Recorte Contexto
3.1.6 Convenção UPOV – 1978 a
Com o objetivo de normatizar os direitos dos melhoristas, por volta dos anos de 1950, vários países da Europa iniciaram a elaboração de uma legislação para proteção de novas variedades vegetais. Esse movimento consagrou-se, principalmente por alento da França e da Alemanha, na Conferência de Paris, em 2 de dezembro de 1961, com a criação e adoção da UPOV. O objetivo central dessa organização é padronizar e estabelecer requisitos uniformes para concessão e anulação de direitos, em relação aos seus países membros.
A convenção original da UPOV foi adotada em Paris em 1961. Desde então, a convenção sofreu três revisões: 1972, 1978 e a última em 1991. Hoje existem duas convenções em vigor: a de 1978 e de 1991, que oferecem aos governos interessados dois modelos de proteção para variedades de plantas: patentes ou sistema sui generis. Os países que aderiram até 1995 puderam optar por uma dessas duas convenções. Já após essa data, resta a alternativa da versão de 1991. A UPOV determina as características essenciais da legislação de proteção à variedade de plantas para os países membros; entretanto, cada Estado é livre para estabelecer seus próprios critérios a nível nacional. Por isso há distinção nas legislações nacionais.
Esta ata deixa um espaço de interpretação bastante amplo, ao estabelecer que a proteção conferida aos responsáveis pela obtenção se refere à obrigação que têm terceiros de solicitar o consentimento do titular para produzir com fins comerciais, colocar à venda ou comercializar material de reprodução ou de multiplicação vegetativa da variedade protegida. O ponto principal da convenção de 1978 é o que prevê o livre acesso do agricultor e do melhorista na utilização da variedade desenvolvida, como expresso no artigo 5.3:
"A autorização do que obtém e detém o direito não é necessária para a utilização da variedade como fonte inicial de variação com a finalidade de criar outras variedades, nem para a comercialização destas. Porém, essa autorização é exigida quando a utilização repetida da variedade é necessária para a produção comercial de uma outra variedade".
Também é permitido que melhoristas utilizem o material protegido como fonte de variação genética e que o pequeno produtor rural possa trocar ou doar as sementes por ele cultivadas a outro pequeno produtor rural, desde que não o faça com fins comerciais.
A proteção se estende a todos os gêneros ou espécies vegetais. Os países que seguem a convenção de 1978 iniciam a proteção com, no mínimo, cinco espécies, durante os oito anos subseqüentes. Os critérios de proteção consistem na:
• Distinção da variedade, ou seja, a cultivar tem que se distinguir das demais variedades por uma característica importante ou por várias características, cuja combinação lhe dê a qualidade de "variedade nova";
• Homogeneidade: as variedades não devem conduzir a variações secundárias muito importantes de uma cópia para outra;
• Estabilidade: que deve estar presente na sua identidade desde o inicio até o término de todos os ciclos de multiplicação;
• Novidade, o que significa que não podem ter sido oferecidas à venda no país, há menos de doze meses em relação ao pedido de proteção ou, em outros países, há mais de seis anos, se árvores ou videiras, e quatro anos para as demais espécies.
A proteção recai sobre o material de reprodução da variedade. O direito do que a obtém nasce novamente a cada geração, ao contrário do direito de patente que é esvaziado após a primeira venda do material. Outra característica importante da lei é a da proibição da dupla proteção, facultando a cada país a adoção do sistema desejado, patente ou proteção sui generis. O prazo de proteção é de 15 anos para as variedades anuais e de 18 anos para as videiras e árvores. Essa ata possibilitou a adesão dos EUA, ao contemplar as peculiaridades do sistema norte-americano, permitindo a proteção por patentes ou por direitos de melhorista, porém proibindo a dupla proteção, ou seja, patentes e direitos de melhorista simultaneamente. Deve ser ressaltado que essa cláusula beneficia países (como a Espanha) que ainda protegem plantas por meio de patentes, para espécies não contempladas nos direitos de melhorista.
A ata de 1991, no seu artigo 15.2, faculta o privilégio do agricultor e do melhorista no que se refere ao livre acesso às variedades desenvolvidas, deixando a cargo da legislação nacional de cada país estes aspectos.
"Artigo 15.2) [Exceção facultativa] Não obstante o artigo 14º, cada Parte Contratante pode, dentro de limites razoáveis e sob reserva da salvaguarda dos interesses legítimos daquele que obtém a variedade, restringir seu direito em relação a qualquer variedade a fim de permitir que os agricultores utilizem, para efeitos de reprodução ou de multiplicação, nas suas próprias terras, o produto da colheita que obtiveram pelo cultivo, nas suas próprias terras, da variedade protegida ou de uma variedade abrangida pelo artigo 14º.5,”
A convenção de 1991 impede que, sem autorização daquele que a obtém, se possa produzir, reproduzir, condicionar com fins de propagação, oferecer à venda, vender ou proceder a outro tipo de comercialização, exportar, importar ou estocar, estando tais ações relacionadas ao material de propagação da cultivar ou ao material colhido após multiplicação.
A convenção é clara quanto ao direito do que a obtém, que se estende a quatro classes diferentes: i) à variedade protegida; ii) às variedades que não forem suficientemente diferentes da variedade protegida; iii) às variedades que forem essencialmente derivadas da variedade protegida; e iv) às variedades para cuja produção se requer o uso repetitivo da variedade protegida.
Esses direitos que se conferem aos que obtém a variedade impedem que os agricultores utilizem parte do material de reprodução de suas colheitas para iniciar novos plantios, sem o consentimento prévio do titular do direito. Entretanto, é necessário ressaltar que a implementação e aplicação dos direitos e privilégios do agricultor poderão ser estabelecidas por cada Estado membro e não constituem uma obrigação internacional, mas sim um reconhecimento. Portanto, a outorga desses direitos fica a cargo da legislação nacional.
Com isso se observa que as disposições internacionais sobre direitos e privilégios do agricultor não estariam em contraposição direta, pois sua aplicação é opcional por parte dos Estados. Os defensores da convenção de 1991 argumentam que esta cláusula oferece uma flexibilidade ao Estado, permitindo ajustar sua legislação a sua base territorial. Teoricamente lhes permite corrigir desigualdades entre os que obtêm e por esse motivo são titulares do direito, e os agricultores. A proteção é estendida a todos os gêneros e espécies durante o período de
transição de cinco anos, se o país já for membro da UPOV. O prazo de transição é de dez anos, se o país filiar-se diretamente nessa versão de 1991, sendo que devem ser protegidas, inicialmente, quinze espécies.
Essa versão da convenção garante proteção para o acondicionamento, importação ou exportação de material, para os produtos elaborados diretamente a partir do material da colheita (rações, sucos, óleos, entre outros). Ou seja, produto final.
Os requisitos para obter proteção são iguais aos da Convenção de 1978, ou seja, as características de homogeneidade, estabilidade, novidade e de poderem ser distinguidas das demais. O prazo de proteção é de 20 anos para as variedades anuais e de 25 anos para as videiras e árvores. Outra característica dessa ata é o critério de derivação essencial, estabelecido no artigo 14.5, que consiste em ampliar a proteção do que obtém a nova espécie, para as variedades que se originarem da espécie inicial protegida.
Artigo 14.5 [Variedades derivadas e certas outras variedades]
a) As disposições dos parágrafos 1) a 4) aplicam-se também:
i) às variedades essencialmente derivadas da variedade protegida, desde que esta
não seja, ela própria, uma variedade essencialmente derivada,
ii) às variedades que não se distinguem claramente, segundo o artigo 7º, da
variedade protegida e
iii) às variedades cuja produção exige a utilização repetida da variedade
protegida.
b) Para os efeitos da subalínea a): uma variedade é considerada essencialmente
derivada de uma outra variedade (variedade inicial) se preencher os seguites requisitos:
i) se for predominantemente derivada da variedade inicial, ou de uma variedade
que é ela mesma predominantemente derivada da variedade inicial, sem perder a expressão das características essenciais que resultem do genótipo ou da combinação de genótipos da variedade inicial,
ii) se puder ser distinguida claramente da variedade inicial e
iii) se, exceto no que diz respeito às diferenças resultantes da derivação,
corresponder à variedade inicial na expressão das características essenciais que resultem do genótipo ou da combinação de genótipos da variedade inicial.
c) As variedades essencialmente derivadas podem ser obtidas, por exemplo, pela
seleção de um mutante natural ou induzido, ou de uma variação somaclonal, pela seleção de um indivíduo variante escolhido entre as plantas da variedade inicial, por retrocruzamentos, ou por transformações efetuadas através da engenharia genética".
Os defensores da UPOV 1991 entendem que a derivação essencial interessa especialmente aos que obtém a variedade. Neste aspecto, a proteção de cultivares se aproxima da patente, uma vez que o detentor desse direito não poderá comercializar uma variedade essencialmente derivada de outra sem a autorização do detentor de direito sobre a primeira variedade. O artigo 16 da ata de 1991 estabelece que o material de reprodução ou multiplicação vegetativa só pode ser vendido a outro Estado membro da UPOV e somente para fins de produção, nunca para reprodução ou multiplicação da variedade protegida. Se o material for exportado para outro país que não protege a variedade, estariam competindo de maneira "desleal" com o país que protege suas espécies. Exceção se estabelece se o destino final do material da planta for um país em desenvolvimento que usa este material para o consumo.
Com relação ao Gênero e Espécies de plantas protegidas, a ata de 1991, em seu artigo 3 estabelece:
1) [Estados já membros da União] Cada Parte Contratante que está vinculada pelo Acto de 1961/1972 ou pelo ato de 1978, aplica as disposições da presente Convenção:
i) na data em que passa a estar vinculada pela presente Convenção, a todos os
gêneros e espécies vegetais a que ela aplica, nessa data, as disposições do ato de 1961/1972 ou do ato de 1978 e,
ii) o mais tardar ao fim de um prazo de cinco anos a contar dessa data, a todos os
gêneros e espécies vegetais.
2) [Novos membros da União] Cada Parte Contratante que não está vinculada pela ata de 1961/1972 ou pela ata de 1978, aplica as disposições da presente Convenção:
i) na data em que passa a estar vinculada pela presente Convenção, a pelo menos
15 gêneros ou espécies vegetais e,
ii) o mais tardar ao fim de um prazo de 10 anos a contar dessa data, a todos os
gêneros e espécies vegetais".
Finalmente, a UPOV de 1991, através do acordo TRIPS, artigo 27. 3 (b), permite o acúmulo de proteção por patentes e por sistema sui generis.