2. Mobbing: Fenómeno interdisciplinar
2.7. Consequências socio-laborais e psicossociais
Um breve balanço do que nos dizem autores de diversos domínios (nomeadamente, entre os por nós referenciados neste trabalho, Alfred Herrhausen Society for International Dialogue, 1994; Arnsperger & Van Parijs, 2003; Bento, 2011; Bouaziz, 2000; Dejours & Bègue, 2009 ; Pereira, 2009; Hirigoyen, 2002; Leymann,1996), permite-nos elencar um conjunto de consequências socio-laborais e psicossociais do mobbing, que poderá vir a constituir-se como desafios para a investigação-acção, particularmente nos domínios da psicologia do trabalho e da legislação laboral.96
Estes comportamentos têm a susceptibilidade de fomentar graves problemas psicossociais, ancorados numa espiral de diminuição da auto-estima, de solidão e de desespero, que até pode levar ao suicídio.
96 Namora, N. C., & Lima-Santos, N. (2013). Mobbing: Aspectos juslaborais e psicossociais do assédio moral no trabalho Construir
a Paz: visões interdisciplinares e Internacionais sobre conhecimento e práticas (Vol. 2, pp. 43-47). Porto: Universidade Fernando
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De facto, o mobbing repercute-se a nível da qualidade de emprego e das relações sociais no local de trabalho, razão pela qual se manifesta na estabilidade física e psíquica da vítima.
Não raras vezes, provoca a dependência de fármacos, álcool, droga e contribui para a diminuição da empregabilidade (espiral do desemprego).
De acordo com um estudo97 efectuado com 350 vítimas de violência no trabalho, pela Universidade de Alcalà, citado por Piñuel (2002), foram estabelecidos seis grupos de efeitos perniciosos na saúde das vítimas:
1 – Efeitos cognitivos e hiper-reacção psíquica: esquecimentos e perdas de
memória, dificuldades de concentração, abatimento/ depressão/ apatia/ falta de iniciativa, irritabilidade, inquietude/ nervosismo/ agitação, agressividade/ ataques de raiva, sentimentos de insegurança e hipersensibilidade às demoras. 2 – Sintomas
psicossomáticos de stress: pesadelos, dores de estômago e abdominais,
diarreias/problemas intestinais, vómitos, náuseas, falta de apetite, sensação de nó na garganta, choro e isolamento.
3 – Sintomas de desajuste do sistema nervoso autónomo: dores no peito,
sudorese, secura na boca, palpitações, sensação de falta de ar, hipertensão/hipotensão.
4 – Sintomas de desgaste físico provocado por um stress mantido durante muito tempo: dores nas costas, dorsais e lombares, dores cervicais e musculares.
5 – Transtornos do sono: dificuldade para conciliar o sono, sono interrompido,
despertar antecipado.
6 – Cansaço e fraqueza: fadiga crónica, fraqueza nas pernas, desmaios,
debilidade e tremores.
As consequências do mobbing não se restringem ao nível das relações laborais, alastrando-se, igualmente, à família da vítima e ao seu círculo de amigos. De facto, o stress conduz à instabilidade podendo mesmo chegar ao ponto de provocar a desagregação familiar.
No mesmo sentido, Glória Rebelo98 alerta para a recusa de benefícios sociais: “E, se no plano familiar podem – originando ou aumentando o nível de stress individual –
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conduzir à instabilidade e/ou mesmo à desagregação familiar, no plano social podem constranger o trabalhador a recusar o benefício de certas formas de protecção social, designadamente na saúde ou na assistência à família”.
O terrorismo psicológico é uma arma silenciosa, que não deixa vestígios nem sinais externos, a não ser a deterioração progressiva da vítima – já comparada com os efeitos do stress pós-traumático de ex-combatentes – e que permite ser atribuído pelo assediante a outras causas, como problemas de integração, carácter difícil e incompetência profissional.
O reconhecimento de todos estes factores conduziu a Resoluções do Parlamento Europeu99, que identificam o assédio como uma ameaça para a saúde e segurança no trabalho por ser uma das causas subjacentes ao desenvolvimento de perturbações a nível da saúde mental.
Do ponto de vista económico e social, o assédio acarreta elevados custos. Socialmente, estes podem traduzir-se nos custos associados aos cuidados de saúde, no aumento das baixas por doença e no aumento das reformas antecipadas e nas reformas por invalidez.
Economicamente, as consequências do mobbing na vítima poderão conduzir ao absentismo, à perda de produtividade, mas também à diminuição da rentabilidade e eficácia económica das próprias empresas.
Um estudo efectuado na Alemanha identificou, como consequência do mobbing, uma quebra na produtividade anual na ordem dos 13 milhões de euros.
98 Rebelo, G. (2007). Assédio moral e dignidade no trabalho. Prontuário de Direito do Trabalho, Centro de Estudos Judiciários,
76-77-78, 105-119.
99 A Resolução do Parlamento Europeu sobre o assédio no local de trabalho (2001/2339 INI) e o Acordo-Quadro Europeu sobre
assédio e violência no trabalho foi outorgado a 26 de Abril de 2007 entre a CES (European Trade Union Confederatio), a BUSINESSEUROPA (The Confederationof European Business), a UEAPME European Associationof small and médium-sized) e o CEEP (european Centre of Entreprises with public participation and of entreprises of general economic interest). A primeira chama a atenção para as consequências devastadoras na saúde física e psíquica dos assediados e na sua família – “que frequentemente
necessitam de assistência médica e psicoterapêutica, o que, de forma geral, os induz a ausentarem-se do trabalho por razões de saúde ou os incita a demitirem-se”. Mas recorda também que o assédio também tem consequências nefastas para as empresas “ao nível da rentabilidade e da eficácia económica das empresas, pelo absentismo que implica, pela diminuição da produtividade dos trabalhadores causada por estados de confusão mental e de falta de concentração e pelo pagamento de indemnizações aos trabalhadores despedidos”.
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Os objectivos da prática do mobbing visam agredir de forma insidiosa e dissimulada o trabalhador, fragilizar e isolar a vítima.
Através dele consegue-se afectar a dignidade do visado, neutralizar ou anular os que não cumprem as regras de comportamento exigidas na empresa, provocar a marginalização do trabalhador e conduzir o visado à sua “auto-destruição”.
O assédio moral provoca patologias de índole psíquica, psicossomática e social, estando diagnosticados casos em que as consequências se traduzem em perda de rendimento profissional, perda de auto-estima, desenvolvimento de stress pós- traumático e síndromes depressivos. Tais patologias podem provocar dependência de fármacos, álcool e droga, contribuindo para a diminuição da empregabilidade (espiral do desemprego) e, por vezes, conduzindo ao suicídio.
Em termos sociais, as consequências do mobbing alastram-se à família e ao círculo de amigos da vítima. Na verdade, o assédio moral acarreta elevados custos sociais, traduzidos na perda de produtividade, no absentismo, no aumento das baixas por doença e no aumento das reformas antecipadas e por invalidez, tudo isto com consequências para a falta de sustentabilidade dos sistemas de Segurança Social dos países.
Em suma, os objectivos da prática do mobbing visam agredir de forma insidiosa e dissimulada o trabalhador e fragilizar e isolar a vítima. Através deste assédio consegue-se afectar a dignidade do visado, neutralizar ou anular os que “não cumprem” as regras de comportamento exigidas na empresa, provocar a marginalização do trabalhador e conduzir o visado à “autodestruição”. Através de tais práticas, pretende-se alcançar o fim último do mobbing: o afastamento do empregado.
Mas para que se atinja esse ilegítimo fim, causam-se elevados prejuízos pessoais, familiares, sociais e económicos.
O mobbing pode ainda contribuir para uma drástica diminuição da empregabilidade, ou seja, fazer com que diminua a capacidade abstracta de o trabalhador voltar a encontrar novo emprego condizente com a sua formação académica e profissional. Na realidade, muitas vezes, o assédio conduz ao enfraquecimento anímico e físico da vítima, que acaba por capitular e demitir-se ou aceitar um falso e conveniente acordo de rescisão do contrato de trabalho contra a mera “atribuição” de protecção no desemprego. O desemprego e a fragilidade levam o trabalhador a aceitar “qualquer emprego”, passando a ter um vínculo precário, um salário inferior e
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porventura uma profissão ou categoria diferente ou inferior. O trabalhador foi lançado numa espiral de desemprego, que acaba por vezes no desemprego permanente e/ou numa incapacidade permanente para todo e qualquer trabalho.
O combate ao fenómeno exige uma abordagem interdisciplinar, sendo imprescindível a troca de experiências e saberes entre, pelo menos, advogados, médicos do trabalho, clínicos gerais, psiquiatras, psicólogos e sociólogos, que permita a produção de legislação adequada e eficaz.
É com o resultado de duas décadas e meia de contacto com milhares de casos reais e da troca de experiências com especialistas de outros ramos que nos atrevemos a fazer uma breve incursão na ciência, para definir o perfil da vítima de assédio e descrever os estádios por que passa.
Numa fase inicial, a vítima de assédio é invadida por uma enorme tristeza e revolta, face à incompreensão que a conduta assediante lhe causa: “porquê eu?!”
Indignada com as imputações que lhe são feitas, luta para manter a sua auto- estima, a confiança em si própria e o brio profissional.
Face à manutenção do mobbing, surge a depressão, o stress e a ansiedade100. Os problemas psicológicos são somatizados e surgem os primeiros efeitos físicos: cansaço, insónias, sonambulismo, falta de apetite, problemas digestivos, mal-estar, vertigens, problemas de pele e perda acentuada de peso.
Com o tempo, aumenta a vergonha pela humilhação, o isolamento, a perda de prazer de viver e de se divertir, os sentimentos de desvalorização pessoal e profissional e a culpabilização pelo que lhe está a ocorrer.
Nesta fase, os problemas são ainda tratados com medicação e acompanhamento médico especializado.
Com o passar do tempo, após vários meses de assédio, surgem as neuroses e psicoses traumáticas, como o estado de stress pós-traumático. O trabalhador começa a entrar em paranóia. Não consegue deixar de pensar permanentemente no assunto, revive constantemente os piores episódios de humilhação e violência, “foge” dos colegas e
100 Em 1974, Freudenberger apelidou de “Burnout (Síndrome de quemase por el trabajo) ao estado crónico com especial incidência
no sector terciário. Tal manifestação clínica manifesta-se por alterações físicas, psíquicas, sociais assentes na insatisfação e frustração laboral que se pode coadunar com outras condicionantes, nomeadamente pelos baixos salários – Cf. Collantes, M. P., & Marcos, J. I. (2012). La Salud Mental de los trabajadores. Madrid: La Ley. pp. 148-149.
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clientes, “esconde” o assunto, exime-se à discussão do mesmo no seio da família e amigos. Passa a ter pesadelos constantes, fobia do emprego e dos colegas.
A vítima, fraca, desgastada, perdida e derrotada, começa a ter episódios de perda de memória, esquecimentos, ao mesmo tempo que generaliza o seu problema, “contaminando” toda a sua vida com o problema laboral: o desapego à vida e à felicidade é transportado para os momentos de ócio, de descanso, para o desporto, para a família e amigos. Entrou em paranóia!
É curioso que, com o tempo, depois de ter passado por uma “fase inicial de violência”, na qual controlou sentimentos de agressão e vingança contra os seus agressores, a vítima começa a não lhes sentir ódio: só quer ser reabilitado e recuperar a sua honra, perdoando-lhes tudo.
O sentimento mais forte e permanentemente experienciado é a vergonha.
Assim, é que, se num primeiro momento a vítima se sente colérica, com vontade de reagir, destruir equipamentos da empresa, insultar ou agredir os executores do mobbing, alguns meses depois, concretizada a destruição da sua identidade, personalidade e carácter, quase só se tortura entre a opção de se demitir e/ou suicidar.
Por isso, com propriedade, Isabel Ribeiro Parreira afirma que o assédio constitui “uma autêntica alienação, no sentido de que a vítima se despoja dela própria e se converte numa estranha perante si mesma101”. É um “assassinato psíquico”, pois a pessoa continua a viver mas convertida a uma espécie de zombie, incorporando em si para sempre uma parte do agressor: as suas palavras ou as condutas de assédio moral”.
A reiteração da actividade persecutória conduz, por vezes, a modificações psíquicas e a psicoses.
Uma das consequências pode traduzir-se na “rigidificação da personalidade”, a qual consiste em transformar as (fundadas) desconfianças nos superiores hierárquicos, na paranóia de tudo desconfiar, procurar incessantemente provas, fotocopiar todos os documentos.
A psicose pode traduzir-se numa “fractura no psiquismo da vítima”, a qual entra mesmo em alucinações auditivas, num ambiente de delírio de perseguição, denominada
101 Parreira, I. R. (2003). O assédio moral no trabalho. In V Congresso Nacional de Direito do Trabalho. Coimbra: Almedina, pp.
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“psicose alucinatória crónica”. Neste estado patológico, o agressor logrou o seu último escopo, dado que conseguiu destruir por completo a sua vítima.
A gravidade e barbaridade de algumas condutas assediantes, as suas consequências pessoais, familiares, sociais e económicas, não apenas para o trabalhador vitimizado como para a sociedade em geral, conduziram à verificação da pertinência de uma intervenção legislativa nesta matéria.
Por outro lado, o aumento da qualificação dos trabalhadores e a crescente visibilidade concedida pelos media ao fenómeno em questão exigiram uma acção comum a nível europeu que prevenisse e combatesse o assédio, assegurando a efectivação dos direitos à dignidade e à integridade física e psíquica do trabalhador e o respeito pelo valor do trabalho, no plano da cidadania da empresa. Por outras palavras, exigiu uma apreciação do contrato de trabalho que tomasse em consideração a pessoa do trabalhador, com todas as características que o individualizam.
Por último, importa notar que as consequências do mobbing não se reflectem apenas nos agentes intervenientes. Também a organização em si, ou seja, a empresa, escritório ou fábrica podem vir a sentir sérias consequências com a prática de assédio no seu seio.
Uma empresa na qual exista um forte assédio entre os trabalhadores ou sobre os trabalhadores, tem inevitavelmente um mau ambiente de trabalho, levando a que os trabalhadores fiquem desmotivados. Consequentemente, o nível de atenção, de eficácia e de brio acaba por ser reduzido, conduzindo a efeitos negativos na imagem e credibilidade social da empresa.102
María A. López Cabarcos e Paula Vázquez Rodríguez103 apontam como consequências do mobbing para a organização as seguintes:
– Redução da eficácia, rendimento e rentabilidade;
– moral baixa, perda da lealdade e dedicação por parte dos trabalhadores, – aumento do absentismo;
– constante mudança de trabalhadores;
– má imagem, publicidade negativa perante a opinião pública;
102 Lopes Cabarcos, M. A., & Vázquez Rodríguez, P. (2003). Mobbing: Como prevenir, identificar y solucionar el acoso psicologico
en el trabajo. Madrid: Ediciones Pirámide. p. 169.
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– condições perigosas de trabalho;
– tempo perdido durante o processo de assédio e durante a contratação e treino de novos trabalhadores;
– gastos relacionados com a assistência ao trabalhador, terapia, ajuda médica e psicológica;
– incumprimento de disposições legislativas, civis e criminais; – custos laborais por indemnização.
Por isso, a proibição do assédio se traduz num facere e num non facere, isto é, a entidade empregadora não só não pode promover condutas assediantes como tem de estar atenta para impedir que se pratiquem no seu seio. É, pois, do interesse desta que impere o bom trato entre os seus trabalhadores, incumbindo-lhe por isso a difícil tarefa de prevenir possíveis situações de assédio, dado que, "sendo o bem jurídico tutelado pelo assédio a personalidade do trabalhador, através da sua dignidade, pretende-se não apenas defender e preservar a pessoa enquanto vítima, mas também a sociedade a que pertence".104
Dadas as diversas e múltiplas consequências do assédio, reproduzimos um gráfico105 bem ilustrativo das possíveis “ondas de choque” que o fenómeno pode causar.
Figura 2. Alcance das consequências derivadas das situações de mobbing.
104 Rebelo, G. (2007). Assédio moral e dignidade no trabalho. Prontuário de Direito do Trabalho, Centro de Estudos Judiciários,
76-77-78, 105-119., pp. 117-118.
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