Capítulo 3 – A análise de Cabra marcado para morrer
3.2 Contextualizando: História da UNE Volante e o Primeiro cabra
Cena 3 – 00:00:40 Cena 4 – 00:00:56
Cena 5 - 00:01:27 Cena 6 – 00:02:05
Cena 7 – 00:05:31 Cena 8 – 00:06:34
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Após a rápida cena do projetor, Cabra marcado apresenta um bloco temático241 com o intuito de contar a experiência na UNE-Volante e do Primeiro cabra, assim como apresentar o contexto social e político do início da década de 1960. Sobre imagens feitas pela equipe da
241 Para minha análise dividi o filme em dez “blocos temáticos” os quais também chamo de “sequências”. Essa
divisão segue a cronologia do documentário e identifica-se a partir de “temas” comuns tratados em determina- do espaço de tempo. Ela não se submete rigidamente a decupagem técnica do roteiro ou da montagem do fil- me. Ela é arbitrária e por isso subordina-se a minha proposta de análise fílmica, sendo válidas outras propostas de divisões do documentário.
UNE-volante em 1962 (sob a direção de Coutinho)242 se sobrepõem a música “A canção do subdesenvolvido” 243. Em um plano geral244 de uma feira popular, trabalhadores olham para a câmera. Ao fundo dois prédios com os slogans “Texaco” e “Esso”. Gullar assere: “A imagem da miséria contrastada com a presença do imperialismo, essa era uma tendência típica na cultura daquele tempo (...)”. A voz-over de Coutinho identifica as próximas imagens: “Como integrante do CPC e responsável por essas imagens, também paguei meu tributo ao nacionalismo da época, indo filmar em Alagoas um campo de Petróleo que a Petrobras começava a explorar”.
Nota-se nessas imagens a necessidade de "documentar" o modo de vida das classes populares: as casas de palafita, os garotos catando caranguejos, trabalhadores na feira popular. Com exceção de um trabalhador da Petrobras, ao menos na montagem, há a ausência de entrevistas. As imagens da UNE Volante, assim como a “Canção do subdesenvolvido”, são apresentadas como “vestígios históricos”, sendo que isso se demonstra pela ausência de sua “voz” e pela forma como é apresentada pela voz-over, que as liga com o contexto social de sua produção: o anti-imperialismo e o nacionalismo da época. De fato, analisando sobre esse viés, a imagem da feira popular contraposta aos prédios das petroleiras estrangeiras245 carrega um importante valor simbólico daqueles anos, pois constrói imageticamente a leitura dos círculos da esquerda no qual esse projeto está envolvido: a contradição entre as condições de vida do “povo” e o poder econômico e tecnológico das empresas estrangeiras. Nota-se ai também a contraposição com a força da ideia desenvolvimentista ao redor da busca de soberania enérgica através da Petrobras.
Entretanto, é importante apontar que a construção imagem/voz não apresenta crítica aprofundada, problematizadora ou conclusiva sobre as transformações e os projetos econômicos e políticos daqueles anos. Nesse sentido, como já pontuado, as imagens adquirem um caráter majoritariamente de "vestígios históricos", no sentido de "exibir", "expor" certa época. Nota-se também a ausência de comentário sobre os atributos estéticas das imagens. Tendo em vista as críticas categóricas de Coutinho sobre a estética “nacional popular” visitada anteriormente, e compreendendo que a obra de arte não é uma transposição direta das ideias de seu autor, é possível afirmar que a crítica ao “didatismo” CPCista aparecem de maneira 242 Cena 3 – 00:00:40 e Cena 4 – 00:00:56
243 A canção de Carlos Lyra foi lançada no LP produzido pelo CPC, “O povo canta”.
244 Para uma simplificação na análise utilizo apenas três denominações de planos: Plano geral, Plano médio e
Primeiro plano.
menos categórica no documentário de Coutinho. As asserções da voz-over - “tendência típica na cultura daquele tempo”. “tributo ao nacionalismo da época” – se aproximam mais da historicização das imagens do que propriamente de um julgamento de valor negativo. Nesse sentido, aponta as imagens como frutos “da época”, reforçando a ideia de “vestígio histórico” dessas imagens. Uma avaliação das características estéticas do Primeiro cabra não são retomadas ao longo do documentário, diferentemente da memória de Coutinho sobre o significado político da UNE-Volante, analisado no capítulo anterior.
Na continuidade, é narrada a chegada da UNE volante na Paraíba em Abril de 1962. Corte para manchetes de jornais: “UNE- Volante sábado em João Pessoa.” Na mesma página se lê: “A morte de João Pedro”.246 Coutinho comenta a morte do líder camponês e os protestos organizados pela Liga de Sapé247 em repúdio, bem como seu primeiro contato com Elizabeth Teixeira de onde surgiria a ideia de filmar Cabra marcado. Gullar contextualiza: “Como a sindicalização rural era um direito inexistente na prática, os trabalhadores rurais encontraram nas ligas, o único meio legal para canalizar suas reivindicações”.
Uma questão que aparece nessa sequência e que se confirmará ao longo do documentário, é a diferença no uso da voz over de Coutinho e de Gullar. Há uma clara diferença na função e o lugar que elas ocupam. Gullar disserta sobre os “fatos históricos” que perpassam o filme como o contexto social da época e o que ocorre nas filmagens. Também é responsável por sínteses e conclusões, como na passagem apontada, em que levanta as causas da mobilização social no campo passar pelas Ligas Camponesas. Na voz de Coutinho também encontramos essas características, entretanto, elas carregam majoritariamente um peso da experiência vivida: quando comenta passagens históricas se inclui como sujeito que viveu aquela experiência. A sequência demonstra isso: Coutinho narra seu encontro com Elizabeth Teixeira e seus filhos, colocando sua afetividade e seu protagonismo naquele encontro. Já Gullar, assere sobre os detalhes de como a filmagem se deu. De diferentes formas e intensidades isso ocorrerá ao longo do filme, mas sempre mantendo o caráter de vivência por parte de Coutinho. 248
A utilização de jornais e fotos da época é uma tônica no documentário, principalmente nos momentos em que se fala sobre os acontecimentos entre 1962 e 1964. Coutinho utiliza 246 Cena 6 – 00:02:05
247 Sapé é um povoado na região de São Sebastião, Alagoas. A Liga de Sapé era a maior que existia na época,
sendo seu nome de registro Associação de Trabalhadores Agrícolas de Sapé.
248 Um terceiro narrador consta nos créditos do documentário e assere apenas em um momento do filme. Sua
esse recurso na continuidade para contar os conflitos por terra na região de Sapé no início de 1964 e a necessidade de mudar as locações de seu filme para o Engenho Galiléia em Pernambuco. A apresentação da história de Galiléia e da preparação para as filmagens ocorre sobre as imagens do Primeiro cabra, uma forma de montagem constante no documentário. 249 As imagens de 1964 são utilizadas como representação ficcional da história contada por Coutinho. Esse uso se assemelha com a função original dessas imagens, que narrariam à história da morte de João Pedro Teixeira e se diferenciam na forma como são apresentadas as imagens da UNE Volante - “vestígios” de certa época. Cabe ressaltar que essas diferentes formas de “uso da imagem” são parte da escolha do cineasta de como montar seu “material bruto” e dar vida a sua narrativa. Se esse uso não esvazia o caráter histórico que as imagens da UNE Volante e do Primeiro cabra possuem - imagens inclusive que podem ser analisadas fora do contexto de Cabra marcado250 – é certo que delimita uma função específica na narrativa do documentário.
Na continuidade, o documentário apresenta o desfecho das filmagens em 1964. São apresentadas três tomadas consecutivas de uma mesma cena do Primeiro cabra, na qual empregados do latifúndio intimidam uma família camponesa em frente a sua casa. A banda sonora imprimi tensão a cena: o ponteiro de um relógio, uma respiração ofegante e um estampido.251 A voz-over narra a interrupção do projeto trinta e cinco dias após o início de suas filmagens. Com o golpe, o exército invade a região, prende camponeses, parte da equipe de filmagem e equipamentos cinematográficos. Corte para o “relatório de película” no qual se encontra datas de envio de material para a revelação em um laboratório do Rio de Janeiro. Oito fotos de cena guardadas por um membro da equipe são apresentadas e também um exemplar do roteiro, recuperado pela advogada das Ligas Camponesas. Corte para a primeira sequência do filme: o projetor ao ar livre sendo ajustado para uma exibição.
Um apontamento que essa sequência suscita diz respeito ao uso da imprensa, de fotos e de outras “fontes” escritas no documentário. 252 Esses recursos são utilizados para demarcar 249 Cena 7 – 00:05:31
250 Caminha nesse sentido um apontamento do trabalho de Altmann presente na bibliografia: “Dentre as sequên-
cias do Cabra filmado em 64 há imagens que hoje seriam interpretadas como nítidas manifestações de interes- se e registro etnográficos. Destacam-se cenas como as da fabricação de farinha de mandioca, de dona Elizabeth e seus filhos cantando um côco e de homens construindo coletivamente uma casa, sugerindo mutirão”. ALT- MANN, Eliska. “Memórias de um Cabra marcado pelo cinema: representações de um Brasil rural”. Campos. 5(2):87-105. 2004. p.93.
251 Cena 8 – 00:06:34.
cronologicamente os acontecimentos, além de atestarem a “veracidade” da experiência histórica. Isso se demonstra quando a câmera focaliza duas reportagens no mesmo jornal, demarcando a simultaneidade da chegada da UNE Volante à Pernambuco e a morte de João Pedro Teixeira.253 Na sequência, as outras manchetes, fotos e documentos textuais apresentadas revestem de veracidade a voz over e servem para apresentar a cronologia dos acontecimentos, em uma linguagem muito próxima do “documentário clássico” e dos noticiários jornalísticos.254 Dessa forma, se comenta sobre o roteiro resgatado e sua imagem é apresentada apenas para corroborar a narrativa, sendo que seu “conteúdo” pouco aparece e não influi na narrativa. Essa função nos jornais e nas fontes escritas fica explicita também se atentarmos para o fato de que a montagem ligeira nos dá a oportunidade de ler apenas parte das “fontes” (como as manchetes e datas dos jornais e as datas do relatório de revelação), cabendo a essas imagens apenas a função de dar veracidade à voz over. A utilização dessas fontes se modifica ao longo do documentário, como será demonstrada a frente.
Por fim, cabe situar esse “bloco temático” no contexto geral do filme. Como se vê essa sequência tem como principal objetivo trazer elementos de inteligibilidade ao filme, narrando e contextualizando a tentativa que foi o Primeiro cabra. O projetor cinematográfico, iniciando e encerrando a sequência, apresenta seu conteúdo metafórico e concreto de intervenção: é ele o aparelho que permite não se perder o fio de continuidade entre a experiência da década de 1960 e o momento da realização do documentário, entre o passado e o presente. O projetor cinematográfica/cinema a partir daqui marca um uso para além dos “vestígios” ou da “ficionalização” de um contexto passado, o de auxiliador na identificação pessoal e coletiva, impulsionador de memórias. A partir daqui, essas formas de “uso” das imagens, dos testemunhos e das “fontes” sofrem tencionamentos e ganham outros contornos, entretanto, sem superar totalmente seus usos como “vestígios” ou cenas que representam a narrativa da voz over. Apenas atento para as diferentes formas como as imagens dos anos de 1960 são apresentadas, bem como suas semelhanças com certas tradições de linguagem - o “documentário clássico” e o as reportagem jornalística, - no sentido da “diversidade estilística” na composição de Cabra, visitada no capítulo anterior na crítica de Bernardet.
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254Fernão Ramos explicita as características do “documentário clássico”: “No documentário clássico, até o final
dos anos 1950, predomina a locução fora-de-campo (a voz over ou voz de Deus). É uma voz que possui saber sobre o mundo, enunciada, em geral, por meio de tonalidade grandiloquentes. (...)” RAMOS, Fernão Pessoa.