Organograma 2 – Formação utópico-evolucionista: Autoconsciência
6.1 Conhecimento tecnológico e vantagem competitiva
Em um ambiente competitivo, o conhecimento tecnológico como vantagem é o desejo dos países no mundo globalizado. Desse modo, a Universidade se encontra como a formadora de mão de obra especializada. O Estado, por sua vez, cria a expectativa de inovação tecnológica para a sua valorização no mercado global. Para o melhor entendimento dessa série histórica sobre tecnologia, estes parágrafos iniciais irão tentar reproduzir resumidamente o caminho civilizatório da produção do conhecimento.
Durante anos a civilização abarcou diversas culturas para a constituição de seu mapa histórico, assim elaborando várias estruturas de hierarquia para a construção e concretização do conhecimento humano gerado através dos tempos. Mas o desenvolvimento e relação entre essas nações nunca foi exatamente pacífico, sempre há disputa, mesmo que pretensamente silenciosa pelo poder e dominação, principalmente na esfera político-econômica e tecnológica.
O homem moderno não vivencia a si mesmo como uma parte da natureza, mas como uma força exterior destinada a dominá-la e conquistá-la. Ele fala mesmo em uma batalha contra a natureza, esquecendo que, se ganhar a batalha estará derrotado. [...] A ilusão de poderes ilimitados, sustentada por espantosos feitos científicos e técnicos, produziu a ilusão concomitante de se ter resolvido com o problema da produção (SCHUMACHER, 1971, p.12).
Portanto, a economia e outras tecnologias são, também, os objetivos teleológicos caracterizados e intencionais de uso da força produtiva humana para a dominação, tanto da natureza, quanto do próprio homem. Sendo assim, a vantagem competitiva é desejada por aquelas nações que pretendem a ação instrumental através do planejamento estratégico para a obtenção do lucro. Esse movimento se caracteriza historicamente em uma competição civilizatória pelo poder e domínio tecnológico, motivado por um sentido de autoconservação.
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Dentro da visão contextualizada contemporaneamente por Michael Porter (1999, p.170), um dos expoentes da gestão estratégica, “a competitividade nacional se transformou em uma das preocupações centrais do governo e da indústria em todos os países”. Essa concepção sobre a capacidade de competição dos países é também entendida como um possível fenômeno macroeconômico, uma capacidade de obter mão de obra barata e abundante, ou ainda, abundância de recursos naturais. Mas, segundo o autor, “a competitividade é induzida pelas políticas governamentais”.
Num mundo de competição global crescente, os países se tornaram mais, e não menos, importantes. À medida que os fundamentos da competição se deslocam cada vez mais para a criação e assimilação do conhecimento, aumenta a importância dos países. A vantagem competitiva é gerada e sustentada através de um processo altamente localizado. As diferenças nos valores nacionais, a cultura, as estruturas econômicas, as instituições e a história são fatores que contribuem para o êxito competitivo. Em todos os países constatam-se disparidades marcantes nos padrões de competitividade (PORTER, 1999, p.167).
A capacidade de produção de conhecimento e formação de mão de obra especializada de uma nação passa pela inovação tecnológica e disputa de mercado, orientadas, portanto pelas políticas de Estado. As disputas inovadoras e comerciais são baseadas no uso que cada país faz desse potencial produtivo tecnológico, econômico ou bélico. Esses constructos são historicamente desenvolvidos através de pesquisas técnicas com o intuito de uma vantagem competitiva em relação comparativa entre nações dominantes e dominadas. Sendo assim, a tecnologia detém-se no domínio. Por isso, as políticas governamentais focam tanto suas expectativas na produção utilitarista do conhecimento, também na academia.
O avanço tecnológico produtivo das nações é fruto da pesquisa científica, que, não por acaso, parece estar orientada a produzir para o mercado, tentando disputar as suas fatias para se apoderar de porções econômicas cada vez maiores.
O conhecimento das pesquisas científicas no contexto brasileiro ainda não está sendo absorvido pelo setor produtivo, como nas empresas dos “países desenvolvidos” conforme a explanação de Dias e Dagnino (2007). Isso demonstra que as realidades são heterogêneas entre as nações, pela sua formação cultural, e se diferem da homogeneidade de práticas políticas que justificam na economia suas ações e regulações.
Essa fratura significa, na prática, que o conhecimento gerado pelo complexo público de educação superior e de pesquisa não está sendo absorvido pelo setor produtivo e, portanto, não está sendo convertido em novos bens e serviços que poderiam trazer incrementos de bem-estar para a sociedade. Assim, esse ciclo virtuoso que, a despeito de eventuais problemas e reduções mecanicistas aos quais está submetido,
131 legitima e impulsiona o capitalismo nos países centrais, não está ocorrendo nos países latino-americanos (DIAS e DAGNINO, 2007, p.110).
A globalização no discurso da contemporaneidade deve ser uma palavra de ordem para o Estado-econômico. O seu instrumento de controle político e regulação passa a ser a avaliação econômica alinhada em um cenário global e subjetivo. A partir do domínio tecnológico, o consumo e padrões culturais podem ser manipulados por aquela nação ou grupo que detém os modos de produção desse conhecimento útil em forma de produto. Sendo assim, baseados na “mão livre do mercado” e na lei da oferta e da procura, determinam o preço de suas invenções.
Na atualidade tecnologicamente globalizada, a justificação nos discursos econômicos corresponde mais diretamente à realidade como movimento civilizatório e compositor da nuance cultural moderna em seus interesses mercadológicos. Esse movimento teleológico da padronização da opinião cultural dentro do contexto de civilização moderna é relativo à constituição forçadamente homogênea dos padrões mundiais de produção inovadora e da tecnologia de consumo descartável.
A “verdade” para os olhos da modernidade pode ser uma justificação dos modelos civilizatórios de dominação econômica que não está ligada diretamente ao consenso entre as partes, segundo a concepção habermasiana. Portanto, pode ser a justificação da globalização como palavra de ordem que não pode ser questionada.
A formação do conhecimento na academia não está isenta das características da modernidade. Sendo assim, é permeada por interesses úteis e produtivos como perda do sentido humano e a função de atender a sua necessidade. Atualmente atendemos a necessidade da coisa em si. Esse saber produzido nas Universidades é modelado avaliativamente pelas políticas de Estado para a apresentação de estatísticas numericamente explicativas que são demonstradas como um avanço tecnológico do país. Mas tais produtos acadêmicos inovadores chegam à sociedade como um exemplo de como produzir para o progresso?
Por outro lado, interessa-lhes explicar também porque razão é do próprio interesse do Estado garantir à universidade essa imagem exterior de uma liberdade ilimitada no seu interior. A idéia de um tal "Estado de cultura" recomendar-se-ia pelas próprias consequências benéficas que derivariam da força unificadora e totalizante de uma ciência institucionalizada sob a forma da investigação. Basta que o trabalho científico se entregue à dinâmica interna dos processos de investigação: assim — disso estavam ambos convencidos — a cultura moral e toda a vida espiritual da
132 nação convergiriam nas instituições científicas superiores como num foco (HABERMAS, 1993, p.112).
A formação dos formadores pela pesquisa na pós-graduação brasileira remete, como já dito, a uma adequação avaliativa aos interesses de Estado e às normas globalizadas de produção de conhecimento útil. Esses valores mercadológicos podem ser percebidos na construção estatística do sistema de pontuação e “descarte” do conhecimento acadêmico pela avaliação CAPES como é defendido por este texto.