• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 1: Stress relacionado com o trabalho e burnout

6. Algumas consequências do stress e do burnout

6.1. Consequências a nível individual e a nível social

A experiência de stress pode influenciar o modo como um indivíduo se sente, pensa e comporta e induz alterações na sua função fisiológica (STANSFELD et al., 1999). A maioria dessas alterações é facilmente reversível, representando apenas uma ligeira disfunção e podendo provocar algum desconforto.

Os sistemas do organismo são dinâmicos pelo que a sua função oscila de modo a responder às exigências que lhes são impostas, nomeadamente por antecipação de acontecimentos reais ou imaginários, gerando ansiedade. A exposição prolongada a factores indutores de stress, acompanhada de ansiedade crónica, origina uma condição denominada carga alostática, na qual ocorre a indução de respostas persistentes de activação dos sistemas fisiológicos originando uma eventual disfunção (EWEN, 1998). Nestas circunstâncias, particularmente se intensas e prolongadas, a experiência de stress poderá estar associada a sintomas físicos, emocionais, intelectuais e comportamentais (FRANCE. INRS, 2005), com eventuais consequências sobre o rendimento profissional e o bem-estar físico, psicológico e social.

Os efeitos psicológicos do stress incluem alterações na função perceptivo-cognitiva, emocional e comportamental, muitas vezes accionadas na tentativa de lidar com a situação percebida como ameaça (LEITE, UVA, 2007).

Os sentimentos ou emoções incluem vários graus de ansiedade que englobam tensão, preocupação, medo e até pânico e também outras emoções mais intensas como ira, desespero e culpa. As emoções são provavelmente o primeiro e o mais poderoso indicador da presença de stress e estão tão intimamente relacionadas com a avaliação cognitiva, que podem ser consideradas como inevitáveis. Dessa forma, relacionam-se directamente com o processo de stress e, à medida que este decorre, aquelas podem manifestar-se como quadros de ansiedade e depressão, tornando-se estados de humor relativamente permanentes (PAYNE, 1999).

O pensamento pode tornar-se confuso, ilógico e lento e pode ocorrer fixação do pensamento diminuindo a criatividade (PAYNE, 1999). Muitas vezes ocorrem pensamentos de inutilidade sobre si próprio, resultando em desespero ou desânimo. McIntyre e colaboradores, num estudo envolvendo sessenta e dois enfermeiros de um hospital central português, encontraram, como respostas de stress mais comuns, a ideação suicida, a negação, o mal-estar físico, a emocionalidade disfórica (depressão, tristeza) e a culpa (McINTYRE, McINTYRE, SILVÉRIO, 1999).

As modificações a nível do comportamento podem ser indicadores relativamente sensíveis de stress, uma vez que os pensamentos, emoções e sintomas podem ser mascarados pelo próprio indivíduo. As alterações a nível comportamental como modificações do consumo de álcool, de tabaco, de tranquilizantes ou de estimulantes podem ser indicadoras de stress. Alguns destes comportamentos, de que são exemplos a redução da prática desportiva, uma dieta desequilibrada e aumento dos consumos de álcool e de tabaco, podem influenciar directamente a saúde (LUNDBERG, 2000). Os efeitos a nível social relacionam-se com a deterioração das relações interpessoais podendo reduzir a disponibilidade do suporte social. Sintomas psíquicos como a irritabilidade e as alterações da memória e da atenção podem estar associados aos efeitos que ocorrem a nível social (COX, GRIFFITHS, RIAL-GONZÁLEZ, 2000). Em meio laboral, podem ocorrer comportamentos agressivos ou, então, afastamento por ausência ou desinteresse.

McIntyre e colaboradores, num estudo realizado em cento e catorze médicos de centros de saúde portugueses da região Norte, verificaram que estes expressavam o stress essencialmente sob a forma de irritação, hostilidade e conflito interpessoal, deteriorando as relações sociais no trabalho (McINTYRE, McINTYRE, SILVÉRIO, 2001).

Por outro lado, as relações familiares também podem ser afectadas pelo stress. Num estudo de Cooper e colaboradores, o principal factor indutor de stress identificado entre médicas de clínica geral foi a dificuldade em conciliar as responsabilidades profissionais com as exigências familiares (COOPER, ROTE, FARAGHER, 1989).

O stress parece ainda estar relacionado, aos níveis fisiológico e físico, com disfunção do sistema neuroendócrino alterando as funções cardiovasculares, respiratória, secretória e visceral. Os sistemas considerados particularmente vulneráveis à reacção que acompanha a experiência de stress incluem os sistemas cardiovascular, endócrino- metabólico e imunitário, além de outros sistemas de que são exemplos o sistema digestivo, o sistema respiratório e o próprio sistema nervoso central (COX, GRIFFITHS, RIAL-GONZÁLEZ, 2000; McEWEN, 2003).

Alguns sintomas ocorrem, com frequência, em indivíduos com stress. Estes incluem cefaleias, cervicolombalgias, suores, náuseas, epigastralgias, alterações do trânsito intestinal, perda de controlo dos esfíncteres, dispneia, palpitações, insónia e fadiga (COX, GRIFFITHS, RIAL-GONZÁLEZ, 2000; FRANCE.INRS, 2005; PAYNE, 1999). Parece que o stress em médicos está associado a uma maior incidência de coronariopatia (FRASQUILHO, 2005) e também têm sido encontradas associações entre experiências de stress e queixas a nível do sistema musculoesquelético (DEVEREUX, 1999; LUNDBERG, 2000). Por exemplo, Smedley e colaboradores determinaram um risco relativo de 1,5 para o aparecimento de sintomas musculoesqueléticos a nível do pescoço e membros superiores, entre enfermeiros que referiram queixas de stress (SMEDLEY et al., 2003).

É também possível que as alterações nas actividades noradrenérgica e serotoninérgica que ocorrem no hipocampo, durante a resposta prolongada de stress, possam ter consequências na aprendizagem e na memória (McEWEN, 2003).

Outro aspecto relativo aos efeitos para a saúde de quem experiencia stress diz respeito à evidência científica da sua associação com alterações da função imunitária (DHABHAR,

2002; GLASER, KIECOLT-GLASER, 2005; HERBERT, COHEN, 1993a; KIECOLT-

GLASER et al., 2002; O`LEARY, 1990; PADGETT, GLASER, 2003; PRUETT, 2001; PRUETT, 2003; SEGERSTROM, MILLER, 2004) que será abordada com maior pormenor no capítulo três. Enquanto que o stress agudo pode estimular a função imunitária (DHABHAR, 2002) a resposta de stress intensa e mantida parece estar associada à sua supressão (SEGERSTROM, MILLER, 2004).

Em função dos estados psicológicos que acompanham individualmente os acontecimentos de vida (ou as circunstâncias indutoras de stress), as alterações, mais ou menos transitórias de alguns parâmetros imunológicos, parecem ser mediadas pela activação do sistema nervoso, pela resposta hormonal e ainda por mudanças comportamentais (COHEN, HERBERT, 1996).

Figura nº 1 - Relação entre acontecimentos de vida, características e estados psicológicos e alterações imunológicas

Acontecimentos de vida

Características e estados psicológicos

↓ ↓ ↓ Activação do SNC Resposta hormonal Mudança comportamental ↓ ↓ ↓

Alteração de parâmetros imunológicos

Susceptibilidade à doença

* adaptado de COHEN, HERBERT (1996)

Em síntese, as experiências de stress parecem estar associadas a diversas alterações de parâmetros imunitários, nomeadamente a modificações do número das células imunitárias e da sua função in vitro e in vivo. Contudo, as repercussões clínicas e a susceptibilidade à doença relacionadas com essas modificações são menos claras, uma vez que o sistema imunitário é um sistema dinâmico e flexível, sendo capaz de sofrer alterações temporárias sem comprometer a saúde do indivíduo (SEGERSTROM, MILLER, 2004). Apesar desta dificuldade, alguns estudos sugerem uma associação entre o stress e a reactivação de vírus latentes (COHEN et al., 1999; GLASER, KIECOLT-GLASER, 2005), a dificuldade na cicatrização de feridas (PADGETT, MARUCHA, SHERIDAN, 1998) e o aumento da susceptibilidade a infecções respiratórias víricas inespecíficas (COHEN, TYRRELL, SMITH, 1991). O estudo prospectivo de Schulz e Beach, após controlo de variáveis demográficas, e de prevalência de doença cardiovascular, encontrou um risco de morte sessenta e três por

cento superior em idosos, com stress elevado, que prestavam cuidados a familiares doentes, comparativamente ao grupo de idosos que não prestavam cuidados (SCHULZ, BEACH, 1999).