DE PRONOMES POSSESSIVOS E CLÍTICOS ANAFÓRICOS
2 ASPECTOS TEÓRICOS
2.2 PRONOMES POSSESSIVOS
Em Gramática de Usos do Português (2000), Neves descreve as construções possessivas como uma relação sempre de duas entidades: o possuidor – 1ª, 2ª ou 3ª pessoas – e o possuído – 3ª pessoa –; ou seja, como sendo uma relação bipessoal. Ainda segundo a autora, outras construções podem expressar posse como: “de + substantivo”, “de + pronome pessoal” – só de 3ª pessoa – ou “de + pronome de tratamento” – incluindo a forma você.
Os possessivos de terceira podem ser realizados de duas formas no PB: (i) pronome com marca de caso genitivo (seu/sua) – não preposicionado, ou, (ii) preposicionado “de + pronome pleno de 3ª pessoa” (dele/dela). A ocorrência e distribuição desses pronomes possessivos não é arbitrária. Segundo Cerqueira (1996) essa distribuição não se dá simplesmente por uma questão estilística, mas por motivação semântica. Podemos observar esse reflexo nos exemplos abaixo:
(9) Seus pacientes não virão hoje.
(10) Pacientes seus não virão hoje. (11) Uns pacientes seus não virão hoje.
Em (9) temos o possessivo em posição pré-nominal permitindo uma leitura que engloba todo o conjunto expresso pelo sintagma paciente; já em (10), em posição pós-nominal, temos uma possível leitura partitiva onde os elementos selecionados não, necessariamente, englobam todo o conjunto de “pacientes”. Quando adicionamos “uns” ao sintagma, como em (11), a leitura partitiva se torna mais clara.
Em contrapartida, os possessivos preposicionados não ocupam a mesma posição que os não-preposicionados nem oferecem a mesma leitura em todos os casos:
(12) Cadeiras dele quebraram. (13) *Dele cadeiras quebraram.
(14) Umas cadeiras dele quebraram.
Em (12) o possessivo preposicionado ocorre em posição pós-nominal; em (13) verificamos que na posição pré-nominal, a sentença se torna agramatical; já no exemplo (14) temos o possessivo na posição pós-nominal com determinante indefinido, estabelecendo leitura partitiva.
O tipo semântico do sintagma antecedente também parece estar relacionado à distribuição desses possessivos. Müller (1997, p. 57) aponta três tipos semânticos para os sintagmas nominais antecedentes:
a) Sintagmas nominais específicos: nomes próprios e sintagmas nominais com referência específica;
b) Sintagmas nominais não-específicos: sintagmas nominais definidos e indefinidos que não possuem uma referência específica, mas sim hipotética;
c) Sintagmas nominais genéricos: sintagmas nominais que têm por referência uma classe e não um ou mais indivíduos ou entidades específicas.
Os exemplos abaixo ilustram, respectivamente os tipos de antecedentes descritos por Müller (1997):
(16) João quer resolver os problemas dele.
(17) Um aluno que tira suas dúvidas, vai bem na prova.
(18) Felinos demarcam seus territórios com urina.
Tomando sintagmas genéricos, [–definido] e [–específico], com quantificadores, vemos que a retomada do antecedente pelo possessivo pode ser feita apenas pelos pronomes não-preposicionados, como nos exemplos abaixo:
(19) [Todos]i querem fazer [sua]i contribuição. (20) *[Todos]i querem fazer a contribuição [dele]i.
Em (19), o pronome sua tem como antecedente todos; já em (20), todos não pode ser ligado ao possessivo, tornando a leitura agramatical.
A animacidade também parece ter um papel importante na distribuição dos possessivos. Vejamos os exemplos abaixo:
(21) [O técnico]i opera [seus]i/j equipamentos. (22) [O técnico]i opera os equipamentos [dele]i/k.
Em (21), seu pode apontar tanto para quem se fala (segunda pessoa – índice j), quanto para o próprio técnico (terceira pessoa– índice i). Em (22), dele aponta para técnico ou para uma pessoa fora do discurso (índice k), nesse caso o antecedente possui o traço [+animado].
Essas observações encontram convergência com a hipótese de Carvalho e Cerqueira (2017), que sugerem que traços como animacidade, definitude e especificidade estão relacionados à realização de pronomes de terceira pessoa, o que gera certas restrições a respeito da ocorrência de cada uma das formas possessivas. A seguir apresentamos outro fenômeno que é descrito como tendo associação com esses traços, a retomada anafórica. 2.3 RETOMADA ANAFÓRICA
A retomada anafórica pode ser entendida como a realização de um elemento pronominal – realizado ou não – que faz referência a um termo antecedente na sentença. A literatura descreve que o PB possui três estratégias de retomada anafórica do objeto direto pronominal. Observe nos exemplos abaixo:
(23) Clebinho fala de gerallllllll, peguei ele no pulo do gato, ele está puto kkkkkkkkk
(24) Então meu amor chegou o seu dia e eu agradeço ah DEUS tds os dias por tê-lo ao meu lado.
(25) O brinquedo que eu mais amava quando era criança…Guardei
No exemplo (23) está ilustrada a retomada anafórica pelo pronome pleno, no (26) com o pronome clítico e no (25) com a categoria vazia. A gramática tradicional relaciona retomada anafórica ao uso prescritivo de pronomes átonos, como visto em (24), desconsidera o uso em (25) e em (23); ela explicitamente desprestigia, porém a preferência pelas estratégias em (23) e (25) em PB, em detrimento ao uso dos pronomes clíticos acusativos de terceira pessoa, tem sido discutida em diversas pesquisas linguísticas. (AYRES, 2016; CYRINO, 1993; 1997; DUARTE, 1989; dentre outros)
Muitos estudos sugerem que a realização do objeto direto anafórico de terceira pessoa no PB – clítico acusativo, pronome pleno ou categoria vazia – seja condicionada por alguns traços semânticos do seu antecedente. (CYRINO, 1993; 1997; CARVALHO, 2008; CERQUEIRA, 2015; 2018a; 2018b; DUARTE, 1989; SPINELLI, 2016) Dentre esses traços, consideramos como relevante para a discussão feita no presente trabalha os traços de animacidade, especificidade e definitude, já analisados em estudos anteriores, como os de Cyrino (1997), Carvalho (2008), Cerqueira (2015), e Santos, Lazzarini-Cyrino e Carvalho, (2020).
Nos trabalhos sobre a retomada anafórica de terceira pessoa no PB, Duarte (1989) e Cyrino (1997) afirmam que, para a realização de retomada anafórica com pronome um referente animado é exigido, enquanto a retomada por um objeto nulo exige um referente inanimado. Por exemplo:
(26) Porém no começo desse ano eu fiquei noiva, o noivado foi surpresa pra mim, só que essa prima ficou revoltada pq eu não chamei ela, mesmo eu deixando claro que eu não sabia que ia ficar noiva naquele dia
(27) Meu namorado: vc já pegou esse cara. Eu digo, que nunca o peguei .
(28) Ele viu a mulher e disse, eu peguei Ø bicha.
Os dados (26) e (27) mostram que os referentes/antecedentes são animados e retomados por pronomes, enquanto (28) é retomado por um
objeto nulo e seu referente/antecedente é inanimado. Nesse exemplo a palavra “bicha” está exercendo a função de vocativo.
Neiva (2007, p.80) afirma que, quando os traços são [-animados] favorecem o uso da categoria vazia e o traço [+animado] favorece a ocorrência do pronome clítico. Cerqueira (2015) diz que a animacidade não é relevante para o condicionamento do pronome pleno de terceira pessoa em posição acusativa. Da mesma forma, o trabalho de Santos, Lazzarini-Cyrino e Carvalho (2020) aponta que o traço de animacidade não é relevante para retomada do clítico acusativo de terceira pessoa:
(29) Olha q lindo q ta o meu Logan, o meu cachorrinho, perto da irmanzinha.
Ansiosa para pega lo.
(30) Emprestei o livro a minha amiga, ela não quis me devolver, fui lá e peguei-o.
Em (29) o referente/antecedente, Logan, possui o traço animado, enquanto em (30) nota-se que o referente/antecedente, livro, é inanimado.
A respeito do traço definitude, pode-se dizer que é considerado relevante para a retomada anafórica de terceira pessoa em diversas discussões sobre o tema. (CARVALHO 2008; CERQUEIRA 2015; SPINELLI, 2016) De acordo com o que Spinelli (2016) afirma a respeito dos traços de animacidade e especificidade, tratando-se especialmente do século XX, pode-se perceber que, quando ambos são negativos, indicam a preferência pelo uso de objeto nulo como forma de retomada anafórica. O traço [+específico] é indispensável para a retomada anafórica dos pronomes plenos acusativos de terceira pessoa. (CARVALHO; CERQUEIRA, 2018a, 2018b; CERQUEIRA, 2019)
Embora estudos apontem para a relevância desses traços para o estudo de retomada anafórica de terceira pessoa no PB, o estudo anterior de Santos, Lazzarini-Cyrino e Carvalho (2020), sobre a retomada anafórica do clítico acusativo de terceira pessoa no PB, levanta a suspeita de que esses
traços podem não ser fundamentais para a retomada dos pronomes clíticos de terceira pessoa, apesar de constatar que é mais comum que o referente/ antecedente do pronome clítico acusativo de terceira pessoa apresente os traços [+definido] e [+específico]. Esse estudo, porém, apenas abarcou dados de retomada anafórica com clíticos.
Aqui, portanto, trazemos dados das três estratégias – clítico, pleno e categoria vazia – para testar se os traços animacidade, especificidade e definitude do referente/ antecedente são condicionantes para a retomada anafórica do clítico acusativo de terceira pessoa no PB.
3 METODOLOGIA
Este trabalho discute os resultados de dois estudos sobre a interação de dois fenômenos com os traços de animacidade, especificidade e definitude. Cada um dos estudos seguiu metodologia semelhante, no entanto, com as especificidades apontadas em sua respectiva seção.
A metodologia geral consiste em (i) coleta de amostra, (ii) análise exploratória dos dados, (iii) teste estatístico (qui-quadrado) e (iv) regressão logística. As amostras são formadas por dados contendo uma das possíveis realizações da variável dependente do estudo, coletados aleatoriamente a partir de uma ou mais fontes. A análise exploratória dos dados (doravante AED) se realiza para verificar se alguns dos dados da amostra são realmente relevantes para o estudo do fenômeno e se as variáveis independentes – no caso, animacidade, especificidade e definitude – apresentam alguma associação suspeita com a variável dependente. Caso alguma dessas condições não se verifique, o dado ou a variável independente irrelevante são descartados do estudo.
Feita a AED, testamos estatisticamente a significância das variáveis independentes que parecem estar associadas à dependente. Partindo da hipótese nula de que não há associação entre elas, executamos o teste qui- quadrado para verificar a significância estatística da associação entre as variáveis. As variáveis independentes que obtiverem resultados promissores
no teste são, então, colocadas como variáveis explicativas em um modelo de regressão logística. Se mais de uma variável for encaminhada a essa fase, a regressão logística é feita seguindo um algoritmo stepwise, que ordena as variáveis no modelo e, eventualmente, descarta as menos relevantes. O modelo de regressão logística é, então, treinado com 70% dos dados da amostra, selecionados aleatoriamente, e avaliado com os restantes 30%. Isso é feito 2000 vezes, de forma que se obtenha uma média e um intervalo de confiança da precisão do modelo. Nas próximas subseções destacamos alguns aspectos específicos de cada etapa.