Uma interpretação dos resultados da análise dos tra- balhos apresentados no GP Teoria do Jornalismo pode tentar visualizar o imperativo fundante da cultura pro- fissional dos jornalistas – a informação jornalística como bem comum e o princípio político de que a sociedade tem direito à informação de qualidade – a partir de uma determinada perspectiva prescritiva que transborda na maioria desses 84 artigos. Como muitas pesquisas apre- sentadas no GP, durante o triênio analisado, possuem um caráter prescritivo, fica patente que essa prescrição acadêmica está de acordo com os valores imperantes na cultura profissional dos jornalistas, na qual cabe ao jornalista exercer com rigor ético e postura crítica suas práticas profissionais de mediador social, conforme le- gitimidade outorgada pela sociedade para essa função. Entretanto, na última década, mudanças estruturais no sistema capitalista, com os processos de globalização e flexibilização das relações capital-trabalho e a revolu- ção digital proporcionada pelo avanço das tecnologias
serem livres e se autogovernar” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 31).
de informação e comunicação, afetaram profundamente o campo jornalístico. No caso brasileiro, além do con- texto global das mudanças estruturais do jornalismo em função das tecnologias digitais de informação e comuni- cação, devemos adicionar o processo específico da des- regulamentação da profissão e a despotencialização das políticas públicas de comunicação. Acreditamos que as pesquisas em teorias do jornalismo e os trabalhos rea- lizados no Grupo de Pesquisa Teoria do Jornalismo da Intercom estão contribuindo, significativamente, para uma melhor compreensão da atual conjuntura.
Outra interpretação dos resultados aponta que definir o que é o jornalismo e qual a sua função social são temas recorrentes nos trabalhos apresentados. Como sabemos, diversos autores já apontaram que a noção do jornalis- mo como mediação social é o fator de legitimidade social da profissão mas não é a única definição de jornalismo. A partir de autores que trabalham com as teorias cons- trucionistas, estruturalistas e interacionistas, é possível perceber conceitualmente o jornalismo pelo viés de múl- tiplas funções sociais: uma forma de conhecimento; um dispositivo simbólico de construção social da realidade; uma dimensão da cultura, engendrando interações so- ciais; lugar de disputa entre os definidores primários e de negociação entre fontes de informação e jornalistas. Uma interpretação dos dados coletados também pode indicar que essas são as principais definições conceituais sobre o jornalismo presentes nos 84 papers do GP.
Entretanto, ao delimitar ainda mais os resultados, po- de-se concluir que a maioria dos trabalhos de pesquisa
apresentados no GP Teoria do Jornalismo deixa entrever que o papel social fundamental da atividade jornalística – revelado, especialmente, na sua relação com a cidada- nia – circunscreve o jornalismo entre duas balizas teó- ricas: como um campo de produção de conhecimentos singulares sobre a dinâmica imediata da realidade social e como um campo de mediação discursiva dos interes- ses, conflitos e opiniões que disputam o acesso à esfera pública nas sociedades democráticas. Múltiplas concep- ções teóricas sobre jornalismo estão presentes nas pes- quisas do GP, mas nessa fase inicial de apresentação de resultados preliminares não é possível fazer afirmações conclusivas sobre quais são as principais perspectivas teóricas desse grupo. Em suma, podemos inferir que, conforme os trabalhos analisados no período, o “cunho prescritivo” de muitas pesquisas pode significar a exis- tência de uma disputa também na visão teórica sobre o fazer jornalístico e seus efeitos sociais.
As condições de possibilidades em ver e dizer23 sobre
a realidade social estão estratificadas também na comu- nidade interpretativa dos jornalistas. Esses modos do visível e do dizível sobre o real implicam, para a cultu- ra profissional dos jornalistas, relações de poder-saber
23. Bourdieu já afirmou que os jornalistas possuem “óculos es- peciais” através dos quais vêem certos acontecimentos e não outros – “e vêem de uma certa maneira as coisas que vêem” (BOURDIEU, 1997, p. 25). Esses “óculos” são os valores-notícia através dos quais os jornalistas operam uma seleção e uma pro- dução discursiva daquilo que é selecionado.
e produções discursivas atravessadas por efeitos de po- der24. Um amplo campo de pesquisa para a Teoria do
Jornalismo é desvendar os processos da noticiabilidade de um acontecimento conforme as ocorrências dos jo- gos de poder-saber estabelecidos entre as empresas jor- nalísticas e a comunidade interpretativa dos jornalistas. Os caminhos metodológicos podem se bifurcar, pois, se, por um lado, os critérios de relevância são flexíveis e variáveis quanto à mudança de certos parâmetros, por outro, devem ser considerados em relação à forma de operar do meio de comunicação que produz a informa- ção. Conforme já apontou Wolf (2003), o pesquisador deve perceber que não há um processo rigidamente fi- xado e uma avaliação esquematicamente pré-ordenada da noticiabilidade. Nesse sentido, margens de flexibili- dade e de ajustamento da noticiabilidade podem levar o pesquisador a avançar na direção de uma hipótese sobre o caráter negociado dos processos de produção da in- formação: o produto informativo parece ser o resultado de uma série de negociações micropolíticas que têm por objeto aquilo que é publicado e o modo como é editado nas plataformas jornalísticas – e esse tem se tornado um caminho fértil de pesquisa entre os participantes do GP nos três últimos congressos nacionais.
24. Conforme Foucault (1996) assegura, não há nenhuma exterio- ridade entre as técnicas de saber e as estratégias de poder, ainda que cada uma tenha seu papel específico e que se articulem en- tre si a partir de suas diferenças: estratégias e técnicas, conjun- tamente, constituem focos locais de poder-saber.
Uma leitura exploratória permitiu perceber que uma parte significativa das pesquisas do GP investiga como se realizam os processos de negociações que são efetua- dos pelos jornalistas em função de fatores que possuem diferentes graus de importância e ocorrem em diversos momentos do processo produtivo, tendo sempre como parâmetro os valores da cultura profissional. Por outro lado, uma inferência global dessas pesquisas permite vi- sualizar que muitos trabalhos priorizam estudar como os processos de fabricação da informação jornalística se configuram enquanto um espaço público de lutas micropolíticas no qual diversas forças sociais, políticas e econômicas disputam, pela construção discursiva, a produção de sentido sobre a realidade social. São duas trajetórias de investigação do objeto “jornalismo” que parecem ser extremamente potentes para a continuidade dos trabalhos de pesquisa do GP Teoria do Jornalismo.
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