A vertente econômica das redes está preocupada com as relações de troca, os custos das transações econômicas e a colaboração tecnológica, assim como na sua estrutura de organização, sem deixar de levar em conta os contextos social e cultural nos quais tais trocas ocorrem. Redes são vistas como novas formas de coordenação de mercados, cuja dinâmica
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No caso da genômica, as relações dos produtores com os consumidores de produtos de conteúdo geneticamente modificados é um tema amplo e importante, sob o ponto de vista da economia institucional e em termos da querela sobre o impacto ambiental e DPI sobre biodiversidade, temas que, apesar de contíguos, saem do escopo desta tese.
envolve a habilidade em desenvolver e aplicar o uso de novas tecnologias, de forma a ganhar competitividade. Para tal, as firmas devem estabelecer interações, na forma de colaboração para a P&D e alianças estratégicas, que resultam no que vemos como redes. O desenvolvimento de certa tecnologia é, em grande medida, dependente das relações de trocas entre atores – indivíduos, empresas e instituições de pesquisa.
Esta abordagem é representada por grupos de autores33, alguns dos quais já foram apresentados no item sobre SNI, já que este conceito se insere numa área de contigüidade entre a abordagem econômica e sociológica das redes. Lundvall (2002) e Johanson & Mattson (1984) são conhecidos como representantes da abordagem das “redes industriais”, que surge, nos anos de 1980, do interesse em entender os processos de produção, marketing e negócios internacionais, de modo integrado. O foco está na dinâmica entre componentes de arranjos entre firmas, pressupondo a interdependência entre eles. Esta condição resulta em uma forma de coordenação não-central, que não se dá através de mecanismos de preço, como nos modelos de mercado tradicionais. Ao contrário, a coordenação se dá por meio da interação entre firmas, sendo o preço apenas um dos inúmeros fatores que influenciam as relações de mercado.
Uma outra importante vertente dos estudos de redes industriais é a da economia dos custos de
transação (Williamson, 1981 e 1998). Transações num mercado perfeito ocorrem sem custos:
a obtenção de informação é livre, as tomadas de decisão são racionais e sempre existem alternativas para a seleção de fornecedores e usuários. Se estas condições não são satisfeitas, é necessário despender esforços para organizar, levar adiante e controlar as transações entre agentes interdependentes. Esta vertente, neste contexto, tenta explicar a “estrutura de governabilidade” que mantém estas relações, assumindo que a tomada de decisão é feita a partir de racionalidade limitada e senso de oportunidade. Coloca ênfase no ambiente institucional da governabilidade e no alinhamento e nos atributos da estrutura da qual fazem parte empresas, mercados, escritórios e instituições híbridas.
Segundo Silveira et alli.(2002), firma hierárquica também precisa de mecanismos de governança, mas de forma distinta dos mecanismos de mercado ou contratuais entre firmas. Na
33 Os autores da vertente “econômica” da rede citados neste trecho apresentam uma produção científica de grande
relevância dentro de tal abordagem teórica. Por isso é fornecida apenas uma referência bibliográfica geral para cada um deles.
moderna literatura esta questão é tratada como um continuum e não como situações excludentes. Comentando Williamson, os autores sugerem que este apenas enfatiza a diferença entre hierarquia e mercado, tendo as formas híbridas como intermediárias, com fins didáticos. As formas híbridas, como, por exemplo, o franchising, combinam mecanismos, aproveitando- se de certas características das interfaces que favorecem a introdução nos contratos de certos mecanismos específicos de incentivo e de certas exigências, tais como a estrutura operacional e o padrão de qualidade. Franqueados de redes de serviços, por exemplo, continuam hierarquicamente subordinados aos donos da marca, com salvaguardas fortes, tais como a propriedade do local de instalação do negócio, entre outros, e contratos que não permitem a alteração da categoria de serviço. Os mecanismos de coordenação podem se dar segundo diferentes níveis de hierarquização: nas etapas que vão da concorrência por obras até a construção, o processo é hierarquizado, mas coordenado por meio de contratos distintos daqueles que regem contratos salariais. Cada firma terceirizada, por seu turno, pode ter seu corpo estável de funcionários, cujos contratos são regidos pela legislação trabalhista e sindical. Mas as redes são estruturas bastante distintas dessas últimas, pois são construídas por meio de acordos e protocolos, podem ser desfeitas ou reorganizadas, tornando seu estabelecimento interessante em situações de elevada incerteza e mudança tecnológica.
Neste contexto, as firmas são livres para escolher suas contrapartidas de negociação. Para ganhar acesso a recursos externos e comercializar produtos, as empresas precisam estabelecer alianças, que são feitas e desfeitas, numa dinâmica absolutamente evolucionista. Tais relações ocorrem em determinado tempo, envolvendo esforços para que as empresas selecionem parceiros empresariais, fornecedores, distribuidores e consumidores e para que estabeleçam, mantenham e rompam acordos entre partes. Esta dinâmica envolve também esforços de ajuste entre componentes interdependentes, para quantificar e qualificar os bens e serviços que circulam pela rede, num tipo de coordenação que envolve planejamento conjunto ou passa pelo exercício de poder de alguns componentes sobre os outros.
Acordos podem ou não ser formalizados e mediados por contratos mais ou menos completos, que, por sua vez, podem ser plenamente cumpridos ou rompidos, variando, neste último caso, o nível de litígio que tal rompimento pode provocar. A completude dos contratos pode variar, dependendo do tipo de risco e da incerteza relativa ao acordo. Em acordos para P&D
considera-se, além de seus custos normalmente altos, o nível de risco e de incerteza 34 envolvidos.
Nas redes de ABG, o risco é considerado mais alto do que o da P&D em geral, já que os processos biológicos e moleculares são muito complexos, e não são domináveis por pequenos grupos de pesquisadores. O grau de intensidade científica necessária para a determinação de funcionalidade gênica e das suas relações com os aparatos celulares e orgânicos é alto. Ciência é fundamental, mas para que resulte na melhoria dos processos produtivos, é necessário que se desenvolvam biotecnologias. Em suma, há uma clara dificuldade de mensuração do risco da P&D em genômica, sendo difícil prever quanto esforço será necessário para estabelecer os mecanismos de manipulação e controle de processos biológicos celulares e moleculares. Mas os investimentos realizados em biologia genética e molecular, nos últimos quinze ou vinte anos, já começam a se acumular, podendo-se esperar que o risco da P&D desta área do conhecimento venha a diminuir. De qualquer forma, a manutenção dos DPI sobre as novas ABG é uma garantia de que não somente os custos passados da pesquisa, mas também os esforços em assumir os riscos da P&D, serão recompensados e poderão nutrir novos ciclos de investimento.