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DINHEIRO, FETICHISMO E IDEOLOGIA

3 DINHEIRO, ESTADO E PODER

3.1 DINHEIRO, FETICHISMO E IDEOLOGIA

A partir de uma primeira definição do dinheiro em Marx, vimos que um de seus traços fundamentais aponta para o fato de que, no capitalismo,

A atividade particular de cada produtor só adquire sentido quando sancionada pela forma geral do valor de troca, isto é, pelo dinheiro. A mercadoria só se confirma como valor no momento em que se transforma em mercadoria geral,

em dinheiro. E o trabalho concreto de cada um só é validado como trabalho social quando seu produto é acolhido pelo dinheiro como representante do trabalho em geral (BELLUZZO, 2013, p. 11, grifo do autor).

Assim sendo, uma vez que o dinheiro se ergue frente ao trabalho como uma potência autonomizada que parece regular seus movimentos e ordenar seus desejos, a produção do valor de troca já inclui em si uma forma de coerção social. O valor das mercadorias é, portanto, uma expressão de relações sociais que não podem ser diretamente controladas pelos produtores diretos (trabalhadores).

Disso segue que, em uma sociedade produtora de mercadorias, as relações decisivas de dominação não são (inter)pessoais, mas impessoais e objetivas. Essa dominação, como veículo da submissão a necessidades básicas e inerentes da reprodução da vida material, não existe porque as coisas possuem em si características especiais ou porque a ação social pede necessariamente uma mediação por meio delas, mas porque as pessoas se relacionam às coisas de uma forma particular, a ser, tomando-as como mercadorias. Essa dominação objetiva, ou “objetificação das relações sociais como propriedade de coisas”, resultado de um comportamento social específico, não é transparente à consciência cotidiana. Daí formas sociais e históricas que configuram os produtos como mercadorias aparecerem para esta “consciência” como formas “naturais” da vida social.

Essa função de naturalização e, sobretudo, de ocultamento do caráter explorador e coercitivo das relações sociais é definida por Marx como “fetichismo” – quando as relações de exploração e dominação de classe aparecem, no quadro da ideologia dominante, em uma forma material, i.e., materializadas, coisificadas, objetificadas (MARX, 2013, p. 146-58; RUBIN, 1987, p. 17-75). Relações sociais, como dinheiro e capital, ou funções que derivam de relações sociais, como juros e lucros, aparecem como objetos (ouro, meios de produção) ou qualidade de objetos (meios de produção que produzem lucro, somas de dinheiro que produzem juros) (DIMOULIS; MILIOS, 2004, p. 26-7).

Por meio do fetichismo, o condicionamento característico das relações sociais sob o capitalismo é, então, tornado opaco. Atividades de práticas produtivas estruturalmente distintas são todas reduzidas à atividade humana em geral e a análise da economia política acaba, assim, circunscrita a uma narrativa em torno do comportamento de indivíduos reagindo de maneira racional em situações dadas. Marx rejeita, no bojo dessa discussão, o enquadramento dado pela economia política clássica à forma valor e à troca de mercadorias como “leis naturais”, assim como critica sua recusa em investigar outros modos de produção, o que ilustraria a emergência do fetichismo como fenômeno típico da sociedade burguesa.

A uma primeira vista, o fetichismo da mercadoria consiste, portanto, na operacionalização deste processo de subordinação por meio do mercado (ainda que não apenas por meio dele, conforme veremos); que, no capitalismo, é o espaço por excelência de constituição de relações sociais generalizadas. O conceito contribui, veremos, para uma análise das representações ideológicas não como forma de “falsa consciência”, mas como formas sociais necessárias de desconhecimento ou ocultamento que são reproduzidas em práticas sociais; formas essas funcionais e necessárias, diga-se, à reprodução continuada das estruturas do modo de produção capitalista.

Quanto ao nosso objeto, em particular, o que aqui se aplica às mercadorias se aplica também – e de maneira intensificada – ao dinheiro.

Apenas como resultado de um comportamento específico dos proprietários de mercadorias é que o dinheiro adquire suas propriedades específicas. Como manifestação independente do valor, o dinheiro possui uma forma especial, i.e., existe na forma de equivalente geral frente às demais mercadorias – função que essas estão impedidas de ocupar. Mas esta “mercadoria especial” (ou pedaço de papel) que funciona como dinheiro só pode fazê- lo/sê-lo porque todas as demais mercadorias se referem a ela como dinheiro. Como essa mediação não é imediatamente visível (os agentes não precisam estar cientes da mediação para que suas ações tenham efeito), a forma dinheiro aparece como uma propriedade natural desta “coisa”/mercadoria, como possuidora de propriedades em/de si mesma. Seja o dinheiro uma mercadoria, um pedaço de papel ou bits em uma tela de computador, essa relação social aparece aqui como uma propriedade objetiva de uma coisa. Mas com um agravante, que contribui para o absurdo dessa “objetividade espectral” do dinheiro: “whereas commodities are useful objects that additionally have the objective status of being values, money is directly a “value-thing” (Wertding)” (HEINRICH, 2004, p. 78, grifos do autor); daí, como se viu, a “corporeidade” do dinheiro (ouro, papel, etc.) ser tópico de baixa relevância conceitual.

Introduzida esta primeira caracterização do fetichismo da mercadoria e do dinheiro, urge nos debruçarmos sobre algumas tensões presentes na formulação marxiana do fetichismo de modo a melhor qualificá-la conceitualmente em vista de nossos objetivos de investigação. Devido à importância e pertinência de suas contribuições nesse terreno, faremos isso pela via de uma apropriação crítica da problemática levantada pelo assim chamado “marxismo althusseriano”111, algo presente nos trabalhos de Étienne Balibar, Jacques Rancière, bem como do próprio Louis Althusser.

111 São especialmente úteis, nesse particular, as leituras de Milios e Dimoulis (2004), Milios et al. (2002), Milios (2009), Sotiris (2015) e Papafotiou e Sotiris (2016).

Investigar, ainda que de passagem, os becos obscuros do debate em torno das relações entre valor, fetichismo e ideologia contribuirá, ademais, para a formulação de uma abordagem capaz de aproximar as pertinentes questões abertas pela leitura althusseriana de Marx, e seu campo de problemática, daquelas contribuições da chamada abordagem da forma-valor ou do trabalho abstrato (VROEY, 1985)112 – em grande parte, apresentadas na leitura do dinheiro mobilizada anteriormente neste trabalho. Tal construção guarda especial pertinência, veremos à frente, com uma análise complexa das relações contemporâneas entre dinheiro e poder do Estado.

Este exercício, para alguns inusitado, não é propriamente inédito. Tanto Milios (2009) quanto Sotiris (2015), bem como Papafotiou e Sotiris (2016), articulam evidências e argumentos em defesa de um encontro teórico entre as formulações gerais do marxismo althusseriano e a abordagem da forma-valor. Conforme nota Sotiris (2015, p. 167):

One of the most interesting aspects of Reading Capital113 [coletânea de textos

organizada por Althusser e seus seguidores na década de 1960] is the very fact that it is also a contribution to the value theory debate, a contribution that in a certain sense pre-dates the opening of the debate through texts as Hans-Georg Backhauss ‘Dialectic of the Value Form’ or Roman Rosdolsky’s ‘The Making of Marx’s Capital’, or the re-discovery of the work of I.I. Rubin, or the later contribution to value theory.

No que se refere de modo mais específico aos objetivos desta investigação, cumpre iniciarmos apontando que o esforço de leitura crítica de Marx empreendido por Louis Althusser e seus seguidores chama atenção para o que seria um problema metodológico presente n’O Capital: o fato de que seu autor investiga a natureza do valor e do dinheiro nos três primeiros capítulos do Volume I da obra antes de apresentar uma definição de modo de produção capitalista. Essa ordem de exposição (que não se confunde necessariamente com seu método/ordem de investigação114), argumentam, teria sido responsável pela leitura equivocada

112 Conforme Papafotiou e Sotoris (2016, p. 18), estamos “fully in agreement with most contemporary Marxists that have been working on a value-form theoretical approach. (…) But we would like to diverge from them on philosophical terms, because we do not think that all these assumptions necessarily lead to Hegel as the necessary philosophical reference”. Em linhas gerais, como se verá, tal abordagem se consubstancia na conclusão de que “the emergence of value form and the reproduction of the capitalist exploitative relation is not the materialization of an idea, or of an element already substantially pre-existing, but the result of singular practices, encounters, institutional arrangements, traversed in all instances by the dynamics of class struggle, that end up as reproduced social structures that give this impression of ‘systemicity’” (PAPATIFOU; SOTIRIS, 2016, p. 24).

113 Apesar de terem produzido tais formulações sobre a forma valor e o fetichismo no mencionado volume, Etienne Balibar e Jacques Rancière, seguindo Louis Althusser, rejeitarão mais tarde como “idealista” e “formalista” tais elaborações, em nome de uma nova teoria de ideologia, e da radicalização do primado da luta de classes. Analisaremos, de modo mais geral, à frente, esse abandono, bem como os equívocos que representa para uma leitura do valor e do dinheiro.

114 Para Althusser, o problema com a tentativa de Marx de começar sua exposição n’O Capital pela simples abstração de valor é que isso suspende teoricamente todos os elementos concretos, materiais e históricos que criaram as condições para a acumulação capitalista como exploração. Essa ordem de exposição, que se move da

realizada por alguns marxistas de que, ao invés de uma categoria tipicamente constitutiva do modo de produção capitalista, o valor é um conceito que oferece uma descrição geral e preliminar da produção simples de mercadorias – algo que poderia, inclusive, preceder o capitalismo.

Para além da confusão produzida pelo suposto descolamento conceitual entre valor e modo de produção capitalista, produto do mencionado método de exposição, a referência introdutória ao valor “em si” criaria, novamente, a ilusão de que os três primeiros capítulos do Volume I d’O Capital oferecem uma investigação teórica bem-acabada do conceito de fetichismo. De modo distinto, sustenta Balibar (1975), a crítica do fetichismo representaria pouco mais do que uma “dialética preparatória”, um comentário irônico sobre as limitações intelectuais do pensamento burguês, por meio do qual Marx busca dissipar os falsos pressupostos por trás das visões espontaneístas dos economistas vulgares.

É certo que a mercadoria é a forma econômica mais simples do capitalismo – ainda que, na primeira sessão do Volume I, essa seja, de fato, apresentada sem referência à força de trabalho, a mais característica das mercadorias do modo de produção capitalista. Ao se partir, porém, apenas e centralmente da mercadoria, sobretudo no modo como essa é apresentada nos três primeiros capítulos, o risco é que se acabe recaindo na construção de um modelo de economia estritamente centrado na imagem de produtores independentes (e autoempregados), algo que, definitivamente, não captura o que há de próprio, ou específico, no modo de produção capitalista – e que, certamente, não reflete o método de Marx.

Apesar disso, talvez seja precipitado rejeitar, apenas por essas razões, a problemática do fetichismo como “idealista”115, como querem os althusserianos. Vejamos.

Vimos que dos Grundrisse ao Capital Marx insiste que o valor é uma expressão de relações típicas e exclusivas do modo de produção capitalista. Assim sendo, Marx introduz um conceito de produção simples de mercadorias apenas como uma construção intelectual que irá ajuda-lo a estabelecer, mais à frente, o conceito de produção propriamente capitalista116.

noção abstrata de valor para a história concreta das lutas que a determinam, é diferente do processo real de pesquisa e conhecimento que, de fato, segue a efetividade constante do antagonismo entre as classes. “For, paradoxically, in order to propose such a theory, he has to take into account what the order of exposition requires him to bracket out the productivity of labour in all its forms; labour power as something other than a simple commodity; and, quite simply, the history of the conditions under which capitalism arose, which necessitates, among other things, reference to primitive accumulation. Whence the very long chapters on the working day, the labour process, manufacture and big industry, and the extraordinary chapter on primitive accumulation” (ALTHUSSER, 2006, p. 39).

115 Para Althusser, a teoria do fetichismo de Marx está baseada em uma projeção idealista do comunismo como uma sociedade totalmente ‘transparente’ (sem ideologia), e desse modo, do capitalismo – em que, por oposição, uma forma de alienação produz aparências falsas desta ‘transparência’ inicial.

Ademais, conforme notam Dimoulis e Milios (2004), distintamente do que afirmam muitos marxistas, Marx faz claras referências ao fetichismo em sessões subsequentes de seu trabalho, sobretudo em partes do Volume III d’O Capital117. Os autores falam, por isso, da preponderância, para além do fetichismo da mercadoria, de um “fetichismo do capital118” em Marx.

In the course of his further investigations, Marx made it clear that the concept of fetishism does not refer only to the commodity but to all forms of capital (money, means of production). In reality, Marx does not expound a theory of

commodity fetishism but a theory of the fetishism of capital, of capitalist

relations. He introduces the commodity as a form of capital and as a result of

capitalist production. In this context, he also introduces commodity fetishism

as a form or a result of capital fetishism (DIMOULIS; MILIOS, 2004, p. 27, grifos do autor).

Assim sendo, e sem rejeitar a importância do conceito de fetichismo para uma análise das formas ideológicas de reprodução do modo de produção capitalista, os autores nos convidam a um necessário ajuste:

It becomes apparent that Marx’s ideas on the fetishistic form of appearance of

capitalist relations at the surface level of circulation (or in the context of the

bourgeois ideology) cannot be conveyed adequately if the capital relation itself is not analysed, that is if we do not extract ourselves from the introductory framework of the first section of Volume I (DIMOULIS; MILIOS, 2004, p. 29, grifos do autor).

Se passagens de Marx apontam para o fetichismo do capital já nos Manuscritos e na Contribuição à Crítica da Economia Política – anteriores, como se sabe, a O Capital, é possível dizer, então, que Marx inicia o Volume I d’O Capital já tendo elaborado uma definição de fetichismo como uma forma socialmente necessária, e especificamente capitalista, de ocultamento/desconhecimento.

Em referência a esse “fetichismo do capital”, argumentam ainda os autores (DIMOULIS, MILIOS, 2004, p. 29), Marx não ativa um jogo simples entre sujeito e objeto, mas demonstra, distintamente, as várias maneiras em que as relações capitalistas são impressas

de apresentar da circulação capitalista – precisa confirmar a ilusão de igualdade exigida pela justiça dos mercados (BELLUZZO, 2013, p. 65, grifos do autor).

117 A razão para isso é que as formas de aparência das relações capitalistas são analisadas principalmente no terceiro volume. Para mais sobre ver Godelier (1977) e Rancière (1971a; 1971b, 1976).

118 O argumento segue, em grande parte, aqui, a leitura de Rancière (1971a; 1971b, 1976). Dussel (2001), reforçando esse ponto, também observa o aparecimento do fetichismo do capital já nos manuscritos de 1881-83. Sotiris (2015, p. 188, grifos nossos) aponta ainda que: “In a similar fashion in the 1859 Contribution to the Critique of Political Economy, fetishism appears in a footnote referring to the ‘the fetishism of German ‘thinkers’’and to a reference to the ‘wealth as a fetish’ in a section on money.It is obvious that we are dealing not simply with commodity fetishism but with a more general reference to processes of objectification/mystification of social relations, with an emphasis more on money than simply commodities, something that brings us closer to the fetishism of value and capital rather than simple commodity fetishism”.

em coisas, deixando traços de seus movimentos durante o processo de acumulação. Esses traços aparecem subsequentemente – “em uma cooptação espontânea” – como qualidade dessas coisas.

Tudo somado, tendo em mente que Marx escreve a primeira seção do Volume I d’ O Capital com o objetivo de chegar ao conceito de capital, e levando em conta o fetiche do capital acima apontado, fica evidente que a análise marxista está longe de representar uma operação ideológica de derivação de todas as formas a partir da mercadoria simples. Disso resulta ser equivocado reduzir o fetichismo à transformação de matéria em ideias, de coisas em senhores de seres humanos, de “sujeitos em objetos”, e as relações entre os seres humanos em relações entre as coisas.

Podemos confirmar, adicionalmente, a partir desta abordagem, que a referência ao fetichismo da mercadoria não precisa configurar uma “teoria da alienação” a pressupor uma “essência humana” que se defronta com relações sociais em contradição com essa essência. Mais do que isso: o fetichismo não é a causa por trás do ocultamento das relações sociais de exploração, não significa uma “alienação” (LABICA, 1985, p. 465). A análise do fetichismo da mercadoria aponta para o exame do sintoma (de uma ‘causa ausente’119), não de uma forma de causalidade direta, em si mesma (DIMOULIS; MILIOS, 2004, p. 29). É, distintamente, uma forma necessária de engajamento com a realidade em uma sociedade capitalista (e que só pode desaparecer com o fim dessa). Conforme sintetiza Rancière (1976, p. 358-373, grifos do autor, ênfase nossa):

The relevant terms are not subject, predicate and thing but relation and form. The process of estrangement [...] does not signify the externalization of the predicates of a subject into something foreign but shows what happens to capitalist relations when they assume the most highly mediated form of the process [...] The social determinants of the relations of production are thus reduced to the material determinants of the thing. Which explains the confusion between what Marx calls material foundations (things which exercise the function of a bearer) and the social determinants. The latter become natural qualities of the material elements of production. In this way the capital relation is constituted as a thing. [...] The relations which

determine the capitalist system can only exist under conditions of concealment. The form of their reality is the form in which their real movement disappears... [In Capital Marx formulates] the theory of the

process and the theory of the reasons for its misrecognition.

119 A visibilidade das formas sociais é resultado das relações sociais subjacentes a elas, o que configura um tipo diferente de causalidade, uma forma de ‘causalidade estrutural’ ou ‘causa ausente’, em que uma estrutura existe fundamentalmente em seus resultados. “Here we can state it as follows: what determines the relation between the effects (the relations between the commodities) is the cause (the social relations of production) insofar as it its absent. This absent cause is not labour as a subject, it is the identity of abstract labour and concrete labour in as much as this generalization expresses the structure of a certain mode of production, the capitalist mode of production” (RANCIÈRE, 1971b, p. 36).

Disso resulta que tais efeitos de inconsciência/desconhecimento associados à forma valor, e típicos do fetichismo, não estão relacionados a alguma forma de “consciência alienada”120, mas ao funcionamento objetivo das estruturas sociais. O ocultamento/desconhecimento emerge, aqui, como um efeito estrutural em certa medida necessário à reprodução ampliada do capital121.

Pensemos, por exemplo, como faz Rancière (1976, p. 353), na figura do capital portador de juros. Operacionalizado no circuito D-D’, esse oculta o processo que o torna possível (o capital como relação de produção com seu correlato em trabalho assalariado), como se fosse possível “produzir dinheiro a partir de dinheiro” – o capitalista financeiro que avança a soma do dinheiro permanece “fora” do processo de produção e reprodução. O que ele faz é apenas avançar uma quantia em dinheiro e dela retirar uma quantia aumentada; não lhe dizendo respeito o que acontece entre esses dois atos. Mas eis que este ocultamento, sabemos, não é ocasional, sendo, antes, o produto de uma determinada forma social de organizar a produção e algo, contraditoriamente, funcional à sua reprodução continuada. O desaparecimento do processo no resultado é um aspecto crucial do próprio processo.

O fetichismo pode ser caracterizado, neste caso particular, então, como a externalização das relações do capital na forma do capital portador de juros. O ocultamento do aspecto crucial que possibilita o juro capitalista, i.e., as relações sociais capitalistas, sustentam tanto a forma do capital portador de juros quanto o processo de externalização das relações de capital.

Eis que podemos voltar ao dinheiro: o circuito do capital-dinheiro, com seu princípio de autoexpansão do valor, também só pode ser explicado por aquilo que desaparece no processo, ou seja, as relações sociais capitalistas.

Thus the circuit of money-capital is the one which best expresses the capitalist

120 “It is not a subject which is separated from itself, whose predicates pass into an alien entity. It is a form which