posso dizer.
MARCHANTE Velha do diabo, acabe com essa matraca. 285 GRACIOSO Pois eu não sou velha, sou o dono da vaca.
MARCHANTE Áque de el rei, que não posso isto sofrer!
Ó Compadre, bem me podeis aqui valer.
GRACIOSO Há del rei contra um vilão tão insolente
que me enganou diante desta gente. 290 MARCHANTE Eu lhe prometo de lhe pagar,
como mais pancadas me não torne a dar.
GRACIOSO Qual molher nem meio mulherinha, é para ver se era boi a minha vaquinha!
MARCHANTE Áque de el rei, que me tem aqui maçado! 295 De gritar por meu compadre estou esganado.
GRACIOSO Dexe-me por aqui esconder
antes que alguém o venha defender e já que me ponho em retirada
levará mais esta lambada. 300 Dá-lhe.
MARCHANTE Eu daqui me não posso arrastar, que a vaca bem cara me veio a custar.
Sai o Compadre:
Que é isso, compadre, que passastes?
Com a velha a vaca não ajustastes?
MARCHANTE Qual velha! Estais enganado, 305 era o dono da vaca que me tem maçado,
272 é ] C e he 283 a ] C da
304 ajustastes ] C ajustes
que usou daquela traça
para me pregar tão boa estafa.
COMPADRE Pois não o pudestes conhecer
para saberes como vos havíeis de haver? 310 MARCHANTE Pois se eu o conhecesse,
pudera ser que ele me não desse.
Ai, ai, que me não posso endireitar!
Tomara-me na cama deitar.
Isto seja já sem detença, 315 pois tenho no corpo grande doença.
COMPADRE Pois vamos depressa, andar, que eu o médico vou chamar.
MARCHANTE Ajudai-me aqui a erguer.
Ai, que me não posso já ter. 320 COMPADRE Grande pena disto tenho,
esperai um nada que eu com o médeco venho.
Vá-se.
MARCHANTE Quem me manda a mim meter a comprar vaca sem dinheiro ter,
para estar agora desta sorte 325 que me pôs o dono da vaca quasi à morte?!
Sai o Compadre, e o Gracioso de médico.
COMPADRE Aqui está o senhor doutor, vede o que ele vos manda pôr, que eu vou ũa cousa negocear
e muito tempo não poderei tardar. 330 Vá-se.
GRACIOSO Senhor enfermo, Deos esteja nesta casa, que eu a ela venho a fazer vaza.
Diga-me que tem, que lhe vejo os olhos maus.
Mas aqui andou a sota de paus?
MARCHANTE Senhor doutor, que hei de ter? 335 Foi ũa velha que ũa vaca me veio vender
e, acerca do preço ajustar, começámos de rezões travar.
Entendo que à minha vida deu o cabo,
que aquilo não era velha, era o diabo. 340 GRACIOSO Isso está ainda para ver.
322 De forma a preservar o esquema rimático, foi feita a divisão dos versos. Em C: esperay hum nada / que eu com o medeco venho.
334 Trocadilho feito com o naipe “paus” das cartas e o possível uso de um pau como objeto de ataque. O jogo de palavras é exacerbado, já que “sota” é outro nome dado à carta que corresponde à “dama” e o Marchante foi atacado por um homem disfarçado de mulher.
(à parte) Que dirá ele quando o contrapeso receber?
Ora endireite essa mão.
MARCHANTE Aqui está.
Toma-lhe o médico o pulso.
GRACIOSO As pancadas foram por ladrão,
(à parte) e disto não tem que se recear 345 pois entendo que com outras poderá sarar.
MARCHANTE Tomara que algum remédio me aplicasse de modo que logo sarasse.
GRACIOSO Há de ser mui bem enxaropado
porque está o mormo muito levantado, 350 e como foram cousa de pancadas
estão as veias muito aceleradas e o corpo com muita pisadura.
(à parte) Mas eu o porei logo à dependura.
MARCHANTE Trate de algum remédio me aplicar, 355 que eu com dores não posso sossegar.
GRACIOSO Como a doença pela vaca é que foi, tome um pouco de arrebenta-boi com meio quartilho de água-forte
e um pouco de vidro moído no Norte; 360 item duas outavas de mirra da Pérsia
com seis grãos de rosalgar de Suécia;
item meio arrátel de cuspo de cegonha.
Tudo isto a serenar logo o ponha,
e, fazendo um lambedor, 365 bebendo pela menhã achar-se-á melhor.
MARCHANTE Pois senhor, hei de beber rosalgar?
GRACIOSO Pois de que modo há de sarar?
Que como também os ratos furtam,
assim a curar os médicos costumam. 370 E no que toca às veias alteradas,
levará ũa estufa de pancadas.
MARCHANTE Isso de pancadas não pode ser de medecina.
GRACIOSO Assim o manda o autor Vaquinha,
e quando Deos quer, água fria é mezinha, 375 e isto quando latronem se curatur
cum oleaster corpus evacuatur.
MARCHANTE Por certo que o médico merece ũa estaca.
GRACIOSO Pois não sou médico, sou o dono da vaca,
e já que o meu dinheiro me não quis dar 380 às pancadas do corpo lho hei de tirar.
Dá-lhe.
Rúbrica v. 342: Em C não existe indicação de aparte.
358 pouco ] C pou
374 Jogo de palavras com o nome de uma suposta figura de autoridade da medicina e a situação da vaca.
376-377 Esta citação é uma deturpação do latim com o sentido de “o corpo do ladrão é curado através da evacuação”.
MARCHANTE Áque de el rei, não há quem me acuda, que não tenho osso que me não sacuda?!
GRACIOSO Escuse de me fazer tão grande aranzel,
caiu-me agora a sopa no mel. 385 MARCHANTE Ai, ai, não há quem me possa valer,
que o diabo do médico quer-me moer!
GRACIOSO Esta é a receita medecinal,
e para ladrão de vaca, unguento fatal.
MARCHANTE Ai, que me partiu pelo embigo! 390 GRACIOSO Enquanto não vem alguém, por aqui me sirvo.
Vá-se.
MARCHANTE Vai-te e o demo que te leve e mais nada da vaca se lhe deve!
Sai o Compadre e se levanta o Marchante.
COMPADRE Qu’é o que o médico tem receitado?
Porém, vós já estais levantado. 395 MARCHANTE Qual médico! Era o diabo que o leve,
que muito bem me cortiu a pele.
COMPADRE Pois quem era? Estais a zombar.
Aviai, que o remédio quero ir buscar.
MARCHANTE Não era médico o que comigo ficou, 400 era o dono da vaca que me derreou.
COMPADRE Eu já tal não posso sofrer!
Quem adevinhara, para o moer?
MARCHANTE Ajudai-me a deitar
e um confessor me ide logo chamar. 405 COMPADRE Ide aqui a mim encostado,
que se eu o pilhar, há de ser bem estoqueado.
MARCHANTE Ai, ai, suponho que aqui dou fim, a vaca bem cara me custou a mim.
Deita-se.
COMPADRE Tratai de descansar 410 que eu o reverendo vou chamar.
Vá-se.
MARCHANTE Ai, que eu estou aqui morrendo
e o corpo de pancadas me está tremendo.
Quem tal então adevinhara,
que nunca em tal vaca falara! 415 Sai o Compadre com o Gracioso vestido de clérigo feito cura.
Rúbrica entre os vv. 393 e 394 o Marchante ] C o Graçioso digo o Marchante
COMPADRE Aqui está o senhor reverendo.
MARCHANTE Ai, que estou quasi morrendo.
GRACIOSO Ora vamos em conclusão pôr este doente à santa unção:
qui habet de morsus infermorum 420 requiem eternum per seculorum.
COMPADRE Bem podeis aqui ficar sem mim,
que este não é o dono da vaca, que fala latim.
GRACIOSO Habes aliquid de que se acusar?
(à parte) Porém, o vergalho logo há de andar, 425 que a vaca não dá já senão para a ceia.
MARCHANTE Ai, que estou dando os fios à tea!
Se eu desta escapo com o corpo inteiro, não quero mais vaca nem carneiro.
GRACIOSO Não se meta com carneiro, que é caso profundo. 430 Encomende-se a Deos, que está moribundo.
MARCHANTE Se eu desta escapo ou escarapelo, não torno mais às bodas del cielo.
GRACIOSO Se Deos me quiser logo ajudar,
eu tratarei logo de te despenar. 435 Porém, diga-me, qual é a sua quexa?
MARCHANTE Um diabo de um homem que me não dexa.
Por amor de ũa vaca me moeu com um pau.
GRACIOSO Isso para a pagar não é mau.
Como são pancadas, aqui mora ũa molher 440 que, correndo a mão pelo peito,
há de o dexar são e escorreito.
(à parte) Vamos-lhe armando com outro bebedouro, que se eu desta maçada escapar,
eu lhe protesto tornar-lhe ao couro. 445 MARCHANTE Tomara que chegasse o meu compadre
para a ir chamar antes que seja mais tarde.
GRACIOSO E a tal vaquinha você furtou?
MARCHANTE Por meus pecados que para mim não foi.
GRACIOSO Pois diga, insolente, bexiga de alguidar, 450 espera você com isso de se salvar?
MARCHANTE Trate de se não enfadar comigo, que algum dia poderei estar erguido.
GRACIOSO Ai, que ainda de cama me está ameaçando!
Pois a roupa ao corpo lhe irei chegando. 455 Diga, cabeça de corropio, miolo de abóbora,
pague a quem deve senão andará como cobra.
420-421 Expressão em latim com o sentido de “Inferno, daquele que tem a doença, / descanso eterno através dos tempos”.
424 Expressão em latim com o sentido de “tem algo”.
430 De forma preservar o esquema rimático é feita a divisão dos versos. Em C: Não se meta com carneyro / que he cazo profundo.
443 Em C não existe indicação de aparte.
454 De forma a preservar o esquema rimático é feita a divisão dos versos. Em C: Ay, que ahinda de cama / me está ameaçando.