4 FIGURAS AFINS
4.1 Contratos Complexos em Sentido Amplo
A classificação dos contratos, especialmente entre complexos e mistos, não é uniforme na doutrina. Darcy Bessone, por exemplo, entendia como sinônimos os contratos complexos e mistos.266 Na realidade, a categoria de contrato complexo
sequer é mencionada em diversos trabalhos sobre o tema dos contratos. Em outros, como mencionado acima, é tratado como uma forma sinônima aos contratos mistos.
Alude-se, ainda, à complexidade não do contrato, propriamente, mas à complexidade da operação econômica que ele está a instrumentalizar.267 A análise,
neste sentido, não se traveste da dogmática tradicional, a qual procura criar as categorias gerais do direito.
Do ponto de vista da dogmática contratual, alguns autores classificam o contrato complexo em: contrato subjetivamente complexo, complexo do ponto de vista volitivo e contrato objetivamente complexo.268 Os contratos subjetivamente complexos
seriam aqueles nos quais um dos polos, pelo menos, é formado por mais de um centro de interesses. Os contratos complexos volitivos importariam em mais de uma manifestação de vontade por centro de interesse (parte).
É preciso fazer uma ressalva neste ponto por questões terminológicas. A parte como “centro de interesse” refere-se ao contrato-ato269, como dito anteriormente, ou
266 BESSONE. Darcy. Aspectos da evolução da teoria dos contratos. São Paulo. Saraiva. 1949. p. 45.
Ainda o autor em “Do contrato – Teoria Geral. (Bessone Darcy. Do contrato – teoria geral. 4ª Ed. São Paulo: Saraiva. 1997. p. 86). Ressalva-se aqui que posteriormente Bessone reviu seu posicionamento para diferenciar contratos complexos dos mistos. Neste sentido, cf. BESSONE, Darcy. O shopping na
Lei do Inquilinato. In: TEPEDINO, Gustavo; FACHIN, Luiz Edson (Org.). Obrigações e contratos:
Contratos em espécie: Atribuição patrimonial e garantia. Coleção doutrinas essenciais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, v. 5. p. 698. FERNANDES, Adaucto. O contrato no direito brasileiro. Vol. II. Rio de Janeiro. A. Coelho Branco Fº Editor. 1945. p. 95.
267 Neste sentido, Paula Forgioni alude à complexidade dos contratos a partir de seis pressupostos “[i]
duração da relação; [ii] iteração da contratação; [iii] valores das prestações e contraprestações; [iv] grau de ingerência de uma parte nas prestações devidas pelas outras; [v] magnitude dos prejuízos decorrentes do eventual insucesso da operação; e [vi] quantidade de pessoas envolvidas na execução do contrato.” FORGIONI. Paula A. Contratos Empresariais – Teoria Geral e Aplicação. 2ª.rev., ampl. – São Paulo. Editora Revista dos Tribunais. 2016. p. 60.
268 É o caso de Francisco de Paulo Marino (MARINO, Francisco Paulo de Crescenzo. Contratos
coligados no direito brasileiro. São Paulo: Editora Saraiva, 2009. p. 110).
269 Expressão empregada por Marçal Justen (JUSTEN FILHO, Marçal. Concessão de Serviços
Públicos. São Paulo: Dialética, 1997. p. 15); também já sugerida por Massimo Bianca (BIANCA.
contrato como processo na expressão de Roppo.270 É dizer: trata-se de termo para
definir parte no nível de formação do contrato. Relaciona-se, pois, com autoria do contrato, com aquele(s) que emite(m) a(s) declaração(ões) de vontade, que podem estar circunscritos a um “centro de interesses”.
O âmbito da análise aqui é estrutural a considerar o contrato como espécie de ato jurídico bilateral. Insere-se, portanto, no quadro classificatório dos fatos jurídicos, ou seja, de fatos a que a norma jurídica imputa efeitos. Dito de outra forma, a questão relaciona-se com a própria estrutura da norma jurídica a qualificar o contrato e, como consequência, o que faz do contrato algo juridicamente vinculativo.
Bem por isso é relevante a concepção de “centro de interesse” neste contexto do contrato como ato jurídico. Mas também, e para seguir a linha já referida acima e dar coerência, a concepção de contrato como relação jurídica, tal como já descrita utilizando as bases teóricas de Roppo, também se coadunaria com a noção de centro de interesses.
A respeito do tema, Massimo Bianca observa que as prestações nos contratos deverão ser realizadas pelos sujeitos que compõem o “centro de interesse”. Quando um contrato de compra e venda é celebrado, no qual um casal é o vendedor, há deveres individuais para cada cônjuge; tanto que na recusa de um deles, pode-se valer de substituição judicial para a eficácia do ato. O ato, com efeito, sugere que a noção de parte como “centro de interesse” seja resguardada às fases de formação do contrato e de seu programa, advertindo que na fase de execução do contrato este conceito não seria aplicável, uma vez que “se alguém tem a ver com a disciplina do contrato, deve ser revelado que se refere aos sujeitos que constituem e assumem a relação contratual e não a um centro de interesse abstrato que não é um destinatário de encargos legais”.271
270 ROPPO. Enzo. O Contrato. Trad. Ana Coimbra e M. Januário Gomes. Coimbra: Almedina, 2009. p.
125.
271 A citação integral: “Parte del contratto o contraente in senso sostanziale è il titolare del rapporto
contrattuale, cioè il soggetto cui è direttamente imputato l'insieme degli effetti giuridici del contratto. Parte del contratto o contraente in senso formale è l'autore del contratto, cioè emette le dichiarazioni contrattuale costitutive. Questi due significati di parte hanno riguardo ai due profili del contratto quale atto e quale rapporto. Di massima chi è parte dell'atto è anche parte del rapporto. È possibile tuttavia che le due posizioni non coincidano. Ciò riscontra nelle ipotesi di rappresentanza diretta, dove il rappresentante à parte formale in quanto concorre con la propria dichiarazione di volontà alla formazione del contratto, mentre parte sostanziale è il rappresentato in quanto à a quest'ultimo che fa capo il rapporto contrattuale, e a cui sono quindi imputati i diritti e gli obblighi scaturenti dal contratto. La distinzione rileva ancora nelle ipotesi in cui un terzo subentra nella titolarità del rapporto contrattuale (si pensi al cessionario del contratto) divenendo quindi parte del rapporto ma non parte dell'atto costitutivo. La nozione di parte fa riferimento ai soggetti dell'atto o del rapporto. Ma la dottrina ritiene
O autor neste sentido, alude ao contrato em sentido formal, em que o “centro de interesse” faria sentido, e o contrato no sentido substancial, fase em que as obrigações seriam dirigidas concretamente aos sujeitos. Para dar coerência interna ao trabalho e tentando alinhar certas terminologias utilizadas, poder-se-ia sustentar que o que Massimo Bianca denomina “contratto quale ato” para justificar que no primeiro caso caberia a noção de “centro de interesses” incorporaria, na esteira do que já dito, a formação do contrato e a determinação do regulamento contratual, na perspectiva de Roppo. Assim, nestes dois momentos seria adequada a menção à parte no sentido de “centro de interesses”.
che tale nozione prescinda dai soggetti e debba piuttosto essere identificata nella posizione di interesse che si contrappone ad altra posizione di interesse. La parte sarebbe, precisamente, un centro di interessi. La parte rimane quindi unica anche se essa comprende più persone. Così, ad es., la vendita è un contratto con due parti (il venditore e il compratore), anche se più persone possono concorrere a formare la parte venditrice o la parte acquirente. Tale opinione è incontrastata e si ritiene conforme alla lettera della lege che, a differenza della formula de codice abrogato, parla di parti e non più di 'persone'. Se si ha riguardo alla disciplina del contratto deve tuttavia rivelarsi che essa fa riferimento ai soggetti che costituiscono e assumono il rapporto contrattuale e non ad un astratto 'centro di interesse' che non è comò tale destinatario di imputazioni giuridiche. In particolare, i concreti problemi della parte sostanziale (legittimazione, rimedi, ecc.) attengono a tutti coloro che assumono la titolarità del rapporto e non al centro d'interessi. Pur se la dottrina è di contrario avviso, appare pertanto giustificato reputare che se più persone assumono in proprio la titolarità del rapporto contrattuale, ciascuna di esse è parte sostanziale del contratto. Ad es., i coniugi che vendono un bene di loro comune proprietà sono parti del contratto, in quanto ciascuno di essi assume i diritti e gli obblighi inerenti all'operazione.” (BIANCA. Massimo. Diritto Civile. V. 3. Il Contrato. Milano. Giuffré Editore, 1998, p. 53-55). Em tradução livre do autor: “Parte do contrato ou contratante em sentido substancial é o titular da relação contratual, ou seja, a pessoa a quem todo o efeito legal do contrato é diretamente imputado. Parte do contrato ou contratante em sentido formal é o autor do contrato, ou seja, ele emite as declarações contratuais constitutivas. Estes dois significados de parte consideram os dois perfis do contrato como um ato e como uma relação. Geralmente, quem é parte do ato, também é parte do relacionamento. É possível dizer que as duas posições não coincidem. Isso se reflete nas hipóteses de representação direta, onde o representante forma parte formal, na medida em que contribui com a primeira declaração de vontade para a formação do contrato, enquanto parte substancial é o representado na medida em que é para este último que a relação contratual é dirigida e os direitos e obrigações decorrentes do contrato são, portanto, imputados. A distinção ainda aparece nos casos em que um terceiro assume a propriedade da relação contratual (pense no cessionário do contrato), tornando-se parte do relacionamento, mas não faz parte da constituição. As noções de parte referem-se aos sujeitos do ato ou da relação. Mas a doutrina sustenta que essa noção prescinde dos sujeitos e devem ser identificadas na posição de interesse que se opõe a outra posição de interesse. A parte seria, precisamente, um centro de interesses. A parte permanece, portanto, única, mesmo que inclua mais pessoas. Assim, por exemplo, a venda é um contrato com duas partes (o vendedor e o comprador), mesmo que mais de uma pessoa possa contribuir para formar o vendedor ou o comprador. Esta opinião não é contestada e é considerada conforme às letras da lei que, à diferença da fórmula do código revogado, fala de partes e não mais do que "pessoas". Se alguém tem a ver com a disciplina do contrato, deve ser revelado que se refere aos sujeitos que constituem e assumem a relação contratual e não a um "centro de interesse" abstrato que não é um destinatário de encargos legais. Em particular, os problemas concretos da parte substancial (legitimação, remédios, etc.) pertencem a todos aqueles que adotam a relação e não ao centro dos interesses. Mesmo que a doutrina seja de opinião contrária, parece justificado reiterar que, se várias pessoas assumirem a titularidade da relação contratual, cada uma delas é uma parte substancial do contrato. Por exemplo, os cônjuges que vendem um bem de sua propriedade comum são partes no contrato, pois cada um deles assume os direitos e obrigações inerentes à transação.”
E quando Massimo Bianca alude a “contratto quale rapporto”, a justificar que aqui caberia a noção de “sujeitos” no lugar de “centro de interesses”, referiria à funcionalidade do contrato ou efeitos concretos do contrato, a sugerir fase posterior à formação e a determinação do programa contratual. A questão parece clarear quando o autor, em nota de rodapé, refere-se à lição de Santoro-Passarelli quando afirma que: “em oposição às partes que intervêm na conclusão do negócio, e são chamadas partes em um sentido formal, as partes em relação aos efeitos são chamadas partes em um sentido substancial do próprio negócio”.272
Logo, para a classificação do contrato subjetivamente complexo deve-se ponderar que se trata de um centro de interesse formado por mais de um sujeito, tal como sugere Francisco Paulo de Crescenzo Marino. Questão aqui é que o autor parte das lições de Pontes de Miranda273 quando alude a negócio jurídico único que pode
ser simples ou complexo. Este critério é extraído do “suporte fático”, ou seja, da estrutura do negócio jurídico. Por isso, um centro de interesse composto de vários sujeitos caracterizaria um contrato subjetivamente complexo. A questão aqui resume- se a vários sujeitos vinculados a uma mesma prestação e titulares da mesma posição jurídica.
No tocante à contrato complexo do ponto de vista volitivo, o autor refere-se “como aquele no qual ao menos uma das partes realiza mais de uma manifestação de vontade, sendo diversas as manifestações de vontade.”274 Partes, aqui, quer-se
compreender como “centros de interesses”.
Por fim, os contratos serão objetivamente complexos, na conceituação do autor, quando “ao menos uma das partes realiza uma pluralidade de prestações, ou no qual as prestações das partes correspondem a tipos contratuais distintos”.275
272 “Cfr. Santoro-Passarelli, Dottrine generali del diritto civile, 238: in contrapposizione alle parti che
intervengono alla conclusione del negozio, e si chiamano parti in senso formale, le parti rispetto agli effetti vengono chiamate parti en senso sostanziale del negozio medesimo.” (Ibidem).
273 O autor deixa claro que a unitariedade ou complexidade do negócio jurídico não pode ser confundida
com a unidade ou pluralidade. A análise quanto à complexidade e unitariedade pressupõe a unidade do negócio jurídico. Neste sentido: Antes de qualquer tratamento dos problemas de unidade (e pluralidade) dos negócios jurídicos e da unitariedade (e complexidade) dêles, temos de frisar que a discussão sôbre ser unitário ou complexo o negócio jurídico já assenta na convicção de que é único o negócio jurídico. A complexidade supõe que não exista pluralidade de negócios jurídicos. O negócio jurídico único é que ou é unitário ou complexo.” (MIRANDA. Pontes de. Tratado de Direito Privado.
Negócios jurídicos. Representação. Conteúdo. Forma. Prova. Atua. Marcos Bernardes de Mello e
Marcos Ehrhardt Jr. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo. 2012. p. 242)
274 MARINO, Francisco Paulo de Crescenzo. Contratos coligados no direito brasileiro. São Paulo:
Editora Saraiva, 2009. p. 110-111.
Conclui o autor, nesta linha, que o contrato misto seria uma espécie de contrato complexo considerado objetivamente, dentro do qual observar-se-ia tipos legais distintos.