5 O PONTO DE VISTA HUMANO
5.3 CONSTRUTIVISMO METAÉTICO E REALISMO MORAL
Se adotarmos a perspectiva de Street (2010), a verdade normativa, para o construtivista, depende do que um ponto de vista prático implica. Não obstante, a autora distingue entre duas visões do construtivismo, a saber, a restrita e a metaética (ou profunda). As visões restritas buscam especificar um conjunto restrito de reivindicações normativas, cuja validade ou verdade dependem do que é implicado a partir de um ponto de vista prático ao qual é dada uma substantiva caracterização. Em outras palavras, a visão restrita do construtivismo não se compromete com a verdade das reivindicações normativas em si, todavia, busca assegurar a verdade de um conjunto restrito de reivindicações normativas, apenas em função de sua implicação a partir de um ponto de vista prático. Assim, ao aceitarmos um determinado ponto
135 Street utiliza o exemplo de Ann e seu passatempo de contar gramas, ou seja, a partir do ponto de vista de Ann,
em que contar gramas é valioso, é possível concluir que ela tem boas razões para comprar uma calculadora. Mesmo que ela não saiba disso, ainda assim há um vínculo (que ela pode nunca perceber) entre a atividade de contar gramas e as razões para adquirir uma calculadora.
136 No original: “what is constitutively involved in the attitude of valuing or normative judgment itself” (STREET,
2010, p. 7).
137 No original: “Normative truth consists in what is entailed from within the practical point of view. The subject
matter of ethics is the subject matter of what follows from within the standpoint of creatures who are already taking this, that, or the other thing to be valuable. In response to the question “What is value?” constructivism answers that value is a “construction” of the attitude of valuing. What is it, in other words, for something to be valuable? It is for that thing’s value to be entailed from within the point of view of a creature who is already valuing things” (STREET, 2010, p. 7).
de vista prático, temos de aceitar a verdade das normas. Street (2010) cita as perspectivas teóricas de Rawls (1980) e de Scanlon (1998) como exemplos de construtivismos restritos.
Diferentemente da versão restrita, o “o construtivismo metaético busca dar conta do que significa para qualquer reivindicação normativa ser verdadeira” (STREET, 2010, p. 10). Para que isso ocorra, é dada uma caracterização formal ao ponto de vista prático. Em outras palavras, é necessário aqui dar conta do ato de “valorar” em si ou do que significa uma “sentença normativa”. A verdade já não depende de uma reivindicação normativa substantiva dada, mas o próprio juízo ou valoração é problematizado, a fim de explicar como ele funciona em geral, ou seja, “o que uma criatura deve estar fazendo para ser considerado um avaliador” e “explicar como padrões de correção no domínio normativo são gerados por essa atitude” (STREET, 2010, p. 10) 138.
A partir de tais reflexões, poderíamos levantar duas questões: a primeira trata de questionar que vantagens teria um modelo construtivista metaético em relação ao realismo moral, afinal, a busca por uma caracterização formal do ponto de vista prático pode oferecer um desafio grande demais, em razão do ônus de abandonar uma visão realista. A segunda questão é levantada por Street (2008) e questiona em que medida o construtivismo metaético oferece uma posição singular em metaética, a saber, em que medida distancia-se de uma posição moral realista.
Segundo Street (2010), o realismo moral ou normativo é a visão conforme a qual (1) afirmações morais podem ser verdadeiras ou falsas e (2) algumas destas afirmações são verdadeiras. Se esta definição fosse aceita sem maiores esclarecimentos, o construtivismo poderia ser considerado um tipo de realismo, todavia, o realismo é compreendido de forma mais ampla e a discussão perpassa questões complexas como a da dependência da mente [mind- dependence], ou seja, se o valor existe independentemente do ato da valoração ou ele existe apenas em função dele. Em outras palavras, “é a normatividade melhor concebida como conferida ou reconhecida?” (STREET, 2010, p. 12). Tradicionalmente, a visão realista aposta nos valores enquanto independentes da mente, já o construtivismo sustenta o oposto. Nesse
138 No original: “Unlike restricted constructivist views, metaethical constructivist views seek to give an account of
what it is for any normative claim to true. To do so, they appeal to the idea of what follows from within the practical point of view given a formal characterization. To give the practical point of view a formal characterization is to give an account of the standpoint of valuing or normative judgment as such, where this involves giving an account of the attitude of valuing that does not itself presuppose any substantive values but rather merely explicates what is involved in valuing anything at all. Unlike their restricted counterparts, metaethical constructivist views, if successful, do not take the truth of any given substantive normative claim for granted. Instead, they explain what a creature must be doing in order to count as a value at all, and explain how standards of correctness in the normative domain get generated by this attitude” (STREET, 2010, p. 10).
sentido, o realista teria de mostrar onde se assenta a distinção entre o certo e o errado “fora de nós” e como eles nos afetam139.
Sobre isso é interessante conferir as definições de realismo e construtivismo de Brink (1999). Para ele, o realismo moral é uma visão metaética que está comprometida com a objetividade na moral. Essa visão possui três componentes: um metafísico, um semântico e um epistemológico. O primeiro afirma que os fatos e propriedades morais existem independentemente de nossas crenças ou atitudes. O componente semântico diz respeito à natureza cognitivista do realismo. Os juízos morais dizem respeito às propriedades de determinados objetos, nesse sentido, tais juízos podem ser considerados crenças morais e, assim, passíveis de verdade e falsidade. O componente epistemológico tenta refutar o cético, mostrando que algumas crenças morais são verdadeiras e que existem maneiras de justificá-las e, portanto, conhecimento moral é possível.
Em contrapartida, sobre o construtivismo ético, Brink afirma que se trata de “uma forma de antirrealismo” que sustenta que fatos e verdades morais existem, no entanto, os fatos ou verdades morais do construtivismo “são constituídos ou dependem de nossas crenças morais, reações ou atitudes” (BRINK, 1999, p. 283)140. É possível perceber que, na visão de Brink, o
realismo possui comprometimentos metafísicos mais amplos que o construtivismo141.
Na seção seguinte apresentaremos o construtivismo humeano. Segundo Street, essa versão do construtivismo não depende unicamente da razão e não redunda em um formalismo. Embora busque uma explicação de como, em geral, valoramos moralmente, o construtivismo humeano reduz o escopo da normatividade ao indivíduo, grupo ou cultura e busca manter critérios de correção de padrões normativos.
139 A questão da Mind-dependence em filosofia moral é complexa e o debate contemporâneo oferece diferentes
posicionamentos dentro dessa temática, portanto, não será explorada neste capítulo. Todavia, para uma explicação sumária, podemos dizer que, tradicionalmente, o construtivismo adota a postura segundo a qual os valores ou distinções morais existem, mas são dependentes da mente. Os filósofos que defendem um realismo robusto afirmam que os valores independem da mente.
140 No original: “ethical constructivism, a form of anti-realism about ethics which holds that there are moral facts
and truths, but insists that these facts and truths are in some way constituted by or dependent on our moral beliefs, reactions, or attitudes” (BRINK, 1999, p. 283).
141 Contemporaneamente, existem versões mais sofisticadas de realismo que possuem uma metafísica menos
carregada e uma maior abertura para o diálogo com as ciências dando conta da pluralidade de valores de forma mais satisfatória que as versões realistas modernas. Peter Railton (2013) propõe uma teoria moral realista cujos valores morais ou imperativos não são categóricos no sentido de “prover uma razão para a ação de todos os agentes racionais independentemente dos seus desejos contingentes” (2013, p. 151). Nesse sentido, esses valores são objetivos, mas sua objetividade depende dos “fatos sobre o ser humano e o seu ambiente, fatos sobre os tipos de coisas que nos importamos, e sobre como a nossa maneira de viver as afeta” (RAILTON, 2013, p. 151).