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Contribuições aos estudos de cinema no Brasil

No documento PORTCOM (páginas 195-200)

Os Estudos de Cinema são um campo de pesquisa relativamente disperso no Brasil. Como destacam Ber- nadette Lyra (2002) e Fernão Ramos (2002), a área de conhecimento Cinema, para órgãos de fomento à pes- quisa (como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq), situa-se no campo das Artes, embora historicamente o cinema tenha se vincu- lado muito mais, no Brasil, a departamentos e socieda- des científicas da área de Comunicação, como a Inter- com (que, como vimos, conta com grande quantidade

de trabalhos sobre cinema) e também a Socine (Socieda- de Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual), que tem a maioria de seus pesquisadores ligados à Comuni- cação, além da Compós (Associação Nacional dos Pro- gramas de Pós-graduação em Comunicação), que sem- pre teve um Grupo de Trabalho dedicado aos estudos de cinema, além de ter o cinema com o objeto de inúmeros artigos em seus GTs.

De fato, a centralidade do cinema no sistema audio- visual das comunicações é um dado inescapável, sobre- tudo por essa ter sido a primeira mídia audiovisual a surgir entre os meios técnicos de comunicação, caracte- rizando a experiência moderna como poucas foram ca- pazes de fazer. Como discutem Leo Charney e Vanessa

Schwartz em O Cinema e a Invenção da Vida Moderna

(2004), inspirados nos escritos de Walter Benjamin, Ge- orge Simmel, Michel de Certeau e Siegfried Kracauer, a transformação da experiência subjetiva da modernida- de e as transformações sociais, econômicas e culturais foram, em certo sentido, produtos de inovações técni- cas, como o telégrafo, o telefone, a estrada de ferro, o automóvel a fotografia e o cinema, sendo este último “a expressão e a combinação mais completa dos atributos da modernidade” (2004, p.17).

Nesse sentido, os autores identificam seis elementos centrais para a relação da história cultural da moderni- dade com o cinema: (1) o surgimento de uma cultura ur- bana metropolitana que levou a novas formas de entre- tenimento e lazer; (2) a centralidade correspondente do corpo como o local da visão, atenção e estimulação; (3)

o reconhecimento de um público, multidão ou audiência de massa que subordinou a resposta individual à coletivi- dade; (4) o impulso para definir, fixar e representar ins- tantes isolados em face das distrações e sensações da mo- dernidade, um anseio que perpassou o impressionismo e a fotografia e chegou até o cinema; (5) a indistinção cada vez maior da linha entre a realidade e suas representações; e (6) o salto havido na cultura comercial e nos desejos do consumidor que estimulou e produziu novas formas de diversão (CHARNEY, SCHWARTZ, 2004, p.19). Sob esse ponto de vista, parece inevitável que o cinema seja uma discussão central para o campo da Comunicação.

Mas, como mostra Lyra, em texto publicado no NP de Comunicação Audiovisual da Intercom em 2002, a identidade “dupla” do cinema – entendido tanto como objeto do campo da comunicação quanto das artes – está dada desde sua origem, e isso se reflete na forma como o cinema foi incorporado ao campo dos saberes, não ape- nas no Brasil. A autora observa que a natureza instável do meio e a multiplicidade de abordagens que ele exige dificultam a questão, pois, “se de um lado é impossível desligar o cinema de sua condição industrial, de outro, é preciso respeitar sua característica de exercitar uma arte na forma própria de pensar e modelar o tempo, o espaço e o movimento”. Em decorrência disso, para ela, “as pró- prias teorias do cinema experimentam uma errância, da época do reinado dos grandes sistemas unificadores, aos fragmentos teóricos de agora” (LYRA, 2002). Então, ela pergunta: os estudos de cinema estariam no campo da arte ou da comunicação? E responde:

Sabe-se que o cinema era considerado, em seu princípio, uma mera diversão de operários e uma fonte de renda para os produtores. Multi- dões extasiadas pagavam para ver a reprodução pura e simples dos movimentos de um bebê que almoçava ou um trem chegando a Ciotat. Creio que essa característica primeira, na qual estão envolvidas questões de investimento econômi- co, de produção técnica e de recepção em uma determinada época, poderia ter sido um ponto de partida aceitável para uma inserção do cine- ma, tempos depois, nos estudos que se desen- volveram em torno da ideia de comunicação so- cial. Porém, desde o início, alguns apaixonados teóricos tentavam justificar um status artístico do cinema, salvando-o de uma possível des- consideração da intelectualidade. Já em 1913, Ricciotto Canudo, “escritor italiano de cultura francesa”, fundava uma revista, Montjoie e, nela, se interrogava sobre a especificidade e a vocação do cinema, que ele foi o primeiro a chamar de “sétima arte”. (LYRA, 2002)

Nesse sentido, ela destaca a censura de Walter Benja- min dirigida àqueles que tentavam conferir ao cinema uma “dignidade artística”, como se a questão fosse apenas saber se os meios tecnológicos nascentes eram ou não uma arte, sem que se colocasse, ao menos, a questão prévia: sa- ber se a invenção da fotografia e do cinema não havia al- terado a própria natureza da arte. Assim, segundo ela, o cinema se viu condenado a errar por entre os campos dos saberes, e isso se reflete no ensino e nos estudos de cinema.

Como descreve Ramos (2010), o Cinema se coloca no Brasil de forma abrangente dentro de departamentos de comunicações, possuindo a particularidade da deman- da de formação prática. O autor observa que os alunos que ingressam em cursos de graduação em Cinema têm, de maneira geral, o interesse de aprender a fazer cinema: utilizar a câmera, dirigir, produzir, fotografar, montar, sonorizar, fazer roteiros, etc. A maior parte dos cursos de graduação, no Brasil e no mundo, encontra-se volta- da para esse público, sendo ministrada por professores com carreira profissional na produção cinematográfica. Nos currículos desses cursos, também estão presentes disciplinas envolvendo história do cinema, teoria e aná- lise fílmica – eixos que organizam, de maneira geral, o campo acadêmico dos estudos de cinema (RAMOS, 2002). Mas, predominantemente, os cursos dedicados em específico a esses assuntos encontram-se voltados para a pós-graduação.

Os Estudos de Cinema na pós-graduação envolvem um conjunto de expressões que se intercambiam com produções televisivas, digitais, museológicas, artísticas etc, e, juntas, formam um campo de estudos em fran- ca expansão no país, como se percebe na multiplicação de eventos e trabalhos científicos sobre o tema, além de uma grande quantidade de cursos de especialização e de pós-graduação que surgiram em anos recentes. Atual- mente, por exemplo, temos, no Brasil, quatro progra- mas de pós-graduação stricto sensu em Comunicação com áreas de concentração voltadas aos estudos do Au- diovisual, sendo o Cinema assunto privilegiado nesses

programas (embora também haja estudos sobre Cinema desenvolvidos em departamentos de Artes, Letras, His- tória, Educação, Ciências Sociais, Filosofia etc).

Os PPGs brasileiros de Comunicação com área de concentração relacionada diretamente ao audiovisual são o de Multimeios da Unicamp; o de Imagem e Som da UFSCar; o de Meios e Processos Audiovisuais da USP e o de Comunicação na Anhembi Morumbi, todos no Estado de São Paulo. Além deles, verifica-se um grande número de PPGs com linhas de pesquisa em audiovisual – como os da UFF, Unisinos, UNIP e UFPE –, além da criação de disciplinas e de atividades de pesquisa sobre o assunto em quase todos os PPGCOMs do país.

Sem dúvida, o crescimento do GP de Cinema da In- tercom é um reflexo desse interesse crescente dos pes- quisadores brasileiros de comunicação pelo assunto.

Essa ampliação também se verifica na grande quan- tidade de lançamentos editoriais sobre cinema por editoras brasileiras. Em boa parte desses lançamentos, percebe-se a preocupação em traduzir textos fundamen- tais de análise fílmica, teoria e história do cinema que ainda não estavam disponíveis em língua portuguesa, tais como os de Jacques Aumont (2004 e 2011), David Bordwell (2013, 2014), Antoine de Baecque (2010), Jo- hnathan Crary (2012 e 2013), Jacques Ranciere (2011), Slavoj Zizek (2009), entre muitos outros, todos frequen- tes nas referências bibliográficas dos trabalhos apresen- tados no GP de Cinema e nos estudos de cinema em ní- vel mundial. Da mesma forma, estudos que procuram observar o papel do cinema na nova configuração das

No documento PORTCOM (páginas 195-200)