CAPÍTULO 2 – DESIGN COMO FERRAMENTA
2.2. O DISCURSO DOS ELEMENTOS DE DESIGN QUE COMPÕEM
2.2.2. O CONTEXTO DA LOCALIZAÇÃO
Quando um usuário opta por determinado hotel está em jogo uma série
de fatores. Características físicas da edificação, serviços oferecidos e os
benefícios econômicos advindos dessa transação podem ser relevantes.
Todavia, o fato determinante é a eleição do destino. Por melhores que sejam os
hotéis de uma rede, esses são descartados se não correspondem ao local
estabelecido pelo viajante. Tem-se ainda a possibilidade de se eleger um hotel
por representar a própria a razão da viagem. Esse, talvez, seja o caso dos resorts
que oferecem uma gama de serviços e atrações dentro do próprio meio de
hospedagem. Porém, ainda nestes casos, é provável que o usuário tenha
pensado preliminarmente em uma localização.
Para Augé (2012, p.73) aeroportos, vias e hotéis tendem a ser
“não-lugares”. Para o autor o conceito de lugar tem relação direta com a possibilidade
de se definir como “identitário, relacional e histórico”. Para que um espaço se
estabeleça como lugar é preciso que esse permita às pessoas criar relações e
memórias. Dentro desse conceito, hotéis podem realmente se transformar em
não-lugares, se o que está sendo oferecido é apenas um local transitório; uma
ponte para se passar a um próximo destino. Por essa razão, é importante que
as redes hoteleiras criem identidades com seus potenciais usuários. Levando-se
em consideração que o hóspede, em primeiro lugar, escolhe do lugar, incorporar
experiências ligadas à localização pode estabelecer um vínculo entre a rede
hoteleira e o usuário.
De acordo com Gilmore e Pine (2002), durante muito tempo as redes
hoteleiras trabalham com o conceito de que os hóspedes não gostariam de ter
uma experiência memorável, ou seja, nada deveria correr errado. Tal conceito
reflete o slogan proferido nos anos 1950 por Keamons Wilson, fundador da Best
Western: “A melhor surpresa é não ter surpresas”. Porém, as tendências atuais
de hotelaria contradizem as palavras de Wilson e buscam afastar os hotéis do
conceito de “não-lugares”, apontados por Augé.
As modificações produzidas pela era pós-industrial na vida econômica e
social das pessoas constroem um ideário de estilo de vida ressaltado pelas
necessidades de conforto e bem-estar. Tais necessidades tendem a encontrar
satisfação em experiências de entretenimento, diversão e acesso a produtos
culturais. Diante disso, torna-se estilo de vida das pessoas vivências que estão
intimamente ligadas à economia da indústria cultural e de lazer (TRIGO, 1998).
Segundo Esteves (2016), as escolhas realizadas ao se definir uma viagem
envolvem questões emocionais. Pode-se incluir a esta questão, o destino. De
acordo com o autor:
Quando não temos nenhuma referência pessoal do lugar, somos normalmente levados pela imagem, pelos traços de memórias remanescentes que colhemos ao longo do tempo, que por sua vez são memórias de outras pessoas e, portanto, contaminadas pelo filtro sócio emocional de quem fez o relato, ou ainda por imagens recentes de nossa última pesquisa no Google. Durante décadas essa foi a função dos cartões postais, que aparecem na segunda metade do século XIX (ESTEVES, 2016, pp.18 e 19).
Ao criar um relacionamento entre as unidades de suas marcas e o
entorno, as redes têm a oportunidade de se vincularem às expectativas e,
posteriormente, as experiências de seus hóspedes naquele lugar. Essas
experiências viram memórias que podem ser transmitidas a outras pessoas que
estabelecem expectativas em relação a este lugar e à rede hoteleira.
Cada hospedagem é uma possibilidade de romper com ações
cotidianas, permitindo ao usuário se desvencilhar de tarefas e preocupações
habituais, tais como limpeza, arrumação e definições sobre alimentação. Dessa
forma, o hotel passa a ser um espaço de fruição, reservando ao usuário o gozo
e um olhar diferenciado para o seu entorno (LEHN, 2017). Nesse sentido, a
hospitalidade, ambiência, as características da edificação e a localização do
hotel influenciam nas percepções e sensações do usuário sobre o lugar onde se
encontra hospedado (SERSON, 1999).
Da mesma maneira de que determinados fatores influenciam o
imaginário do usuário para a construção de sentido sobre um lugar, pode-se
afirmar que a rede hoteleira também pode aproveitar as características da
localização de suas unidades para trazer elementos singulares que se articulam
com a marca. Desse modo, os hotéis criam identidades com os lugares onde
estão situados, podendo por extensão tornarem-se espaços identitários para
seus hóspedes.
Partindo das ideias de Govers e Go (2009), é possível afirmar que a
construção de uma identidade com o lugar se forma da mesma maneira que o
lugar é constituído de significados, ou seja, por meio de “discursos históricos,
políticos, religiosos e culturais” (GOVERS; GO, 2009, p.17) da cidade, a bandeira
pode estabelecer elementos singulares, que conjuntamente com seus elementos
repetitivos configuram a experiência única daquele usuário ao se hospedar
naquela unidade. Marcas fortes promovem experiências sólidas, experiências
que por sua vez reforçam a identidade [...] (ESTEVES, 2016, p.16).
A rede hoteleira, ao criar uma identidade com o local onde implanta uma
de suas unidades, busca diálogos privilegiados com a cidade. Constitui-se um
espaço de significados e sempre voltado às experiências agradáveis para os
hóspedes. Associando o conceito de Tuan (1983), que relaciona o lugar à ideia
de segurança, pode-se dizer que a bandeira hoteleira visa oferecer aos
hóspedes lugares seguros. Para Bauman (2001), lugares quando bem
estruturados e salvaguardados de incômodos que a cidade oferece,
transformam-se em “ilhas de ordem”. Esses lugares, de acordo com o autor, são
verdadeiros “templos de consumo”.
Em certo sentido os hotéis são “templos de consumo” com configurações
simbólicas que possibilitam não só a vivência de experiências distintas do
cotidiano do hóspede, como também a oportunidade de acesso a determinados
segmentos sociais e culturais. Assim sendo, as unidades de uma rede hoteleira
são “templos” que promovem experiências que permitem, por exemplo, a um
hospede a sensação de pertencimento a um universo social ou cultural diferente
do seu cotidiano e, inclusive, ao local onde está situado o hotel.
É possível relacionar a ideia de “templos de consumo” ao que
Bonnemaison (2003) denomina de geo-símbolos. Para Bonnemaison
geo-símbolos são lugares com identidades próprias, capazes de promover
experiências e sensações individualizadas, a partir da demarcação de um
espaço. O hotel pode representar o ponto de partida para se estabelecer uma
relação com a cidade. Também é lugar para onde se retorna para encontrar
descanso e proteção. Nesse sentido, trata-se da habitação que se tem em
determinada cidade.
O homem habita quando pode se orientar e se identificar com um ambiente, ou quando experimenta o ambiente como significativo. Habitar, portanto, implica algo mais que ‘proteção’. Implica que os espaços onde a vida acontece são ‘lugares’, no verdadeiro sentido da palavra. Um lugar é o espaço que possui caráter. (NORBERG-SCHULZ apud ESTEVES, 2016, p.5).
Nas palavras de Norberg-Shulz, o lugar é definido pelas circunstâncias
e pelas experiências humanas que ele pode oferecer, é mais amplo que uma
localidade, ou delimitação de um espaço. O lugar precisa ter identidade para de
fato se tornar o que é. Assim, o lugar é nada mais do que um “espaço
vivenciado”. Ao se observar alguns projetos de arquitetura hoteleira,
detectam-se as estratégias empregadas pelas redes para que as edificações de detectam-seus
hotéis se integrem ao contexto da cidade e como paisagens urbanas se
incorporam aos interiores dos edifícios. É possível também perceber como
determinada redes se valem de construções existentes, transformando-as em
lugares outros, com experiências distintas do seu objetivo inicial, mas ainda
assim fazendo parte daquele contexto da cidade.
No conjunto de imagens, abaixo, tem-se o exemplo de quatro hotéis que
apresentam algum tipo de contextualização com o local onde estão implantados.
O hotel Royalton (Fig. 2.35 e 2.36) é concebido a partir de uma edificação
existente do século XIX, cujo uso original é um hotel residencial, equivalente ao
que se chama hoje de Long Stay
18. Alguns especialistas afirmam que esse uso
inicial é uma inovação, instituindo um “espaço de vivência” semelhante ao
conceito atual de lobby. A apropriação dessa edificação, na década de 1980, a
partir de projeto do designer Philippe Starck, restaura o exterior da construção e
introduz elementos contemporâneos em seu interior. Em 2007, a Morgans
reinaugura o hotel com novo projeto de interiores do escritório Roman & Williams,
que respeitando o conceito de Starck, adiciona elementos relacionados com a
história da cidade e suas características multiculturais.
18
Tipo de hospedagem hoteleira para longa permanência. A estadia nesse tipo de empreendimento costuma variar de um mês a um ano.
Fig. 2.35 e 2.36. Hotel Royalton – exterior restaurado – referência histórica na cidade - e arquitetura de interiores com elementos multiculturais que refletem o intercâmbio cultural de Nova Iorque. Fonte: Acervo do autor, 2016.
O Westin Hamburg (Fig. 2.37 e 2.38) também é concebido a partir de
uma edificação existente. O projeto do escritório de arquitetura Herzog & de
Meren faz uso de um antigo armazém da região portuária de Hamburgo para
realizar o complexo onde se insere o hotel. A base da edificação em tijolos
aparentes, constituída pelo armazém original, mantém uma relação com o
gabarito e a arquitetura das edificações da região. A parte superior utiliza
materiais e técnicas de alta tecnologia, como panos de vidro curvados,
acoplando ao edifício original, elemento em diálogo contemporâneo com a
cidade. Como já foi apontado, ressalta-se que este projeto ainda apresenta uma
comunicação entre os usuários e a cidade, por meio dos grandes painéis em
vidro que fazem a vedação dos apartamentos e, ao mesmo tempo, criam
enquadramentos da paisagem.
Fig. 2.37 e 2.38. Westin Hamburg. Fonte: www.westinhamburg.com. Acesso em 21 de fev. 2017.
No caso do W Mumbai, percebe-se que a arquitetura faz referências à
cultura indiana. Segundo Penner (2013), o arquiteto W. S. Atkins utiliza o gestual
de postura de mãos da saudação Namastê na concepção das formas do edifício
(Fig. 2.39 e 2.40).
Fig. 2.39 e 2.40. W Mumbai – arquitetura faz referências à cultura local. Fonte: www.starwoodhotels.com/whotels/property/photos/index.html?propertyID=3634.
Acesso em 21 de fev. 2017.