3. ATRIBUTOS JURÍDICOS DO COMPLIANCE NO MERCADO DE ARTE
3.4 Passos iniciais para a concretização do compliance no mercado da
3.4.1 Considerações sobre os Documentos Avaliados
Em primeiro lugar, antes de discorrer a respeito da possibilidade de criação
de um modelo de compliance para o mercado de arte, é essencial realizar algumas
observações a respeito dos documentos avaliados no tópico anterior. Nesse sentido, foram considerados tantos os pontos positivos, negativos e omissões capazes de impactar o meio no qual estão inseridos.
Um ponto essencial deve ser destacado inicialmente. Os documentos produzidos de maneira interna ao ente privado, normalmente, estão vinculados a algum programa de conformidade. Entretanto, não foram identificados com facilidade exemplos de programas e de sua implantação no âmbito da estrutura do mercado de arte.
A divulgação de elementos e de condutas internas bem-sucedidas poderiam servir de parâmetro para outras entidades no mercado de arte. Mesmo que os entes
do mercado da arte possuam interesses distintos do compliance, exemplos que
surtiram bons resultados poderiam ser úteis em suas organizações internas.
Além disso, outro ponto importante que merece ser destacado e que não foi abordado no tópico anterior diz respeito à maneira como as entidades lidam com o segredo nas transações. Trata-se de uma prática bastante corriqueira e tradicional no mercado de arte. Todavia, os documentos não parecem inclinados a propor uma completa exclusão dessa prática do mundo das transações de arte.
Em relação ao código de conduta da Sotheby’s, não há menção à forma como lidam com o comprador que prefere se manter em segredo. As informações confidenciais às quais o documento faz referência estão relacionadas à atuação de seus funcionários. Dessa forma, as informações confidenciais são relacionadas aos segredos empresariais internos e não necessariamente ao fato de a Sotheby’s manter ou não transações sigilosas.
Deve-se destacar que o sigilo pode ser relacionado à identidade do comprador, à origem do dinheiro e à proveniência da obra de arte. Em relação ao
Basel Art Trade Guidelines, o documento afirma que a identidade do comprador e do vendedor deve ser sempre conhecida no âmbito das transações de obras de arte. Todavia, é possível impedir que terceiros conheçam as identidades envolvidas, desde que aqueles diretamente envolvidos não se mantenham em segredo
(CHRIST; VON SELLE, 2012, p. 12). Além disso, as guidelines apresentam um procedimento padrão que deve ser seguido nos seguintes termos:
These Guidelines propose that even where non-disclosure has been requested the identity of the seller or buyer has to be communicated by the market operator to third parties with a legitimate legal interest using the following procedure: The market operator communicates the request for disclosure to the concerned party (seller/buyer) granting a reasonable time for response. If the latter opposes such a disclosure request explicitly and with a legitimate reason, the final decision will be determined by the Advisory Board (see 9.2.2) which will seek to balance the various interests at stake (in câmera procedure). If the Advisory Board grants disclosure, the third party may communicate the identity of the seller/owner only in connection with the said third party’s legitimate legal interest, and this must be confirmed in writing to the market operator before any such disclosure is made (CHRIST; VON SELLE, 2012, p. 12).
Desse modo, não necessariamente os documentos apresentados defendem a extinção por completo do segredo no mercado de arte. De certa forma, admitem a
prática, e, no caso do Basel Art Trade Guidelines, ampliam a responsabilidade
daquele que opta por manter sua identidade sob sigilo.
Entretanto, é necessário reconhecer de maneira mais explícita essa prática dentro do mercado de arte e propor medidas mais eficientes de combate, tendo em vista que serve como mecanismo de facilitação da lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, por exemplo.
Outra questão que merece ser ressaltada, mas que também não foi abordada de maneira específica nos documentos avaliados anteriormente, diz respeito à responsabilidade social dos entes privados do mercado de arte. O Código da Sotheby’s aparenta conceder um pouco mais de atenção a esse ponto especial do que as outras entidades. Entretanto, deve-se ressaltar que os entes privados, como as empresas, não devem ficar à margem dessa temática tão debatida atualmente.
Resumidamente, deve-se considerar que, em termos econômicos, a responsabilidade social corporativa, de acordo com Marc T.Jones e Matthew Haigh (2007,p.61) envolve dois aspectos. O primeiro corresponde a uma maior internalização das externalidades negativas, enquanto o segundo diz respeito a maior geração de externalidades positivas. Portanto, em termos práticos, traduzidos a partir de uma linguagem econômica, envolve contribuições ao meio social em que está inserida, bem como a contenção de consequências negativas da produção empresarial, como a poluição ao meio ambiente.
A responsabilidade social considera, assim, o ente privado como pertencente a determinado meio ao qual deve direcionar condutas positivas, em face da realização de transações que possuam algum impacto negativo na sociedade. Nesse ponto, pode-se inclusive acrescentar a questão cultural que deveria ser abordada com mais firmeza pelos documentos existentes no mercado de arte. Trata-se de questão elementar a Trata-ser considerada nas transações artísticas.
Apesar de não terem sido identificados elementos específicos nos documentos avaliados, há outros no mercado de arte direcionados prioritariamente à proteção de determinados grupos culturais no momento de realização das transações de obras de arte. Há documentos, por exemplo, especificamente
voltados à proteção de grupos particulares com os aborígenes, como o Indigenous
Art Code (2010) e o Code of Practice for galleries and retailers of Indigenous Art
(2007), ambos australianos. Nesse sentido, importante mencionar alguns dispositivos específicos a fim de se compreender como ocorre a sua abordagem específica em códigos de ética e conduta.
O Code of Practice for galleries and retailers of Indigenous Art (JANKE, 2007). Desenvolvido pela prefeitura de Melbourne, Austrália, em parceria com galerias e negociantes de arte indígena, objetiva garantir a proteção da arte indígena em seu âmbito de negociações comerciais. De acordo com suas disposições preliminares, o documento objetiva apontar diretrizes para a forma com as galerias e negociadores de arte devem dispor dos objetos e a forma como devem interagir com os artistas indígenas. Além disso, visa a encorajar sua utilização por artistas, galerias, museus, livrarias, instituições culturais, entre outras entidades de promoção cultural (JANKE, 2007, p.04).
O código de boas práticas ressalta a importância de que as entidades que comercializam obras indígenas promovam a difusão da diversidade e da cultura dessas comunidades. No item 3.1 indica o que segue:
Galleries and retailers will promote the diversity of Indigenous arts and cultures respectfully by recognising: 3.1.1. there are many different Indigenous cultures throughout Australia; 3.1.2. Indigenous artists use both natural and new media materials; 3.1.3. Indigenous cultures are dynamic; and 3.1.4. Indigenous artists live in isolated, city and rural communities (JANKE, 2007, p.05).
Portanto, a comercialização de obras indígenas, de acordo com esse dispositivo, deve envolver a correta atribuição e a indicação dos contextos culturais desses objetos.
A seção 6 do documento, por sua vez, acerca da representação dos artistas e de sua cultura, indica que termos depreciativos jamais poderão ser utilizados, como Abo, part-Aborigine, full-blood, half-caste. Estabelece ainda que devem ser mencionados os termos Indígenas e Aborígenes com letras iniciais maiúsculas. Na mesma seção, item 6.2.4, determina que as galerias e negociadores devem consultar os povos indígenas na utilização das palavras de sua comunidade (JANKE, 2007, p.08).
Ainda em relação ao Código mencionado no parágrafo anterior, importante destacar que o documento enaltece a necessidade de que os símbolos indígenas, como bandeiras, imagens e palavras, sejam representados de forma adequada. A veiculação de imagens, para fins comerciais, sem a associação com sua importância cultural menospreza seu valor (JANKE, 2007, p.08).
Sobressai, assim, a necessidade de representação adequada da cultura indígena. Além disso, nos documentos mencionados a proteção indica a necessidade de estabelecer meios que garantam a correta veiculação de práticas culturais. Apesar de serem documentos voltados a uma situação particular, envolvendo obras indígenas, servem como exemplo para a formação de diretrizes que atentem com cautela para a comunidade cultural que está sendo representada em determinada transação de obra de arte.
3.4.2 É possível estabelecer um modelo de concretização do compliance no