4 HUMANIDADE E UNIVERSALISMO MORAL EM HUME
4.1 HUMANIDADE COMPARTILHADA
4.1.6 O sentimento humanitário
A busca pelo princípio da moral, através da análise das qualidades mentais que são objeto de nossa estima, levou Hume a concluir que “o mérito pessoal consiste inteiramente no caráter útil ou agradável das qualidades, seja para a pessoa que as possui, seja para os outros que têm algum relacionamento com ela” (EPM 9.1.13).
Hume sugere que essa teoria de assimilação fácil deve ser capaz de explicar o mérito conferido a todas as virtudes e características que fazem parte da esfera moral em nossa vida e em nossa linguagem comum. Além disso, ao observarmos os homens em sua vida corrente, “veremos que em parte alguma, exceto nos recintos acadêmicos, eles demonstram incerteza sobre este assunto” (EPM 9.1.2). Nesse sentido, um modelo106 de caráter virtuoso seria aquele
cujas qualidades são úteis ou agradáveis para si e para os demais. Qualquer pessoa razoável e
106 Hume esboça um modelo perfeito de virtude, apresentado em um diálogo fictício na conclusão da EPM. Nesse
diálogo são exaltados os traços de caráter úteis aos outros, úteis à própria pessoa, agradáveis aos outros e agradáveis à própria pessoa, respectivamente: “Quão natural, por exemplo, é o seguinte diálogo: Quão natural, por exemplo, é o seguinte diálogo: “És muito feliz”, suponhamos que alguém diga, dirigindo-se a outro, “por teres dado tua filha em casamento a Cleantes. Ele é um homem honrado e humanitário, e todos os que se relacionam com ele podem estar seguros de receber um tratamento honesto e dedicado”. “Eu também te felicito”, diz outro, “pelas promissoras expectativas desse genro, cuja assídua aplicação ao estudo das leis, viva perspicácia e precoce conhecimento tanto das pessoas como dos negócios permitem prever as maiores honras e promoções”. “Tu me surpreendes”, replica um terceiro, “quando falas de Cleantes como um aplicado homem de negócios. Encontrei-o há pouco em uma reunião das mais alegres, e ele era a própria vida e alma da conversação. Jamais observei em ninguém tanta graça unida a tão boas maneiras, tanto cavalheirismo sem afetação, tão versáteis conhecimentos exibidos de forma tão elegante”. “Tu o admirarias ainda mais”, diz um quarto, “se o conhecesses mais intimamente. Aquela alegria que nele notaste não é um lampejo repentino despertado pela companhia, mas perpassa todos os aspectos de sua vida e preserva uma perpétua serenidade em sua face e uma constante tranquilidade em seu espírito. Ele já enfrentou severas provações, infortúnios e perigos, e sua grandeza de espírito foi sempre superior a todos eles” (EPM 9.1.2).
livre de preconceitos reconheceria o mérito destas qualidades e também consideraria viciosas as características que frustram esses requisitos.107.
Hume afirma que possuímos um mínimo de benevolência ou de afeição pelo gênero humano, “alguma parcela de pomba entrelaçada, em nossa constituição, a elementos de lobo e de serpente” (EPM 9.1.4), que embora não garanta a motivação para a nossa ação, influencia nosso gosto e, consequentemente, nossos juízos. Dessa forma, Hume (EPM 9.1.5) assevera que “a noção de moral implica algum sentimento comum a toda a humanidade, que recomenda o mesmo objeto a aprovação generalizada”. Além disso, “também pressupõe um sentimento universal e abrangente o bastante para estender-se a toda a humanidade”. São duas condições aqui, a primeira sugere que o sentimento tem de ser comum a todos os homens, e a segunda é que esse sentimento possa estender-se a toda a humanidade, ou seja, também as ações das pessoas distantes devem tocar-nos. Essas condições, conclui Hume, são satisfeitas apenas pelo “sentimento humanitário” (EPM 9.1.5).
O sentimento humanitário é comum a todos os seres humanos e, nesse sentido, é distinto dos interesses egoístas ou do amor de si. A pretensão à universalidade da moral humeana tem aqui seu ponto alto. Hume afirma que as ambições de uma pessoa são distintas das ambições das outras, assim, serão distintos também os objetos que as satisfazem no que concerne a estas ambições. Todavia, “a humanidade de um homem coincide com a humanidade de todos os outros, e o mesmo objeto excita essa paixão em todas as criaturas humanas” (EPM 9.1.6). E com isso, “qualquer conduta que ganhe minha aprovação ao tocar minha humanidade também obterá o aplauso de todos os seres humanos, ao excitar neles o mesmo princípio” (EPM 9.1.8).
A linguagem possui um papel fundamental para a formação de noções gerais que auxiliam em nossos juízos. Como visto, formamos noções gerais moldadas nas distinções entre vício e virtude que surgem de nossos “sentimentos universais de censura e aprovação” (EPM 9.1.8). A linguagem moral expressa aquilo que distinguimos como sendo digno de aprovação ou de reprovação e, a partir desse ponto, criamos noções gerais de como guiar os nossos juízos e o que devemos esperar da conduta dos outros e regular a nossa própria. De acordo com Hume,
Portanto, sendo a distinção entre essas espécies de sentimentos tão grande e evidente, a linguagem deve prontamente modelar-se por ela, e inventar uma classe especial de termos para expressar os sentimentos universais de censura ou aprovação que surgem dos afetos humanitários ou de uma percepção da utilidade geral, e os sentimentos
107 Hume inclui entre vícios as chamadas virtudes monásticas, a saber: “Celibato, jejum, penitência, mortificação,
negação de si próprio, submissão, silêncio, solidão e todo o séquito das virtudes monásticas - por que razão são elas em toda parte rejeitadas pelas pessoas sensatas” (EPM 9.1.3).
contrários. A virtude e o vício tornam-se então conhecidos, a moral é identificada, formam-se certas idéias gerais acerca das ações e dos comportamentos humanos, passa-se a esperar tais e tais condutas de pessoas em tais e tais situações. Uma dada ação é classificada como estando de acordo com nossa regra abstrata, outra ação, como lhe sendo contrária. E, por meio desses princípios universais, controlam-se e restringem-se os sentimentos particulares do amor de si mesmo (EPM 9.1.8).
Essas expectativas mútuas que guiam a avaliação da conduta humana justificam a importância que conferimos à reputação. De acordo com Hume (EPM 9.1.10), nossa busca por um caráter ou reputação muitas vezes direciona as nossas projeções pessoais. Essa necessidade coloca-nos em constante revisão de nossa conduta, considerando a opinião de quem nos observa. No entanto, essa preocupação com a reputação não surge necessariamente de uma preocupação leviana sobre as aparências. Ao contrário, ela representa “a mais perfeita moralidade que conhecemos, na qual se manifestam a força de muitas simpatias” (EPM 9.1.11).
Segundo esta perspectiva, a preocupação com a reputação ou fama é uma consequência da nossa preocupação com as expectativas dos outros e da nossa própria, em relação a quais traços de caráter são dignos de aprovação. Se esses sentimentos que estão na base de nossa aprovação e de nossa censura estão presentes em toda a espécie humana, eles devem influenciar tanto quem convive e avalia a minha conduta quanto a nós mesmos. Desse modo, segundo Hume,
Nosso sentimento moral é ele próprio um sentimento dessa natureza, e nosso cuidado em manter uma reputação perante outros parece provir apenas de uma preocupação em preservar a reputação perante nós mesmos; e, para esse fim, julgamos necessário ancorar nosso titubeante julgamento na correspondente aprovação da humanidade (EPM 9.1.11).