Organograma 2 – Formação utópico-evolucionista: Autoconsciência
3.5 O Conhecimento: Pesquisa, formação e competitividade
A “sociedade do conhecimento” parece estar vinculada ao conceito de globalização em um contexto de justificação dos meios de produção, entre eles, a produção acadêmica. Através das demonstrações estatísticas comparativas, podemos buscar uma lógica de diferenças entre programas ou pesquisadores. Esse alinhamento é necessário para que a excelência conceitual dos envolvidos se torne uma meta a ser alcançada pelo corpo docente. A pesquisa é o produto, mas, ao produzir, o pesquisador cria suas interlocuções e significados, formando o perfil docente também pela produção desse conhecimento. Os pesquisadores de todas as áreas de conhecimento devem estar comprometidos prioritariamente com a procura da verdade nas investigações acadêmicas, e não com a manutenção das atividades de pesquisa e dos programas, na relação de alinhamento e regulação do Estado-avaliador com a economia. O processo de formação docente dentro das instituições, para Nóvoa (1995), se constitui em um lócus “central na produção e reprodução do corpo de saberes e dos sistemas de normas da profissão docente”. Essa construção da profissão docente é uma contribuição “para a socialização de seus membros e para a gênese de uma cultura profissional” (p. 15).
Entendemos que o processo de produção e competição acadêmica, que proporciona o sistema CAPES de avaliação, conjuntamente com os objetivos do PNPG (2010) é reproduzido entre as IES e consequentemente, internamente nos Programas de Pós-Graduação, pelos pares, sendo o produto acadêmico qualisado, o sentido ou “resultado” aceito pelos avaliadores da pesquisa acadêmica nos órgãos reguladores, dentro dessa visão produtivista econômica.
Os pesquisadores ainda têm de entender se esse atual efetivo produto se adapta à exposição do mercado acadêmico ou empresarial das IES, com a busca de royalties, produtividade ou treinamento. Esse tipo de produção acadêmica, incentivada com a tendência de análise segundo o olhar técnico-instrumental, poderá não entender a significância,
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subjetividade e intencionalidade da formação do sujeito, que estão impregnadas nos discursos dos autores das áreas de educação e filosofia.
A aceitação passiva do modelo de gestão, avaliação e indução economicista, sem o olhar crítico das áreas da formação humana, pode desencadear uma repercussão na maneira de pensar e produzir dos novos docentes e pesquisadores como uma legião de seguidores qualisados para fabricar materiais científicos, normalmente chamados de “produtos”. Esses resultantes, desvirtualizados da significância em um sentido amplo e vocacional de investigação acadêmica e colaboração científica social, na visão da Filosofia e Educação podem acabar não oferecendo a efetiva contribuição para a elevação cultural da sociedade e, assim, assim, reduzir-se ao desenvolvimento de produtos e produtores acríticos para o atendimento de demanda de mercado, presos ao prazo de validade rotulado nos artigos e livros, portanto, no “conhecimento acadêmico”.
Uma visão colaborativa em detrimento da competitiva pode levar a área de Educação a uma nova concepção de produção e (trans)formação do ambiente acadêmico. Uma gestão conciliadora, inclusiva e participativa, em que haja a colaboração intra e interinstitucional terá, como objetivo principal, o crescimento do país, dentro de um processo único e imparcial, respeitando-se as regionalidades e a sua formação cultural.
Por que a sugestão deste modelo colaborativo partiria da área de Educação? Por que essa é uma área que transcende, ou seja, permeia a todas as outras e proporciona (busca) a visão crítica do sistema que pretende formatar, e não apenas, o sedutor “lucro acadêmico”. Portanto, essa visão ampliada da realidade na pesquisa no Brasil e em suas formas de produtividade não necessariamente ligadas à economia, possibilitaria uma leitura educacional deste movimento atual, com referências ao passado e possibilidades de futuro, dentro de uma presente significação social de objetivos em uma percepção hermenêutica da realidade acadêmica na pesquisa. Mesmo com uma mudança radical e um novo paradigma produtivo, talvez, dentro de um espaço de tempo mesmo com a mudança deste, ainda haverá a intenção resiliente de buscar preponderantemente a produção de um resultado dentro de um produto palpável e de grande valor agregado para o mercado.
Aqueles que buscam apenas o resultado não entenderão o significado, pois para chegar a esse, houve um ou mais processo(s), ou seja, uma infinidade de interações formais e informais de conhecimentos, discussões e estudos, utilizando a linguagem como mediação.
74 Indagamos sempre se o indivíduo sabe grego e latim, se escreve em verso ou prosa, mas perguntar se se tornou melhor e se seu espírito se desenvolveu – o que de fato importa – não nos passa pela mente. Cumpre entretanto indagar quem sabe melhor e não quem sabe mais (MONTAIGNE, 2004, p. 140).
O resultado depende do processo. Aí está o mecanismo que entendemos como sentido da pesquisa acadêmica, significada pelo olhar do sujeito através da educação e filosofia e do ser humano como um todo, e não somente na produção das coisas, objetos, produtos, ou resultado, que sem sua significância é “morto”. Portanto, não basta ter apenas a visão positiva/concreta de um resultado ou produto, tem de haver o entendimento de que para esse produto ter a “utilidade” desejada, houve uma necessidade humana e uma criação intencional e intuitiva dele, através de um processo.
No exemplo da representatividade dos produtos-resultados, sua funcionalidade, a condensação do conhecimento para fazê-lo, as interações das áreas, sua aplicabilidade, aí está a intencionalidade e o processo. E não somente o resultado da pesquisa acadêmica, mas sua essência completamente impregnada de significação e utilidade pelo ser humano em toda sua intenção, subjetividade, autonomia, autoconhecimento e autorreferencialidade.
Não é apenas uma coisa, ou um fim. “A consciência-de-si só alcança sua satisfação em outra consciência-de-si” (HEGEL, 1992, p.125). A resiliência educativa e filosófica dentro do processo formativo do sujeito-docente, ou seja, aquilo que foi provocado em sua consciência e eticidade como o fator de elevação cultural, ele levará para o resto de sua existência. E isso irá balizar suas ações e decisões, estando presente no sujeito como um construtivo processo, consequente das ações investigativas que os interlocutores docentes utilizarem para basear os seus conceitos, formando a consciência-de-si. Torna-se necessária a visão crítica com que a pesquisa na área da educação pode contribuir, contra os objetivos reduzidos do instrumentalismo tecnológico. É preciso convencer de maneira contundente que está na formação do sujeito em toda a sua intencionalidade, sua autonomia e subjetividade. Que a ela, juntamente com a Filosofia, pertence à voz crítica dentre as áreas de conhecimento à política vigente de adequação às normas de mercado.
O docente vira a peça estratégica essencial para o estado, mas na figura de executor, pois hoje o desenvolvimento acadêmico-econômico e a produção batem à porta de nossas salas, laboratórios, na avaliação, fomento, regulação e gestão, servindo-se do que consta no PNPG (2010) e nos critérios de avaliação CAPES. Essa é provavelmente a questão que resulta na pesquisa acadêmica, o autoconhecimento do sujeito, a consciência de mundo; um desafio
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para o entendimento da sociedade em tempos tão determinados pela economia e políticas de estado.
Os produtos, ou coisas, não surgem espontaneamente do metafísico para o real, é necessária a intervenção do sujeito, significação, sua hermenêutica e linguagem para representar nesse objeto ou coisa em toda a sua subjetividade e intencionalidade. Temos de reconhecer o outro como pesquisadores e formadores de um movimento de alteridade e buscar a realização da construção social de maneira mais equilibrada, do que somente sustentada economicamente.
O segmento posterior irá relacionar as políticas de produção de regulação e controle com as inovações, determinações e suas tendências, para buscar as relações e rumos da pesquisa acadêmica e a formação dos formadores. Proporciona assim, uma análise interpretativa e contextual do sistema avaliativo e os indicadores de resultado de produção científica que aparentam atender aos interesses “inovativos” da macroeconomia globalizada.
Diante desse contexto, esta tese apresenta no próximo capítulo uma análise crítica a essa formatação neoschumpeteriana muito presente no planejamento e avaliação da produtividade da pós-graduação brasileira. A reificação docente é declarada na (trans)formação do sujeito (docente-pesquisador), em produto (pesquisador-docente), no momento em que este é determinado pelo objeto de sua pesquisa.
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CAPÍTULO IV
O EVOLUCIONISMO ECONÔMICO NA PÓS-GRADUAÇÃO
BRASILEIRA: UMA ANÁLISE A PARTIR DA ÓTICA DA EDUCAÇÃO
Na verdade, a educação necessita tanto de formação técnica e científica como de sonhos e de utopia (FREIRE, 1997, p. 34).