F.2 Rede quadrada com hopping entre segundos vizinhos
6.4 Conclus˜ oes e pr´ oximas etapas do trabalho
Estudamos a dinˆamica de n˜ao equil´ıbrio resultante de um quench de hibridiza¸c˜ao no qual conectamos cadeias met´alicas interagentes a uma impureza magn´etica. Analisamos tanto a evolu¸c˜ao temporal de observ´aveis locais no s´ıtio da impureza quanto a evolu¸c˜ao de cor- rela¸c˜oes n˜ao locais de spin entre a impureza e os el´etrons de condu¸c˜ao. Enquanto estudos envolvendo cadeias n˜ao-interagentes concentram-se em sistemas semi-preenchidos, em nossos resultados, variamos o potencial qu´ımico a fim de analisar cadeias met´alicas interagentes em preenchimento 1/4.
Observamos que o sistema tende a evoluir para o estado de equil´ıbrio (estado fundamen- tal das cadeias conectadas) ap´os o quench. Assim, o aumento da intera¸c˜ao U nas cadeias
met´alicas leva o sistema para um regime Kondo mais bem definido, conforme esperado pelos resultados de equil´ıbrio. Nossos resultados indicam que, para intera¸c˜ao U nas cadeias fixa, valores menores de Ud aceleram a forma¸c˜ao de correla¸c˜oes antiferromagn´eticas, o que indica
que quanto maior ´e a intera¸c˜ao de troca efetiva, Jef f ∝ t2/Ud, mais r´apida ´e a forma¸c˜ao da
nuvem Kondo. Mais importante, tamb´em observamos que para intera¸c˜ao Ud na impureza
fixa, a nuvem de blindagem Kondo desenvolve-se mais rapidamente para maiores valores da intera¸c˜ao U
Nossos resultados indicam tamb´em que a entropia de emaranhamento do sistema bipartido aumenta ao longo da dinˆamica, superando a entropia de equil´ıbrio. Al´em disso, observamos a forma¸c˜ao de cones de luz ap´os o quench e varia¸c˜oes locais de carga e spin se propagam com velocidades diferentes, devido `a separa¸c˜ao spin-carga das excita¸c˜oes no modelo de Hubbard. Conforme mencionado na se¸c˜ao anterior, o presente trabalho encontra-se em andamento. Para finaliz´a-lo, planejamos entender melhor os efeitos de assimetria entre cadeias pares e ´ımpares. Al´em disso, planejamos avaliar a evolu¸c˜ao das correla¸c˜oes e dos observ´aveis locais de forma mais quantitativa, a fim de investigar se elas apresentam algum tipo de comportamento universal, no qual escalas de tempo de decaimento dependem da temperatura Kondo, por exemplo.
Supercondutividade em sistemas
fortemente interagentes
Supercondutividade
O fenˆomeno de supercondutividade ´e um exemplo de propriedade emergente em sistemas de muitos corpos, isto ´e, n˜ao pode ser descrito por uma aproxima¸c˜ao de el´etrons independen- tes. Al´em da presen¸ca de correntes sem nenhuma resistˆencia mensur´avel, propriedade que d´a nome a essa fase da mat´eria, outra caracter´ıstica importante de supercondutores ´e a possibi- lidade de se comportarem como diamagn´eticos perfeitos. Isso ocorre porque a aplica¸c˜ao de um campo magn´etico externo sobre uma amostra de material supercondutor induz correntes de superf´ıcie capazes de produzir um campo que anula o campo externo, contanto que este n˜ao seja muito intenso [48]. Isso significa que um campo magn´etico n˜ao consegue penetrar no interior de um supercondutor. E justamente essa propriedade, conhecida como efeito´ Meissner, a respons´avel pelo fenˆomeno de levita¸c˜ao magn´etica, observado nesses materiais.
Dependendo do comportamento do campo magn´etico no interior dos supercondutores, podemos separ´a-los em dois tipos, chamados de I e II. No primeiro, n˜ao h´a nenhuma pe- netra¸c˜ao de campo; no segundo, pode haver um estado misto, com penetra¸c˜ao parcial para campos intermedi´arios.
Outra caracter´ıstica de supercondutores, com importantes implica¸c˜oes em suas proprie- dades termodinˆamicas, ´e a presen¸ca de um gap de energia em torno do n´ıvel de Fermi. As primeiras confirma¸c˜oes experimentais da presen¸ca do gap ocorreram por meio de medidas de calor espec´ıfico em amostras de van´adio, ni´obio e estanho, abaixo de suas temperaturas cr´ıticas [186]. Os autores observaram que o calor espec´ıfico apresenta um comportamento proporcional a exp(−/kT ), sendo a magnitude do gap, k a constante de Boltzmann e T a temperatura do sistema. Mais tarde, essa propriedade foi prevista pela teoria que des- creve supercondutores met´alicos convencionais, proposta por Bardeen, Cooper e Schrieffer e conhecida como teoria BCS [8].
A supercondutividade n˜ao ´e observada apenas em alguns materiais. Mais de 20 metais possuem essa propriedade quando resfriados abaixo de uma dada temperatura cr´ıtica; ainda
mais elementos podem apresentar tal propriedade se, al´em de resfriados, forem submetidos a altas press˜oes. Se incluirmos ligas, a lista de materiais que podem apresentar essa fase da mat´eria chega aos milhares. Hoje sabe-se tamb´em que a supercondutividade n˜ao ´e uma fase exclusiva de sistemas met´alicos convencionais. J´a se observou supercondutividade em sistemas puramente orgˆanicos [187,188]; h´a tamb´em cupratos (compostos de ´oxidos de cobre) supercondutores de alta temperatura cr´ıtica [189, 190]; al´em de compostos com base em ferro (pnict´ıdeos e calcogˆenios) [191, 192]. Embora apresentem propriedades em comum em diferentes tipos de materiais, a supercondutividade tem origens distintas, conforme discutido mais adiante.
No presente cap´ıtulo, faremos uma breve revis˜ao da literatura relacionada a supercondu- tores. Apresentaremos concisamente o desenvolvimento hist´orico desse campo de pesquisa, al´em de algumas aplica¸c˜oes tecnol´ogicas dos materiais que apresentam essa fase da mat´eria. Al´em disso, enumeraremos as caracter´ısticas comuns de um importante tipo de supercondu- tor, os cupratos, que apresentam alta temperatura cr´ıtica.
7.1
Principais momentos do desenvolvimento hist´orico
A primeira observa¸c˜ao experimental do fenˆomeno de supercondutividade ocorreu em 1911, quando H. K. Onnes [193] (prˆemio Nobel em f´ısica de 1913 por suas investiga¸c˜oes sobre as propriedades da mat´eria a baixas temperaturas que levaram, entre outras coias, `a produ¸c˜ao de h´elio l´ıquido) observou que a resistividade el´etrica do merc´urio vai abruptamente a zero quando este ´e resfriado abaixo de 4K. O resfriamento s´o foi poss´ıvel com o aux´ılio de h´elio l´ıquido, obtido a partir de 1908. Em 1933, Meissner e Ochenfeld observaram que supercon- dutores possuem a propriedade de “expulsar” campos magn´eticos aplicados. A observa¸c˜ao de tal propriedade contribuiu para a classifica¸c˜ao de supercondutividade como um novo estado da mat´eria.
Os materiais supercondutores ganharam descri¸c˜oes te´oricas nos anos seguintes. Em 1934, F. e H. London [194] propuseram uma teoria baseada na combina¸c˜ao de dois fluidos (nor- mal e supercondutor); com generaliza¸c˜oes das equa¸c˜oes de Maxwell, eles foram capazes de descrever diversas propriedades desses materiais, incluindo o efeito Meissner. O estudo de supercondutividade ganhou novos elementos com a teoria de Ginzburg e Landau, apresentada em 1950, que descreve a transi¸c˜ao entre a fase normal e a fase supercondutora [195]. Ambas as contribui¸c˜oes acrescentaram muito para a descri¸c˜ao de supercondutores, mas consistem em teorias fenomenol´ogicas, portanto n˜ao explicam os mecanismos respons´aveis pelo fenˆomeno. Tal explica¸c˜ao foi fornecida por Bardeen, Cooper e Schrieffer em 1957 (prˆemio Nobel em f´ısica de 1972 “pelo desenvolvimento, realizado em conjunto, da teoria de supercondutividade, usu- almente conhecida como teoria BCS”) [8]. Eles demonstraram que a condu¸c˜ao de corrente
sem dissipa¸c˜ao ´e realizada por pares de el´etrons, denominados pares de Cooper. Tais pares tˆem spins e momentos opostos e permanecem ligados devido a intera¸c˜oes com as vibra¸c˜oes da rede (fˆonons). Uma introdu¸c˜ao `a teoria BCS ´e apresentada no Apˆendice D.
Em 1962, Josephson observou que pares de Cooper poderiam atravessar uma fina camada isolante na jun¸c˜ao entre dois supercondutores [196, 197] (prˆemio Nobel em f´ısica de 1973 pela previs˜ao te´orica das propriedades de uma supercorrente atrav´es de uma barreira de tunela- mento, em particular pelos fenˆomenos conhecidos como efeito Josephson). Essa propriedade, conhecida como tunelamento Josephson, ´e utilizada em diferentes dispositivos tecnol´ogicos.
Uma nova “revolu¸c˜ao” no estudo de supercondutores ocorreu em 1986, quando K. A. Muller e J.G. Bednorz [189] observaram que um material constitu´ıdo por La-Ba-Cu-O pode se tornar supercondutor a temperaturas em torno de 30K (Bednorz e Muller receberam o prˆemio Nobel de f´ısica em 1987 pelo importante avan¸co produzido pela descoberta de super- condutividade em materiais cerˆamicos). Em geral, os supercondutores conhecidos at´e aquele momento eram bem descritos pela teoria BCS, o que n˜ao ocorre no caso do composto no qual Muller e Bednorz observaram supercondutividade. Trata-se de uma material cerˆamico, isolante a temperatura ambiente e com temperatura cr´ıtica superior `a observada nos su- percondutores convencionais conhecidos `a ´epoca. A partir de ent˜ao, diversos pesquisadores observaram supercondutividade em materiais constitu´ıdos por ´oxidos de cobre, conhecidos como cupratos, com recordes de temperatura cr´ıtica em torno de 160 K.
Ap´os a descoberta dos cupratos, intensificou-se a busca por compostos supercondutores de alta temperatura cr´ıtica, pois quanto maior a temperatura abaixo da qual a resistividade do material cessa, mais barata e f´acil ´e a obten¸c˜ao de supercondutividade em larga escala, para aplica¸c˜ao em dispositivos tecnol´ogicos. Em 2008, Kamihara et al.. observaram super- condutividade em um composto baseado em ferro, com temperatura cr´ıtica de 26 K [191]. Essa fam´ılia de novos supercondutores tem recorde de temperatura cr´ıtica em torno de 60 K [192]. A Figura 7.1 apresenta a temperatura cr´ıtica de alguns compostos em fun¸c˜ao do ano de descobrimento. Diferentes cores e s´ımbolos representam diferentes fam´ılias de super- condutores. Losangos azuis representam cupratos, estrelas verdes correspondem a compostos de f´ermions pesados,1 quadrados laranjas indicam compostos baseados em ferro,2 triˆangulos
1F´ermions pesados s˜ao materiais compostos por terras raras ou actin´ıdeos, com orbitais f semi-preenchidos
(tipicamente 4f e 5f ). A forte intera¸c˜ao el´etron-el´etron nesses orbitais faz com que os el´etrons de condu¸c˜ao se comportem como se tivessem massa at´e 1000 vezes maior do que a massa de el´etrons livres (isto ´e, pos- suem grande massa efetiva, definida na teoria de l´ıquido de Fermi). Esse comportamento foi primeiramente observado em 1975 por Andres, Graebner e Ott em CeAl3 [198]. Outros exemplos de f´ermions pesados s˜ao
CeCu6, CeCu2Si2, Y bAl3, U Be13e U P t3. Como tais materiais s˜ao caracterizados pela presen¸ca de momen-
tos magn´eticos locais, acreditava-se que seriam incompat´ıveis com supercondutividade, no entanto, Steglich et al. observaram, em 1979, que CeCu2Si2torna-se supercondutor abaixo de Tc = 0.5 K [199]. A supercon-
dutividade nesses compostos ´e n˜ao convencional, provavelmente relacionada a propriedades magn´eticas [200].
2Supercondutividade em compostos baseados em ferro foi observada pela primeira vez por Kamihara et
al., em 2008, em La[O1xFx]F eAs (x = 0.05 − 0.12) com Tc = 26 K [191]. Esses supercondutores tamb´em
representam supercondutores orgˆanicos e, finalmente, c´ırculos verdes simbolizam supercondu- tores convencionais, descritos pela teoria BCS. ´E interessante notar que, em 2015, observou-se um supercondutor convencional com temperatura cr´ıtica superior a de cupratos. Trata-se de um hidreto molecular, H2S, que torna-se supercondutor quando submetido a press˜oes muito
elevadas (em torno de 155 GPa) e temperaturas inferiores a 190 K [201].
Figura 7.1: Temperaturas cr´ıticas de compostos supercondutores em fun¸c˜ao do tempo. Lo- sangos azuis representam cupratos, estrelas verdes correspondem a compostos de f´ermions pesados, quadrados laranjas indicam compostos baseados em ferro, triˆangulos representam supercondutores orgˆanicos e, finalmente, c´ırculos verdes simbolizam supercondutores conven- cionais. Figura retirada de [202].