NAS CONSTRUÇÕES DE VERBOS LEVES
2 CONSTRUÇÕES COM VERBOS LEVES: PROPRIEDADES
Scher (2004) afirma que uma das propriedades características das CVL é a obediência à restrição de definitude, o que limita a ocorrência de expressões definidas em CVL a determinados ambientes linguísticos tais como o da relativização – A atualizada que o técnico deu no sistema fez ele funcionar CVL em que se encontram: a determinação dessas diferenças é, exatamente o alvo das questões desta pesquisa.
3 Kearns (2002) realizou um estudo das CVL do inglês. A autora aplicou uma série de testes
sintáticos e semânticos, tais como pronominalização, passivização, definitude etc., para chegar à conclusão de que o inglês dispõe de CVLV e de CVAV. Por questões de espaço, esses testes não serão reproduzidos aqui, mas podem ser consultados no original da autora ou, em comparação com os dados do PB, em Alves – em preparação.
normalmente – que oblitera o efeito de definitude. Segundo a autora, no
caso mais geral das CVL, a nominalização associada ao verbo leve deverá ser indefinida – O técnico deu uma atualizada no sistema. Assim, para Scher,4 a
tentativa de formação de CVL mais nominalização definida, fora do contexto das orações relativas, falha no PB –*A Maria deu a varrida na sala, *A secretária deu
cada conferida nos livros. Contudo, em nota, a própria autora pontua que CVL
com o quantificador cada serão possíveis se houver uma entonação apropriada – entonação silabada, por exemplo – para a interpretação relevante.5
Outra propriedade que caracteriza as CVL é a impossibilidade de combinação do verbo leve com um nome referencial. Castilho (2010) argumenta que o verbo leve apresenta uma forte solidariedade com o nome que o segue, ao qual não atribui caso, e aponta que esse nome deve dispor de baixa referencialidade. Sobre essa questão, Moura Neves (1996) também já dizia que quanto mais referencial for o nome, menor será a sua contribuição para a composição do esquema predicativo e mais ele se afastará da função que caracteriza os nomes que, geralmente, entram nas construções prototípicas de verbos leves. A autora ressalta que a posição do objeto direto é extremamente relevante para a configuração do significado da CVL, isto é, para o estabelecimento da natureza do esquema predicativo, e que essa posição é tanto mais importante para essa função, quanto menos referencial for o nome objeto.
No PB, em que o fenômeno de formação de CVL é bastante produtivo, um variado número de sentenças, como aquelas em (1),6 tem
recebido essa denominação.
(1) a. Minha irmã sai pra fazer serenata com a turma dela. b. O João deu uma empurrada no carrinho.
c. João deu aquela resposta que todos esperavam.
4 E também para Medeiros (2010).
5 Scher não explora essa questão em sua tese de 2004; contudo apresenta um insight para a análise
que desenvolveremos aqui.
6 Os exemplos são, respectivamente, de Moura Neves (1996, p. 202), Scher (2004, p. 30), Davel
d. A menina fez a denúncia do roubo.
e. Michael Jackson fez uma revolução na história da música pop mundial. De acordo com a definição geral de CVL apresentada na introdução, que toma o elemento nominal da CVL como seu principal atribuidor de conteúdo semântico, inicialmente, tem-se a tentação de tratá-las todas como tal: afinal, fala-se de uma serenata em (1a), de um carrinho que foi empurrado em (1b), de uma resposta em (1c), de uma denúncia em (1d) e de uma revolução em (1e). No entanto, caso as afirmações de Scher (2004) e Medeiros (2010), apresentadas acima, estejam corretas, nem todas as sentenças podem ser consideradas como CVL, visto que há construções com nominais não precedidos por determinantes, como em (1a), ou precedidos por determinantes definidos, tais como (1d). Finalmente, em (1a), (1c), (1d) e (1e), têm-se nomes que podem ser bastante referenciais e, de acordo com Castilho (2010) e Moura Neves (1996), quanto mais referencial for um nome, menor será a possibilidade de ele compor uma CVL com um verbo leve.
Some-se a isso o fato de que a existência de um verbo pleno na língua que corresponda semanticamente ao predicado formado pelo verbo leve e pelo elemento nominal – esquema predicativo para Moura Neves (1996) – também tem sido apontada como característica de uma CVL. (ALBA-SALAS, 2002) Assim, entre as sentenças em (1), a língua dispõe de um verbo pleno correspondente aos esquemas predicativos de (1b), (1c), (1d) e (1e) (e. g., deu uma
empurrada = empurrou; deu aquela resposta = respondeu; fez a denúncia = denunciou; fez uma revolução = revolucionou). O mesmo não se pode dizer de (1a) que, a
rigor, não corresponde a sai para *serenatar. Sobre essa correspondência, Moura Neves afirma que ela não deve ser assumida como propriedade definidora das CVL, visto que ela não se aplicaria a todos os casos que são assumidos como tal. No entanto, Alba-Salas enfatiza que o teste da paráfrase se aplica à maioria das CVL do inglês e das línguas românicas.
No PB, a paráfrase parece ter papel relevante quando estamos frente a casos como em (2) e (3).
(2) a. Maria deu uma realçada na maquiagem. (sem ênfase no determinante) (= realçou a maquiagem levemente, rapidamente)
b. Maria deu UMA realçada na maquiagem. (com ênfase no determinante)
(= realçou a maquiagem de uma forma especial)
c. *Maria deu a realçada na maquiagem. (sem ênfase no determinante) d. Maria deu A realçada na maquiagem. (com ênfase no determinante)
(= realçou a maquiagem fortemente ou como de costume) e. Maria deu essa realçada na maquiagem.
(= realçou a maquiagem dessa forma)
(3) a. Maria fez uma inspeção nos documentos. (sem ênfase no determinante) (= inspecionou os documentos)
b. Maria fez UMA inspeção nos documentos. (com ênfase no
determinante)
(= inspecionou os documentos cuidadosamente)
c. Maria fez a inspeção nos documentos. (sem ênfase no determinante) (= inspecionou os documentos)
d. Maria fez A inspeção nos documentos. (com ênfase no determinante)
(= inspecionou os documentos cuidadosamente) e. Maria fez essa inspeção nos documentos. ( = inspecionou os documentos dessa forma)
Com exceção de (2c), que é agramatical, sem ênfase no determinante, todas as construções em (2) podem ser parafraseadas por uma sentença com verbo pleno; porém é possível extrair informações adicionais diferentes em cada caso. Em (2a), (2b), (2d) e (2e), por exemplo, as paráfrases se constroem com o verbo pleno realçar; contudo, enquanto a primeira denota a leitura de um evento diminutivizado de realçar, (2b) e (2d), além dessa diminutivização do evento, carregam, ainda, a expressão de um evento intensificado, no sentido de Leonetti (1999), que explicitaremos adiante. Por sua vez, a paráfrase da sentença em (2e) – com o dêitico dessa forma – sugere que ela só é produzida quando falante e ouvinte
estão em contato visual com o referente em questão – por exemplo, uma foto ou algo que mostre como a maquiagem foi realçada – para que esse referente possa ser apontado.7 Neste tipo de construção, a presença do pronome demonstrativo
essa já funciona como uma espécie de apontamento para algo, permitindo a
identificação do referente que se encontra fora do escopo da sentença, dado o seu comportamento dêitico, que instrui o ouvinte a corresponder o nominal a alguma entidade que está sendo mencionada.
No caso das sentenças de (3a) a (3e), as paráfrases se constroem por meio de sentenças com o verbo pleno inspecionar. Aqui, apesar de essas paráfrases serem possíveis, não há leitura de diminutivização para o evento, mas a leitura de intensificação está disponível em (3b) e (3d). Destaca-se o fato de que, entre as sentenças em (3), nenhuma é agramatical, ou seja, nenhuma delas depende crucialmente da ênfase no determinante para se realizar, como acontece com (2d). De modo paralelo a (2e), a produção de uma sentença como (3e) depende, por um lado, da possibilidade de contato visual entre falante e ouvinte, e, por outro, de um elemento dêitico, como o item essa, que permite ao ouvinte corresponder o referente do nominal com algum objeto que seja identificável no contexto ou que seja conhecido com base em discursos anteriores.
As observações feitas para os dados em (2) e (3), em particular no que concerne à possibilidade de leitura intensificada ou não para o evento, se pautam no que aponta Leonetti (1999) sobre o caráter de operador enfático que o determinante pode assumir em certos contextos. Ele sugere que o operador enfático pode denotar intensificação ou quantificação. Assim, a sentença Es
increíble las deudas que tiene [É incrível as dúvidas que tens] pode ter uma paráfrase
como Es increíble cuantas deudas tiene [É incrível quantas dúvidas tens], em que o operador enfático é responsável pela leitura de quantificação. O autor ressalta que a presença do artigo las no primeiro exemplo resulta em uma leitura enfática que não se verifica se, em lugar dele, ocorre outro determinante
7 Essa questão é tratada na literatura relevante como ostensão (ALEXIADOU; HAEGEMAN;
STAVROU, 2007; CERQUEIRA, 2019 etc.), uma leitura própria de elementos dêiticos, cuja referência é externa ao escopo sentencial.
definido ou indefinido: *Es increíble estas deudas que tiene. Além disso, ele observa que os sintagmas com esses operadores enfáticos não têm propriedades referenciais ou anafóricas, típicas de expressões definidas. É importante ressaltar, no entanto, que Leonetti (1999, p. 831) afirma que “Efectivamente, el artículo no es el único factor responsable de la interpretación enfática, ya que es preciso tener en cuenta también la anteposición del constituyente, el papel desempeñado por preposiciones como de y por, y la curva melódica”.
Dessa forma, para dar conta dos fatos apresentados em (2) e (3), investigaremos a natureza do elemento nominal em posição de complemento do verbo leve em termos de seus traços. Vamos atentar, principalmente, para os papéis que a definitude dos determinantes e a referencialidade dos nomes que integram esse sintagma podem ter na definição do tipo de CVL que constituem. Nossa intenção é determinar as implicações que isso pode ter para a definição do que, de fato, é CVL no PB.
Considerando-se as observações acima, a hipótese que procuraremos investigar é a de que, no PB, as CVL são divididas em, pelo menos, dois grupos, a depender das propriedades do sintagma determinante (DP)8 em posição
de complemento do verbo leve.9 No primeiro grupo, estariam construções
como aquelas em (2a), (2b), (2d), (3b) e (3d), em que não há propriamente um determinante nessa posição, mas um operador enfático ( LEONETTI, 1999), um elemento com o traço [intensificador] marcado para [-] em (2a) e para [+] em (2b), (2d), (3b) e (3d). No segundo grupo, estariam construções como em (2e), (3a), (3c) e (3e), em que há um determinante propriamente dito nucleando o complemento do verbo leve, uma vez que a leitura enfática, intensificada não está disponível nesses casos.
8 Mais uma vez, chamamos a atenção do leitor para o uso mais livre que estamos fazendo, ainda
neste ponto do texto, do termo determinante (Ver nota 2).
9 Em um de seus comentários, um dos pareceristas do texto deste capítulo sugere que as diferenças
entre os verbos dar e fazer parecem estar sendo ignoradas na discussão. Em nossa defesa, apontamos que, certamente, o tipo de verbo está diretamente relacionado ao tipo de CVL. No entanto, CVL com o mesmo verbo podem apresentar comportamentos distintos em relação ao traço [intensificado], ora marcado para [+], ora para [-], conforme os dados em (2). Dessa forma, optamos por avaliar a hipótese de que há mais que diferenças entre os verbos na definição de uma tipologia para as CVL.
A descrição do comportamento dos dados em (2) e (3) revelou, portanto, um conjunto de fatos bem interessantes. Revelou, ainda, a fragilidade do critério de existência de uma forma plena correspondente ao esquema predicativo de uma sentença, para que ela seja tomada como uma CVL, como se verifica em (2e) e (3e), o que vai ao encontro da afirmação de Moura Neves (1996) de que essa propriedade não define, de fato, as CVL. Nos dois casos, a forma plena do verbo correspondente ao nome em posição de complemento do suposto verbo leve existe na língua, mas o caráter referencial do DP em que ocorre esse nome afasta essas formas do que se define como CVL.
3 SOBRE A DEFINITUDE DOS DETERMINANTES