4 METODOLOGIA
4.2 Contexto e Corpus da Pesquisa
4.2.1 Contexto geral
Os Cursos de Letras no Brasil são, como todos os outros cursos superiores, regidos, inicialmente, por legislação na qual se prevê que sua oferta deve ser, prioritariamente, feita pelo Governo Federal, legando à esfera estadual a obrigatoriedade do Ensino Médio; e à municipal do Ensino Fundamental e Infantil. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 que faz essa previsão, não veta, contudo, a disponibilização de outros níveis de ensino por qualquer âmbito da administração pública. Como lei básica, define os papeis de cada membro do poder executivo da República e lista as prioridades de atendimento de cada um deles. Tampouco veta a possibilidade das ofertas em
quaisquer níveis pela iniciativa privada, que, efetivamente, também realiza atividades educacionais em todos os graus de ensino.
Já no âmbito de atuação do MEC, encontramos diversos documentos que estabelecem parâmetros e regras para a formação, funcionamento e autorização dos Cursos de Letras no Brasil. Esses são compostos por, basicamente, quatro tipos: Orientações Curriculares, diretrizes de qualidade, resoluções e pareceres, sendo emitidos, pelo MEC, pelas secretarias a ele subordinadas ou pelo CNE e pela CES. As orientações Curriculares são orientações gerais sobre como devem ser compostos os PP, a distribuição de carga horária, os aspectos importantes que devem estar previstos nos projetos e tudo o mais voltado para a configuração geral dos cursos. As diretrizes de qualidade se voltam para as questões de avaliação dos cursos e definem os parâmetros a serem usados pelo MEC para que esse procedimento seja realizado. As resoluções e os pareceres se voltam para aspectos específicos e visam, as primeiras, regulamentar leis e as orientações gerais existentes e os últimos tem o objetivos de formarem juízo sobre consultas feitas por instituições de ensino, secretarias de educação e demais órgãos voltados à educação sobre questões específicas presentes na legislação e/ou de procedimentos de execução de ações diversas.
O fato de essas Diretrizes prescreverem o formato de apresentação dos projetos e da organização dos cursos significa que, se uma IES pretende oferecer um curso de Letras com Licenciatura em Língua Espanhola (ou em qualquer outra área), deverá elaborar uma proposta de criação de um curso e baseá-la nos moldes estabelecidos nestas publicações, disponíveis na página do MEC32.
Como órgão governamental, estabelecido na estrutura republicana como o mais alto na efetivação de ações educacionais do poder executivo, o MEC detém a autoridade legal para autorizar, avaliar e reconhecer os Cursos de Letras em todo o país e o faz, repetimos, levando em consideração os que documentos referidos fazem constar.
Consideramos, de acordo com as propostas sobre o controle do poder feitas por van Dijk (2008a), detalhadas nos capítulos anteriores desta tese, que indicam a ascendência de setores dominantes na sociedade sobre outros, que as ideias insertas nas diretrizes elaboradas e validadas pelo MEC revestem-se de valor de instrumento coercitivo sobre as ações daquelas instituições que oferecem Cursos de Letras Espanhol e das pessoas que nelas atuam. De tal forma que, por exemplo, se um curso for avaliado, e não cumprir a série de critérios impostos
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por aquele órgão governamental, correrá o risco de ser fechado ou de não poder receber mais alunos em suas salas de aula.
Por essa razão, esses documentos entraram no escopo de análise desta investigação, conforme as razões expostas, que nos levam a entender que o exame dos elementos que os compõem nos permitiu depreender as ideologias e RS emergentes dos discursos sobre a FPLE neles presentes.
Uma vez evidenciadas essas vinculações, elas nos permitiram examinar, finalmente, a ideologia dominante no discurso que lhes servem de base para entendermos, por fim, de que maneira tanto RS como ideologias podem orientar ações formativas no âmbito do Governo Federal Brasileiro. Essa presunção se dá pela proposição teórica à qual nos filiamos neste trabalho, que considera que as ideologias orientam, por um lado33, a construção do discurso; e as RS, de outro, as atividades práticas dos grupos que as partilham. De tal modo que, ambos os sistemas sociocognitivos orientam práticas, inclusive a discursiva. É importante lembrar, ainda, que a proposta de análise discursiva de van Dijk (2008a) sugere, igualmente, que esta se vincula de maneira decisiva às práticas sociais, por ser uma delas, e por orientar, significar e validar outras, como o racismo, o exercício do poder e a xenofobia, por exemplo.
4.2.2 Corpus da pesquisa
Temos explicado ao longo deste trabalho que examinaremos dois grupos de documentos: de um lado, as Diretrizes Curriculares do Governo Federal do Brasil e, de outro, os PP dos Cursos de Letras que oferecem licenciatura em Língua Espanhola, no âmbito das universidades públicas federais, na região Nordeste do Brasil.
Essa investigação, documental, implica examinar duas posições institucionais no sistema educacional brasileiro, sob dois pontos de vista: o do governo e o das universidades que promovem a formação de professores. Sem perder de vista que, embora esse discurso evidencie a posição do governo e das IES, não deixa de expor a posição dos grupos de professores que compõem as equipes dessas instituições e que redigem os documentos. Pretendeu-se, a partir dessa abordagem, verificar se eram aproximados, semelhantes ou díspares, tendo em vista as ideologias e as representações que emergem dos discursos
33 Ver Figura 1: Esquema sumário de uma teoria interdisciplinar da ideologia, no capítulo de fundamentação teórica.
estudados. Uma vez que, embora pertençam à mesma estrutura governamental, no caso, a esfera federal, poderiam, pela natureza de sua constituição e atividade, apresentar divergências nos discursos institucionais, disponíveis nos documentos analisados, uma vez que as universidades podem, ao implementarem as formações, exercer a autonomia que lhes confere o estatuto de autarquias, divergindo do imposto pela União em alguns aspectos dessa atividade. Ou, por fim, concretizar, também através dos discursos (de suas ideologias e representações e das atividades práticas que orientam), um alinhamento nas ações de formação de professores.