Callon (1992), Larédo (1991), Larédo & Mustar (1993) e Bell & Callon (1994) consideram como redes interinstitucionais as relações entre atores heterogêneos. A este tipo de rede dão o nome de Rede Tecno-Econômica, ou Techno-Economic Networks (TEN) definindo-a como:
“um conjunto coordenado de atores heterogêneos – laboratórios públicos, centros de pesquisa científica, empresas, organizações financeiras, usuários e governo – que participam coletivamente da concepção, desenvolvimento, produção e distribuição dos processos de produção de bens
e serviços, alguns dos quais dão origem a transações de mercado” (Callon, 1992:73).
As TEN (ver Figura 1.1) são organizadas em três pólos heterogêneos, que operam em um espaço comum: i) científico (C), que gera conhecimento certificado, ii) tecnológico (T), que concebe, desenvolve ou transforma artefatos destinados a propósitos específicos e iii) pólo- mercado (M), que contém os usuários. Este mercado não se confunde com aquele visto a partir da perspectiva da teoria econômica, no qual estão em jogo apenas a oferta e a demanda, mas inclui também aquele representado pelos usuários, pela natureza de suas necessidades, nível de expectativa, fluxo de informações e preferências.
Duas esferas auxiliares das TEN devem ser apontadas: o pólo de desenvolvimento e comercialização (TM), que, segundo Callon et alli (1992), consiste nas atividades de
produção e distribuição que mobilizam tecnologias para criar e/ou satisfazer necessidades,
e o pólo de transferência (CT), no qual se inserem as atividades que vinculam ciência e tecnologia (Larédo, 1993). Pólo Científico C C Pólo Tecnológico T T Pólo Mercado M M Cientistas Pesquisadores Tecnologistas Engenheiros Usuários Consumidores
Atores Aparatos de transferência Companhias e Distribuição
Intermediários (exemplos) Transferência CT CT Desenvolvimento TM TM Comercialização Competências Protocolos Contratos Modelos Patentes Protótipos Programas de computador Normas Estado-da-arte Testes Produtos Processos Conhecimento certificado Distribuição de produtos
Fonte: Callon et al. 1992
Entre os pólos das redes circulam quatro categorias de intermediários (ou suportes do
cohecimento): i) textos, artigos científicos, patentes, etc. que apresentam um certo grau de
imutabilidade; ii) artefatos técnicos, tais como instrumentos científicos e máquinas, um grupo relativamente estável de entidades não-humanas35; iii) seres humanos e suas capacidades – conhecimento, know how, etc; e iv) dinheiro. O grau de circulação dos intermediários em geral varia, assim como sua taxa de difusão, já que muitas destas entidades são confidenciais, como relatórios e documentos, motivo pelo qual nem sempre há transferência tecnológica entre pólos e nem sempre as competências incorporadas em pessoas passam de um ator institucional para outro.
Callon et allii. (1992) categorizam as redes em termos do fluxo de intermediários e a forma como circulam entre os pólos, segundo os seguintes critérios:
• incompletas ou ligadas, dependendo de quais categorias de constituintes estão
presentes e da força e grau de relação entre eles,
• convergentes ou dispersas, de acordo com a facilidade com que as atividades de um
pólo se conectam a um ou mais outros pólos, e
• curtas ou longas , diferenciadas a partir da dimensão do caminho percorrido pelos
intermediários – da pesquisa ao usuário, mostrando o quando o ciclo da inovação foi ou não completado.
Este trabalho considera que a compreensão da dinâmica das redes segundo tais categorias permite definir e avaliar as conseqüências da intervenção governamental no encorajamento de C&T. Assim, por exemplo, nas redes incompletas sugere-se que o poder público deveria facilitar as alianças, as aproximações, a circulação de homens e equipamentos, a difusão de informações e outras medidas.
A complexidade institucional destes arranjos torna peculiar sua forma de coordenação, em especial no que diz respeito ao papel dos DPI. Neste sentido, os conceitos de SNI e de redes permitem:
Abordar as relações entre diferentes instituições e entre organizações heterogêneas.
35 O termo, apesar de estranho, foi cunhado para conceituar a incorporação de capacidades “humanas” , tais
Entender como as alianças entre instituições permitem mobilizar ativos cruciais para a inovação e para a aprendizagem em rede.
Analisar o conjunto de relações estabelecidas durante o processo de obtenção da inovação entre os atores: centros técnicos, usuários, pesquisadores,
Entender a emergência dessas alianças heterogêneas, que consubstanciam um tipo de “meta-coordenação”, na qual as alianças são móveis, os arranjos são flexíveis, as configurações são voláteis,
Considerar a multiplicidade de modos de coordenação: em alguns casos, o mercado é o instrumento de coordenação e em outros, muitos mecanismos organizacionais, confiança e reconhecimento estão envolvidos.
Ficar protegido da sobre-simplificação acerca do processo de inovação enquanto fenômeno linear descoberta-adoção.
Os projetos de P&D em biotecnologia são empreendidos por um número expressivo de empresas de base tecnológica, cuja coordenação é orientada por programas cooperativos de caráter público ou semipúblico. O setor privado, apesar de realizar pesquisa in house, também está inserido nestas redes.
Patentes genômicas são tomadas por esta tese como intermediários nas TEN. O fluxo de patentes é utilizado como uma referência do dinamismo dessas redes, assim como detalhado na metodologia do trabalho. Uma patente, como instrumento formal de propriedade, deve apontar as referências científicas sobre o estado-da-arte que orientaram a geração do invento. Isto porque deriva do fato de que o conhecimento é cumulativo, de forma que outras patentes previamente consultadas ao longo do ato inventivo devem ser incluídas no rol de conhecimentos e técnicas citadas no documento patentário.
Desta forma, considerando-se o fenômeno inovativo como passível de ser analisado por meio da dinâmica das TEN, é possível analisar o fluxo de citações de patentes reconstruindo a rede de relações que os intermediários percorreram, ao longo de ciclos de interações entre os diferentes pólos.
Uma patente pode – ou não, receber citações de outras patentes mais recentes do que ela. Caso receba, tem-se um sinal de que o conhecimento científico e tecnológico que tais patentes
incorporam realizou um percurso entre pólos da rede, por meio de seus intermediários humanos - inventores e detentores das patentes, sejam estes últimos instituições ou indivíduos – e/ou componentes não-humanos – artigos científicos e as redes.
Esta idéia baliza o trabalho de campo desta tese, que busca relacionar citações que uma patente recebe de outra, ulterior, de modo a obter um padrão acerca dos fluxos de conhecimentos nas redes. A base para investigação são as subclasses C07h021/04 e C07h021/02 do sistema de classificação internacional, patentes de DNA e RNA, que contêm pelo menos uma vez a palavra “plant” no quadro reivindicatório.
O conhecimento acerca das questões técnicas em genômica é, sem dúvida, uma forma de vínculo entre estes atores. Mas a obtenção de patentes depende de um outro tipo de conhecimento e da aprendizagem sobre como, num contexto das políticas de C&T&I, obter efetivamente o monopólio patentário sobre aqueles conhecimentos científicos e tecnológicos. Os inventores e detentores de patentes formam, neste sentido, redes de atores que têm interesses comuns: obter um título de propriedade intelectual, o que os torna uma rede social
relevante para o estudo acerca da apropriação de tecnologias.