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Continuidade da pesquisa na Serra da Capivara 105

Capítulo 5: O uso de ferramentas por populações selvagens de macacos-

5.3. Continuidade da pesquisa na Serra da Capivara 105

Os estudos na Serra da Capivara foram retomados em agosto de 2007, quando

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A quebra de frutos ou sementes com “martelos” e “bigornas” de pedra corresponde ao que Sugiyama (1997) chamou de ferramentas compostas.

Tiago Falótico deu início à habituação de dois outros grupos de macacos- prego, o grupo da Pedra Furada e o do Bocão, não-simpátricos com os grupos anteriormente estudados. O principal objetivo deste novo estudo foi o de verificar em que medida o “tool-kit” atipicamente complexo encontrado nos grupos da Jurubeba e dos Oitenta seria comum a outras populações da área, além de dar continuidade à busca de indicadores de vieses sociais na aprendizagem destes comportamentos que os caracterizem como tradições sociais.

A coleta de dados se encontra em fase de conclusão, mas os resultados preliminares já trouxeram respostas importantes para as primeiras questões levantadas pelo estudo anterior.

As observações, em função da nossa experiência prévia com as dificuldades do terreno, incluíram o uso de “Varreduras Instantâneas” e registros de “Todas as Ocorrências” de uso de ferramentas. Além do monitoramento da oferta de alimento por meio de armadilhas pitfall e coletores de frutos, as ferramentas utilizadas pelos macacos vêm sendo coletadas para uma mensuração mais precisa.

De dezembro de 2007 a fevereiro de 2008, as atividades foram interrompidas em função de uma epidemia viral não-determinada, que causou a morte de quase um terço do grupo, mas os trabalhos puderam ser retomados a seguir.

O grupo da Pedra Furada, que chegou a contar com 47 indivíduos, após a epidemia, outros desaparecimentos e alguns nascimentos, era composto, em maio de 2009, por 25 animais (2 machos adultos, 9 fêmeas adultas, 2 machos subadultos, 12 juvenis e 9 infantes).

O grupo do Bocão foi acompanhado de fevereiro de 2008 a março de 2009, quando, em função de dificuldades de acompanhamento, optamos por concentrar as observações no grupo da Pedra Furada. Durante a fase final de observação, este grupo contava com cerca de 28 indivíduos (6 machos adultos, 6 fêmeas adultas, 2 machos subadultos e cerca de 10 juvenis e 4 infantes). Durante as buscas e acompanhamento destes dois grupos, outros dois foram acompanhados esporadicamente.

5.3.1. Resultados preliminares

A primeira constatação importante foi a de que o “tool-kit” do grupo da Jurubeba não era algo atípico: também entre estes novos grupos foi observado o uso diversificado de pedras para quebrar ou esmagar itens alimentares, para cavar e para pulverizar seixos de quartzo, e o uso de varetas como sondas. De modo geral, ambos os grupos (do Bocão e da Pedra Furada) exibem um repertório similar ao observado anteriormente nos grupos da Jurubeba e dos Oitenta – incluindo a curiosa “pulverização” de seixos.

Nos dois novos grupos foi observado o uso de pedras como “martelos” para esmagar ou quebrar alimento encapsulado, ou acessar itens dentro de troncos, de pedras para cavar o solo e extrair raízes, tubérculos ou aranhas (batendo para amolecer o solo e depois puxando a terra para fora com as mãos ou, às vezes, uma pedra), bem como o uso de pedras mais afiladas para cortar material vegetal, como “machados”, o uso de varetas como sondas e o uso múltiplo e seqüencial de ferramentas (Falótico & Ottoni 2008).

Por outro lado, um comportamento inédito de uso de ferramentas num contexto comunicativo foi registrado. Ao display típico de cio das fêmeas de macaco-prego seguindo um macho dominante, três fêmeas do grupo da Pedra Furada acrescentaram uma “técnica” que consiste em atirar pedras no macho dominante. Além da peculiaridade do contexto, é interessante notar que se trata das primeiras observações de lançamento direcionado de um projétil por macacos-prego selvagens (os deslocamentos de pedras às vezes associados a displays de ameaça não envolvem qualquer pontaria; o lançamento com pontaria foi induzido experimentalmente no cativeiro por Cleveland et al 2003). Análises preliminares apontam para uma diferença significativa no peso dos “martelos” empregados por juvenis e adultos, mas não entre os “martelos” usados por machos ou fêmeas. E embora os machos tenham exibido mais episódios de uso de “martelos”, a diferença não foi tão grande quanto em outros locais (68%) e as fêmeas são tão eficientes quanto os machos - talvez porque os alimentos quebrados sejam menos duros, por exemplo, que os cocos da Fazenda Boa Vista: os macacos quebram principalmente castanhas de caju e frutos e sementes de grão-de-galo (Cordia rufescens, Figura 34; nesta área, diferentemente da ocupada pelos grupos da Jurubeba e dos

Oitenta, não há jatobás).

Figura 34. Macho adulto usando um “martelo” de pedra para quebrar uma semente de grão-de-galo (Cordia rufescens) (foto T. Falótico).

Figura 35. Macho subadulto do grupo do Bocão cavando com ferramenta de pedra (foto T. Falótico).

Mais da metade dos episódios de escavação foram executados por juvenis, mas os adultos e subadultos são mais eficientes (Figura 35). Também no caso das pedras para cavar, as usadas por adultos e subadultos são mais pesadas. Quando foi possível identificar o sexo, a maioria dos “escavadores”

eram machos, que usaram ferramentas mais pesadas que as fêmeas.

As pedras para quebrar são significativamente mais pesadas que as para cavar.

As varetas mais longas são significativamente mais eficientes como sondas e, no seu uso, adultos e subadultos são mais eficientes que juvenis – inclusive por usar varetas maiores - mas os juvenis executaram 68% dos episódios observados. Curiosamente - já que as diferenças entre os gêneros, no uso de pedras, parecem decorrer de diferenças na força física – o uso de varetas também foi uma atividade predominantemente de machos48.