3. Lugares que levam a outros lugares: perspectiva teórica adotada e conceitos para análise
3.1 Estudos de Letramento em diálogo com o Círculo de Bakhtin: perspectiva teórico-
3.1.2 Construção de identidades e eventos de letramento
Considero que as práticas de letramento relacionadas à formação do professor no local de trabalho podem ser lugares de negociação e transformação de saberes, identidades e práticas profissionais (KLEIMAN, VIANNA, DE GRANDE, 2013). Parto de uma concepção identitária do letramento, em oposição a uma concepção instrumental, funcional da escrita, “que se centra geralmente nas capacidades individuais de uso da língua escrita em cotejo com uma norma universal do que é ser letrado” (KLEIMAN, 2010, p. 376). Práticas de letramento estão associadas a diferentes status sociais em função das identidades que podem ser nelas e por elas construídas, pois diferentes formas de leitura e escrita que aprendemos e usamos estão associadas, entre outros fatores, a identidades e expectativas sociais acerca de modelos de ação e papéis que desempenhamos (STREET, 2006), o que também muda dependendo das condições efetivas de uso da escrita.
Em práticas de letramento, por meio do trabalho, do ativismo político, dos relacionamentos pessoais etc., “estamos assumindo – ou recusando – as identidades associadas a essas práticas” (STREET, 2006, p. 470). Nas mais variadas práticas de letramento, é na interação que os participantes negociam sentidos e identidades. Segundo Kleiman (2010, p. 388, 389),
os processos que contribuem para as construções identitárias são discursivos. Para além das identidades nacionais, étnicas, de gênero, são construídas discursivamente identidades profissionais, como as de professor, médico, advogado; identidades reguladoras e avaliativas, como as que classificam e dividem uma turma em alunos bons ou ruins; com ou sem ‘futuro’; bons meninos e delinquentes. O processo acontece diuturnamente em instituições formadoras, como a escola, as faculdades,
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enfim, nos espaços onde se ensina aos alunos a falar e pensar como os membros do grupo social, ou profissional, a que aspiram pertencer. Nesse processo, a interação é determinante, pois permite que os participantes se posicionem e sejam posicionados pelo outro segundo relações de poder, status, hierarquia, gênero, etnia.
Assim, é na interação que os participantes negociam quem são, que se diferenciam de uns e se identificam com outros. Pesquisas etnográficas apontam que as pessoas em diferentes posições podem rejeitar e negociar as identidades que lhes são atribuídas na relação com o outro. O fato de a identidade sempre ser construída em relação ao outro e depender da situação comunicativa é o que faz Cuche (2002) afirmar que a identidade é sempre relacional. Woodwad (2000) também defende que a identidade depende de uma oposição com o outro, é marcada pela diferença, mas destaca que algumas diferenças são vistas como mais importantes que outras, em lugares particulares e em momentos particulares. O caráter relacional da identidade é uma marcação simbólica em relação a outras identidades num determinado contexto, ou seja, há sempre o movimento de diferenciação com o outro para a construção da identidade de um eu ou um nós. A alteridade constitui a identidade.
No mundo pós-moderno da segunda metade do século XX, o sujeito é considerado fragmentado e não se concebe uma identidade única, essencial ou interior ao sujeito, que seria composto de várias identidades, algumas contraditórias ou não- resolvidas. Nessa conjuntura, a identidade se constitui como uma associação a um grupo, sendo as escolhas identitárias mais políticas, mais “associativas” que designadas (HALL, 2006, p. 64). Além disso, uma identidade particular não pode ser definida apenas por si só, por sua presença e conteúdo, pois “todos os termos da identidade dependem do estabelecimento de limites – definindo o que são em relação ao que não são” (HALL, 2006, p. 81). Andreson e Zuiker (2010, p. 293) definem identidade como uma construção social alcançada através da interação de dois fatores:
(1) performances micro-interacionais por meio das quais os indivíduos se posicionam a si mesmos e aos outros, como também sua participação em práticas à luz de (2) significados disponíveis dessa participação relativos à
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mediação de contextos macrossociais (ex. curriculum, instituição, ideologias do conhecimento)30.
Com base nisso, considero que as identidades são construídas pela participação em práticas que são situadas e por discursos disponíveis no contexto sócio-histórico observado. Essa perspectiva assume que a identidade é construída no discurso, pelos usos da linguagem, mas que essas construções não são completamente livres (KLEIMAN, 1998), não se dão no vazio, pois a própria linguagem nunca se dá no vazio em sua realidade dialógica e social e toda prática social situada está inserida, é influenciada e influencia o contexto sócio-histórico mais amplo (BAKHTIN, [1934, 1935] 1988, BAKHTIN/VOLOCHINOV, [1929]1985).
Bauman (2005), que considera o mundo pós-moderno como “líquido”, defende que as instituições e relações líquidas tornam a identidade um conjunto de problemas, questões, e não uma campanha de tema único. O autor salienta o aspecto de batalha que sempre envolve a questão da identidade. Para ele, “sempre que se ouvir essa palavra [identidade], pode-se estar certo de que está havendo uma batalha” (BAUMAN, 2005, p. 83). Dessa forma, é possível entender identidade como um construto ideológico e político; refeita permanentemente; território da luta social, em que um diz ao outro o que é e o que não é (BAKHTIN/VOLOCHINOV, [1929]1985). E, como a identidade é negociável, também é manipulável: um traço de identidade pode ser mais útil em determinado momento e, então, é destacado.
Também com base nos estudos do Círculo de Bakhtin, Cerutti-Rizzatti, Mossmann e Irigoite (2013) rejeitam a ideia de identidades múltiplas, se afastando de abordagens pós-modernas, e as concebem nas movências das relações sociais que o sujeito estabelece na história entre o ontem e o hoje e entre o hoje e o amanhã. As autoras compreendem a identidade nos encontros, conceito que tomam de Ponzio (2010), ou seja, enfocam a relação dialógica com a alteridade, o encontro da outra palavra com a palavra outra. A definição de identidade na alteridade não é entendida, pelas autoras, em uma perspectiva dicotômica – ser ou não ser, e sim nas movências, considerando ancoragens
30 Tradução do original: “(1) micro-interactional performances through which individuals position themselves, each other, and their participation in practices in light of (2) available meanings of such participation relative to mediating macrosocial contexts (e.g., curriculum, institution, ideologies of knowing)”.
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identitárias sempre temporárias, “tanto quanto movimentos de deslocamento das âncoras, nas busca de novos pontos temporários de fixidez” (CERUTTI-RIZZATTI, MOSSMANN e IRIGOITE, 2013, p. 53). Considero tal perspectiva relevante, na medida em que permite associar o caráter movente e de negociação da identidade à história dos sujeitos e aos discursos a eles disponíveis nas esferas de atividade humana.
Na pesquisa de Vóvio (2007), alfabetizadores de jovens e adultos, sem formação específica para lecionar, constroem identidades leitoras no alinhamento a práticas de letramento variadas, “ora sustentando e reafirmando a cultura tomada como legítima, ora mesclando-a com valores locais, ora rompendo ou resistindo a ela” (VÓVIO, 2007, p. 246). O outro no processo de construção identitária, nesse caso, é a cultura tomada como legítima, a leitura de cânones literários, utilizada de diferentes maneiras nesses processos de identificação e diferenciação. As análises de interações entre educadores e pesquisadora em rodas de conversa mostram o papel do letramento na construção identitária. Nesse processo, as imagens de si dos educadores populares convergiram para um processo de autolegitimação, no qual se apresentavam como leitores competentes, capazes de formar outros leitores. Os discursos dos educadores investigados por Vóvio
estão saturados tanto da expressão de suas identidades leitoras como da imagem de si que produziram, implicando tanto configurações locais, relacionadas aos status e lugares que ocupam na situação, como outras mais amplas relacionadas a configurações culturais, profissionais e societárias. Objetivar-se como leitor ou conceber-se como um leitor-tipo exigiu dos educadores participantes reunirem um conjunto de traços e características (atributos e propriedades) que estabelecem fronteiras entre nós e eles e constroem pontes com os outros (com os quais se identificam), com comunidades que se deseja instaurar ou das quais se deseja participar. Esses enunciados se referem tanto ao pertencimento a um determinado grupo (daqueles que dizem e valoram certas práticas, que as realizam de modos situados, com pessoas e com determinados objetos e instrumentos culturais), como à credibilidade do pertencimento declarado (a plausibilidade daquilo que dizem e afirmam ser). Expressam, portanto, a avaliação apreciativa e o posicionamento dos sujeitos diante dos objetos de seu discurso e diante das posições de outros que influem no seu dizer. (VÓVIO, 2007, p. 245, 246).
Para se afirmar como pertencente a um grupo, construir uma identidade e ser reconhecido nesta, há um jogo de disputas e significações tanto com o outro de quem se
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quer diferenciar quanto em relação a avaliações e posicionamentos sobre determinados objetos de discurso, conforme aponta Vóvio (2007). Assim, os objetos discursivos tratados na formação do professor em seu local de trabalho e o posicionamento das participantes sobre eles são elementos relevantes na análise de suas identidades como professoras e são elementos que as participantes usam para afirmarem quem são naquela situação comunicativa e como projetam seus interlocutores.
A configuração dos eventos de letramento e os gêneros31 atualizados nos eventos de formação do professor podem ser estratégias dos sujeitos para se afirmarem nessas situações comunicativas, utilizados para se (re)posicionar frente a discursos sobre sua profissão e sua formação, para negociar identidades. Isso quer dizer que eventos e os gêneros neles mobilizados podem ter como objetivo responder a outros discursos sobre o professor, autorizar-se a si mesmos, criar espaços para agência32 (KLEIMAN, 2000, 2006; HOLLAND et al., 2003; KLEIMAN, VIANNA, DE GRANDE, 2013) dentro de um contexto complexo de grande importância social como é a escola.
Em um evento de letramento, um ou mais gêneros são mobilizados na interação entre os participantes. O conceito de evento de letramento proposto por Heath (1982) está baseado no conceito de “evento de fala”, desenvolvido por Hymes na Etnografia da Comunicação, que, por sua vez, tomou o termo emprestado de Roman Jakobson (GUMPERZ, 2008). O enfoque nessa tradição de pesquisa é no funcionamento da linguagem em eventos de fala documentados, em detrimento de um enfoque nas relações entre normas culturais de uma comunidade e estruturas linguísticas abstratas, este preponderante na época em que Hymes propôs seu enfoque (HYMES, 1972; GUMPERZ, COOK-GUMPERZ, 2008).
Essa perspectiva teórico-metodológica iniciou pesquisas que combinavam o trabalho de campo etnográfico com a análise linguística. O termo “evento de fala” foi
31 As questões relativas aos gêneros serão aprofundadas na próxima seção.
32 Varghese et al (2005) definem agência como uma categoria que permite dar ênfase ao indivíduo como ser intencional, como um elemento crucial na formação de identidades, opondo-se a modos deterministas de percebê-lo. Para Kleiman (2006), interessa para a formação do professor o conceito de agente social (ARCHER, 2000): aquele que age na coletividade, em função dos objetivos de um grupo social, com capacidade para articular os interesses partilhados pelos membros da coletividade, organizar o grupo para a ação conjunta, gerar movimentos sociais.
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adotado como um “nível intermediário de análise que fornece acesso ao processo interpretativo que motiva as ações dos participantes” (GUMPERZ, COOK-GUMPERZ, 2008, p. 536). Os eventos são tomados como unidades de análise para examinar práticas interpretativas em detalhe. Assim, eventos são concretamente disponíveis para a investigação etnográfica e constituem unidades de interação sujeitas à análise direta por meios empíricos estabelecidos (GUMPERZ, 2008).
O foco em eventos leva em consideração não só os dados linguísticos, como também o cenário, os gestos, os silêncios, entre outras ações dos participantes. A tradição da Sociolinguística Interacional contribui para esse enfoque ao tomar o evento como unidade de análise e caracterizá-lo como enunciados sequencialmente ligados, isolados para a análise quando, diferenciáveis de outras unidades no material gravado, por meio de algum nível de coerência temática, inícios e fins detectáveis através de mudanças no conteúdo, prosódia, estilo ou outras marcas formais dos enunciados (GUMPERZ, 2008). Como explica Gumperz (2008), a Sociolinguística Interacional (SI) é uma abordagem à análise da fala que tem suas origens na busca por métodos de análise qualitativa para explicar a habilidade de interpretar dos participantes em práticas comunicativas cotidianas, se concentrando nas situações concretas de fala ou nos eventos de fala. Interagir é se engajar em um processo de negociação de sentidos num dado evento.
Ribeiro e Garcez (2002) definem, evento de fala como
definição social da atividade de fala que se desenvolve na situação, dependendo das oportunidades e das restrições à interação proporcionadas pela mudança dos participantes e/ou do objeto da interação. Os eventos se desenvolvem ao redor de um tópico ou no máximo de um âmbito limitado de tópicos e se distinguem por suas estruturas sequenciais. Eles são marcados por rotinas de abertura e fechamento estereotipadas e, portanto, reconhecíveis (p. 261, 262).
Um evento de fala, assim como um evento de letramento, tem um começo e um fim identificáveis. Envolve atividades que são governadas por regras e normas da fala (HYMES, 1977). Para participarem de interações verbais – como as ocorridas em HTPC, os participantes envolvidos utilizam regras interacionais, que se baseiam em seus
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conhecimentos práticos sobre a configuração de um dado evento e sobre como agir em eventos relacionados à mesma prática social (MATENCIO, 1999).
Nos eventos, são construídos não só os objetos do discurso como também lugares e funções sociais dos interlocutores (MATENCIO, 1999). Dessa forma, a análise dos eventos formativos na HTPC ajuda a compreender o que é priorizado como conteúdo relevante na formação do professor no local de trabalho e os papéis e funções – suas identidades - assumidos pelas professoras, coordenadoras e funcionárias da secretaria municipal de educação. As identidades assumidas, construídas e (re)negociadas também possibilitam ou interditam a agência das professoras em sua própria formação.
De acordo com Santos (2012)33, o evento tem uma ligação estreita com a ação, e esta tem resultados imprevisíveis, pois, ao se dar sobre um meio, há uma combinação complexa e dinâmica que tem o poder de deformar o impacto da ação. O evento seria, então, uma interpretação dessa autonomia da ação, sua realização. Retomando Lefebvre (1958) para quem um evento, tomado como momento, é a tentativa visando à realização total de uma possibilidade, para Santos “os eventos são, todos, Presente. Eles acontecem em um dado instante, uma fração de tempo que eles qualificam. (...) Os eventos são, simultaneamente, a matriz do tempo e do espaço” (p. 145). Ao ressaltar a localização do evento na relação tempo e espaço, Santos (2012) diferencia presente de instantâneo, afirmando que o evento é sempre presente, mas tem uma duração. Os eventos, quando acontecem, esgotam suas possibilidades; não se repetem; e se situam com precisão nas coordenadas do espaço e do tempo. Na perspectiva de Santos (2001, p. 145), “os eventos são, pois, todos novos. Quando eles emergem, também estão propondo uma nova história” (p. 145). A característica de serem sempre novos não quer dizer que os eventos não se relacionem e tenham continuidade entre si, pois, apesar de serem sempre atuais e absolutos,
na medida em que se estendem uns sobre os outros, participando uns dos outros, eles estão criando a continuidade do mundo vivente e em movimento (Leslie Paul, 1961, p. 126), ou, em outras palavras, a continuidade temporal e a coerência espacial (SANTOS, 2012, p. 156).
33 Outras tradições em pesquisa voltam-se para a análise de eventos e suas reflexões podem contribuir para os fins desta pesquisa. Na geografia, Milton Santos (2012) coloca a noção de evento como central para interpretação geográfica dos fenômenos sociais.
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Com base nos autores acima comentados, tomo evento como uma ocasião única, irrepetível, nova, situada no tempo e no espaço, em que os interlocutores constroem interpretações sobre o conteúdo do evento, ou seja, sobre o que está acontecendo no “aqui e agora”, sobre si e sobre os demais participantes, que se desenvolve ao redor de um tópico ou no máximo de um âmbito limitado de tópicos relacionados, com início e fim marcados, (re)criando continuidades sócio-históricas.
3.3 Concepção dialógica de linguagem e método sociológico para análise