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DAS FUNÇÕES DO DINHEIRO E SUA COMPLEMENTARIEDADE CONTRADITÓRIA

2 VALOR, DINHEIRO E CAPITAL

2.2 DAS FUNÇÕES DO DINHEIRO E SUA COMPLEMENTARIEDADE CONTRADITÓRIA

Sabe-se que dinheiro tem de realizar certas funções de modo a bem cumprir seu papel na dinâmica econômica. Diferentemente do que presumem outras abordagens, como as teorias neoclássica e pós-keynesiana, as funções da moeda são, para Marx, consequências de sua

natureza (de equivalente geral e monopolizador da capacidade de troca, como se viu) e não o contrário34. Tais funções se contradizem e se complementam, ou seja, se articulam contraditoriamente no transcorrer do processo econômico (MOLLO, 1993; BELLUZZO, 2013, p. 53-60). O fato de o dinheiro assumir distintas funções, e os papéis que desempenham, figura como um dos principais fundamentos da rejeição de Marx à Teoria Quantitativa de Ricardo e à Lei de Say. Assim, dado ser aspecto central para uma devida compreensão do dinheiro, passamos agora a tratar de tais funções – medida de valor e padrão de preços, meio de circulação, meio de entesouramento, meio de pagamento e dinheiro mundial.

Para Marx, não é possível haver dinheiro sem que ele cumpra o papel de medida de valor ou unidade de conta. Como medida geral do valor, o dinheiro expressa, em determinada quantidade, o valor de cada mercadoria35.Vimos que as mercadorias são valores na medida daquilo que as iguala e as nivela: o trabalho abstrato. Não é o dinheiro, portanto, que oferece comensurabilidade às mercadorias, mas sua referência comum ao trabalho abstrato. A magnitude (tempo de trabalho socialmente necessário) desse trabalho abstrato não pode, no entanto, ser mensurada antes, e sim apenas durante a troca, quando os valores das mercadorias são estabelecidos em relação uns com os outros. Esse ato de medição do tempo de trabalho que constitui o valor, por sua vez, só pode ser conduzido por meio do dinheiro.

Em termos abstratos, como uma criatura do mercado, o dinheiro aparece como aquela mercadoria eleita pelo – e, ao mesmo tempo, excluída do – processo de troca direta para servir como representante ou veículo do valor. Trata-se de um processo social que, na prática, se explicita no processo de determinação dos preços das mercadorias em termos dessa mercadoria escolhida (ou seu representante)36 e, sobretudo, institui sua utilização como intermediário das trocas.

A expressão do valor de uma mercadoria em termos monetários define o seu preço37.

34 “Marx’s approach to money implies that ‘what money does follows from what money is’: because money monopolizes exchangeability, it also measures value, facilitates exchange, settles debt, and so on. Seen in this way, there is order and internal cohesion to the functions of money – no arbitrariness” (FINE; LAVAPVITSAS, 2000, p. 370).

35 “O dinheiro, como medida de valor, é a forma necessária de manifestação da medida imanente de valor das mercadorias: o tempo de trabalho” (MARX, 2013, p. 169)

36 “A mercadoria que funciona como medida de valor e, deste modo, também como meio de circulação, seja em seu próprio corpo ou por meio de um representante, é dinheiro” (MARX, 2013, p. 203).

37 Para os termos desta breve explicação, assume-se que as mercadorias são trocadas por seus valores, ou preços de produção, embora elas flutuem em torno deles, o que significa conceber os preços das mercadorias como expressões adequadas de seu valor, ignorando sua flutuação. No entanto, sob as condições normais do capitalismo, as mercadorias não são trocadas por seus valores, o que significa que os preços correntes não são apenas a expressão da magnitude do valor das mercadorias. Do ponto de vista teórico, cabe notar ainda que: “a possibilidade de uma incongruência quantitativa entre preço e grandeza de valor, ou o desvio do preço em relação à grandeza de valor, reside, portanto, na própria forma-preço. Isso não é nenhum defeito dessa forma, mas, ao contrário, aquilo que faz dela a forma adequada a um modo de produção em que a regra só se pode impor como a lei média do

Para que deixe de ser puramente ideal e concretize a troca, a forma preço requer o dinheiro como meio de circulação. Para que seja especificado o preço de uma mercadoria, é preciso, então, que haja uma definição clara daquilo que funciona como dinheiro – ouro, nota de papel, etc. –, mas, para isso, o dinheiro não precisa estar necessariamente próximo ou em mãos, servindo antes como “forma apenas ideal ou representada” (MARX, 2013, p. 170), um numerário.

Como meio de circulação ou meio de troca, o dinheiro opera como mediador/intermediário da troca de mercadorias. Marx descreve esse processo como a “metamorfose da mercadoria”, sendo essa metamorfose a substituição de um valor de uso por outro, a simples troca de um objeto por outro. No entanto, a forma desse processo é completamente diferente, e é precisamente a isso que se refere essa função do dinheiro. De modo distinto de uma troca simples, a metamorfose da mercadoria é mediada pelo dinheiro; processo expresso na fórmula M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria). Disso resulta que, como meio de circulação, o dinheiro separa os atos de compra e venda na circulação de mercadorias38. Que a interrelação desses vários atos individuais de troca seja estabelecida pelo dinheiro, em oposição à mera troca direta de produtos, significa que a intervenção desse meio também configura a possibilidade de interrupção do circuito e, assim, de ocorrência de crises monetárias – algo inerente, portanto, à mediação da circulação social das mercadorias por meio do dinheiro.

Como meio de entesouramento, o dinheiro é retirado da circulação. Desse modo, não mais funciona como mediador da circulação de mercadorias, operando como uma manifestação independente do valor39, exterior ao processo de circulação. Para entesourar, um possuidor de mercadorias deve vendê-las sem se engajar em uma compra subsequente – o objetivo da venda sendo o de entesourar dinheiro como manifestação independente do valor. Para não adentramos em uma discussão sobre outras formas de risco e incerteza, sabe-se que todo produtor de mercadorias, de modo a adiar novas próprias compras até que suas mercadorias sejam vendidas, ou para se proteger contra as dificuldades em vendê-las, depende de algum montante, pequeno que seja, de dinheiro entesourado40. É por essa razão que Marx assinala, também, que o dinheiro

desregramento que se aplica cegamente” (MARX, 2013, p. 177).

38 Estando permanentemente na esfera da circulação, sustenta Marx, o dinheiro como mero “símbolo de valor” (ele próprio sem valor, como as notas de papel) é suficiente para o cumprimento dessa função, dado que, neste caso, os possuidores de mercadorias estão preocupados apenas com as mercadorias que podem adquirir com ele. 39 Para Marx, o fato de operar como manifestação independente do valor, que está por trás da retenção do dinheiro, faz com que a função meio de entesouramento possa ser associada à chamada reserva de valor (MOLLO, 1993, p. 120).

40 “[...] Com o desenvolvimento maior da produção de mercadorias, tem cada produtor de assegurar materialmente para si mesmo o nervus rerum, a garantia ou ‘penhor social’” (MARX, 2013, p. 204).

passa a ser uma mercadoria especial, cujo valor de uso enquanto mercadoria comum é substituído pelo valor de uso de ser expressão do valor de troca (MOLLO, 1993, p. 121).

O desejo de reter dinheiro como tesouro ocorre fundamentalmente pelo próprio reconhecimento social desse como representante do valor de troca ou encarnação do trabalho social. O dinheiro é desejado aqui por si mesmo, como “a forma absolutamente social da riqueza, sempre pronta para o uso” (MARX, 2013, p. 205). Trata-se de algo que se justifica, como vimos, na possibilidade de consubstanciação do poder social encarnado no dinheiro em poder privado de particulares41.

Como meio de pagamento42, o dinheiro também atua como uma manifestação independente do valor. No entanto, distintamente à sua função como meio de circulação (M-D- M), a compra ocorre aqui antes do pagamento, e o dinheiro aparece apenas depois de transferidas as mercadorias entre os agentes da transação (M-M ... D). Nesse caso, o dinheiro não funciona apenas de modo a mediar uma transação que possibilita a circulação de mercadorias, mas como meio de pagamento que conclui uma transação que já ocorreu. Se uma mercadoria não é paga no momento da compra, mas depois, o comprador se torna um devedor, e o vendedor se torna um credor. Sendo preciso vender para pagar o que primeiro se comprou, adquirir dinheiro como manifestação independente de valor é agora função da venda.

Por fim, na função dinheiro mundial, o dinheiro precisa cumprir, no mercado global, todas as funções de uma moeda nacional, sendo aceito mundialmente para cada uma dessas funções43. Como dinheiro mundial, o dinheiro “se despe de suas formas locais” (MARX, 2013, p. 215) desenvolvidas nos espaços nacionais. Assim, pode ser usado no mercado mundial como meio de circulação de modo a mediar trocas, como meio de pagamento para concluir vendas ou como “materialidade absolutamente social da riqueza universal (universal wealth)” (MARX, 2013, p.217) para transferir riqueza de um país para outro (doações, contrapartidas e obrigações de pagamentos diretos entre Estados). “O que predomina é sua função como meio de pagamento para o ajuste das balanças internacionais” (MARX, 2013, p. 217).

Ao longo do tratamento das funções do dinheiro acima revisadas, Marx deixa claro o caráter de tensão latente entre estas. Todavia, ao mesmo tempo, concebe-as todas como

41 Assim apresentada, a função meio de entesouramento também “permite perceber sua importância sustentando ou garantindo a função de medida de valor da moeda. Não reconhecida como equivalente geral, a moeda não pode servir de medida de valor, podendo ser recusada para isso” (MOLLO, 1993, p. 122).

42 Conforme observa Mollo (1993, p. 12), “apenas Marx, preocupado com a autonomia entre produção e circulação, trata dessa função. Outros autores usam, por vezes, o termo meio de pagamento para se referirem à função de meio de circulação”.

43 “Assim como para sua circulação interna, todo país necessita de um fundo de reserva para a circulação no mercado mundial. As funções dos tesouros derivam, portanto, em parte da função do dinheiro como meio da circulação e dos pagamentos internos, em parte de sua função como dinheiro mundial” (MARX, 2013, p. 218).

necessárias e articuladas no transcorrer do processo econômico, algo que nos possibilita, com Mollo (1993), falar de uma complementariedade entre essas distintas funções. Por isso, feito esse breve apanhado sobre funções do dinheiro, será necessário nos debruçarmos sobre a relação de complementariedade contraditória entre essas funções.

Vimos que, na função meio de entesouramento, o dinheiro sai da circulação para se “petrificar em tesouro”. Como meio de circulação, no entanto, o dinheiro está constantemente dentro da esfera da circulação, como intermediário da troca. Trata-se de algo que configura, obviamente, uma contradição entre essas funções, já que uma nega a outra. O que de um lado revela-se como contradição, mostra-se, por outro lado, como complementariedade: para que funcione como meio de circulação, capaz de mediar continuamente e sem interrupção os processos de compra e venda, o dinheiro precisa ser desejado nesta função pelos agentes44. Mas, para tanto, o dinheiro precisa ser desejado também com um fim em si mesmo. É o desejo em sua forma de riqueza disponível e “absolutamente social” (MARX, 2013, p. 215), como vimos, que garante sua aceitação e utilização como medida de valor/unidade de conta – e, assim, também como meio de circulação.

Outra forma de conceber essa articulação ou complementariedade contraditória reside no fato, conforme aponta Marx45, de que o dinheiro entesourado opera por vezes de modo a irrigar ou drenar o dinheiro circulante. Ademais, esse montante de dinheiro como meio de circulação a ser sustentado pelas reservas entesouradas depende, ainda, da função medida de valor. Isso porque, para Marx, o volume de dinheiro em circulação decorre da soma dos preços de todas as mercadorias, preços esses, por sua vez, que pressupõem uma medida de valor ou unidade de conta na qual são denominados. Daí essa articulação contemplar aqui também a função medida de valor.

No caso da função meio de pagamento, essa articulação entre as funções pode ser percebida de três maneiras (MOLLO, 1993, p. 122). Vimos que, nessa função, prescinde-se do dinheiro como intermediário imediato, dado que a compra se dá anteriormente ao pagamento. Mas isso só pode se dar no contexto de uma determinada prática social corrente de utilização do dinheiro como meio de circulação, bem como a crença ou confiança socialde que isso

44 “Durante o crescimento [econômico] predomina a moeda como meio de financiamento e de circulação, durante a crise, como reserva de valor. Mas nenhuma dessas funções, mesmo quando desempenha o papel principal, não pode eliminar a outra. Não existe apenas um entesouramento de crise e uma circulação crescimento, mas também um entesouramento de crescimento e uma circulação de crise” (BRUNHOFF, 1991, p. 52, grifos da autora). 45 “Para que a quantidade de dinheiro efetivamente corrente possa saturar constantemente o poder de absorção da esfera da circulação, é necessário que a quantidade de ouro ou prata num país seja maior que a quantidade absorvida pela função monetária. Essa condição é satisfeita pela forma que o dinheiro assume como tesouro” (MARX, 2013, p. 207).

seguirá ocorrendo de modo continuado. É isso que permite que a sociedade como um todo aceite que os pagamentos sejam postergados. Desse modo, o “movimento do meio de pagamento [...] exprime uma conexão social que já estava dada antes dele” (MARX, 2013, p. 210). Trata-se, sabemos, de um movimento que nasce no curso dos meios de circulação e com ele. De maneira mais óbvia, sabe-se ainda que os passivos que precisam ser cobertos pelo dinheiro como meio de pagamento são denominados em unidades de conta de um dado país, o que aponta para sua vinculação com o dinheiro em sua função medida de valor. Vimos há pouco que a função meio de entesouramento tem como uma das suas razões a necessidades do represamento de certas quantias de dinheiro para a continuidade do fluxo de pagamentos e compras necessárias à atividade econômica até que as mercadorias produzidas sejam vendidas. Daí a vinculação entre as funções meio de pagamento e meio de entesouramento. É a acumulação de reservas que de outro modo seriam entesouradas que formará o fundo de reserva nos bancos dos quais sairá o crédito. Conforme aponta Marx (2013, p. 215),

o desenvolvimento do dinheiro como meio de pagamento torna necessária a acumulação de dinheiro para a compensação das dívidas nos prazos de vencimento. Assim, se por um lado o progresso da sociedade burguesa faz desaparecer o entesouramento como forma autônoma de enriquecimento, ela o faz crescer, por outro lado, na forma de fundos de reserva de meios de pagamento.

Tudo somado, a ideia de uma complementariedade contraditória entre as funções da moeda aponta para o fato de que “se houver uma polarização ou preferência generalizada da moeda numa de suas funções, outras funções opostas a ela deixam de ser cumpridas, e é esse não-cumprimento que provoca problemas sérios no funcionamento das economias” (MOLLO, 1993, p. 213).

A intensificação ou generalização da preferência pelo dinheiro em sua função meio de entesouramento, por exemplo, represa o dinheiro que deveria circular como viabilizador das transações de compra e venda. Uma vez que tais trocas permeiam todas as relações em economias mercantis, como é o caso da economia capitalista, a interrupção da circulação de dinheiro coloca em xeque a própria reprodução social. Em via oposta, a recusa socialmente generalizada desse dinheiro como meio de entesouramento significa a própria rejeição do dinheiro como valor socialmente reconhecido, o que impede que funcione e seja utilizado como medida de valor.

A isso relacionado, a rejeição de uma certa medida de valor/unidade de conta acaba debilitando a utilização do dinheiro (ou seu representante) como meio de circulação. Isso porque, em situações de perda de reconhecimento social do dinheiro, sempre se há a

possibilidade de rejeitá-lo como meio de circulação – mesmo nos casos em que está dada a possibilidade de equivalência entre a unidade de medida em questão (ou seu representante) e uma outra unidade de conta alternativa.

Isso não significa, no entanto, que o dinheiro não possa existir como tal senão ao bem cumprir todas as suas funções – algo que guarda implicações em nossa investigação sobre a natureza monetária do Bitcoin. Marx assinala ele mesmo a possibilidade de que algumas dessas funções se estabelecerem antes de outras. É o caso, como vimos, quando menciona que o “movimento do meio de pagamento [...] exprime uma conexão social que já estava dada antes dele” (MARX, 2013, p. 210), tendo dito antes que a conexão entre vendedores e compradores nasce no curso dos meios de circulação e com ele.

O que ocorre é que as funções vão se adicionando umas às outras com o surgimento e o desenvolvimento das dinâmicas monetárias; seu caráter complementar vai se impondo e dando dinamismo e força coesiva à moeda enquanto relação social. O inverso ocorre quando as dinâmicas monetárias se deterioram. O caráter saudável vai sendo perdido à medida em que as funções vão desaparecendo, algumas primeiro que outras, mas abalando, desde o início, a articulação entre elas, a sua complementaridade, responsável pelo dinamismo e força da própria relação (MOLLO, 1993, p. 124).

Mas, em qualquer caso, sob pena de insustentável instabilidade no processo de troca, é fundamental que o dinheiro se reproduza, estruturalmente, como equivalente geral.

As diferentes formas e funções da moeda articulam-se entre si, permitindo assim que a moeda se reproduza como equivalente geral. Sem isto, haveria práticas monetárias, mas não moeda. Pense-se, por exemplo, nos múltiplos meios de circulação emitidos pelos bancos privados nos Estados Unidos antes de 1863, moedas impossíveis de serem garantidas contra a fraude e a falência, isto é, tendendo incessantemente a perder todo caráter monetário, inclusive o de meio de circulação (BRUNHOFF, 1978a, p. 61).

Assim sendo, tais “contradições e desarticulação não impedem, portanto, a necessidade, e a realidade, de uma reprodução do equivalente geral segundo um processo complexo [...]. O Estado desempenha um papel preciso em tal processo” (BRUNHOFF, 1978a, p. 61).

2.3 MERCADORIA, VALOR E DINHEIRO INCONVERSÍVEL: O DEBATE