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CAPÍTULO 4 CRIANÇAS E SEUS FAMILIARES

4.1. CONTEXTO SOCIAL: COMUNIDADES ENCRAVADAS NAS

Localizado no sul do Brasil, numa ilha junto ao continente, o município de Florianópolis que é também a e capital do estado de Santa Catarina, neste estudo denomina-se Ilha de Santa Catarina62. Com uma área de 451 quilômetros quadrados, a capital é composta por doze distritos, onze deles situados na Ilha e um na região continental. A maior parcela da população reside na área central, onde se encontra o chamado Maciço63 do Morro da Cruz, em cujas encostas vivem a grande maioria

62 Uma das capitais com melhor IHD de país, seu nome não significa “cidade

das flores”, como pode também sugerir: Foi oficialmente atribuído em indigesta homenagem a um episódio histórico em que Floriano Peixoto esmaga um movimento revolucionário, fuzilando seus líderes num forte, construído pelos conquistadores portugueses na próxima e pequena Ilha de Anhatomirim – “pequena toca do diabo” na língua dos povos autócnes.

63 Segundo o Dicionário, em termos geológicos, maciço quer dizer formação

das crianças e familiares que fazem parte desta pesquisa, configurando várias comunidades, inseridas no mesmo morro – antigamente denominado “Morro do Antão”64. Por Maciço do Morro da Cruz entende-se aqui o contexto social constituído pelas várias comunidades (dezoito, pelo menos) situadas sobre a aquela formação geográfica.65

Mesmo apontados por estudos do campo da geografia e geomorfologia como áreas de risco, tais espaços foram configurando várias comunidades desde o início do século 20, e expandindo-se a olhos vistos, sobretudo nas últimas décadas. Os habitantes dessas comunidades, em boa parte afrodescendentes que vivem há gerações na Ilha de Santa Catarina, foram sendo impelidos para os morros; isso num processo orquestrado pelas elites políticas locais que, seguindo o modelo que ganhou força na então capital brasileira, Rio de Janeiro, buscou afastar homens, mulheres e crianças órfãs pobres do centro da cidade (Dantas, 2007). Numa análise dos aspectos históricos que levaram à configuração populacional periférica da Ilha de Santa Catarina, e fundamentalmente à ocupação desordenada dos morros e encostas, o autor destaca que ainda quando a Ilha de Santa Catarina conservava seu ar provincial, e a especulação imobiliária estava longe dos patamares que alcançou a partir dos anos 1970, o Plano de Metas do Governo da gestão do governador Celso Ramos (1961-1965) apontava para a ampliação de quadros técnicos especializados e toda uma reformulação logística que possibilitasse a instituição de bancos, universidades, empresas, etc., em Santa Catarina. Os governos

componente ocupa todo o volume aparente; anormalmente grande, ou forte, ou pesado; sólido, inabalável; grande massa, corpo ou conjunto.

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Primordialmente, o morro foi ocupado por açorianos, como Antão Lourenço Rebelo – oriundo da Ilha Terceira – que no século XIX detinha propriedade rural no local que atualmente é denominado Morro do Céu e Nova Trento. (DANTAS, 2012, p. 51-52).

65 Sobre tal formação e as condições de suas encostas para habitação, Araújo

(2004, p.91) observa que “...o substrato geomorfológico sobre o qual se instalou o Maciço Central é composto por três unidades litográficas: grandes riolitos e diques de diabásio, que deram origem a solos com espessuras variadas sobre as quais se desenvolveu uma vegetação classificada como [...] Mata Atlântica.” O desmatamento da região acelerou os processos erosivos, tornando “arriscada a ocupação dessas encostas para habitação visto que a criação de patamares em terrenos íngremes, associados à falta de infra-estrutura básica que coloca os efluentes advindos das habitações em contato direto com o solo, tem como conseqüência o aumento da plasticidade dos argilo-minerais, caracterizando-as como áreas de risco (idem).

posteriores mantiveram a lógica do Desenvolvimento com Segurança, levando a capital a uma “robustez administrativa no setor público até então inimaginável.” Mas “...mesmo antes da ascensão dos generais- presidentes ao Poder Executivo, Florianópolis já havia sofrido sensíveis reformulações urbanas durante os primeiros anos republicanos. Cortiços, casas simples de pedreiros, marceneiros e de lavadeiras foram demolidas para dar lugar a praças e prédios púbicos, como convém a uma capital. (Dantas, 2007, p.124). Assim deu-se o início da ocupação do Morro da Mariquinha66 (Machado, 2002). E o início da ocupação do Morro do Mocotó se deu com a transferência de famílias que moravam nas imediações do cemitério, antigamente estabelecido próximo do local onde hoje está a cabeceira ilhoa da Ponte Hercílio Luz, conforme Batista (2002).67

Considerando a história da população africana deste país – e a inexistência de políticas que induzissem outro tipo de reinserção social quando, após infindáveis lutas, a escravização passa a ser ilegal também no Brasil – pode-se considerar que estivessem entre a maioria da população que vivia em cortiços e casas simples, trabalhando então como lavadeiras, babás, pedreiros, empregados e empregadas em casas ricas do centro da Cidade e no mercado público. Para Pimenta (2005) a história do processo de ocupação do Maciço do Morro da Cruz tem início com os libertos no final do século XIX, ampliando-se com a lenta expansão associada à pauperização e migração para as Cidades das populações rurais ao longo dos anos, sobretudo nas últimas décadas do século XX.

Grande contingente de moradores das comunidades do morro é formado por migrantes oriundos do interior do estado, sobretudo da região oeste e devido ao êxodo rural – um desdobramento da mudança de um estado que de majoRitariamente constituído por pequenos proprietários rurais passa a ser de grandes proprietários, terras mecanizadas e agronegócio. Segundo estudo do campo da geografia (KLUWE, 2011), na década de 1960 em torno de 70% da população produtiva catarinense estava concentrada no campo – principalmente em pequenas propriedades rurais – e na década de 1980 esse índice caiu

66 Lembramos que o morro propriamente dito é sempre o mesmo, embora

receba diferentes denominações de acordo com as comunidades que ali se constituíram.

67 Tal cemitério deixou de existir com a construção da ponte, e o local hoje é

ocupado pelo Parque da Luz – terreno público ainda continuamente em risco pela voracidade do setor imobiliário.

para 40%; no ano de 2000 permaneciam apenas 21,3% dos catarinenses no campo, o que posicionava Santa Catarina como o terceiro estado com maior índice de êxodo rural no Brasil e primeiro colocado na região sul. Dos conflitos advindos dessa rápida reconfiguração no campo e na luta contra a concentração de terras nas mãos de latifundiários nasceu, no interior, o Movimento Sem Terra (MST); e como desdobramento das organizações em torno da luta por condições de vida e moradia na Cidade deram-se as ocupações e alguma infra-estrutura básica em parte das comunidades da Capital (Dantas, 2007).

Em consequência de tais mudanças sociais, ocupações de terras públicas ou privadas ociosas foram sendo realizadas na periferia da Capital, dando origem a novas comunidades às margens da rodovia que conduz à entrada da Ilha e aumentando a população nas encostas do Maciço do Morro da Cruz. Estas receberam grande parte do contingente migratório, em espaços que não dispunham de nenhuma infra-estrutura básica – água, luz, esgoto, ruas, escolas, serviços públicos –, iniciando novas comunidades ou ampliando as existentes. Os laços de parentesco também parecem ter sido características importantes da ocupação dos morros, segundo Pimenta (2002) e Henning (2007), mobilizando o crescimento da área e favorecendo a transmissão da técnica de construção naquele meio-ambiente.

Na sua parte sul, o Morro tem altitude máxima de 188 metros, e na parte norte – mais amplamente conheCida como propriamente o Morro da Cruz – configura-se como uma área ainda mais elevada, atingindo 283 metros de altitude (Sheibe et. al., 2007). Aí afixadas estão as antenas de transmissão das principais emissoras de televisão da Capital, e o mirante do Morro da Cruz, um dos pontos turísticos de onde se pode ver partes da Ilha e das baías norte e sul, e paisagens do continente, num quadro composto de terra, água, sinuosas montanhas verdes, e bastante concreto e asfalto. Vê-se também o Centro com seus edifícios residenciais e órgãos públicos; as três pontes; o mangue; as avenidas Beira-Mar Norte, Sul e Mauro Ramos; o Instituto Estadual de Educação, o Instituto Superior de Santa Catarina (antes ETFSC e CEFET-SC), campi da UFSC e da UDESC; elevados, trevos e caminho das praias; shoppings, penitenciária, igrejas; as grandes antenas e, é claro, a cruz que dá nome ao Morro... Curiosamente, deste ponto e durante a subida pela rua asfaltada que passa por entre casas de alto padrão e, a certa altura por uma grande área verde, pouco ou quase nada se vê daquelas partes do morro onde se configuram as várias comunidades, inclusive onde vivem familiares e crianças que fazem parte desta pesquisa.

As encostas deste imenso maciço abrigam as comunidades Mont Serrat; Nova Descoberta; Morro do Tico-Tico; Morro da Mariquinha; Morro do Mocotó; Morro da Queimada; Caieira do Saco dos Limões; Alto da Caieira; Morro da Serrinha; Morro da Penitenciária e Morro do Horácio – estes dois os mais próximos da Escola-campo e onde residem a maior parte das crianças que fazem parte da pesquisa –; Morro da Vitória; Morro do 25; Nova Trento; Morro do Céu; Ângelo La Porta; Morro do Duduco, dentre outras menores e menos conheCidas, ou em processo de formação. Mont Serrat era a única destas comunidades que dispunha de uma escola pública, que foi fechada pelo governo estadual em 2011 e teve seus professores, professoras e direção transferidos para outras escolas no apagar das luzes do ano, e a então Escola Estadual Lúcia do Livramento Mayvorne passa a ser mantida em funcionamento pelos Irmãos Maristas68.

As crianças das demais comunidades do Maciço do Morro da Cruz, como também muitas do Mont Serrat, estudam em escolas situadas no Centro da Cidade e nos Bairros Trindade, Agronômica, José Mendes e Saco dos Limões (Henning, 2007; Dantas, 2007). É especialmente numa destas comunidades que residem as crianças e familiares que fazem parte deste estudo: a parte do morro contígua ao bairro Trindade onde está situada a Escola de Educação Básica Hilda Teodoro Vieira. Entre a Trindade e o bairro vizinho localiza-se a penitenciária, que acabou por atribuir este nome à região contígua – Morro da Penitenciária.

4.2. INTERAÇÕES ENTRE INSTITUIÇÕS PÚBLICAS DE ENSINO