Fotos 52 e 53 – Registro da chegada de novos alunos para o projeto
3 ANÁLISE DO LEGADO EDUCACIONAL DA RADIODIFUSÃO NO BRASIL
3.1 CONTEXTO E HISTÓRICO DO RÁDIO EDUCATIVO NO BRASIL
A história dos programas educativos veiculados pelo rádio não está dissociada do contexto sócio-político-econômico de sua época, uma vez que o processo comunicativo no âmbito da radiodifusão se desenvolve com disputas: de um lado o aspecto educativo, cultural, que predomina na década de 1920 até começo dos anos 30 (com veiculação de música erudita, palestras intelectuais e noticiários), de outro, o publicitário e empresarial (voltado ao entretenimento, com caráter massificador), tornando-se hegemônico a partir de então.
A primeira rádio, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro inaugurada em 1923 por Roquette-Pinto, de acordo com Silva e Bastos (1983), nasce num contexto marcado por conflitos de ordem política, econômica e social, no meio do embate da República do Café- com-Leite, das contestações de grupos sociais urbanos, como a burguesia industrial, a classe média, o operariado e as oligarquias de não-cafeicultores (dos dissidentes). Estes pressionavam o governo, exigindo mudanças, pois se sentiam prejudicados em um cenário econômico que dava privilégios aos cafeicultores, por um modelo político controlado pelos coronéis que manipulavam o sistema de eleição.
No aspecto educacional, extratos emergentes da burguesia começam a exigir o acesso à educação, mas ainda arraigados aos valores oligárquicos. Essa aspiração educacional, analisada em seu contexto, é acadêmica e elitista, enquanto que a classe de operários também requisita um mínimo de escolarização, uma vez que a taxa de analfabetismo é alta, chegando a 80% da população. (ARANHA, 1996)
Instaura-se nesse cenário o Movimento da Escola Nova (de influência americana, tendo como principal representante John Dewey e no Brasil, Anísio Teixeira). O movimento pretendia uma remodelação do ensino, defendendo um pensamento liberal democrático, buscava a escola pública para todos, pois teorizava que a educação era o
caminho para a democratização da sociedade, uma sociedade sem privilégios. Esse movimento vai representar os anseios da burguesia capitalista urbana em ascensão, contrapondo-se aos valores da velha oligarquia e vai sofrer forte oposição da corrente católica que estava comprometida com os ideais senhoriais oligárquicos. (ARANHA, 1996)
No âmbito da cultura, acontece a Semana da Arte Moderna cuja reunião de diversos artistas e intelectuais expressam o anseio de uma nova estética, desvinculada das influências européias. São os ideais modernistas, desejosos de uma cultura nacional que se lançavam como vanguarda de uma corrente que vai buscar influenciar os padrões da educação e da comunicação, padrões a serem incorporados nos programas educativos desenvolvidos pelo rádio, consolidados com o pensamento de Roquette-Pinto.
Inferimos com base nas leituras realizadas que, apesar de bem intencionados, os programas educativos para a radiofonia, naquele contexto, continham em sua essência um caráter elitista, pois eram pensados por um grupo de intelectuais que almejava fortalecer a indústria cultural do país e, vira no rádio um forte instrumento de veiculação de um projeto civilizatório, projeto construído e produzido pelos eruditos que desejavam levar ao povo uma educação que pudesse elevar seus padrões culturais.
Outro aspecto que reforça essa inferência está no fato de o rádio, enquanto tecnologia nova, não se apresentava como um produto barato e de fácil aquisição por parte das camadas menos favorecidas, justamente as camadas que necessitavam contar com o auxilio dos programas educativos, naquela época:
[...] Apesar do interesse de Roquette-Pinto em produzir uma programação educativa popular, de acesso fácil à maioria da população, com o rádio ajudando a resolver o problema educacional do país, as condições de acesso existentes na época faziam com o que o novo veículo repetisse um nível de cultura compatível com o da elite, os privilegiados ouvintes de então. (MOREIRA, 1991, p. 17).
Depreende-se, então, que o rádio nasce como uma tecnologia que vem alimentar o processo de modernidade do país. No entanto, o acesso aos meios de produção e de programação e, de certa forma, ao simples recebimento desta, estava concentrado nas classes privilegiadas; o rádio se configurava como um instrumento de prestígio e passaria a ser usado com um veículo disseminador da cultura dessa classe privilegiada: a elite burguesa e cultural da época.
O projeto de radiodifusão foi colocado como ferramenta pedagógica de transição num contexto em que a estrutura social estava se modificando rapidamente e se lançava
como uma tentativa de conciliar os valores culturais ainda atrelados ao domínio senhorial, com a inserção em um mundo mais tecnológico que almejava mudanças no mundo da produção. (GILIOLI, 2008). Segundo o autor, o projeto educacional da rádio de Roquette- Pinto mantinha coesão entre os ideais republicanos e varguistas, bem como os da Escola Nova e dos católicos e frente aos conflitos, ele se mantinha “neutro”, podendo contar com a colaboração vinda dos dois lados.
A partir de uma análise contextual dos programas educativos veiculados pelo rádio, a exemplo:
Dos da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Da Rádio-Escola do Rio de Janeiro (1933);
Do Serviço de Radiodifusão Educativo – SER (1937),
Dos da Universidade no Ar do Rio de Janeiro e de São Paulo, Do Sistema Rádio Educativo Nacional – SIRENA (1958), Do Serviço de Rádio e Televisão Educativa – SERTE,
Da Universidade do Rio Grande do Sul, da Fundação Padre Landell de Moura – FEPLAM,
Do projeto Minerva (na época do Regime Militar);
Podemos concluir que estes projetos apresentavam uma estrutura vertical de ensino, baseada na transmissão de conhecimento (de uma elite que sabia para um povo ignorante) e que visava favorecer os processos de modernização do país e “formatar” o comportamento das pessoas. A exceção foi o Movimento de Educação de Base – MEB que inspirado na pedagogia freireana, em 1961, buscava um enfoque mais crítico, desenvolvendo uma educação que pudesse tornar as pessoas mais conscientes e capazes de mudar a realidade.
Analisamos que experiências realizadas estavam alicerçadas na estrutura social, política e econômica de cada época e a concepção de educação estava diretamente imbricada a tal contexto. Os modelos de programas obedeciam aos interesses da ordem social vigente em cada momento histórico, sendo assim o uso do rádio estava vinculado a esses fins, levando o “povo” a aceitar e repetir os padrões e modelos pré-estabelecidos e que esse mesmo “povo” ficava de fora da elaboração das propostas da grade de programação.
Às camadas populares era imposto um formato que divulgaria a ideologia da ordem social dominante, não havia espaço para o descendente africano, para o índio, para o proletariado e o camponês participarem, debaterem, expressarem suas necessidades e anseios de mudança. Era-lhes destinada uma programação ora erudita e elitista, senhorial e de prestígio, ora massiva, determinada por aqueles que tinham o saber e que ousavam dizer o “como” fazer, ou seja, o rádio era utilizado como meio, instrumento de manipulação desse povo a ser conduzido de acordo com os interesses políticos, econômicos dos dirigentes da sociedade a cada momento.
A concepção educacional subjacente aos programas era instrumentalista e o ouvinte era colocado como mero espectador de um conteúdo estável, determinado por finalidades que não visavam ao atendimento das reais necessidades dele.
Apesar do teor crítico da presente exposição, não podemos deixar de reconhecer a importância dos programas educativos iniciais e da importância de sua veiculação pelo rádio, possibilitando a oportunidade de conhecer a cultura de outras regiões. Porém, a crítica aqui se faz pela única via de oferta, sem uma abertura para a os ouvintes de cada localidade específica apresentar suas necessidades e, de certo modo, a sua cultura.
Diante do exposto, o presente estudo intenta apresentar uma proposta para a implantação de uma rádio-web no contexto escolar, bem como o design pedagógico de programas educativos de caráter colaborativo, alicerçado no sócio-construtivismo, no qual o veículo comunicacional seja social, formando um sistema aberto de interação e construção do conhecimento.
Antes, contudo, iremos analisar a importância das rádios universitárias e comunitárias na perspectiva de uma comunicação voltada para a construção social do conhecimento e sua difusão.