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1 HUME E A DESCENTRALIZAÇÃO DA RAZÃO

1.5 UNIVERSALISMO E DEVER MORAL NO SENTIMENTALISMO

De acordo com Michael L. Frazer (2010), tanto o racionalismo quanto o sentimentalismo integraram o iluminismo. Todavia, como mencionado, a posição racionalista obteve maior destaque, enquanto a posição sentimentalista permaneceu subestimada. Frazer

afirma que o sentimentalismo foi de extrema importância para o Iluminismo, no entanto, ressalta que, em geral, o que se conhece dessa doutrina refere-se, com maior frequência, ao seu viés crítico. Dessa forma, a posição sentimentalista, para Frazer, é geralmente vista como meramente destrutiva e secundária, ou melhor, apenas como uma alternativa à razão, a qual teria fracassado em sustentar-se diante do ceticismo. É preciso, sugere Frazer, interpretar o sentimentalismo como uma visão também pertencente às pretensões do iluminismo.

Sendo assim, após séculos de esquecimento, o sentimentalismo, em função de sua importância para a compreensão do iluminismo, passou a ocupar um espaço adequado nos debates contemporâneos da ética. Um dos pontos fundamentais a ser desenvolvido neste estudo, seguindo a proposta de Frazer, é que o sentimentalismo, equivocadamente, ainda é considerado como uma mera refutação ao iluminismo:

Para o melhor ou pior, os herdeiros do iluminismo racionalista mais que do iluminismo sentimentalista têm dominado tanto a filosofia quanto a ciências sociais. O iluminismo sentimentalista tem sido depreciado pela comparação com o iluminismo racionalista – como a própria noção do século XVIII como a “era da razão” confirmará. Mesmo os filósofos da atualidade, os quais estão cientes da centralidade do sentimentalismo moral para a vida intelectual do século XVIII, tendem a definir o iluminismo em termos puramente racionalistas (FRAZER, 2010, p. 5)37.

Também Denis Rasmussen sugere que o iluminismo é frequentemente associado a uma ideia de racionalidade e universalidade que parece ignorar uma contribuição de autores como Hume, Smith, Montesquieu e Voltaire. Em suas palavras:

Enquanto o iluminismo na mente acadêmica é amplamente associado ao universalismo moral, temos visto que algumas das principais figuras do iluminismo como Hume, Smith, Montesquieu, Voltaire afastaram-se da ideia de que o certo e o errado são idênticos em todos os tempos e lugares, ou que a moralidade consiste em um conjunto de comandos inalteráveis que está de alguma forma escrita na natureza humana ou natureza do universo. Em vez disso, cada qual tomou a posição de que o certo e o errado são derivados dos sentimentos das pessoas e incorporados em normas comunais em desenvolvimento (RASMUSSEN, 2014, p. 78).

Todavia, sugere Rasmussen, o abandono da visão de um universalismo racionalista realizado por estes autores não pressupõe que a única saída seja o relativismo moral. De acordo

37 No original: “For better or worse, the heirs of the rationalist rather than the sentimentalist Enlightenment now

dominate both philosophy and social science. Enlightenment sentimentalism has long been underappreciated by comparison with Enlightenment rationalism—as the very notion of the eighteenth century as “the age of reason” will attest. Even philosophers today who are well aware of the centrality of moral sentimentalism to eighteenth- century intellectual life tend to define the Enlightenment in purely rationalist terms” (FRAZER, 2010, p. 5).

com o autor, “eles entendem a moralidade não como subjetiva, mas intersubjetiva” (RASMUSSEN, 2014, p. 78)38.

Na direção de uma visão mais plural do iluminismo, é possível dirigirmo-nos à defesa de uma perspectiva naturalizada dos conceitos de universalismo e de dever, conforme aqui proposto, compatíveis com o que pode ser atribuído à razão ou senso comum. O primeiro passo foi dado por Hume, ao mostrar que nossa razão, sozinha, não é capaz de motivar uma ação. Além disso, o autor afirmou que a razão é insuficiente para, sozinha, identificar o valor moral da ação e do caráter humano. A razão tem de estar – e, para Hume, não há outra forma - amparada pela sensibilidade, e apenas em comunhão com ela pode ter uma função no estabelecimento dos juízos morais.

A famosa e polêmica passagem do Tratado “a razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões, e não pode aspirar a outra função além de servir e obedecer a elas” (T 2.3.2.4), pode direcionar-nos erroneamente ao pensamento de que a razão não possui um papel nos juízos morais. A compreensão desse papel está estritamente ligada à noção humeana de universalidade que queremos aqui ressaltar. Todavia, é importante notar que a utilização da palavra deve [ought], nessa passagem, faz parte da retórica humeana, cuja finalidade na obra supracitada foi atacar a tradição racionalista.

O filósofo contemporâneo Penelhum (1993), afirma que além da finalidade de ferir a tradição racionalista, essa passagem pode ser compreendida como uma tentativa de identificação com a teoria newtoniana, o que, segundo ele, Hume faz com orgulho em muitos momentos:

Esta máxima é fundamentalmente uma insistência de que pode haver uma ciência da natureza humana de um modo que o quadro racionalista tornaria impossível (na opinião de Hume). Ela é, certamente, mais que isso: é também uma afirmação de que quando nós olhamos e vemos, nós deveríamos perceber que os seres humanos são criaturas de instintos e sentimentos cujos poderes racionais não podem, ou ao menos não devem ser usados de qualquer maneira que esteja em desacordo com esses instintos e sentimentos (PENELHUM, 1993, p. 123-124)39.

38 No original: “while the Enlightenment is widely associated in the scholarly mind with moral universalism, we

have seen that such leading Enlightenment figures as Hume, Smith, Montesquieu, and Voltaire all moved away from the idea that right and wrong are identical in all times and places, or that morality consists of a set of unalterable commands that are somehow written into human nature or the nature of the universe. Instead, they each posit that right and wrong are derived from people’s sentiments and embodied in evolving communal norms. […] they understand morality to be not subjective but intersubjective” (RASMUSSEN, 2014, p. 78).

39 No original, “This dictum is fundamentally an insistence that there can be a science of human nature in a way

the rationalist picture would (in Hume's opinion) make impossible. It is, of course, more than this: it is also a claim that when we look and see, we shall find that human beings are creatures of instinct and feeling whose rational powers cannot, or at least should not, be used in any way at odds with these instincts and feelings” (PENELHUM, 1993, p. 123-124).

Como conciliar a desconsideração da razão como base motivadora da moral com uma teoria universalista da moral? 40 Hume identifica um importante princípio da natureza humana

que nos possibilitaria sentir o sofrimento e a felicidade alheia, tornando-nos capazes de julgar, sob diferentes perspectivas, as ações morais e o caráter do agente. A esse princípio, Hume o chama de simpatia (T 3.3.1.7)41. Através desse princípio, os sentimentos humanos são

“comunicados” e permitem-nos sentir a felicidade ou a miséria alheia, habilitando-nos a julgar de maneira mais adequada e desinteressada ações e caráteres em diferentes contextos.

A simpatia é extensa à humanidade, podendo ir além de seus limites. Ela permite, junto da linguagem, que nossas considerações morais sejam universais. A simpatia, sozinha, não é imparcial. Hume afirma que os nossos sentimentos para com as pessoas mais próximas são mais fortes que os sentimentos pelas pessoas desconhecidas, entretanto, isso não deve afetar os nossos juízos morais. Cabe à razão o importante papel de ajustar os movimentos irregulares da simpatia. Para Hume, os sentimentos podem sofrer variações na medida em que acompanham os movimentos da simpatia, porém, as variações que nossa aprovação e desaprovação moral sofre são corrigidas pela reflexão. Portanto, quando proferimos juízos morais, estamos analisando e julgando sob um ponto de vista geral. Nossos juízos de gosto, em geral, necessitam deste caráter reflexivo. Dessa forma, desconsideramos a alteração consequente da posição em que nos encontramos e adotamos um ponto de vista imparcial. Dessa avaliação imparcial surge o sentimento [feeling] peculiar à moral.

O princípio da simpatia garante que a moral de Hume, ainda que calcada na sensibilidade, não possa ser compreendida como egoísta. David Fate Norton ressalta que:

Nós mesmos não recebemos e nem esperamos receber qualquer benefício direto da qualidade observada, mas nossa conexão simpática a ela causa em nós sua aprovação: por meio da simpatia nós sentimos aprovação. Esta aprovação – devidamente qualificada por considerações de imparcialidade, generalidade, e da distância em tempo e lugar – se revela ser nada menos que o único sentimento moral através do qual nós marcamos a presença da virtude, - desaprovação mutatis mutandis, é o sentimento através do qual marcamos a presença do vício (NORTON, 1993, p. 165,)42.

40 A motivação para alguns dos temas aqui tratados surgiu de questões levantadas no terceiro capítulo da minha

dissertação intitulada As bases empíricas da moral de Hume. Naquela ocasião, tentei mostrar que Hume alegava existir um padrão do gosto ao qual a moral é circunscrita, bem como a existência de uma noção de dever a partir da ideia de nossas expectativas naturais. Na presente tese, pretendo dar continuidade a estas questões e com o suporte do debate contemporâneo mostrar como é possível pensar a normatividade a partir de uma perspectiva naturalizada moral.

41 No quarto capítulo, apresentaremos com mais enfoque o princípio da simpatia.

42 No original: “We ourselves neither receive nor expect to receive any direct benefit from the observed quality,

but our sympathetic link to it causes us to approve it: by means of sympathy we feel approbation. This approbation - suitably qualified by considerations of impartiality, generality, and distance in time and place – turns out to be

Tendo em vista o que foi dito, percebemos que esse sentimento sofisticado tem por base a nossa natureza sensível, mas seu caráter reflexivo necessita da assistência da razão. Apesar das fortes críticas de Hume ao racionalismo e sua recusa à possibilidade da existência de uma razão que nos motive a agir moralmente, não é correto pensar que a razão não possui função na moralidade. Para melhor compreender essa questão, é importante reportarmo-nos a Frazer (2010), que afirma ser a disputa entre racionalismo e sentimentalismo mais bem compreendida como a luta de uma visão hierárquica da alma moral com uma visão igualitária ou harmônica.

O contraste entre racionalismo e sentimentalismo é, portanto, melhor compreendido como o contraste entre uma visão hierárquica da alma moral de um lado, e uma visão igualitária, de outro – uma visão igualitária na qual os padrões de autoridade normativa são produto de uma mente em completa harmonia consigo mesma (FRAZER, 2010, p. 6)43.

Há base textual em Hume, principalmente na EPM, para a defesa de uma moralidade que depende tanto da razão quanto da sensibilidade. Conforme compreendemos, a leitura adequada da obra humeana não ignora a importância fundamental da razão e o seu papel nos aspectos universalistas da moral que aqui se pretende desenvolver. Hume desenvolveu uma análise das qualidades que valoramos no âmbito da moralidade, e concluiu que parte do valor é dependente da utilidade que estas qualidades conferem a quem as possui e aos que são afetados por ela. A utilidade, no entanto, é apenas a métrica de algo mais profundo, a saber, uma tendência a inclinar-nos ao bem comum quando não somos tomados por interesses egoístas.

Hume também defendeu a tese de que desenvolvemos, na linguagem moral, algumas noções gerais que são expressão de nossos sentimentos de aprovação e desaprovação morais. Nesse sentido, ao possuirmos uma natureza sensível comum, somos capazes de expressar através dessas noções gerais algumas palavras, que em qualquer cultura são sempre tomadas em um bom ou um mal sentido, mesmo que as práticas possam divergir.

Se, por um lado, Hume desenvolveu uma teoria moral que se pretende universal, na medida em que considera que possuímos uma natureza compartilhada e um padrão do gosto (circunscrevendo a moral ao gosto), ele também defende seguidamente que diferentes culturas

nothing else than the unique moral sentiment by which we mark the presence of virtue, – disapprobation, mutatis mutandis, is the sentiment by which we mark the presence of vice” (NORTON, 1993, p.165).

43 No original: “The contrast between rationalism and sentimentalism is therefore best understood as the contrast

between a hierarchical view of the moral soul on the one hand, and an egalitarian view on the other—an egalitarian view in which normatively authoritative standards are the product of an entire mind in harmony with itself” (FRAZER, 2010, p. 6).

possuem diferentes práticas e valores. Hume é, no entanto, crítico de um relativismo severo44.

O que explica essa aparente dissonância é que, embora as práticas possam tomar diferentes caminhos em tempos e culturas distantes, a bússola moral é mesma: o bem comum. Para Hume (EPM 2.1.17), ao estimar certas práticas, denominando-as como virtuosas, temos sempre em mente a utilidade pública, que se expressa na observação das práticas e normas de nossa própria cultura, na medida em que nossa conduta pode ser útil ou agradável e vise o bem público.

Com a ressignificação da teoria humeana, a partir da metade do século XX, é necessário um olhar mais cuidadoso aos desdobramentos do debate moral45, bem como a retomada de

conceitos fundamentais da filosofia moral sob uma perspectiva que, embora não seja de todo nova, não desenvolveu todas as suas potencialidades. O resultado será positivo se, no decorrer da tese, lançarmos dúvida sobre a leitura usual de Hume ao revelar os elementos normativos e universalistas de sua filosofia moral. Nesse sentido, o próximo capítulo tem como objetivo discutir o tema das virtudes, que é central na teoria moral humeana. A abordagem de Hume é complexa, contudo permite algumas considerações sobre a relação entre o juízo dos traços de caráter e a regularidade das ações humanas, bem como a expectativa de que nossos valores tenham como referência princípios que compartilhamos.

44 Esse aspecto da teoria humeana é especialmente visível em seu ensaio “A Dialogue” (2004), sobre o qual

pretendo apresentar algumas considerações no capítulo IV.

45 Cabe notar que há um interessante debate que aborda a questão da normatividade a partir da metaética. A

discussão torna-se complexa na medida em que realistas, antirrealistas e construtivistas disputam qual visão melhor se enquadra na teoria humeana. Embora essa questão não faça parte do escopo do presente trabalho, dedicaremo- nos a ele brevemente no último capítulo.