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O CONTEÚDO SOCIAL E IDEOLÓGICO DO BITCOIN

4 DINHEIRO E HEGEMONIA NEOLIBERAL: OS ANTECEDENTES DO BITCOIN

5 BITCOIN: A UTOPIA TECNOCRÁTICA DO DINHEIRO “APOLÍTICO”

5.3 O CONTEÚDO SOCIAL E IDEOLÓGICO DO BITCOIN

A crise de 2008 fez aprofundar, como vimos, o ceticismo em relação papel das autoridades, especialmente de governos e Bancos Centrais. É compreensível, neste quadro, que muitos se entusiasmem com a ideia de uma moeda que políticos e banqueiros não possam “manipular”. Assim é que o Bitcoin, não raro, é apresentado como uma moeda anti- establishment, anti-sistema e anti-Estado, um conceito ambicioso, em suma, que promete mudar o funcionamento da economia global.

Como premissa central, a ideia do dinheiro como uma “coisa” ou “objeto” que deve ser apartado dos conflitos da vida social de modo a estar protegido de sua odiosa manipulação por intermediários bancários e autoridades políticas. Daí uma moeda “neutra” e totalmente mecanizada, supostamente livre de “influências” de qualquer natureza. Contra a crise institucional-representativa contemporânea, menos política e não mais: trata-se de remover completamente a ação político-discricionária e, assim, a necessidade de confiança do mundo do dinheiro.

242 Sabemos, não apenas pela experiência das instituições financeiras e das gigantes da internet, mas de inúmeros outros setores, que esse definitivamente não é o caso. Em paralelo à reestruturação da grande empresa capitalista e constituição de novo modelo das “empresas em rede”, as fusões e aquisições características da mundialização capitalista nas últimas décadas produziram uma tremenda concentração de controle não apenas das plataformas, mas do conteúdo circulante nas redes de informação. De fato, à medida que a tecnologia digital se espalhava por todo o mundo, em nome de slogans legítimos, ainda que vagos, como a “liberdade na internet”, a riqueza e o poder se concentraram enormemente.

Em consonância com a reflexão mobilizada nos capítulos anteriores, sabemos que, para além de um meio prático de troca, essa moeda configura-se também como um instrumento ideológico. Como outras formas de dinheiro, o Bitcoin é sustentado por um conjunto série de suposições sobre a organização da sociedade e o papel que o dinheiro desempenha dentro dela. Logo se nota, por essa via, que as raízes ideológicas do Bitcoin estão assentadas em uma forma específica de libertarianismo tecnológico: de um lado a imagem “libertária” de uma moeda sem Estado, de outro a promessa de uma libertação dos problemas da política por meio tecnologia. Os ideólogos libertários, é certo, estiveram, não por acaso, entre os primeiros a enxergar o potencial político de uma rede pretensamente descentralizada e pseudônima, como a internet.

Dito isso, é possível notar uma flagrante tensão no interior da retórica que sustenta o Bitcoin: este é constituído, veremos, por certas características (como arranjos materiais e institucionais específicos, organização social, hierarquia política e até necessidade de confiança) que estão em direto desacordo com a ideologia política e a teoria do dinheiro que o amparam, ou seja, o Bitcoin porta características que suas ideias-força buscam justamente negar. Por isso, paradoxalmente, conforme destaca Dodd (2017), mesmo a contragosto, esta criptomoeda serve como uma poderosa demonstração do caráter sociorrelacional do dinheiro243.

Assim é que alguns autores244 têm se dedicado ao que aqui chamaremos o “conteúdo social”245 do Bitcoin, ou seja, seus aspectos políticos, simbólicos e ideológicos. Defenderemos que, desde esse ponto de vista, o Bitcoin é conformado, em termos práticos, por dois sistemas de crença distintos, mas mutuamente atraentes (especialmente a partir do pós-crise de 2008): o “ciberlibertarianismo” de cypherpunks e criptoanarquistas, de um lado, e o pensamento social e econômico neoliberal e libertário ou libertariano, de outro; uma conformação que reivindica para si uma versão “heroica” e utópica de liberalismo como ethos fundamental de ação.

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Vimos que a segurança e o anonimato das transações com Bitcoins é garantida por um software criptográfico; um protocolo, como se disse, que está baseado nos desenvolvimentos

243 “[...] The currency has generated a thriving community around its political ideals, relies on a high degree of social organization in order to be produced, has a discernible social structure, and is characterized by asymmetries of wealth and power that are not dissimilar from the mainstream financial system” (DODD, 2017, p.1).

244 Ver Karlstrøm (2014), Kostakis; Giotitsas (2014), Golumbia (2016), Bjerg (2016) e Dood (2017).

245 Conforme os sociólogos da ciência e da tecnologia vêm argumentando há muito tempo, fatores humanos, sociais e políticos inevitavelmente emergem da interação e uso, bem como da própria concepção, dos artefatos tecnológicos, que moldam e são moldados pelo seu uso prático. Para uma discussão sobre o conteúdo social da técnica e da tecnologia ver Paraná (2016, p. 81-95).

obtidos por criptógrafos desde a década de 1980, muito antes da maioria da população ter acesso à internet. É justamente neste período em que os princípios básicos do movimento de criptoanarquisas e cypherpunks começam a ser estabelecidos; um movimento que, nas décadas seguintes, no quadro de avanço e penetração das novas tecnologias de informação e comunicação, teve papel importante nas lutas contra as primeiras tentativas de controle governamental sobre comunicações eletrônicas (ZIMMERMANN, 1991).

De modo mais amplo, o ciberlibertarianismo246 pode ser resumido no princípio de que “os governos não devem regular a internet” (MALCOLM, 2013). De modo específico, tem sido descrito como a crença segundo a qual a liberdade inevitavelmente emergirá do crescente uso e desenvolvimento da tecnologia digital. Assim é que qualquer forma de interferência ou regulação deste desenvolvimento tendem a ser contrários à “liberdade”247. Trata-se, conforme celebremente explicado por Richard Barbrook e Andy Cameron (1996, p.3), daquilo que chamaram de “Californian Ideology”, da ideia de que

Information Technologies [...] empower the individual, enhance personal freedom, and radically reduce the power of the nation-state. Existing social, political and legal power structures will wither away to be replaced by unfettered interactions between autonomous individuals and their software. Indeed, attempts to interfere with these elemental technological and economic forces, particularly by the government, merely rebound on those who are foolish enough to defy the primary laws of nature.

De acordo com Langdon Winner (1997, p. 14-15) ser um ciberlibertário é basicamente acreditar que

the dynamism of digital technology is our true destiny. There is no time to pause, reflect or ask for more influence in shaping these developments [...]. In the writings of cyberlibertarians those able to rise to the challenge are the champions of the coming millennium. The rest are fated to languish in the dust.

Para David Golumbia (2013, p. 1), o termo “ciberlibertarianismo” remete às crenças

that might be summed up via a slogan like “Computerization will set you free”. [...]. Among the corollaries that follow from this core belief include: a resistance to criticism of the incorporation of computer technology into any sphere of human life; a pursuit of solutions to perceived problems that takes technical methods to be prior to analytic determination of the problems themselves; a privileging of quantificational methods over and above, and

246 Descrições detalhadas do ciberlibertarianismo podem ser encontradas em Barbrook e Cameron (1996) e Winner (1997). Para análise mais recentes sobre ver Turner (2008) e Golumbia (2013; 2016).

247 Para um exemplo elucidativo ver a famosa “Declaration of the Independence of Cyberspace” (1996), escrita por John Perry Barlow – ativista libertário e fundador da Electronic Frontier Foundation, umas principais organizações em defesa dos direitos digitais e da indústria de tecnologia – para quem “os governos do mundo industrial” não são “bem-vindos” e “não têm soberania” no mundo digital. O texto, parcialmente inspirado na Declaração de Independência dos Estados Unidos, foi escrito durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, como resposta a aprovação da Lei de Telecomunicações de 1996 nos Estados Unidos. Para a íntegra do texto:

sometimes to the exclusion of, qualitative ones; the use of special standards for evaluating computational practices that differ from those used in evaluating non-computational ones; and an overarching focus on the power of the individual and individual freedom, even when that individual is understood to be embedded in a variety of networks.

Sabemos que, há décadas248, o movimento cypherpunk vem defendendo a necessidade de meios privados e seguros de comunicação, livres da vigilância das autoridades governamentais. Mas o movimento não se preocupou apenas com a criptografia segura de dados, estando a supervisão governamental das transações financeiras desde cedo presente em sua agenda. Por isso, buscou também formas de contornar o papel do Estado na emissão e gestão do dinheiro. Já conhecemos, pelas palavras de Julian Assange no começo deste capítulo, o raciocínio em questão: se a faculdade do Estado em taxar seus cidadãos for dificultada, uma vez que as transferências monetárias se tornem impossíveis de serem rastreadas, também estará comprometida sua capacidade de reivindicar parte da propriedade dos indivíduos (a propriedade é sempre individual) e, assim, de autofinanciar-se.

Os primeiros desenvolvedores e adeptos do Bitcoin expressaram abertamente sua simpatia por essas ideias249. “The protocol can probably be made more efficient and secure, but I hope this is a step toward making crypto-anarchy a practical as well as theoretical possibility”, afirmou Wei Dai (1998, grifo nosso). “It’s very attractive to the libertarian viewpoint if we can explain it properly. I’m better with code than with words though”, declarou o próprio Nakamoto250 (grifo nosso).

Eis que vão se tornando, assim, evidentes os mencionados vínculos entre o ciberlibertarianismo, de um lado, e o pensamento social e econômico neoliberal e libertariano, de outro. Para Winner (1997, p. 14), o ponto crítico do ciberlibertarianismo como um sistema de crenças é justamente o fato de que ele “links ecstatic enthusiasm for electronically mediated forms of living with radical, right-wing libertarian ideas about the proper definition of freedom, social life, economics, and politics”.

Dentre os termos que mais aparecem em debates, fóruns, eventos e discussões sobre o

248 Ver, por exemplo, The Crypto Anarquist Manifesto (1992) (Disponível em: http://www.activism.net/cypherpunk/crypto-anarchy.html. Acesso em: 17 de abril de 2018), The Cypherpunk’s Manifesto (1993) (Disponível em: https://www.activism.net/cypherpunk/manifesto.html. Acesso em: 17 de abril

de 2018) e The Cyphernomicon (1994) (Disponível em:

https://www.cypherpunks.to/faq/cyphernomicron/cyphernomicon.html. Acesso em: 17 de abril de 2018). 249 Para relatos e análises sobre o papel de criptoanarquistas e cypherpunks na criação do Bitcoin ver Boase (2013), DuPont (2014) e Popper (2015). Para análises sob o ponto de vista dos defensores do Bitcoin ver Redman (2015) e Lopp (2016).

250 Em comunicação com o cypherpunk Hal Finney em novembro de 2008. Disponível em: https://www.mail- archive.com/[email protected]/msg10001.html. Acesso em: 17 de abril de 2018.

Bitcoin, dentro ou fora do mundo virtual, encontramos “liberdade” e “governo”, um par central da retórica ciberlibertária. O conceito de “liberdade” empunhado pelos ciberlibertários tende basicamente a se encontrar com o significado presente na expressão “livre mercado”, ou seja, livre da ação e regulação governamental. Uma liberdade, portanto, inerentemente negativa (ainda que carregada de um forte conteúdo moral251). Vimos anteriormente que o valor supremo mobilizado pelo neoliberalismo é a liberdade individual. Liberdade essa concebida como a prerrogativa conferida aos indivíduos de construírem para si um domínio particular/protegido: o domínio da propriedade.

O “governo”, por seu turno, tende a aparecer aqui como inerentemente “totalitário” ou “tirânico”, existindo, em abstrato, basicamente para restringir a liberdade individual. Um poder, em sua forma, diferente de outros, mas certamente não em termos de sua responsabilidade com a política democrática. Longe de uma instituição social perpassada por conflitos, contradições e complexidades, o conceito-base de Estado restrito que aqui emerge é aquele como o monopólio do uso legítimo da força física em um determinado território (WEBER, 1982)252 – com pouco esforço sendo realizado, é certo, na distinção entre uso legítimo e ilegítimo do poder estatal. Para além desta, naturalmente, a ideia subjacente de um governo tendencialmente corrupto e em qualquer caso ineficiente porque perturbador do processo de autorregulação dos mercados, sempre tendentes ao equilíbrio253. A própria ideia mais ampla de governança aparece como um princípio cujo tempo já passou, algo a ser substituído ou superado por mecanismos de mercado ou análogos ao mercado.

Assim é que a crença ciberlibertária básica de que os governos não devem, em hipótese alguma, regular a internet tende a ancorar-se no postulado de que governos existem fundamentalmente para restringir e não para promover a liberdade humana. Nessa que aparece como uma retórica sobre a necessidade de limitação do poder, esse tende a ser automaticamente igualado a governo, com a internet aparecendo sempre como uma espécie de oposição natural

251 Conforme observação feita por Karlstrøm (2014, p. 8), “It is important to note that the cypherpunks’ support for free-market anarchism is not exclusively cast in terms of a negative freedom from intervention from others, where each is left alone from others’ snooping. Even more important is the explicit moral support for markets within economic discourse (Fourcade and Healy, 2007). This support takes various forms, from arguing that trade and commerce are civilising factors (“partners in trade do not wage war on each other”) via arguments that markets are a necessary condition for freedom in other areas of politics to the current conviction that economic growth is the best (and only?) road to human progress. Fourcade and Healy argue that ‘[markets] play a powerful moralizing role in practice by defining categories of worth’ (Fourcade & Healy, 2007: 301)”.

252 “O Estado é aquela comunidade humana que, dentro de determinado território – este, o ‘território’, faz parte de suas características – reclama para si (com êxito) o monopólio da coação física legítima” (WEBER, 1982, p. 98). 253 Lembremos do famoso discurso de posse de Ronald Reagan em 1981 no qual afirma que “o governo não é a solução para os nossos problemas; o governo é o problema” – algo mais tarde desenvolvido por Milton Friedman, ator-chave na criação da doutrina econômica neoliberal (e que veio ser conselheiro econômico do próprio Reagan) em Why Government Is the Problem (FRIEDMAN, 1993).

a esse poder. Disso resulta, como seria de se esperar, certa confusão da ação dos indivíduos em busca de liberdade civil com as ações de grandes e lucrativas empresas capitalistas na internet (algo bem representado na “Californian Ideology” das iniciativas, projetos e empresas do Vale do Silício), bem como na maior energia dedicada pelos defensores da privacidade na rede contra os abusos cometidos por governos frente àquela mobilizada contra os desmandos de grandes empresas capitalistas254. Na realidade, raramente é problematizada a necessidade de mecanismos que atuem na restrição do poder corporativo, algo relacionado, na melhor das hipóteses, a uma enorme ingenuidade quanto às dinâmicas de concentração de capital.

Vai ficando evidente, desse modo, que o pensamento econômico e político em que o Bitcoin está baseado emerge diretamente de ideias que vão desde Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e outros autores da Escola Austríaca, chegando à Escola de Chicago de Milton Friedman e seus seguidores – algo que tem servido para animar, ademais, direta ou indiretamente, certo extremismo político típico das teorias da conspiração em torno do surgimento e existência do Federal Reserve por parte da extrema-direita estadunidense255 (GOLUMBIA, 2016).

Sabemos que, ao menos desde a década de 1950, o economista Milton Friedman, professor da Universidade de Chicago, membro-fundador e presidente, no início dos anos 1970, da Sociedade Mont Pelerin, promoveu, como vimos, o ponto de vista de que a inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário (FRIEDMAN, 1968). Assim, a inflação e a deflação são, conforme esta visão, causadas pela política monetária e não por aspectos e dimensões econômicas outras, sendo, em verdade, apenas um nome alternativo para a emissão de dinheiro pelos Bancos Centrais; um resultado direto de sua ação desestabilizadora. Desse modo, ao invés de tomarem medidas para administrar a inflação ou a deflação em resposta a pressões

254 Algo correspondente, mesmo que por vezes de modo difuso, ao pressuposto de que, por mais que os abusos derivados do poder de grandes corporações sejam indesejáveis, esses são tendencialmente menos danosos e perigosos do que os abusos perpetrados pelo poder governamental (que reivindica atuar em nome do público, da lei, da maioria) – para essa razão, a pior forma de “ditadura” é a ditadura da maioria (MILL, 1991). Para além desse argumento, digamos, de filosofia política, emerge ainda o argumento “econômico”: os abusos empresariais são, em geral, passíveis de correção por meio das próprias leis impessoais do mercado, ao passo que os abusos cometidos pelo Estado são, eles mesmos, desestabilizadores das dinâmicas de funcionamento do mercado. Para críticos como Noam Chomsky (2015, s.n.), conhecido pensador libertário de esquerda, declaradamente anti- governo, as teorias libertárias promovem, assim, uma “corporate tyranny, meaning tyranny by unaccountable private concentrations of power, the worst kind of tyranny you can imagine”.

255 Trata-se de caracterizações do Federal Reserve como um dispositivo dirigido por banqueiros conspiradores que querem que “o Estado controle a vida de todos” (WEINER, 2013); alegações que têm sido promovidas nos Estados Unidos por políticos de extrema direita, como Ron Paul, ele mesmo um conhecido defensor do Bitcoin (BORCHGREVINK, 2014). “Despite the general rightist orientation of much digital culture, central bank conspiracism is relatively new there, gaining a foothold only with the introduction of Bitcoin and the blockchain. In the Bitcoin literature, as in the central bank conspiracy writings, we read that the Fed is a private bank that hides its real purpose; that it steals money from some private citizens and put it in the hands of the ‘elites’ that control the Fed; that the Fed itself is covertly run by a shadowy group of elites, often made up of Jews and members of English banking families such as the Rothschilds; and so on” (GOLUMBIA, 2016, p. 52-3).

econômicas externas, os Bancos Centrais devem, ao contrário, sair do caminho ou, ainda melhor, serem simplesmente abolidos.

Vimos ademais que, sob um conjunto específico de condições, essas ideias ganharam enorme prestígio, tornando-se constitutivas do pensamento mainstream em economia, algo que se conformou, ademais, em um novo programa prático para a direita política: ao invés de apenas mais uma rodada de laissez-faire, tratava-se, vimos, de assumir o controle do poder Estatal para “discipliná-lo” em torno de fins bastante específicos. Quando Friedman assume como conselheiro do presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, em 1981, torna-se um dos principais arquitetos de um programa prático “monetarista”, segundo o qual a modulação contínua da oferta de moeda deveria controlar a inflação. Assim é que Friedman, apesar de desejar a abolição do Banco Central, seguia escrevendo páginas e mais páginas, bem como prestando consultoria a governos em todo o mundo, sobre como esse deveria, caso continuasse existindo, ser administrado256.

Tal caracterização da inflação e do papel da autoridade monetária ganhou difusão popular por meio instituições públicas e privadas, fundações, universidades, think tanks financiados por grandes empresas e partidos de direita, contando ainda, é claro, com a ajuda de grandes revistas, canais de televisão, estações de rádio e, mais recentemente, inúmeros portais de internet. Pela mesma via, tornou-se também uma visão repetida com persistência e certo automatismo em parte significativa das discussões sobre o Bitcoin, independentemente das filiações políticas em questão. Desde representantes da extrema direita anarco-capitalista até “respeitados” analistas257 em veículos como a rede CNN, o Wall Street Journal, New York Times, Forbes, entre outros, é possível verificar a mesma insistência na natureza monetária da inflação e a consequente imunidade do Bitcoin a esse problema (devido à sua emissão limitada), algo tomado, de partida, como um dado inquestionável, uma verdade autoevidente.

Em meio ao celebracionismo entusiasmado do caráter disruptivo das criptomoedas aparece ainda, em muitos fóruns de debate sobre o Bitcoin, a conhecida alegação extremista de que o governo existe, em verdade, para pilhar, por meio da tributação, os indivíduos daquilo que produzem por eles mesmos, devendo os impostos serem combatidos e seu não pagamento justificado como um ato de resistência política legítima258. Além, é claro, da ideia correlata de

256 Para mais sobre ver “Best of Both Worlds: An Interview with Milton Friedman” (1995). Disponível em: http://reason.com/archives/1995/06/01/best-of-both-worlds/print. Acesso em: 18 abr. 2018.

257 Para exemplos de análise dessa natureza ver Vigna e Casey (2015) e Pagliery (2014).

258 “[...] Just as the Second Amendment in the United States, at its core, remains the final right of a free people to prevent their ultimate political repression, a powerful instrument is needed to prevent a corresponding repression