1 INTRODUÇÃO
2.3 COMPARTILHAMENTO DO CONHECIMENTO
2.3.1 Conhecimento e Tipos de Conhecimento
Como as empresas obtêm e mantêm vantagem competitiva é a principal preocupação da gestão estratégica (BARNEY, 1991). Na literatura, a visão da empresa, baseada em recursos (RBV), foi fortemente enfatizada, entre outras características, como potencial de conhecimento organizacional, explicando a variação no desempenho das empresas, e com isso, a geração de vantagem competitiva sustentável (GRANT, 1996). A RBV originou-se a partir do trabalho de Edith Penrose (1959), na qual a empresa é descrita como um conjunto de recursos. Nas palavras da autora “[...] uma firma é mais que uma unidade administrativa; é
também uma coleção de recursos produtivos cuja disposição entre diferentes usos e ao longo do tempo é determinada por decisões administrativas” (PENROSE, 1959, p. 24) e mais tarde
expandida por outros como Barney (1991) e Conner (1991).
Barney (1991) concorda e amplia a perspectiva original de Penrose (1959), afirmando que o conjunto de recursos da firma não é somente uma lista de fatores, mas o processo de interação entre estes recursos, bem como seus efeitos sobre a organização. Portanto, o valor estratégico do recurso não é apenas resultado do recurso em si, tampouco sua ligação com outro, mas a malha de relações que existe entre todo o conjunto de recursos controlados pela organização.
A centralidade do conhecimento na RBV levou a uma visão baseada no conhecimento (CONNER, 1991; GRANT, 1996; KOGUT; ZANDER, 1992; NONAKA, 1994; SPENDER, 1996), que argumenta que o conhecimento específico é a base da vantagem competitiva sustentável e fonte de rendas econômicas (BARNEY, 1991; GRANT, 1996). Sendo amplamente discutido que o conhecimento é o ativo mais importante de uma empresa, pois a competição é baseada no conhecimento (BARNEY, 1991; GRANT, 1996). Neste sentido, o conhecimento acumulado da empresa fornece opções de expansão em novos mercados de propósitos incertos no futuro (KOGUT; ZANDER, 1992).
Desta maneira, a teoria do conhecimento da firma (KBV) tem origem na RBV, na medida em que a visão se concentra no conhecimento como o mais estrategicamente importante recurso da empresa, sendo uma consequência da visão baseada em recursos. Ao mesmo tempo, o conhecimento é fundamental para várias tradições de pesquisa, bem distintas, como aprendizagem organizacional, gestão de tecnologia e cognição gerencial (GRANT, 1996).
O pilar para qualquer teoria da empresa é um conjunto de premissas iniciais que formam a base para o desenvolvimento lógico de proposições a respeito da estrutura, comportamento, desempenho e, de fato, a própria existência das empresas (GRANT, 1996). “O desenvolvimento de uma teoria do conhecimento da empresa levanta a questão: O que é o conhecimento? Esta questão tem intrigado alguns dos maiores pensadores do mundo de Platão a Popper, sem o surgimento de um consenso claro” (GRANT, 1996, p. 2).
Em termos de definição de conhecimento, tudo o que se oferece, além da simples tautologia “daquele que é conhecido”, é o reconhecimento de que existem muitos tipos de conhecimentos relevantes para a empresa (GRANT, 1996). O conceito de conhecimento é multifacetado, com significados em várias camadas. A história da filosofia, desde o período grego clássico, pode ser considerada como uma busca incessante pelo sentido do
conhecimento (NONAKA, 1994), porém, nos últimos anos houve um interesse crescente tratando conhecimento como um recurso organizacional significante (ALAVI; LEIDNER, 2001).
Diante do exposto acima, faz-se necessária a compreensão dos conceitos de dado e informação. Assim será possível a obtenção de um melhor entendimento sobre o conceito de conhecimento (DAVENPORT; PRUSAK, 2000). Pois, alguns autores, a maioria é notadamente da literatura de TI, abordam a questão da distinção entre conhecimento, informações e dados (ALAVI; LEIDNER, 2001).
Os dados podem ser classificados como números brutos, imagens, palavras e sons derivados da observação ou da medição. As informações representam os dados dispostos em um padrão significativo. Ao contrário da informação, o conhecimento se dá sobre as crenças, compromissos, perspectivas, intenções e ações (NONAKA, 1994).
“Os dados são conjuntos de fatos discretos e objetivos sobre eventos. Em um contexto organizacional, dados são mais utilitariamente descritos como registros estruturados de transações” (DAVENPORT; PRUSAK, 2000, p. 2). Por isso, os dados precisam passar por um processo de transformação para se tornarem úteis. Após este processo de transformação, são chamados de informação. É considerada informação no momento em que passa a ser compreensível, que se torna parte de uma mensagem que busca impactar a forma como o seu destinatário vê ou julga algo (DAVENPORT; PRUSAK, 2000). “A informação se destina a alterar o modo como o receptor percebe algo, para ter um impacto sobre o seu julgamento e comportamento” (DAVENPORT; PRUSAK, 2000, p. 3).
Comparado aos dados e as informações, o conhecimento em geral é um conceito mais elusivo (NAN, 2008). Já Davenport e Prusak (2000, p. 5) argumentam que “o conhecimento deriva da informação como a informação derivada de dados”. No entanto, Alavi e Leidner (2001) defendem que a presunção de que há uma hierarquia de dados para informação em conhecimento nem sempre é verdadeira, uma vez que pode haver uma dependência de contexto, utilidade ou interpretação.
O que é fundamental para efetivamente distinguir informação de conhecimento não é encontrado no conteúdo, na estrutura, na precisão, ou na suposta utilidade da informação ou conhecimento. Em vez disso, o conhecimento é informação assimilada na mente de indivíduos: é informação personalizada (que pode ou não ser novo, único, útil ou preciso) relacionada a fatos, procedimentos, conceitos, interpretações, ideias, observações e julgamentos (ALAVI; LEIDNER, 2001).
Nonaka e Takeuchi (1995) fazem três observações sobre as semelhanças e diferenças entre conhecimento e informação. Primeira, o conhecimento, ao contrário da informação, diz respeito à crença e compromissos. Segunda, o conhecimento, ao contrário da informação, está relacionado à ação. Terceira, o conhecimento, como a informação, diz respeito ao significado. Em resumo, a informação é um fluxo de mensagens, enquanto que o conhecimento é criado por esse próprio fluxo de informação, ancorado nas crenças e compromissos de seu detentor. Essa compreensão enfatiza que o conhecimento está essencialmente relacionado à ação humana (NONAKA, 1994).
O conhecimento pode ser visto de várias perspectivas: 1) um estado de espírito; 2) um objeto; 3) um processo; (4) um acesso à informação; ou (5) uma capacidade (ALAVI; LEIDNER, 2001). Já Nonaka e Takeuchi (1995) definem o conhecimento como informação combinada com experiência, outros conhecimentos, crenças, as lições aprendidas e assimiladas por pessoas. Esta definição implica que o conhecimento é uma habilidade - a exercer um tipo de especialização (NAN, 2008).
Outra definição por Davenport e Prusak (2000, p. 4) nos oferece uma compreensão mais ampla do conhecimento.
[...] uma mistura fluida de experiência condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, a qual proporciona uma estrutura para avaliação e incorporação de novas experiências e informações. Ele tem origem e é aplicado na mente dos conhecedores. Nas organizações, ele costuma estar embutido não só em documentos e repositórios, mas também em rotinas, processos, práticas e normas organizacionais.
Estudos anteriores indicaram que o conhecimento pode ser classificado em dois tipos: conhecimento explícito e conhecimento tácito (POLANYI, 1983; NONAKA, 1994; ALAVI; LEIDNER, 2001; WILLIAMS, 2006). A dimensão de conhecimento tácito ou conhecimento explícito (Quadro 8) reflete com a variabilidade da natureza intangível de conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI, 1995).
Quadro 8 - Distinção entre os Dois Tipos de Conhecimento
Conhecimento Tácito Conhecimento Explícito
(Subjetivo) (Objetivo)
Conhecimento da experiência Conhecimento da racionalidade
(corpo) (mente)
Conhecimento simultâneo Conhecimento sequencial
(aqui e agora) (lá e então)
Conhecimento análogo Conhecimento digital
(prática) (teoria)
O conhecimento que se pronunciou, formulado em frases, capturado em desenhos e redações, chama-se explícito. O conhecimento explícito tem um caráter universal, apoiando a capacidade de atuar em diferentes contextos (NONAKA; VON KROGH, 2009). Em outras palavras, o conhecimento explícito pode ser verbalizado e documentado, por rotinas organizacionais, processos, melhores práticas, normas, credos, valores expostos em painéis, entre outros. O conhecimento explícito refere-se ao conhecimento que é transmissível, formal e com linguagem sistemática (NONAKA, 1994; NONAKA; TAKEUCHI, 1995).
Já o conhecimento tácito é de difícil extração e manipulação, sendo executado e exercido na ação, isto é, na prática. O conhecimento tácito é profundamente enraizado na ação, envolvimento, compromisso de cada indivíduo, é subjetivo e individualizado, refere-se ao know-how prático obtido pela experiência e interação direta com um domínio ou profissão (NONAKA, 1994; NONAKA; TAKEUCHI, 1995). O conhecimento tácito é o que o especialista conhece praticando - é o que permite o indivíduo fazer o que faz (NAN, 2008).
Existem dois tipos de conhecimento tácito: conhecimento expresso e conhecimento inexprimível. É possível traduzir o conhecimento tácito expresso em um determinado conjunto de regras e procedimentos, para que outras pessoas possam exercer a expertise da mesma maneira. Em contrapartida, o conhecimento tácito inexprimível não é redutível a uma regra ou conjunto de regras. Somente o indivíduo que a possui pode exercer o conhecimento de uma forma consistente (NAN, 2008).
Na geração de conhecimento, os atores traduzem um conjunto montado de conhecimento tácito e explícito em uma forma adequada para transferência para outros (GEISLER, 2007). Esta etapa inclui: a verbalização do que sabem, a criação de telas e formatos visuais, estabelecimento ou seguimento de padrões de conteúdo codificado, de modo que os receptores deste conhecimento sejam capazes de decodificar, entender e usar o que eles recebem (HEINRICHS; LIM, 2005).
A classificação do conhecimento tácito-explícito é amplamente citada, apesar de diversas classificações de conhecimento; existem outras que evitam as sutilezas recônditas das dimensões: tácito-explícito. Alguns se referem ao conhecimento como declarativo (know-
about), processual (know-how), causal (know-why), condicional (know-when), e relacional
(know-with). Uma abordagem de classificação pragmática ao conhecimento tenta identificar tipos de conhecimento que são úteis para as organizações. Exemplos incluem o conhecimento sobre os clientes, produtos, processos e concorrentes, o que pode incluir as melhores práticas,
know-ho, as regras heurísticas, padrões de código de software, processos de negócios e
conceito de taxonomias de conhecimento é muito importante, porque os desenvolvimentos teóricos na área da gestão do conhecimento são influenciados pela distinção entre os diferentes tipos de conhecimento (ALAVI; LEIDNER, 2001).
Quadro 9 - Taxonomias de Conhecimento e Exemplos
Tipos de Conhecimento Definições Exemplos
Tácito Conhecimento está enraizado em
ações, experiência e envolvimento no contexto específico.
Melhor meio de lidar com o cliente específico.
Tácito Cognitivo Modelos Mentais. Crença individual sobre relações causa-efeito.
Tácito Técnico know-how aplicável a trabalho específico.
Habilidades cirúrgicas.
Explícito Articulado, conhecimento
generalizado.
Conhecimento dos principais clientes em uma região.
Individual Criado inerente ao indivíduo. Conhecimentos adquiridos a partir de projeto concluído.
Social Criado em ações coletivas de um
grupo.
Normas para intergrupos de comunicação.
Declarativo know-about (saber-sobre). Qual o medicamento é apropriado para uma doença.
Processual know-how (saber-como). Como administrar um
medicamento particular.
Causal know-why (saber-por que). Entender por que o medicamento
funciona.
Condicional know-when (saber-quando). Compreender quando prescrever o
medicamento.
Relacional know-with (saber-com). Compreender como o fármaco
interage com outros medicamentos.
Pragmático Conhecimento útil para uma
organização.
Melhores Práticas, estruturas empresariais, experiências de projetos, desenhos de engenharia, relatórios de mercado.
Fonte: Adaptado de Alavi e Leidner (2001, p. 7)
Por fim, ao interagir e compartilhar conhecimento tácito e explícito com outros, o indivíduo melhora a capacidade de definir uma situação ou problema, e aplica o seu conhecimento, de modo a atuar e, especificamente, de resolver o problema (NONAKA; VON KROGH; VOELPEL, 2006). Sendo assim, nesta tese foram estudados os dois tipos de conhecimento, pois, ao longo do tempo, a qualidade da interação dos tipos de conhecimento, explícito e a evolução do tácito, podem levar a novas melhorias e, daí, a uma performance superior da empresa (SPENDER, 1996).