5 Publicidade e as novas tecnologias
6. Publicidade e sua relação com a dimensão promocional
Outro direcionamento investigativo assumido pela pesquisa na área decorre de uma aproximação prelimi- nar entre a publicidade e a mídia no país, em especial a televisão, a partir de sua natureza no mundo globaliza- do, ora apresentada como veículo de comunicação, ora reconhecida como empresa privada. Se, como veículo, ela se dispõe a cumprir as tradicionais funções – infor- mar, entreter, educar; como empresa, ela passa a incor- porar outra função, centrada, fundamentalmente, na disputa, com a concorrência, por índices de audiência e
posição no mercado. Isso porque, como instituição pri- vada, ela necessita dar sustentabilidade ao seu negócio, garantindo o aumento da aceitabilidade e a obtenção de margens comerciais que possibilitem os investimentos para atualização tecnológica, pagamento de custos fixos e variáveis e obtenção de lucros.
Com esse entendimento, foi reconhecida uma quar- ta função, a promocional, ou promocionalidade, a qual, embora passe, por vezes, despercebida da maioria do público, constitui uma função principal, que permeia as demais, e que fica quase sempre sutilmente esque- cida. Nessa medida, a promocionalidade é compreen- dida como uma noção fundante, inerente à televisão comercial brasileira, pelo fato de esta mídia estar tão voltada ao próprio fortalecimento no mercado. A fun- ção promocional constrói-se sob duas direções que se complementam: a publicização e a projeção: a primeira corresponde à atividade de divulgar, de propagar, de dar a conhecer, a um público determinado, aspectos positi- vos e/ou vantagens de qualquer produto, marca, valor, ideia ou serviço, através de recursos de ordens diferentes que possam estabelecer vínculo com esse público; a se- gunda diz respeito à atividade de lançar para frente, de tornar alguém ou algo conhecido e respeitado por suas atividades, de conferir respeito, credibilidade a produto, pessoa, marca, ideia, serviço.
Dessa forma, a televisão, ao valer-se desse poder de divulgação e de conferência de prestígio, não apenas co- mercializa espaços junto a anunciantes externos, como se apropria desses mesmos espaços para exibir o próprio
fazer e desenvolver ações de interesse social que aten- dam as necessidades da sociedade e auxiliem na fideli- zação do público telespectador.
Essa ação promocional assume tal envergadura que faz com que as emissoras, sempre atentas às transformações da realidade sociocultural e às exigências do mercado, mantenham investimentos pesados nas distintas possibi- lidades de promoção: desde a permanente meta de con- quista de audiência para captar mais anunciantes para seus espaços; até a criação de maneiras alternativas de contar histórias, ou de apelo às novas tecnologias, para enrique- cer a grade e atrair o público telespectador; passando pelo alargamento de inserção na comunidade em que atua.
A atualização dessa ação promocional, intimamente ligada à comunicação, à economia e ao consumo, de- corre da definição de estratégias desenvolvidas pelas empresas, com vistas a garantir posição e influência no mercado; trazendo, como resultado, as distintas e varia- das manifestações concretas que ultrapassam o âmbito da mera publicidade.
O entendimento de todo esse processo, do mais abs- trato ao mais concreto, implica uma visão sistêmica, ou seja, uma reflexão abrangente sobre as lógicas de funcio- namento dessa promocionalidade e de suas articulações mais profundas, até chegar à concretude de suas formas de manifestação. Por concretude, entendem-se as cons- truções discursivas, promocionais, com que hoje a mídia televisual opera.
Para dar conta dessa pluralidade de manifestações, di- recionou-se a reflexão para a noção de gênero, entendido
a partir de princípios que norteiam as construções dis- cursivas e que permitem o contato com a variedade de possibilidades concretas oferecidas em televisão. Assim, o gênero constitui um domínio de conhecimento a partir do qual se atualizam diferentes subgêneros, que, por sua vez, se manifestam em formatos distintos e particulari- zantes. Dessa forma, do ponto de vista das relações entre o mundo e o discurso, o gênero constitui uma instância abrangente e abstrata, que se atualiza em categorias, de- terminando os diferentes subgêneros, para só então ma- nifestar-se em formatos particulares. Esses formatos pos- suem características muito peculiares, seja pela variedade de conteúdo, compreendendo desde o produto de um anunciante externo, até os variados produtos da emissora; seja pelo espaço ocupado na grade (intervalo ou interior de programas); seja pela brevidade da duração; passando, ainda, por iniciativas da emissora, de efeito pedagógico ou de inserção social, junto à comunidade de atuação.
O fator desencadeador da produção promocional é, com maior intensidade, o convite ao consumo, o es- tímulo à troca, a oferta de produtos ou serviços que atraiam o consumidor e que possam satisfazer necessi- dades primárias ou secundárias. Vivendo em uma so- ciedade de consumo, a criação de condições favoráveis ao lucro torna-se prioritária para as empresas, por meio da oferta de mercadorias e de serviços que, supostamen- te, sejam adequados às exigências e às preferências dos consumidores. Nesse sentido, o fundamento do gêne- ro promocional é também o caráter mercadológico, na medida em que produções dele resultantes respondem
aos interesses da televisão (e dos anunciantes externos), que está sempre em busca de bons resultados financeiros para continuar operando no mercado.
Convém ressaltar o caráter recorrente da promociona- lidade dentro do discurso televisual: em verdadeiro efeito cascata, o anunciante externo busca a emissora que tem mais poder de penetração e que, portanto, atinge maior contingente de público; a emissora vê na valorização do es- paço a posição de que necessita e o lucro que almeja. Nesse momento, muitas de suas ações têm as mesmas caracterís- ticas das intervenções publicitárias, como a identificação da emissora e/ou de seus produtos: nível em que o objeto da produção televisual busca passar de nome comum a nome próprio, visibilizando-se como marca; a conferên- cia de atributos: nível responsável pela explicitação dos traços distintivos, das peculiaridades de seus fazeres, da competência de sua ação; a celebração: nível responsável pela autoexaltação do nome e de seus atributos, buscando uma unanimidade de reconhecimento; e a apropriação da emissora e/ou de seus produtos por parte dos telespecta- dores: nível do consumo dos produtos televisuais.
A base teórica dessa linha investigativa parte de pes- quisadores internacionais que propuseram e/ou reatuali- zaram teorias da linguagem, como a semiótica europeia e as teorias de discurso de linha francesa, como Greimas, Bakthin, Courtès, Fontanille, entre outros; pesquisadores voltados ao estudo da publicidade e da televisão, como Péninou, Floch, Jost; e investigadores nacionais que de- ram continuidade a esses fundamentos, como Fiorin, Duarte, Machado, Castro, Trindade, entre outros.
O estudo da promocionalidade, na mídia televisual, vem trazendo inúmeros resultados às produções discur- sivas nela veiculadas, a saber: (1) tentativa de formulação de uma gramática do meio, entendida como um conjun- to de regras e regularidades que abriga todas essas pro- duções promocionais; (2) investigação das estratégias utilizadas pelas emissoras de televisão para promover anunciantes e, sobretudo, para autopromover-se; (3) es- tudo das tendências de discurso promocional, quando apoiado fortemente nas novas tecnologias.
Considerações finais
Assim, na discussão sobre a pesquisa em Publicidade e Propaganda, buscou-se, preliminarmente, desenvolver um raciocínio crítico que pudesse trazer uma discussão de natureza mais qualitativa, realçando questões mais recor- rentes dentro da DT, sobretudo depois da experiência de coordenação e vice-coordenação dos últimos quatro anos. Nessa perspectiva, os vieses temáticos mais recorren- tes sintetizam o mapa conceitual da área e inspiram os desenvolvimentos futuros da pesquisa: (1) publicidade, linguagem e discurso; (2) publicidade e relação com a marca; (3) publicidade e consumo; (4) publicidade, en- sino e aprendizagem; (5) publicidade e ambiente digital (6) publicidade e dimensão promocional;
Todos esses direcionamentos foram discutidos ao lado das principais vertentes teóricas que lhes dão fun- damento, além de algumas angulações temáticas que,
sistemática e recorrentemente, têm sido objeto de dis- cussão entre os pesquisadores, nos eventos nacionais e internacionais da área, principalmente os encontros na- cionais da DT PP da Intercom e os eventos internacio- nais da ABP2, desde sua fundação em 2010.
Há que ressaltar que tais direcionamentos também correspondem às linhas de pesquisa dos programas de pós-graduação do país, visto que a grande maioria dos trabalhos submetidos à DT são oriundos de pesquisas desenvolvidas no interior desses programas.
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