5.3 A escola e a formação
5.3.7 Considerações finais
Quanto a problemas ambientais existentes nas propriedades dos ex-alunos e suas comunidades, a diferença entre as duas redes é pequena, pouco significante. O que se observa é que os ex-alunos das escolas da rede pública apontam mais problemas ambientais em nível
de propriedade em relação a escola da rede comunitária e menos problemas ambientais a nível de comunidade, isso leva a crer que os ex-alunos da rede comunitária podem estar mais conscientes que os da rede pública quanto aos problemas ambientais que envolve a comunidade, porém não se verifica o mesmo quando se refere a propriedade, o que pode determinar uma participação menor do ex-aluno desta rede a nível propriedade. Por outro lado, ex-alunos da rede pública podem estar menos conscientes quanto a problemas ambientais ao nível de propriedade.
1 O Desenvolvimento Rural
Devemos entender desenvolvimento rural para além do agropecuário, conceito até então muito presente nas regiões em estudo. No meio rural existe uma série de outras atividades que podem ser exploradas pelas famílias dos agricultores, como agroindústria, turismo rural, serviços para manutenção de máquinas e equipamentos agrícolas, entre outros.
na última década a política rural e a política agrícola deixaram de ser consideradas uma para ser a mesma cosia. O momento essencial de viragem foi a comunicação da Comissão ao Conselho e ao Parlamento Europeu em 1988 intitulado "O futuro do mundo rural". Abandonando uma abordagem de natureza setorial, a política de desenvolvimento rural passou progressivamente a abranger todos os aspectos do mundo rural, integrando funções produtivas, sociais e ambientais. (SIMÕES, 1º Congresso de Estudos Rurais - Portugal)
Para que haja esse entendimento da ruralidade, há a necessidade das famílias passarem por um processo de ruptura de paradigmas do tradicional existente entre essas famílias. Uma visão coletiva da ruralidade é necessária para que esses paradigmas sejam rompidos, e nada melhor do que iniciar pela escola de Ensino Fundamental do meio rural onde estão inseridos os futuros agricultores e agricultoras.
Entendo que desenvolvimento rural deve passar, necessariamente, pela qualificação e capacitação de seus agentes, as famílias rurais, através de um processo de educação abrangente e, as perspectivas atuais para uma educação do futuro Gadotti (2000), e aqui incluo o Ensino Fundamental Rural, que deve ter uma visão voltada para:
a) Planetariedade: Uma visão geral do universo, além das fronteiras do municipal, do regional ou nacional. A educação do futuro não pode limitar-se a espaços físicos. Deve, partindo do limite do local, ter uma visão do global, sem perder a identidade, numa análise imparcial das situações de desenvolvimento e formação;
b) Sustentabilidade: Que permeia todas as instâncias da vida na sociedade, o ambiental, social, político e curricular, e que perdure para as gerações futuras. A produção de alimentos sempre terá como fonte a mãe natureza, e assim deve ser entendida, porque dela se utiliza principalmente para nossa sustentação econômica;
c) Virtualidade: Diante da virtualidade contemporânea, o cuidado da escola de não tornar-se obsoleta. Isto posto, a necessidade de uma escola reflexiva, interagindo com o meio, levando a este meio tecnologias e ciências necessários para o seu desenvolvimento, neste caso o desenvolvimento rural que possui, na virtualidade, mais um instrumento para uma formação adequada;
d) Globalização: Segundo Gadotti (2000), não podemos pensar em educação para o futuro sem refletir sobre a globalização da economia, da cultura, das comunicações. Pensar e agir educação globalmente no sentido solidário, humanístico. A escola deve estar aberta a este tipo de globalização, enclausurar-se é retroagir;
e) Transdisciplinariedade: Romper com o "sistema fechado" do pensamento ideológico, religioso ou filosófico, construindo um sistema planetário de educação, fortalecendo o diálogo interinstitucional. Pensar transdiciplinariedade em nossas escolas rurais representa uma utopia, falta formação para seus docentes, porém, a interdisciplinaridade é uma exigência, se quisermos fazer uma educação voltada para a realidade das famílias rurais, dentro de um projeto educacional de desenvolvimento do meio rural. A matemática, por exemplo, não deve ser uma ciência isolada das demais, mas sim inter-relacionada com as outras áreas do conhecimento necessárias para o desenvolvimento desses projetos, tanto de formação pessoal como de projetos produtivos.
"O problema fundamental de natureza política e tocado por tintas ideológicas, é saber quem escolhe os conteúdos, a favor de quem, contra que. Qual o papel que cabe aos educadores numa organização programática dos conteúdos" (FREIRE, 1993, p. 110). Segundo Freire é papel dos educadores distinguir a favor de quem e de quê estão os conteúdos do Ensino Fundamental. Observa-se que, na escola rural da rede pública, os conteúdos estão voltados à
não permanência do jovem no meio rural, que os mesmos não contribuem para a melhoria do bem estar das famílias, que dependem do econômico para continuar no meio rural, e que, do econômico, podem resultar as outras variáveis necessárias para a qualidade de vida das famílias e para o desenvolvimento do meio rural, apesar de a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional dar autonomia para a escola construir seu currículo de acordo com sua realidade. Isto posto, não há mais razões para as escolas públicas continuarem como estão. "O pior de todos os medos, é o medo de mudar" (GADOTTI, 2000, p. 163).
O desenvolvimento rural das regiões em estudo deverá ocorrer com maior velocidade no momento em que houver maior diversidade de atividade e produtos rurais, como agro- alimentares, artesanais, turismo rural e outros e agregação de valores aos produtos.
Infelizmente, não visualizo alternativas, partindo da comunidade escolar oficialmente constituída, para sair da situação atual, necessitando, portanto, iniciativas convincentes de outros setores para que haja mudanças desejáveis. As próprias famílias dos agricultores, através de suas organizações poderão fazer frente a esta iniciativa de mudanças, juntamente com organizações não governamentais, exigindo da própria escola que adeque seus currículos, mas entendo que é uma obrigação da escola visualizar este horizonte e provocar as mudanças necessárias para que não faça somente escolarização, mas sim formação para o desenvolvimento.
Para continuar no meio rural, os jovens necessitam ter perspectiva de futuro. Perspectiva de futuro significa melhor qualidade de vida, saúde, recursos financeiros para a aquisição de bens de consumo, acesso à comunicação, lazer, educação, garantia de vida digna para seus filhos no futuro. Para buscar essas condições no meio rural, só é possível através de projetos que proporcione renda, seja através de atividades agropecuários, agro-industriais ou rurais.
De modo análogo ao que acontece no âmbito global da economia, o grau de acesso aos serviços de saúde, educação, higiene, habitação e outras conquistas relacionadas à melhoria das condições de vida e bem-estar, bem como o nível e o perfil da distribuição da renda per capita do homem do campo são algumas das principais variáveis que, ao lado do aumento da produção e produtividade, integram conceitos mais abrangentes de desenvolvimento rural (ACARRIN, 1987, p. 98).
A economia das regiões pesquisadas é essencialmente agrícola. Para haver crescimento econômico, portanto, deverá haver aumento da produção agropecuária e rural, o que é menos intenso nas unidades de produção dos ex-alunos da rede pública como pode ser visto no quadro comparativo n. º 07.
Para analisar a contribuição das escolas de Ensino Fundamental Rural no desenvolvimento rural de suas comunidades, partirei do conceito de desenvolvimento humano, baseado no Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, analisando as variáveis que julgo serem participantes do aumento do Produto Interno Bruto - PIB, variáveis relacionadas à saúde, à educação e, embora não sendo um componente oficial do IDH, uma análise da sustentabilidade.