2.3 CORPO, SUJEITO, DISCURSO
2.3.3 Condições de produção e interdiscurso
No campo da AD a ideologia está imbricada no discurso e o sentido é determinado por condições de produção históricas, sociais, enunciativas. O discurso é sempre atravessado pelas falas do Outro (mundo simbólico). Não existe discurso que não esteja relacionado ao sujeito e às formações ideológicas. Então, é necessário considerar o discurso a partir de suas condições de produção, de sua filiação histórica. Assim, a ideologia é historicamente determinada no imaginário social, pois que ela atua como um mecanismo que “naturaliza” as coisas e produz a sensação de que a língua não é opaca. Produz o apagamento do processo de constituição dos sentidos, “é interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários.” (ORLANDI, 1999, p. 31; p.66).
Cotidianamente construímos sentidos em relação aos objetos com os quais nos deparamos. Tal construção de sentidos ajuda-nos a nos situarmos em relação à “realidade” e a descrevê-la, explicá-la. Achamos um sentido relacionando com o que há, com o conhecimento compartilhado, mas implicados na ideologia que nos banha. Há aí a impressão primeira de um sentido único, transparente. As condições de produção não são consideradas. O dispositivo ideológico da interpretação funciona como um limitador, balizador dos sentidos, ou seja, quando Orlandi diz que há sempre “injunção à interpretação” (ORLANDI, 1999), podemos entender que há necessidade de atribuir sentido aos objetos, mas tal sentido é controlado pelas condições de produção, pela posição do sujeito, pela ideologia. O gesto de interpretação do sujeito é carregado de uma memória (filiação), mas que é apagada: “toda formação social tem formas de controle da interpretação, que são historicamente determinadas.” (ORLANDI, 1999, p. 93).
Considerar as condições de produção implica considerar o discurso fruto de situações concretas, dentro de um período histórico, dentro de um jogo de interesses, que o originam. Tais condições, em sentido amplo, referem-se ao contexto sócio-histórico-cultural,
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Maingueneau (1995) denomina cenografia ( já apresentado na introdução) a situação que “define as condições de enunciador e co-enunciador, mas também o espaço (topografia) e o tempo (cronografia) a partir dos quais se desenvolve a enunciação”.
econômico e político-ideológico, nos quais se produzem enunciados que aparecem relacionados a determinada época e espaço social. Em sentido estrito, as condições de produção são as circunstâncias da enunciação, o contexto imediato (entretanto, mesmo os contextos imediatos são parte de uma história) e o contexto amplo que o abarca.
O sujeito, ao ocupar determinada posição, filia-se a uma ou a outra rede no espaço temporal e é a partir dessa rede de filiações que os enunciados fazem sentido, vinculam-se às condições de produção.
A formação ideológica está interligada a um ou vários espaços de uma rede, o que determinará o que “pode” ou “deve” ser dito, e como dizer. Assim, espaços territoriais do discurso são marcados por uma configuração específica, de que o analista dará conta a partir de certo olhar e interesse de análise (por exemplo, território feminista, empresarial, religioso, etc.). São, certamente, territórios heterogêneos, onde coabitam vozes dissonantes. Tal polifonia caracteriza o interdiscurso.
A noção de interdiscurso supõe “todo o conjunto de formulações já feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos” (ORLANDI, 1999, p.33). Este já-dito é o que faz com que o dizer signifique independentemente da vontade do sujeito. Constitui aquilo que é dito, mas o sujeito, afetado pelo esquecimento, não o detém, nem mesmo o reconhece. Ou seja, o interdiscurso é difuso, irrepresentável, portanto, nós não o alcançamos. Daí que se considere a memória discursiva de cada território (estabelecido a cada análise pelo analista) como aquela que vai constituir manifestações discursivas dos sujeitos que, circunstancialmente, adotem uma posição-sujeito nesse território18. Por isso recebe a denominação ‘memória constitutiva’19:
constituída por aqueles sentidos possíveis de se tornarem presentes no acontecimento da linguagem. [...] Para fazer sentido é necessário que outros sentidos (possíveis) permaneçam não-ditos e, assim, se apaguem para o sujeito. Esse processo [...] se dá na e pela enunciação, no acontecimento do dizer que (re) atualiza as relações entre o lingüístico e a história, nas redes de memória face ao não-dito. É assim que o interdiscurso se faz memória discursiva e produz uma "mexida" nas redes de memória, instaurando o efeito de diferente, de outro dizer (AGUSTINI, 2007, p.305).
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Para uma analogia (ainda que precária), pensemos em território como algo fragmentado e heterogêneo, ao estilo geográfico do sultanato de Oman (sudoeste asiático), composto de três partes: um corpo principal e duas regiões incrustadas nos Emirados Árabes Unidos: Madha (enclave) e a peninsula de Musandam (extremo norte).
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Orlandi (2006, p. 21-22) distingue interdiscurso e memória de arquivo: esta “[...] representa o discurso documental, a memória institucionalizada [...] fica disponível, arquivada em nossas instituições e da qual não esquecemos.”
Na produção discursiva os interlocutores (do ponto de vista pragmático) se relacionam a partir de identidades constituídas pela posição-sujeito que ocupam nas relações enunciativas a partir de determinado espaço, ou seja, os lugares que os interlocutores atribuem a si e ao outro, a representação de lugares que ocupam em uma estrutura social (lugar de mãe, de professora, de presidente, de médico, etc.) e o contexto histórico-social e ideológico (os interlocutores que falam, para quem falam, de que lugares da sociedade falam – posição social, status – que filiações caracteriza(m) esse dizer). Tais lugares estão representados nos processos discursivos a partir de uma série de formações imaginárias, isto é, a imagem que locutor e alocutário atribuem a si e ao outro, imagem que fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro (PÊCHEUX, 1995).
As formações imaginárias se constituem na relação do sujeito com o mundo. Tal relação é definida e orientada pelos territórios/filiações que se sustentam em uma dada formação ideológica. Os mecanismos de funcionamento do discurso (relação de sentidos, antecipação, relação de forças)
repousam no que chamamos formações imaginárias. Assim não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como tal, isto é, como estão inscritos na sociedade, e que poderiam ser sociologicamente descritos, que funcionam no discurso, mas suas imagens que resultam de projeções. São essas projeções que permitem passar das situações empíricas – os lugares dos sujeitos – para posições dos sujeitos no discurso. Essa é a distinção entre lugar e posição (ORLANDI, 1999, p. 40).
O imaginário pode ser entendido como o mundo em que vivemos (“realidade”), no qual se busca compartilhar de um sentido (aparentemente) único. Por exemplo, o enunciado “vamos almoçar”. Compartilhando de um mesmo espaço imaginário, compreendemos o significado do enunciado. Em se tratando de simbólico, nos depararíamos com uma pluralidade de sentidos. Ou seja, cada interlocutor depreenderia um sentido diferente em relação ao mesmo enunciado. Isto porque “não há uma relação direta do homem com o mundo, ou melhor, a relação do homem com o pensamento, com a linguagem e com o mundo não é direta [...]” (ORLANDI, 1996b, p. 12), há uma relação com a representação, portanto, com o imaginário, e este é mediado pela interpretação (dos sujeitos) de formas simbólicas que o identificam.
Cada enunciado é re-significado (reposicionado, digamos) e produz sentidos outros se constituindo, portanto, como algo da ordem do “imaginário” que é representado via simbólico. Isto significa que não há sentidos literais armazenados (ORLANDI, 1996b). Os sentidos são simbólicos: constituídos a partir da ideologia e do inconsciente.
As formações imaginárias se constituem na relação do sujeito com o mundo promovendo mecanismos de projeção desse sujeito na sociedade. Esse processo de constituição do sujeito se realiza via simbólico (na linguagem), via discurso. O espaço simbólico permite que ocorra a relação entre o sujeito e o mundo (natural e social). Isto é, as pessoas se relacionam a partir de imagens de si e do outro, construídas e representadas em um mundo que é simbólico e no qual convivem diferentes linguagens, onde o silêncio também significa.