NAS CONSTRUÇÕES DE VERBOS LEVES
3 SOBRE A DEFINITUDE DOS DETERMINANTES E A REFERENCIALIDADE DOS NOMES
A noção de referencialidade é costumeiramente relacionada à presença de determinantes. Esses elementos são expressões que “qualificam e, mais precisamente, determinam ‘o nome’ (ou o grupo nominal)”. (CHIERCHIA, 2003, p. 76) Isso significa dizer que um nome comum precisa estar especificado por um determinante para poder fazer referência a um objeto, pois isso constrói sua referencialidade.
De acordo com Chierchia (2003, p. 76), determinantes são palavras como artigo definido – o, a, os, as –, artigo indefinido – um, uma, uns, umas –, pronomes – aquele, esse, nenhum, etc.– entre outros elementos. No PB, os determinantes precedem imediatamente um nome. Alguns desses itens, como o artigo definido e os pronomes demonstrativos, são, geralmente, apontados como portadores naturais de referencialidade e definitude (ALEXIADOU; HAEGEMAN; STAVROU, 2007; LONGOBARDI, 1994), embora, segundo Giusti (2002), nem sempre o artigo definido e a referencialidade sejam isomórficos.
Sobre o artigo definido e os pronomes demonstrativos, Giusti (2002) diz que, enquanto o primeiro não implica necessariamente referencialidade, pois pode coocorrer com nomes próprios que são inerentemente referenciais;
o segundo implica referencialidade, uma vez que eles são responsáveis pela interpretação dêitica e, portanto, indiretamente pela referencialidade do sintagma nominal. Para Alexiadou, Haegeman e Stavrou (2007), esses elementos têm em comum a capacidade de conferir referencialidade, mas se diferenciam quanto à deiticidade. A referencialidade está relacionada a entidades definidas e particulares, como O homem que esteve aqui ontem e O gato não esteve em casa todo o dia. (LYONS, 1977, p. 150, grifos nosso) Porém,
Lyons (1977, p. 155, grifos nosso) argumenta que há expressões nominais indefinidas, mas específicas, como Todas as noites às seis horas uma cegonha sobrevoa
a nossa casa, em que o sintagma nominal uma cegonha é referencial, visto que
pode ser identificável pelo falante.
Comparando o exposto acima com as construções, geralmente, denominadas de CVL no PB, nota-se que elas podem apresentar um comportamento semelhante, ou seja, uma entidade particular, como a encarada
dele, em (4a), e uma entidade específica, que pode ser identificada pelo locutor,
como um esclarecimento, em (4b). Por conta disso, nos dois exemplos, há uma expressão nominal que carrega traços de referencialidade.
(4) a. E quando Jimin deu a encarada dele que deixou a câmera nervosa ... poxa Jimin, colabora!10
b. Prefeito Gervásio Uhlman fez um esclarecimento ao povo de Itaiópolis. 11
Assim, para efeitos deste trabalho, estamos entendendo referencialidade como a capacidade de os nominais fazerem referência a algo definido e particular do mundo, mas também a algo indefinido e específico, visto que o referente pode ser identificável pelo falante. (MARIANO, 2018; LYONS, 1977 )
Com relação à definitude, segundo Heim (1982), trata-se de uma propriedade semântica que se aplica não somente aos sintagmas construídos com artigos definidos, mas também a outros determinantes. Conforme a
10 Ver: https://www.facebook.com/AscensaoBTS/videos/2673677565984421/.
autora, a definitude é responsável por distinguir sintagmas nominais como the
cat [o gato] de a cat [um gato]. Em outras palavras, a definitude coloca sintagmas
nominais indefinidos de um lado, uma vez que o uso do artigo indefinido não reclama condições de familiaridade, e descrições definidas de outro, pois the indica que se fala de um gato familiar e particular e não de qualquer gato. No entanto, para Lyons (1999), essa noção é vaga e imprecisa, pois, quando alguém diz I bought a car this morning [Eu comprei um carro esta manhã], não está se referindo a qualquer carro, mas a um carro específico que, na mente de quem disse, é distinto de todos os outros carros. Mas, se o falante disser I
bought the car this morning [Eu comprei o carro esta manhã], o sintagma nominal o carro é mais definido, específico, particular e individualizado. A diferença,
para o autor, entre the car [o carro] e a car [um carro] é que, no primeiro caso, a referência é clara tanto para o falante quanto para o ouvinte, isto é, ambos compartilham da consciência sobre o que é referido; já no segundo caso, o falante deve ter consciência do que é referido, mas o ouvinte, talvez, não.
Tomando essa ideia de consciência, Lyons (1999) explica algumas noções, consideradas básicas, para entender a definitude. A familiaridade, por exemplo, indica que tanto o falante, quanto o ouvinte têm consciência do que se fala, sugerindo o uso do artigo definido. Porém, Lyons afirma que parece problemático assumir apenas a noção de familiaridade para explicar a distinção entre sintagmas nominais definidos e indefinidos. Desse modo, defende que a definitude também esteja ligada à noção de identificabilidade, pois o uso dos artigos definidos direciona o ouvinte ao referente do sintagma nominal, sinalizando que ele está em condições de identificá-lo.
Lyons (1999) afirma ainda que, devido ao fato de o conceito de identificabilidade não ajudar em alguns casos, muitos autores preferem relacionar a definitude à noção de unicidade, de acordo com a qual o artigo definido indica que apenas uma entidade satisfaz a descrição usada. Para o autor, a unicidade não é absoluta, porém deve ser compreendida a partir de um contexto particular. Ademais, a unicidade se encaixa em ocorrências de definidos que envolvem nomes singulares contáveis. No entanto, o fato
de o artigo ocorrer também com nomes plurais contáveis e massivos torna impossível a unicidade de seu referente. Dessa forma, para esses casos, Lyons (1999) assume que a definitude envolve a noção de inclusividade, visto que a referência é em relação à totalidade dos objetos ou massas no contexto que satisfaz a descrição.
Para ilustrar as ideias de familiaridade e identificabilidade, observemos os exemplos em (5), em que os interlocutores têm consciência do que se fala (ver (5a)), ou em que o ouvinte pode não saber qual é o referente, mas está em condições de identificá-lo (ver (5b)).
(5) a. O bebê estava dormindo na hora em que o colega deu as mordidas.12
b. Ainda não fez a declaração?13
Não foi encontrado no corpus nenhum fato que ilustre a noção de unicidade apontada por Lyons (1999), o que pode sinalizar o problema relatado por ele; contudo a ideia de inclusividade pode ser verificada, também, em (5a), em que a referência é sobre à totalidade das entidades.
Em suma, para Lyons (1999), familiaridade é subjacente à identificabilidade, visto que a identificação de um referente implica que ele seja familiar; e a unicidade é um caso especial da inclusividade, resultante da particularidade do sintagma nominal. No entanto, segundo o autor, é preciso entender que essas propriedades são independentes. Assim, estamos compreendendo definitude como a propriedade que os determinantes definidos têm de indicar que o referente de uma expressão nominal é familiar e/ou identificável não só para o falante, mas também para o ouvinte; ou de indicar que uma expressão nominal corresponde à totalidade dos possíveis referentes, ou ainda de um nominal indicar familiaridade, identificabilidade e inclusividade. (CERQUEIRA, 2019; MARIANO, 2018;LYONS, 1999 etc.) A seguir,
12 Ver: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2019/03/21/bebe-e-mordido-cerca-de-dez-
vezes-por-colega-de-creche-em-piracanjuba.ghtml.
13 Ver: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/imposto-de-renda-2020-aposentados
descrevemos sentenças que são, geralmente, nomeadas de CVL, buscando verificar se os sintagmas nominais são, de fato, descrições referenciais e definidas e a implicação que isso tem sobre a determinação do que é CVL no PB.