Organograma 2 – Formação utópico-evolucionista: Autoconsciência
5.2 O capital a estrutura de publicação científica e o conhecimento
Tendo como ponto referencial a inserção do conhecimento produzido na academia brasileira no mercado globalizado, podemos estar em um processo de glorificação8 à sua estrutura de hierarquia. O conhecimento depende da estrutura de publicação para ter qualidade aos olhos da avaliação CAPES. Ele, em si, não representa seu valor, portanto deve ser levado a um depositário (periódico) que atribui o peso a essa produção acadêmica.
Dentro de uma apropriação explanatória da Teoria do Capital Humano de Schultz9 (TCH), todo tipo de conhecimento, portanto, inclusive o produzido na academia e seus pesquisadores, podem ser materializados em uma moeda ou na atribuição utilitarista do capital.
Sobre educação na visão instrumental, o principal representante da Teoria do Capital Humano (TCH), Theodore William Schultz (1973b, p. 18, grifo nosso), conceitua que, no mundo capitalista, educar é:
[...] revelar ou extrair de uma pessoa algo potencial e latente; significa aperfeiçoar uma pessoa, moral e mentalmente, de maneira a torná-la suscetível de escolhas individuais e sociais, e capaz de agir em consonância; significa prepará-la para
uma profissão, por meio de instrução sistemática.
8 Giorgio Agamben em “O reino e a glória: Uma genealogia teológica da economia e do governo (2011)”,
conceitua a oikonomia e a diferenciação entre glória e glorificação. Nesse aspecto, o autor descreve “o mistério da liberdade, que não é senão a outra face do mistério da economia (p.60)”.
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Para os autores Ferreira Jr.; Bittar (2008, p. 343-344), a “teoria do capital humano” desenvolvida por Schultzàestabelecia uma relação direta entre educação e economia, na medida em que atribuía à primeira a capacidade de incrementar a produtividade da segunda. Portanto, a educação deveria ser condicionada pela lógica que determinava o crescimento econômico da sociedade capitalista. Para Schultz (1973, p.24-25), a “instrução e a educação” eram, antes de tudo, valores sociais de caráter econômico. Portanto, a “instrução/educação” é considerada como um “bem de consumo”, cuja principal propriedade é ser “um bem permanente de longa duração”, por conseguinte, diferente de outras mercadorias consumidas pelos indivíduos durante as suas vidas (FERREIRA JR.; BITTAR, 2008, p. 343).
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Frigotto (2000, p.87) afirma que a ideia central da TCH (Teoria do Capital Humano) proporciona um acréscimo marginal de instrução, treinamento e educação, correspondendo a um aumento de capacidade de produção. A ideia do Capital Humano é uma “quantidade” ou um grau de educação e de qualificação, tomado como indicativo a um determinado volume de conhecimentos, habilidades e atitudes adquiridas, que funcionam como potencializadoras da capacidade de trabalho e produção. O investimento em capital humano é um dos mais rentáveis, tanto no plano geral do desenvolvimento das nações, quanto no plano da mobilidade individual. A Teoria do Capital Humano prega a ampliação das habilidades dos indivíduos e da qualidade de seu trabalho como uma modalidade de investimento. Ela busca assim tornar o homem mais eficiente, para que possa gerar maior produtividade.
O capital humano da pesquisa em Educação pode ser medido? Esse potencial pode ser teleologicamente atribuído em demérito de outras áreas de conhecimento, para assim, possibilitar a demonstração de um controle através de uma avaliação comparativa?
A homogeneidade de avaliação - que pode ser vista como uma forma complicada de descrever benchmarking, ou seja, o estabelecimento de metas mínimas de realização e produtividade - é um constructo extremamente poderoso na instrumentalização de análises, avaliações, e verificações que já são por si poderosas. [...] A homogeneidade de avaliação, já poderosa e sensível por si mesma, torna-se uma força a ser levada em consideração quando utilizada em conjunto com outros desenvolvimentos, e particularmente quando são focalizadas as mudanças nos sistemas de financiamento da universidade (NEAVE, 2012, p. 684).
Sendo assim, a formação e as investigações científicas na academia são avaliadas via CAPES em um modelo homogêneo. Esse sistema de avaliação atribui ideologicamente mais ou menos peso ao conhecimento acadêmico através de sua estrutura de publicação. Desse modo, tal visão de enfoque avaliativo-tecnicista influencia o investimento/fomento da pesquisa acadêmica que engloba uniformemente todas as áreas de conhecimento, forçando sua adequação ao produtivismo. A pós-graduação brasileira em educação e seus pesquisadores têm autonomia para investigações “sem fronteiras” de investimento?
A globalização econômica neoliberal produziu um deslocamento da referência central da universidade: das humanidades para as disciplinas técnicas. Se antes o conhecimento universal produzido na universidade era centrado nas humanidades, agora a economia globalizada fez prevalecer o universalismo de base técnica. As disciplinas “ricas” e que apresentam as mais altas vantagens competitivas nas disputas por financiamentos e prestígios são definidas, em grande parte, nas esferas acadêmicas de grande reconhecimento universal e vinculadas aos interesses das grandes empresas e laboratórios transnacionais e, ainda, legitimadas pelos atores nacionais (DIAS SOBRINHO, 2010, p.1234).
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Analogamente ao capital, no sistema é necessária a circulação do conhecimento, para que o “novo” assuma o lugar do “velho”, como a moeda e sua capacidade potencial de mercado. Portanto, o predominante conhecimento útil na academia pode se tornar a medida instrumentalizada de peso atribuído pelo mercado ao “capital humano”.
No tocante à questão educacional, os tecnocratas defendiam como pressuposto básico a aplicação da “teoria do capital humano”, como fundamentação teórico- metodológica instrumental para o aumento da produtividade econômica da sociedade (FERREIRA JR.; BITTAR, 2008, p. 343).
Nesse contexto, também pode estar caracterizada a reificação/autorreificação do pesquisador, para a sua manutenção no cenário competitivo. Portanto, esse movimento virtual do conhecimento como a “coisa-em-si”, abandonado de sua significância, é que potencializa o cenário competitivo. Esse sistema de metas e ranqueamentos determina as especificações economicistas do Estado-avaliador, como já foi dito anteriormente. A academia aparentemente desempenha o intensificado papel de ferramenta de desenvolvimento de políticas de Estado, e este, de engrenagem na máquina global do capital globalizado.
Parece não existir a correlação direta do desenvolvimento econômico brasileiro com o retorno dos serviços para a sociedade. A voz crítica da pesquisa em educação, seu profundo embasamento em autores clássicos do pensamento filosófico, sociológico e teóricos contemporâneos, pode buscar o equilíbrio da balança econômico-produtiva, preponderantemente comparativa.
A partir dessas considerações, observa-se dentro das conclusões sobre o financiamento da Pós Graduação brasileira no PNPG (2010) a referência à competitividade para os objetivos das pesquisas acadêmicas e seu envolvimento tecnológico.
Portanto, políticas específicas devem ser implementadas para estimular a cooperação e integração de todos os segmentos da sociedade em busca de maior capacidade de inovação e, consequentemente, de competitividade, para se evitar que o setor acadêmico ainda permaneça com baixo envolvimento com o setor tecnológico. [...] Cabe mencionar também que os pesquisadores e cientistas que desempenham as atividades de pesquisa e pós-graduação fazem parte da mesma categoria funcional ou profissional de um servidor que presta serviços de natureza meramente administrativa, sendo que suas atividades não deveriam se circunscrever tão somente ao exercício de atividades acadêmicas (BRASIL. MEC, 2010, p. 279).
O conhecimento, atualmente aceito como o produto da pesquisa acadêmica, é um passivo tangível para o sistema do Estado-avaliador. Uma variável matemática dentro de uma fórmula, que busca a atribuição de peso para a mensuração justificada idealmente da
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capacidade de colaboração desse conhecimento produzido pelo pesquisador para os interesses do Estado em sua relação com a macroeconomia. É uma justificação10 para a modelagem da produção do conhecimento acadêmico com uma preponderante intenção instrumental teleológica.
O Plano Nacional de Pós-Graduação (2010) em muitos momentos demonstra ser, também, um instrumento de alinhamento, indução e justificação, que coloca o resultado da pesquisa acadêmica, pesquisadores e a academia, sob a guarda dos interesses econômicos dominantes do mercado produtivo.
O pesquisador pode e deve, além de promover a inovação, participar da inserção do resultado de sua pesquisa no mercado produtivo. [...] Para que o país possa de fato se tornar competitivo no cenário internacional e se colocar, de forma sustentável, como potência econômica, científica e tecnológica, as recomendações deste texto devem ser avaliadas e consideradas na elaboração das políticas governamentais (BRASIL. MEC, 2010a, p. 279).
Para entendermos melhor essa analogia, podemos observar que esse ranqueamento por si só determina a hierarquia competitiva na academia, na qual o status do conhecimento é avaliado e não o conteúdo em si gerado pelas pesquisas. Portanto, tais procedimentos são semelhantes aos procedimentos econômicos, que determinam o peso da moeda, determinando-as comparativamente através de sua potencialidade no mercado.
A macroeconomia, através de sua influencia nas políticas de Estado, parece determinar indiretamente as metas de formação e desenvolvimento dos produtores de conhecimento. A estrutura hierárquica do capital global tem como obrigatório o “selo de qualidade” do utilitarismo, para assim atribuir o seu peso, conforme a oferta e procura do seu produto.
Caracteriza-se desse modo analogamente a economia, uma produção bancária acadêmica, para o pesquisador e sua pesquisa acadêmica. Podemos questionar se é realmente necessário à pesquisa nacional e seus pesquisadores esse reconhecimento comparativo através de ranking de produção?
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A conceituação de justificação e verdade segue a concepção de Jürgen Habermas (2004) em seu livro “Verdade e Justificação”, onde, a racionalidade comunicativa “exprime-se na força unificada da fala orientada ao entendimento mútuo, discurso que assegura aos falantes envolvidos um mundo da vida intersubjetivamente partilhado”.
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A Universidade figura para o Estado como uma potencial ferramenta para demonstração de índices? A voz crítica dos pesquisadores das áreas da filosofia, sociologia e educação pode buscar o equilíbrio social?
Afinal, a avaliação das performances na pesquisa em Educação é mais abrangente do que um conjunto de variáveis matemáticas - porquanto é baseada na curva de Gauss, isto é, na criação de hierarquias de excelência; ela envolve também aspectos humanos, políticos, culturais e organizacionais (TREVISAN et all., 2013, p.388).
A formação cultural da educação brasileira pela pesquisa se torna um “alvo fácil” para a crítica das avaliações comparativas e predominantemente quantitativas. O peso atribuído às variáveis remete ao questionamento do “por que” e “para quem” se está direcionando o conhecimento de “excelência”, produzido, comparado e ranqueado nos Programas de Pós- Graduação nacionais. Essa disputa por mercado ocorre também entre os próprios pesquisadores, cujo olhar de avaliação independe de distinção em suas diversas áreas de conhecimento. Qual a real necessidade social do conhecimento útil produzido? A demonstração de produtividade comandada pelo Estado?
Assim, essa demonstração toma um caminho que começa num ponto qualquer, sem se saber que relação tem com o resultado que deve provir. O curso da demonstração assume estas determinações e relações e deixa outras de lado, sem que imediatamente se possa ver qual a necessidade [disso]; uma finalidade exterior comanda esse movimento (HEGEL, 1992, p.44).
No entender deste texto, a linguagem acadêmica, a pesquisa e pesquisador, devem buscar predominantemente através da educação, a formação pelo diálogo com as relações e necessidades sociais da realidade brasileira. Entretanto, as ciências se sobressaem às humanidades pelo status quantitativo da inserção competitiva modelada matematicamente.
Até mesmo o conjunto da linguagem acadêmica é uma linguagem funcional estreitamente ligada à racionalidade instrumental, tão enfaticamente criticada por Adorno. Os conceitos e palavras, ao invés de servirem ao esclarecimento, colocam- se a serviço do conhecimento objetivo e útil, sem espaço para seus sentidos e significados humanos. A divisão entre ciências e humanidades e o desprezo dessas últimas é a manifestação clara disso que a hegemonia da razão instrumental esconde. [...] Tudo está decidido de antemão através da identificação antecipada do mundo totalmente matematizado com a verdade, a cujo serviço se coloca o pensamento como instrumento. Abandona-se assim toda a pretensão do conhecimento de romper a superfície do imediatamente dado para descobrir os sentidos sociais, históricos e humanos (GOERGEN, 2010, p.69).
Os pesquisadores da área da educação estão estandartizados em uma adequação à imposição de subserviência aos interesses do modo de produção. Essa possibilidade de
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reificação é vista como a “regressão do espírito” que pode estar presente também na formação cultural do pesquisador, dificultando a construção da autoconsciência como sujeito e cidadão.
Se a formação cultural eleva o espírito humano para transcender as suas limitações, a coisificação seria o movimento que o diminui, absorvendo-lhe a moeda de troca da mercadoria, que acaba degradando as suas qualidades. A coisificação se impõe de fora para dentro e molda o indivíduo, inclusive as suas faculdades psíquicas e sensoriais, limitando a sua compreensão do existente. É como afirma Nobre (2008, p. 285), a partir de Lukács: “a reificação é justamente a maneira pela qual os agentes da produção capitalista experimentam a imposição pelo sistema do papel de portadores” [...] promove o embrutecimento e a regressão do espírito, não a sua emancipação (TREVISAN, 2012, p.76).
A visão avaliativa deve, também, proporcionar a percepção da realidade cultural de seu país, valorizando sua formação cultural e costumes. Portanto, fica muito difícil a aplicação de sistemas avaliativos híbridos baseados em países desenvolvidos, com o desequilíbrio social existente no país. Consequentemente, teremos a recorrente comparação e adoção dos métodos e modelos da sociedade mundial “desenvolvida economicamente”. A contribuição da academia pela pesquisa para o desenvolvimento social está assegurada como objetivo de políticas de Estado?
A atividade científica continua, até hoje, a desenvolver-se no âmbito de um sistema de instituições com funções múltiplas e convergentes — em escolas superiores científicas que de modo nenhum nasceram do horizonte do "mundo da vida" como as empresas capitalistas ou os organismos internacionais. Estamos ainda para saber se os grandes projetos e a investigação fundamental, deslocados para fora da universidade, serão capazes de se libertar totalmente do processo generativo da ciência organizada no âmbito dessas universidades, se essas formas de investigação conseguirão andar por si próprias, ou se manterão um estatuto parasitário (HABERMAS, 1993, p.125-126).
A educação para Adorno (1995), como alternativa para a semiformação, é a orientação, a autorreflexão crítica e emancipação, que demonstra, ao entendimento deste trabalho, uma composição racional do sujeito e coisa, e suas relações formadoras e transformadoras, individuais e coletivas. Portanto, dentro do processo das criações racionais do conhecimento que nos levam a nossa formação cultural e à reflexão sobre nós mesmos e em relação ao reconhecimento do outro (Honneth, 2003), as coisas buscam seu significado na relação sujeito-sujeito, entre suas relações e verdades, e, não, na determinação da coisa-sujeito (reificado), como o que acontece com a atual tendência instrumental da ciência.
Contemplada na produção de conhecimento na academia, essa relação pode ser remetida aos interesses da macroeconomia. Essa ação instrumental sobre as nações,
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principalmente em desenvolvimento ou não desenvolvidas, torna-as cada vez menos autônomas em seus objetivos de desenvolvimento social.
A influência da lógica de disputa capital no mercado conduz os pesquisadores e a academia à competitividade, em que os “menores mercadologicamente” são marginalizados. A padronização dessa “visão de sucesso acadêmico” dentro da sociedade global pode ter um semiformativo processo de “aceitação” das determinações quantitativas. Onde realmente se faz a transformação social da pesquisa brasileira em Educação? No ranking da produção acadêmico-econômica globalizada?
Esse perfil competitivo absorvido pela cultura de produtividade entre Universidades e suas pesquisas, é naturalizado forçadamente pelo sistema de avaliação. Esse modelo que determina o êxito é na prática um potencial de adequação do pesquisador às regras da avaliação do conhecimento. Para tanto, o padrão de referência como um produto útil, deve ser formalizado em mão de obra especializada, status, royalties e lucro capital, que determina à academia o formato de procedimentos gerenciais para rankings de “excelência” e eficiência administrativa.
Então, os pesquisadores mais adequados ao sistema burocrático-administrativo são mais bem avaliados? O olhar da ciência através das áreas técnicas instrumentais serão mesmo os “melhores termos” para o desenvolvimento real e não estatístico da sociedade brasileira?
Nessa visão, os esforços acadêmico-demonstrativos para a formação e pesquisa, prioritariamente, se tornam necessários para a manutenção do ranking de status, do pesquisador, do Programa de Pós-Graduação, da Instituição e consequentemente, do país. O ingresso, crescimento e permanência dos programas dependem diretamente de sua adequação ao sistema de avaliação do Estado.
A pesquisa acadêmica brasileira, mais precisamente nas áreas da sociologia, filosofia e educação, por uma possibilidade e necessidade de reflexão crítica, busca, entre outros enfoques, o levantamento de questões de cunho ontológico do conhecimento. Através disso, o direcionamento das discussões para temas à luz dos escritores clássicos, busca a raiz cultural do conhecimento em um sentido amplo, juntamente com suas concepções de verdade, através da linguagem e do diálogo.
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A imposição global da ciência ou justificação do conceito instrumental-útil à sociedade determina forçadamente o que é de “necessário consumo”, para assim manter o movimento macroeconômico do capital.