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CONTEXTO GERAL E CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DAS CRIPTOMOEDAS

4 DINHEIRO E HEGEMONIA NEOLIBERAL: OS ANTECEDENTES DO BITCOIN

5 BITCOIN: A UTOPIA TECNOCRÁTICA DO DINHEIRO “APOLÍTICO”

5.1 CONTEXTO GERAL E CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DAS CRIPTOMOEDAS

Tratamos, em outro momento, das afinidades estruturais entre o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação e o processo de integração, liberalização e abertura dos mercados em nível global (PARANÁ, 2016). Vimos que, ao mesmo tempo em que decorre dessas, o desenvolvimento das TIC acelera, intensifica e dá base tecno-material às dinâmicas de reestruturação e trasnacionalização da produção, de financeirização e neoliberalização, que avançam com maior intensidade a partir da década de 1970. É em meio ao casamento entre capitalismo financeiro e revolução informacional que nasce também a internet203 – sem a qual não poderíamos falar das criptomoedas.

Como seria de se esperar, o Bitcoin, a primeira e mais importante das criptomoedas, só pôde surgir graças a um conjunto de constrangimentos e possibilidades relacionadas a certos desenvolvimentos históricos, socioeconômicos e ideológicos. Veremos que as proposições neoliberais, acima escrutinadas, constituem sua base de sustentação ideológico-programática. Mas para além disso, é certo, as criptomoedas decorrem de outros andamentos de ordem cognitiva (os avanços da criptografia e da matemática dos algoritmos, por exemplo), material- tecnológica (o desenvolvimento e espraiamento da internet204 pelo globo, o aumento

203 Schiller (2002) recolhe inúmeras evidências de que o avanço das TIC foi amplamente sustentado no poder econômico das grandes empresas transnacionais, que vislumbravam na informatização uma forma de rearticular a produção e dar maior versatilidade aos negócios; cada vez mais integrados, por essa via, em nível internacional (e, desse modo, crescentemente dependentes de sistemas de rede e de telecomunicação). Para o autor, a internet representa uma espécie de catalisador da transição política e econômica entre duas épocas, em direção ao que ele define como “capitalismo digital”, uma nova fase do sistema capitalista. Para Belluzo (2013, p. 30), “o admirável mundo das novas atividades aprofunda a imersão das relações de trabalho no turbilhão da concorrência, agora dinamizada pelos impulsos das novas tecnologias de informação. Esses instrumentos, decisivos para os movimentos libertários e de contestação das ditaduras, transformam-se, no mundo do trabalho, em meios de doutrinação e controle. Servem para agrilhoar as vítimas da economia contemporânea e mantê-las sob a vigilância permanente da empresa ou dos contratantes, prolongando a jornada de trabalho muito além do que seria admissível para um fanático manchesteriano do século XIX”.

204 “Bitcoin relies on the same architecture as the internet itself. The complex chain of technology that has to be in place before even the first Bitcoin transaction can be made is notable: the manufacture of computers, fiber-optic cables and all the other kinds of physically grounded machinery that underlies the wrongly assumed-to-be non-

exponencial da capacidade de processamento computacional) e, é claro, política (a constituição dos movimentos de hackers, ciberativistas, criptoanarquistas e cypherpunks). Em meio a tais condições, a crescente oligopolização da internet e a crise financeira de 2008 jogam papel decisivo.

A história da rede mundial de computadores já foi contada e problematizadas por inúmeros autores (CASTELLS, 1999; SCHILLER, 2002; BOLAÑO et al., 2007; McCHESNEY, 2013)205. Castells (1999) fala de um encontro inusitado, em seus primórdios, entre acadêmicos, militares/burocratas e geeks da contracultura. De uma rede militar- acadêmica, desenvolvida entre os campi universitários e laboratórios da costa oeste estadunidense, com o estratégico patrocínio, em meio à Guerra Fria, do Pentágono, a rede evolui paulatinamente até se tornar um espaço de comunicação global e iminentemente privado. Às venturas e desventuras de sua trajetória nas últimas décadas estão relacionados impactos disruptivos na atividade econômica, nas formas de governança e na atuação política, sendo, em todas essas esferas, um (ciber)espaço marcado por concorrência e disputa permanente.

Em qualquer caso, conforme aponta McChesney (2013), a busca pelo lucro, o “comercialismo”, o marketing e a publicidade estão na base da evolução da rede mundial de computadores. De um projeto não apenas não-comercial, mas anti-comercial, em suas primeiras décadas, essa se torna, a partir de sua “privatização” na década 1990, um espaço hegemonicamente capitalista. A esse processo de privatização, coroado com a ascensão e queda da primeira geração de empresas pontocom (2001), soma-se o declínio das regulações anti- truste, o avanço de legislações de propriedade intelectual e os subsídios indiretos massivos concedidos às gigantes da internet. Tais mudanças estruturais impedem o desenvolvimento da rede na direção de valores democráticos. A economia política da internet acaba dominada, assim, por alguns poucos monopólios – do Google, que concentra mais de 90% do mercado de buscadores, da Microsoft, cujo sistema operacional é usado por quase 90% dos computadores em todo o mundo, para não mencionar os mais recentes como Facebook e Amazon. Tal “colonização capitalista” do ciberespaço, segundo o autor, enfraqueceu o jornalismo sério e fez da internet uma força anti-democrática206.

physical internet. This physical infrastructure of Bitcoin is clear, but not unique to virtual currencies. The underlying institutional arrangements are however much more singular, and form a rich tapestry of influences” (KARLSTRØM, 2014, p. 9). Para mais sobre ver Grinberg (2011), Babaioff et al. (2012), Brito e Castillo (2013). 205 Para uma sistematização e atualização crítica desses relatos ver Horta (2017).

206 “The tremendous promise of the digital revolution has been compromised by capitalist appropriation and development of the internet. In the great conflict between openness and a closed system of corporate profitability, the forces of capital have triumphed whenever an issue mattered to them. The internet has been subjected to the capital-accumulation process, which has a clear logic of its won, inimical to much of the democratic potential of digital communication. What seemed to be an increasingly open public sphere, removed from the world of

Na mesma direção vai Mozorov (2011), para quem a internet vem tornando mais difícil e não mais fácil a promoção da democracia. O autor demostra como governos autoritários usam a rede para suprimir a liberdade de expressão, utilizando de técnicas de vigilância, disseminação de propaganda e pacificação de suas populações por meio do entretenimento digital. Sendo capaz de reforçar ditaduras e ameaçar dissidentes, a internet não é “inerentemente livre”; e a promoção abstrata da “liberdade na rede” pode ter consequências desastrosas para o futuro da democracia como um todo.

Apesar de tais tendências, o futuro da internet segue em disputa. Os ciberconflitos e aparatos de vigilância, espionagem e militarização da rede mundial de computadores, que vieram a público por meio das revelações do Wikileaks de Julian Assange e sua rede de whistleblowers, bem como por meio dos vazamentos de informações do ex-funcionário da NSA Edward Snowden (GOLDFARB, 2015), ao mesmo tempo em que fazem apontar a gravidade do problema, também servem para atestar que “this capitalist colonization of the internet has not been as obstrusive as it might have been, because the vast reaches of cyberspace have continued to permit nocommercial utilization, although increasingly on the margins” (McCHESNEY, 2013, p. 97).

Em meio a essa trajetória particular de desenvolvimento da internet é que, durante décadas, no rescaldo da contracultura da costa oeste estadunidense reforçada por geeks de todo o globo, vão sendo gestados os movimentos em favor da circulação anarquicamente livre de informações, defensores do software livre e da programação em código aberto e, com especial ênfase a partir da década de 1990, os movimentos baseados no desenvolvimento e utilização da criptografia207 como forma de proteção da privacidade na rede: cypherpunks208, criptoanarquistas, entre outros. Movimentos que, para resumir em uma frase, defendem “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” (ASSANGE et al., 2013, p. 143).

Tais movimentos, lembremos, a despeito de seu caráter e retórica anti-mainstream, não estão imunes à hegemonia ideológica de seu tempo, sendo largamente influenciados, veremos à frente, pela penetração social das ideias e práticas neoliberais, especialmente nos Estados

commodity exchange, seems to be morphing into a private sphere of increasingly closed, proprietary, even monopolistic markets” (MCCHESNEY, 2013, p. 97).

207 Segundo Lessig (2006), a criptografia serve a dois propósitos: garantir o sigilo da comunicação entre duas partes e fornecer identidades digitais para evitar a falsificação. Assim, “it enables freedom from regulation (as it enhances confidentiality), but it can also enable more efficient regulation (as it enhances identification)” (LESSIG, 2006, p. 53).

208 “Os cypherpunks defendem a utilização da criptografia e de métodos similares para provocar mudanças sociais e políticas. Criado no íncio dos anos 1990, o movimento atingiu seu auge durante as “criptoguerras” e após a censura da internet em 2001, na Primavera Árabe. O termo chypherpunk – derivação de “cypher”, escrita cifrada (tradução nossa), e “punk” – foi incluído no Oxford Dictionary em 2006” (ASSANGE et al., 2013, p. 5).

Unidos, onde empresas, fundações, think tanks, organizações da sociedade civil, universidades e o próprio Estado se abrem para e incentivam a propagação das ideias econômicas da Escola Austríaca e da Escola de Chicago209. A grande crise de 2008, a maior em quase um século, coroa esse processo, cimentando um conjunto bastante particular de representações e convicções a respeito das relações entre Estado e capital, sociedade e indivíduo. É justamente nesse cruzamento histórico, em 2009, que surge o Bitcoin, a primeira e mais importante das criptomoedas.

Em março de 2012, um conjunto de proeminentes hackers – Julian Assange, Jacob Appelbaum, Andy Muller-Maguhn e Jérémie Zimmermann – se reuniu na Embaixada do Equador em Londres (onde, em meio à perseguição sofrida pelas revelações feitas pelo Wikileaks, Assange foi acolhido em busca de asilo diplomático) para uma conversa sobre a “liberdade e o futuro da internet”. Na discussão, transmitida e gravada em vídeo, e posteriormente publicada como livro (ASSANGE et al., 2013), os ativistas tratam de inúmeros assuntos, dentre os quais os aspectos políticos e econômicos da internet, censura e vigilância em massa, espionagem pelo setor privado, militarização do ciberespaço e, é claro, o Bitcoin. Ainda que eles não sejam, até o que se sabe, diretamente responsáveis ou ligados à gestão da criptomoeda, cabe, diante de sua representatividade, notoriedade e aderência aos ideários que, em grande medida, inspiram a comunidade do Bitcoin210, nos atentarmos ao que dizem.

Jacob Applebaum, conhecido hackativista, especialista em segurança da informação e, à época, membro do núcleo do Projeto TOR, uma rede de software livre projetado para fornecer anonimato online, ao falar dos desdobramentos da crise de 2008, apresenta uma leitura curiosa do sistema econômico mundial:

[...] Uma das coisas mais ofensivas dos resgates financeiros nos Estados Unidos – que foram ofensivas para muita gente, por incontáveis razões – foi que eles demonstraram que a riqueza não passa de uma série de bits em um

sistema computadorizado. Algumas pessoas, se souberem implorar direito

209 Levy (2001) mostra que, embora não possa ser definida como a fração dominante dentro da comunidade de criptografia, houve desde o início uma forte corrente de sentimentos “libertários” em seu meio.

210 A própria história do Wikileaks se cruza, em um momento dramático, com a do Bitcoin. Em verdade, uma das primeiras grandes ondas de interesse público em torno da criptomoeda se dá justamente em razão desta ter servido, em 2010, como forma de contornar o bloqueio financeiro imposto à organização em represália aos vazamentos de documentos sensíveis e secretos dos EUA. Jon Matonis, membro do conselho e diretor executivo da Fundação Bitcoin até outubro de 2014, lembra que a criptomoeda se tornou um dos únicos caminhos restantes para que indivíduos doassem ao WikiLeaks frente à proibição legal de fazê-lo por parte da lei estadunidense. “Following a massive release of secret U.S. diplomatic cables in November 2010, donations to WikiLeaks were blocked by Bank of America, VISA, MasterCard, PayPal and Western Union on December 7th, 2010. Although private companies certainly have a right to select which transactions to process or not, the political environment produced less than a fair and objective decision. It was coordinated pressure exerted in a politicized climate by the U.S. government and it won’t be the last time that we see this type of pressure. Fortunately, there is way around this and other financial blockades with a global payment method immune to political pressure and monetary censorship” (MATONIS, 2012a).

conseguem ganhar muitos desses bits, então o que isso quer dizer? Qual é o valor do sistema se você pode simplesmente burlá-lo e conseguir mais bits? (ASSANGE et al., 2013, p. 117, grifos nossos).

Andy Muller-Maguhn, hackativista especialista em telecomunicações e vigilância e criador de uma empresa que comercializada dispositivos de comunicação vocal segura para clientes comerciais, segue na mesma direção ao falar, mais especificamente, do dinheiro:

Não importa qual seja a arquitetura de comunicação, o dinheiro não passa de

bits. Essa é só uma utilização da internet. Então, se o sistema econômico se

baseia na infraestrutura eletrônica, essa arquitetura acaba refletindo o modo como o dinheiro flui, como ele é controlado, como ele é centralizado e assim por diante. No começo, talvez ninguém tenha pensado que a internet seria a infraestrutura para tudo, mas a lógica econômica disse: “Bom, sai mais barato fazer isso pela internet”. [...] Então a arquitetura da tecnologia está se transformando em um fator fundamental, capaz de afetar todas as outras áreas, e é isso que precisamos repensar. Quero dizer, se quisermos uma forma de economia descentralizada para lidar com nossos pagamentos, precisamos ter algum controle dessa infraestrutura (ASSANGE et al., 2013, p. 107, grifos nossos).

Mas é o próprio Julian Assange, alçado àquela altura à condição de herói da liberdade na rede, quem verbaliza o zeitgeist da comunidade de entusiastas e defensores das criptomoedas, concedendo uma justificativa “libertária” para a necessidade de uma “moeda eletrônica”:

É de extrema importância criar uma moeda eletrônica justamente porque o controle dos meios de pagamento constitui um dos três ingredientes do Estado [controle sobre as forças armadas em uma determinada região, controle sobre uma infraestrutura de comunicações e controle sobre uma infraestrutura financeira]. [...] Se retirarmos o monopólio estatal dos meios de interação econômica, removeremos um dos três principais ingredientes do Estado. No

modelo do Estado como uma máfia, no qual o Estado não passa de um esquema de extorsão, ele tira o dinheiro das pessoas de todas as maneiras possíveis. É importante para o Estado poder controlar os fluxos monetários,

possibilitando assim a arrecadação de dinheiro, mas também para

simplesmente controlar o que as pessoas fazem – dando incentivos aqui, removendo acolá, banindo complemente determinadas atividades,

organizações ou interações entre certas organizações (ASSANGE et al., 2013, p. 104-5, grifos nossos).

A essa altura o leitor não precisará de muito esforço para traçar as origens dessa definição particular de Estado: um lugar comum entre os adeptos das mais radicalizadas dentre as doutrinas neoliberais. De Hayek a Friedman, de Reagan a Tatcher, o Estado “que tira dinheiro das pessoas de todas as maneiras possíveis” reaparece na retórica rebelde de um dos hackers mais conhecidos do planeta.

Apesar da confusão que essa retórica anti-establishment incialmente suscita, resta evidente a filosofia política que sustenta tal “comunidade” e porque, conforme Applebaum,

Os cypherpunks queriam criar sistemas que nos permitissem pagar uns aos outros de maneira verdadeiramente livre, na qual a interferência seria impossível. [...] A ideia é poder criar moedas anônimas, em oposição a Visa/Mastercard211, que representam uma moeda possível de ser rastreada

(ASSANGE et al., 2013, p. 104).

Ainda que não esteja entre nossos objetivos uma análise detida da filosofia e prática do movimento cypherpunk, do qual grande parte dos pioneiros e entusiasmados defensores do Bitcoin fazem parte, veremos que é correto dizer que a variante de (neo)liberalismo radical que professam não deixa de falar diretamente às impressões, sensações e sentimentos prementes de nossa época: a busca por proteção e privacidade212 nas comunicações frente aos grandes monopólios público-privados da informação, a descrença generalizada nas distintas esferas do Estado como representante legítimo e promotor da vontade pública frente ao que aparece como sua captura pelo poder econômico, a impotência da cidadania frente ao que aparece como a ascensão de uma plutocracia global, a exigência de transparência na ação pública como forma de prevenção à corrupção, a busca por novas formas horizontais, autônomas, decentralizadas e autogeridas de associativismo em rede, etc. Reside também aí parte do fascínio que inspira. O Bitcoin é o desdobramento de uma combinação contraditória entre o desenvolvimento e intensificação do processo de neoliberalização das sociedades capitalistas e seus limites, problemas e promessas não realizadas, no contexto de esgotamento e crise do capitalismo pós- 2008; o contorcionismo, em suma, de uma ideologia de modo a dar inteligibilidade ao mundo que a desafia.

Pensemos, por um momento, no destino trágico de dois dentre os mais conhecidos “heróis” desse combate intransigente pela “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” (ASSANGE et al., 2013, p. 143): Julian Assange e Edward Snowden. O primeiro, “preso” na Embaixada do Equador e caçado pela maior potência bélica do planeta (país que até aqui foi agente ativo de propagação global do neoliberalismo “realmente existente”), se debate contra o globalismo neoliberal-democrata tendo de conspirar, para isso, com ninguém menos que Donald Trump e a Rússia de Vladimir Putin. O segundo, sob pena de encontrar o mesmo

211 A despeito de retórica e ação aparentemente (e, por vezes, de modo irônico, efetivamente) voltada contra o poder corporativo, o que realmente surge, conforme veremos em mais detalhes à frente, como imperativo é um ataque prioritário à supervisão e às restrições estabelecidas pelo poder governamental – de quem as empresas se aproximam posteriormente de modo a obter vantagens (um problema de incentivo, portanto). Entre as startups e as propostas mais recentes de empresas baseadas na tecnologia blockchain (a mesma que dá base ao Bitcoin), por exemplo, o que emerge de modo bastante claro é uma defesa da ação completamente livre de regulamentação para o poder corporativo e financeiro.

212 Para Dodd (2017), o Bitcoin, em um mundo pós-2001, parece ser a antítese do uso crescente pelo Estado, após o 11 de setembro, do sistema financeiro convencional para fins de segurança. Daí ser particularmente atraente para aqueles de ideologia libertária e/ou anarquista que querem ver o dinheiro livre do controle dos governos.

destino trágico que espera o primeiro, termina, após fugir de uma perseguição implacável, asilado pela mesma Rússia de Putin, que, sabemos, está igualmente longe de ser um exemplo luminoso no quesito defesa das liberdades civis. Dois campeões do idealismo liberal que acabam enredados na incontornável disputa geopolítica da ordem global realmente existente.

Em meio a isso tudo, o caso do Bitcoin é especialmente elucidativo porque deixa evidente o caráter utópico das prescrições neoliberais, aqui autointituladas como “libertárias” (libertarian)213. Não se trata de produzir apenas ou centralmente novos aparelhos ou dispositivos de governança – traduzidos em controle, disciplinamento e orientação sistêmica das práticas econômicas – mas de transformar radicalmente a realidade social em nome de um ideal normativo de liberdade (negativa, individual), numa postura que se pensa e se pretende realizar como anti-establishment, como “revolucionária”. É assim, entre hackers procurados pelos aparelhos de segurança do Estado, empreendedores do Vale do Silício e altos financistas de Wall Street, que o Bitcoin se apresenta como um contrafactual do dinheiro realmente existente (pensemos, incialmente, nos contrafactuais do método weberiano), mas um contrafactual real, e não apenas ideal, que age e produz efeitos no mundo, que se desdobra em meio às consequências não pretendidas de sua ação. Ainda que pouco ou nada desses efeitos indique, conforme veremos, a viabilidade de uma realização prática dessa utopia, é certo que seu impacto não pode ser menosprezado: o Bitcoin pressiona os horizontes de possibilidade do dinheiro capitalista em nosso tempo, forçando os agentes econômicos e as sociedades a repensá- lo (criticamente?) – o que não implica, como se verá, que se abra mão de uma oposição, não raro aberta, contra ele. É como se uma trágica batalha entre o neoliberalismo utópico e o neoliberalismo realmente existente estivesse em curso para o que parece ser, ao menos até aqui,

213 Há certa complexidade na interação entre os três termos “liberalismo clássico”, “neoliberalismo” e “libertarianismo”, que ora se aproximam, ora se afastam ao longo do tempo (ver MIROWSKI, 2009, p. 417-455), ainda que sempre tendo buscado, é certo, certa unidade política. O “libertarianismo” costuma remeter ao pensamento da segunda geração de economistas da Escola Austríaca – especialmente Friedrich von Hayek e Ludwig von Mises – que, nos anos 1930 e 1940, em resposta ao que alegavam serem perigos “totalitários” e intervencionistas equivalentes ao comunismo e ao fascismo, buscaram estender sua teoria econômica ao campo da filosofia política. O trabalho mais conhecido deste gênero é o já mencionado Caminho da Servidão (HAYEK, 2010) publicado em 1944. Ao procurar uma definição para seu pensamento, Hayek oscilou entre o “liberal clássico” (uma vez que traçava sua genealogia a pensadores como John Stuart Mill, John Locke e Adam Smith) e o, então pouco usado, “libertário”, termo que sugere um foco na liberdade, conceito-chave para esses pensadores. Quando o trabalho de Hayek e Mises foi absorvido por economistas e pensadores políticos conservadores nos EUA como Murray Rothbard, Milton Friedman e Robert Nozick, o selo “libertário” foi o que de fato pegou. O