2.3 CORPO, SUJEITO, DISCURSO
2.3.1 Corporeidade: corpo no/do discurso
O corpo discursivo não é o corpo que fala, que trabalha, que vive – carne e osso–, ainda que seja com este (ou através desse), com suas funções biológicas, o que permite a existência do sujeito empírico que, por sua vez, torna possível falar em sujeito do discurso, afinal, a linguagem humana é possibilitada pelo aparato neurobiológico do qual somos formados. A existência material do corpo implica em um organismo, é vida, mas o caráter representacional deste corpo é que é tomado como objeto de estudo de grande parte das ciências humanas: o corpo em sua existência histórica.
Para olhar discursivamente para o corpo é necessário tomá-lo em seu todo. Não há como negar a dimensão biofísica com a constituição genética da espécie humana que permite movimento, que diferencia macho e fêmea, que distingue uma pessoa da outra (traços faciais), entre outras. Entretanto, a dimensão simbólica afeta e constitui esta matéria que ganha sentidos: o modo como o corpo é representado confere a ele um determinado sentido.
O corpo é tomado por Foucault como objeto de ciência e poder numa perspectiva histórica. Ao abordar o corpo como entrelaçado à história, o autor destaca a relevância dos discursos sobre o corpo, o qual sofre transformações em cada época e é desmembrado ou interpretado de formas complementares ou divergentes por distintas áreas do conhecimento: médicas, políticas, pedagógicas, jurídicas, etc.
No curso intitulado Em defesa da sociedade, Foucault (2005) apresenta os conceitos de biopolítica e biopoder. O termo ‘biopoder’ considera o corpo tomado como instrumento de saber: produz-se saberes sobre o corpo e estes saberes conferem poder sobre ele. O corpo é tomado como alvo do saber pelas ciências e essas adquirem um status de verdade incontestável. “A ‘verdade’ é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem” (FOUCAULT, 1998, p. 13). O saber produzido fomenta ainda mais poder que é voltado a esse mesmo corpo. O termo ‘biopolítica’ é utilizado referindo-se aos conhecimentos biológicos que são usados para respaldar as políticas e regulamentar a vida das populações: as formas e limites de circulação do corpo na sociedade, tendo em vista sua regulamentação da vida e o disciplinamento dos indivíduos. Em Vigiar e Punir (FOUCAULT, 1987), o autor destaca o poder disciplinar (controle, vigilância, adestramento) na produção dos corpos dóceis visando à massificação das populações, determinando espaços e identidades, impondo-se um modelo de conduta aos indivíduos. O disciplinamento consiste em
métodos de controle minucioso de operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhe opõem uma realidade de docilidade-utilidade [...] É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado (FOUCAULT, 1987, p.118).
Todo esse poder disciplinar sobre o corpo é exercido incorporeamente, isto é, não há necessidade de tocar fisicamente o corpo, de impingir-lhe suplícios, mas de atingir este corpo pelos discursos, pelo estabelecimento de palavras de ordem, de regras e outros signos. O corpo, que até o século XVIII era corrigido ou punido através de castigos físicos de diferentes intensidades e, penalmente, a desobediência era marcada pelos horrores do esquartejamento, das mutilações, ao final do mesmo século passa a ser corrigida através da educação, pedagogia, psicologia, psiquiatria. Todavia, castigos impostos fisicamente coexistem com as novas práticas de correção, mas seu emprego disciplinar, no que se refere ao exercício do poder, não é meramente punitivo, mas disciplinador; e seu emprego é menos intenso e mais combatido, inclusive com clichês como: “violência gera violência” 15. Mesmo a palmada, estratégia disciplinar educadora das famílias, é desaconselhada como método eficaz, argumentando-se que, além de não disciplinar a criança, promove consequências negativas ao seu desenvolvimento16. Na perspectiva foucaultiana, portanto, a existência do sujeito (pessoa) no mundo é marcada pelo corpo, e o modo de representá-lo está ligado a construções ideológicas, as quais são elaboradas a fim de demarcar espaços de circulação e existência para estes corpos a partir e através de relações de poder. Tais relações de poder se estabelecem também nas instituições sociais formais e informais e, portanto, compõem a organização escolar, fundando discursos que preconizam ordem e disciplina para apreender o saber e aprender a ser: cidadão bem comportado, ético.
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e saberes? [...] Todo sistema de
15
“Violência gera violência, os fracos julgam e condenam, porém os fortes perdoam e compreendem”. Autoria de Augusto Cury: médico psiquiatra e escritor brasileiro. Fonte: <http://www.e-biografias.net/augusto_cury>. A primeira frase tem sido reproduzida no cotidiano brasileiro na conversa entre as pessoas, em letras de músicas, reportagens televisivas, entre outros meios.
16
Projeto de lei 7.672, mais conhecido como a "lei da palmada", que proíbe pais de aplicarem castigos físicos nos filhos. Prevê a mudança da lei 8.069, de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), ao estabelecer "o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante". Apresentado pela primeira vez pelo Poder Executivo, em julho de 2010, está aguardando votação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Fonte: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/458022-CCJ-ADIA-
NOVAMENTE-REDACAO-FINAL-DA-%E2%80%9CLEI-DA-PALMADA%E2%80%9D-E-ENCERRA- SESSAO.html>. Acesso em: 09 jan. 2014.
educação é uma maneira política de manter ou modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo (FOUCAULT, 1998, p. 44).
O poder-saber circula e se correlaciona em diversas instâncias e instituições sociais. As escolas sujeitam os corpos com suas práticas disciplinares: gestos, comportamentos, pensamentos precisam se adequar às normas prescritas.
Não há corpo que não esteja investido de sentidos, e que não seja o corpo de um sujeito que se constitui por processos nos quais as instituições e suas práticas são fundamentais para a forma com que ele se individualiza, assim como o modo pelo qual, ideologicamente, somos interpelados em sujeitos, enquanto forma sujeito histórica (ORLANDI, 2012, p. 93).
O corpo do sujeito é historicamente significado e, portanto, atravessado por uma memória discursiva que possibilita práticas discursivas a partir das quais lugares sociais do sujeito são determinados.