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Financiamento do Terrorismo e Lavagem de Dinheiro

No documento “Sem Título”: Alessandra Franca, 2019 (páginas 43-46)

1.4 Problemas mais Recorrentes no Mercado

1.4.3 Financiamento do Terrorismo e Lavagem de Dinheiro

Um terceiro ponto que merece destaque no que concerne às práticas ilícitas mais comuns no mercado de arte é a sua utilização como meio para financiar o terrorismo e para a lavagem de dinheiro.

No início de 2018, a polícia de Barcelona, na Espanha, prendeu dois negociantes de arte, suspeitos de integrarem um grupo controlado pelo grupo terrorista ISIS, enquanto tentavam vender objetos culturais saqueados na Líbia (DELOITTE, 2018, p.04). Entretanto, constitui apenas um entre vários casos que vêm ocorrendo, principalmente envolvendo objetos saqueados em países situados dentro de regiões conflituosas.

Nessa linha, Bojan Dobovšek indica que, normalmente, grupos terroristas se concentram em locais repletos de antiguidades ou próximos a sítios arqueológicos, em situações de vulnerabilidade, da seguinte forma:

Areas where terrorists groups are based tend to be full of antiquities still buried in unexcavated archaelogical sites. Antiquities are cheap and may be sold at full value with only a fake provenance. Antiquities are easy to smuggle through organised crime trade routes, passing them off as modern fakes, like tourist souvenirs. Antiquities can even be soldo on eBay (2009 p. 1075).

Em relação ao financiamento do terrorismo, não há mais dúvidas em relação à sua existência disseminada no mercado. A grande questão recai sobre a forma como contê-lo ou impedi-lo atualmente (DELOITTE, 2018, p.04). Nesse sentido, já é pacífico considerar essa atividade ilícita como recorrente no mercado de arte. Resta, assim, atentar para as causas do setor que atraem com facilidade os criminosos.

O documento Guidelines on Combatting Money Laundering and Terrorist

Financing (2017), da entidade Responsible Art Market3, antes de traçar meios úteis à

prevenção desse ilícito, apresenta a seguinte explicação a respeito de como ocorre

o financiamento do terrorismo por intermédio de mecanismos do mercado de arte:

Terrorist financing refers to activities that provide funds or financial support to individual terrorists or terrorist groups enabling them to carry out their deadly actions. Even if such funds have a legitimate origin, the purpose for which they are used is illicit. Those seeking to finance terrorism resort to the same strategies, schemes and covert operations that money launderers employ to disguise the intended illicit purpose of the funds and anonymize the beneficiaries (RESPONSIBLE ART MARKET, 2017).

O documento destaca, assim, pelo menos três elementos que caracterizam o financiamento ao terrorismo sem atrelar necessariamente a uma definição específica do mercado da arte. De acordo com ele, 1) são atividades que proporcionam financiamento e fundos; 2) facilitam a preparação ou a prática das ações terroristas; 3) o financiamento não necessariamente tem uma origem ilícita; 4) todavia, o propósito é sempre ilícito; 5) utilização das mesmas estratégias, esquemas e operações obscuras para cobrir a intenção ilícita dos fundos e tornar anônimos seus beneficiários.

Dessa maneira, o objeto não necessariamente precisa ter sido roubado. Conforme aponta o trecho do documento acima destacado, o que caracteriza a atividade de financiamento do terrorismo recai, primordialmente, sobre a finalidade e não sobre a origem dos recursos obtidos com a venda de arte.

Em relação à lavagem de dinheiro, conforme já foi demonstrado anteriormente, trata-se de problema recorrente em todo o mundo, inclusive fortemente presente no Brasil. Um dos primeiros passos para o combate é justamente a transparência nas transações em um ambiente no qual se privilegia o

segredo nas transações. Desse modo, o documento Guidelines on Combatting

Money Laundering and Terrorist Financing (2017a), do Responsible Art Market, expõe de maneira acessível como ocorre a lavagem de dinheiro e que medidas podem ser tomadas para se evitá-la:

Money laundering is the process by which proceeds of crime are « cleaned » i.e. introduced into the legitimate economy to disguise their illicit origin, with notably the aim to prevent their confiscation by law enforcement authorities. To launder the proceeds of criminal activities, such as human trafficking, forced prostitution, drugs, extortion, corruption, white collar crime, armed robbery and theft, criminals use multiple economic operations to introduce these illicit funds into the financial system. Such operations include purchasing and selling currencies and investing in luxury items, real estate, art and similar high value items in attempts to disconnect the proceeds from the illicit activities by which they were acquired. Money launderers rely on anonymity and deception to cover their tracks, disguise the origin of their funds and hide the real purpose behind their business and transactions. Any person or entity involved in business operations aimed at laundering money

can be charged with committing a criminal offense (RESPONSIBLE ART MARKET, 2017).

A lavagem de dinheiro ocorre, normalmente, embasada sobre o anonimato, escondendo a real origem dos seus recursos. Para isso, o dinheiro oriundo de atividades ilícitas é, normalmente, investido em artigos de luxo, principalmente objetos de arte.

2 FORMAÇÃO CONCEITUAL DO COMPLIANCE

No capítulo 01, foi trilhado o início do caminho para se compreender a

manifestação do compliance no mercado de arte. Nesse sentido, foi estudado com

mais cautela o objeto da pesquisa, foram investigadas as peculiaridades que colaboram para a estruturação do mercado de arte, as características que o tornam suscetíveis a determinadas práticas ilícitas, bem como seu posicionamento à margem da regulação estatal.

Um segundo passo na pesquisa é necessário ainda, antes de compreender a

manifestação do compliance nesse ambiente específico. Em outras palavras, é

preciso tentar alcançar o seu conceito que, muitas vezes, é apresentado de forma bastante difusa e nebulosa.

O termo compliance vem sendo bastante utilizado atualmente, tanto no

âmbito acadêmico quanto na advocacia. Em todos os ramos jurídicos, há discussões e novidades contínuas sobre a temática, além de que cada vez mais juristas se interessam pelo assunto e tentam aplicá-lo ao quotidiano empresarial. Dessa

maneira, vem ocorrendo uma verdadeira revolução do compliance como denominou

o advogado e autor norte-americano Geoffrey Parsons Miller (2017, p. 440).

A compreensão do compliance de maneira interna ao mercado de arte,

entretanto, pressupõe preliminarmente a compreensão de seu conceito na atualidade, tanto sob o ponto de vista dos entes privados que o implantam como da doutrina especializada. O presente capítulo direciona-se, assim, a essa discussão, bem como à construção de categorias e de um conceito próprio do termo capaz de agregar diferentes visões sobre a temática.

No documento “Sem Título”: Alessandra Franca, 2019 (páginas 43-46)