CAPÍTULO 2 – DESIGN COMO FERRAMENTA
2.1. A ASSINATURA COMO LINGUAGEM
2.1.1. O SIMULACRO DA ASSINATURA
Ao iniciar as discussões aqui apresentadas, retoma-se uma lenda
chinesa para que se possa pensar sobre as relações entre real e sua
representação construída por meio do imaginário: a lenda conta que, por volta,
do ano 121, durante a dinastia Han, o imperador Wu Ti entra em profunda tristeza
com o falecimento da sua bailarina favorita. Diante de tanta dor, ele chama seu
mago e ordena que a retire das profundezas das sombras. Afirma também ao
mago que seria decapitado, caso não conseguisse trazê-la de volta. O mago
pensa, pensa e num rompante imaginativo recorta numa pele de peixe a silhueta
da bailarina. Em seguida, ao entardecer, estica no jardim do palácio um pano
branco e translúcido. Atrás deste pano, contra a luz, manipulando-se a silhueta
recortada, a bailarina se faz viva diante de Wu Ti e sua corte. A sombra da
bailarina dança todas as tardes para o nobre, ao som de uma flauta, com
delicadeza e harmonia. Os ensinamentos da lenda referem-se à importância da
representação nas relações humanas: por meio da uma silhueta recortada na
pele de um peixe, a bailarina é recriada, materializando-se assim por meio de
sua representação, o objeto de origem – a bailarina. Não importa mais ao
imperador se, de fato, a bailarina está presente ao entardecer e, sim, os efeitos
de sua aparição, gerando sentimentos e sensações conectados ao imaginário
que tem sobre a sua favorita.
Segundo Lash e Urry (2002), o que a humanidade produz, desde
sempre, não são objetos em si, mas, na verdade, são representações. Tais
representações trazem atributos estéticos que estão atrelados à capacidade
humana de produzir símbolos. Na contemporaneidade, a importância atribuída à
visualidade e suas representações ganham dimensões espetaculares. Assim, o
público consume os objetos, atendendo suas necessidades de satisfação
imediata, a partir de um imaginário (BAUMAN, 2001).
Desse modo, cada vez mais os objetos são eleitos pelas suas
capacidades de sedução, de emoção, de prazer e não apenas por seus
benefícios tangíveis. Eles devem corresponder ao imaginário do público que
reconhece neles o “valor agregado por sua legitimidade e identidade”
(LIPOVETSKY; ROUX, 2005). Os objetos são consumidos pela sua capacidade
de representação simbólica e sua potencialidade de gerar experiências, ou seja,
o consumidor de um determinado produto busca experiências, nas quais se
consolide a sensação de que suas necessidades individuais estão sendo
contempladas. De acordo com Debord (2012), a representação de um objeto
determina sua maneira de ser e estar no espaço. Portanto, o que realmente
importa ao consumidor são as ilusões, sob a capacidade que o objeto tem de
influenciar e conduzir comportamentos.
Ao relacionar essas ideias às redes hoteleiras, constata-se o desafio que
estas cadeias têm em manter suas capacidades de disseminar uma linguagem
que as represente em suas expansões quantitativas e geográficas. A assinatura
passa a ser percebida pela sua representação em suas reproduções. Assim, o
que se tem não é a assinatura em si, mas o sentido de realidade que ela assume
e que ao longo do tempo pode se desdobrar em outros sentidos, ou seja, uma
assinatura passa a ser o modelo para outras assinaturas e/ou reproduções, nas
quais, simultaneamente, coexistem a assinatura (que deu origem ao modelo) e
outras representações (que a assinatura passa a conter). O fio condutor desse
processo ainda permanece na referência – a assinatura – que permite
A reprodução de uma assinatura está atrelada ao seu sentido original,
não estão mais em pauta o fato de ser original ou cópia, mas o que ela passa a
representar dentro do contexto no qual está inserida. Por exemplo, a marca
Ritz-Carlton, apoiada na assinatura de padrões estéticos, pertencentes a uma
linguagem arquitetônica praticada entre o final do século XIX e o início do século
XX, passa a ser reproduzida ao longo do tempo. Hoje, existem edificações ou
ambientações com as mesmas referências encontradas na origem da marca.
Evidentemente, o que se tem não é o Ritz parisiense, mas a sua
representação. Assim, a reprodução da marca Ritz-Carlton está fundada no
imaginário que o público estabelece, ao longo do tempo, a partir do modelo
original – a assinatura que deu origem à rede. Desse modo, o usuário da
assinatura Ritz, em outras localidades, não está em busca mais da originalidade,
mas do que a marca representa por meio dos seus serviços e pelas suas
características de design. O dispositivo para que isto ocorra não se baseia na
utilização exata da arquitetura original, mas sim, na apropriação de arquiteturas
ou elementos de design que representem a tradição de estilos consagrados de
outras épocas.
Ao se observar o Ritz-Carlton (fig. 2.6), de Nova Iorque, percebe-se sua
edificação bastante distinta de outros hotéis da marca. Todavia, trata-se de uma
arquitetura tradicional, representativa de um determinado período histórico, que
remete a ideia de glamour e à atmosfera sofisticada que sua rede busca
disseminar por meio da marca. A localização do hotel também corrobora para a
representação da assinatura Ritz. Associam-se essas perspectivas à ideia de
simulacro, cuja cópia não é mais percebida como algo inferior ao modelo. Com
a reprodução, surge uma nova realidade, capaz de substituir o modelo original,
sem negá-lo, mas, mantendo suas próprias capacidades de representação.
Baudrillard (1991) afirma que o real já não é o que era. Na verdade, o real passa
a ser a nostalgia da realidade.
Fig. 2.6. Ritz-Carlton,Nova Iorque, 1992. Fonte: www.rtizcarlton.com. Acesso em 16 jan. 2017.
Dessa maneira, a sobrevalorização do original e da autenticidade fica
em segundo plano. O que permanece é o vivido, são as possibilidades de
ressurreição do objeto. Em razão disso, a reprodução “desenfreada do real” e do
seu referencial dão condições ao surgimento da simulação – uma nova
estratégia de realidade. A nostalgia da realidade, efetivada pela representação
do real, traz também em si a noção de desejo. Frente a esse aspecto,
necessidade e desejo se amalgamam para determinar o novo estado de
realidade que a reprodução de uma determinada assinatura possibilita, assim, é
possível afirmar que a necessidade pertence ao campo do real e o desejo ao
imaginário que os símbolos constroem (Allérès, 2006).
Na contemporaneidade, a imposição da satisfação imediata do desejo
conduz à necessidade de criar objetos que proporcionam conforto e experiências
estéticas, não só nas residências das pessoas, mas também em outros locais
que venham habitar. Os objetos e os produtos passam a representar o desejo
das pessoas e, ao mesmo tempo, formalizam a autoimagem do desejante. Isso
traz prazer às experiências estéticas, lúdicas e exclusivas (Allérès, 2006).
Uma assinatura traz no seu cerne o princípio ligado à necessidade de
satisfação para quem se dirige o produto. É parte constituinte desse processo
também o desejo de construir uma aura que permita ao usuário potencial a
percepção de que uma marca está alinhada aos seus anseios. Walter Benjamin
(1994) argumenta que a aura é definida pelo sentido glorificador que ela produz.
Ela permite às pessoas exercerem sua capacidade de transcendência, como
observadores e fruidores de uma determinada experiência. Nesse sentido, a
título de exemplo, a aura que emana dos elementos arquitetônicos, do design e
da localização de um determinado hotel convida o usuário ao mergulho nos
sentidos e nas suas perspectivas representacionais.
Em razão disso, o usuário ao criar uma identidade como determinada
marca, ele carrega consigo a aura que este produto lhe traz. Na verdade,
quando uma experiência áurica é positiva, prazerosa e corresponde aos anseios
do usuário, o que permanece nele é desejo de poder vivenciá-la novamente. Isso
leva o usuário a buscar tais experiências a cada nova locação que procura. Muito
provavelmente, um usuário que tem uma determinada sensação áurica, busca
futuramente essa experiência na mesma marca em outras localidades.
Por fim, a aura está interligada à representação de uma assinatura.
Dessa maneira, a potência de uma assinatura nada mais é que sua capacidade
de reinstaurar estados áuricos que permitam ao usuário reiterar experiências
glorificadas e diversas. Essas passam a ser únicas em cada unidade hoteleira,
estabelecendo a manutenção da apetência do usuário e definindo as suas
escolhas em seus deslocamentos geográficos.
No documento
REDES HOTELEIRAS:
(páginas 53-57)