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3. A centralidade da religião na vida comunitária

3.3 Conversão religiosa e convivência comunitária

A Igreja Quadrangular, da qual Dona Carlota e Dona Lessi participam, e Lucilé fez uma pequena passagem por ela, pertence às pentecostais as quais Oro (2011, p. 385) explica que tiveram um aumento significativo no número de adeptos nos últimos anos no Brasil. O que contribuiu para ascensão desta religiosidade, segundo o autor, foi o fato dela atrair pessoas das camadas médias. O pentecostalismo, diz o autor, atrai indivíduos das diferentes camadas sociais e não mais somente os pobres dos meios urbanos, embora estes ainda constituam a maioria dos fiéis. Oro (p. 385) chama atenção para o fato de que não se pode subestimar o impacto do pentecostalismo sobre os indivíduos e as instituições. É preciso levar em consideração que o pentecostalismo constitui hoje um ator social que deve ser levado em conta no cotidiano da sociedade brasileira.

Reina (2017, p. 260 e 256) ressalta que, apesar de ser uma religião que promove uma liturgia dos socialmente excluídos, o pentecostalismo continua uma religião branca, em que os negros são acolhidos, mas discriminados. O preconceito, a discriminação e o racismo são expressos, no pentecostalismo, amplamente, indo da separação física dos negros e brancos à universalidade proposta pela liturgia.

Reina (2017, p. 265) chama atenção para o fato de que há uma negação das raízes africanas nas igrejas pentecostais. E vários fiéis ou pastores tem se utilizado da Bíblia para justificar a necessidade de deixar fora da igreja, aspectos remetentes à cultura africana. A motivação para os evangélicos entrarem em competição com os cultos afro-brasileiros se explica, pois estes últimos são “os maiores concorrentes no mercado de soluções simbólicas e prestação de serviços religiosos para os problemas materiais e espirituais dos estratos pobres da população”, afirma Reina. (2017, p. 266)

Os autores consultados alertam sobre o fato de que várias pesquisas tem demonstrado que são os evangélicos os que mais chegam nas margens da sociedade. São eles que vão aos lugares onde nenhuma outra instituição civil ou religiosa ousa se aproximar e, provocam dinâmicas agregadoras locais sem contar com nenhum recurso material e simbólico externo.

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Dona Carlota atualmente é evangélica, mas originalmente era umbandista, no entanto, após um tempo morando no Cancelão, resolveu mudar de religião. Ela conta que foi criada “com caboclo e preto-velho”, pois seu pai tinha um centro de umbanda no Paredão. Foi com ele que ela, inclusive, aprendeu a benzer: “Quando eu morava lá fora, eu benzia também. Eu benzia de rendido. Repetia baixinho tudo que meu pai dizia quando benzia. Até a pouco tempo eu tinha uma mesinha ali na frente com uma cadeirinha onde eu benzia”114. Depois que se mudou para o Cancelão, Dona Carlota frequentou por um tempo o centro Nossa Senhora Aparecida, mas acabou se convertendo para o pentecostalismo:

Dona Carlota: Depois eu passei para a Igreja Assembleia de Deus, mas como o Cancelão começou a ficar diferente eu deixei de ir lá porque era longe. Quando eu voltava da Igreja, tinha muitos guris fumando nas paradas de ônibus e eu comecei a ficar com medo e não fui mais. Agora eu vou na Igreja Quadrangular que é a mesma da Dona Maria, irmã da tia Santa. Lá é muito bom, eles dão muita coisa para ler115.

Dona Lessi igualmente é evangélica, como Dona Carlota agora, conta que na sua família não tinha benzedeiras ou benzedores, mas que costumavam se benzer com Dona Noêmia, mãe de Dona Santa, que morava no Rodeio Velho e frequentavam o Centro de Umbanda que havia na casa deles. Atualmente Dona Lessi frequenta a igreja do Evangelho Quadrangular, a mesma de Dona Carlota.

Lucilé, que é umbandista, relata que em sua caminhada religiosa, frequentou religiões evangélicas, quando morava em Pelotas, para acompanhar sua tia, embora não tenha se batizado:

Rosane: Então me explica um pouquinho, quer dizer que você estava na Umbanda, e daí foi pra evangélica?

Lucilé: É, eu... A minha tia sempre foi da igreja e eu, como morava com ela, ela convidava e eu ia também, mas ao mesmo tempo não era nada comprometida, eu ia somente para acompanhar ela mesmo.

Rosane: E que igreja era essa?

Lucilé: Era evangélica... Ah, eram tantas que ela ia na época que... Era Universal, tinha uma do Reino de Deus, tinham outras lá que ela ia que eu não me lembro mais. Mas eu ia, mas nada com compromisso de batismo, essas coisas não. Eu ia mais pra acompanhar.

Rosane: E aí, quando você saiu de Pelotas voltou pra Umbanda?

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Entrevista realizada em 10 de abril de 2019, com Carlota Domingues da Silveira. Acervo individual da pesquisadora.

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Entrevista realizada em 10 de abril de 2019, com Carlota Domingues da Silveira. Acervo individual da pesquisadora.

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Lucilé: Voltei pra umbanda e continuo na Umbanda116.

Lucilé relata que na verdade ela foi batizada e frequenta a religião umbanda desde bebê, pois seus pais eram da umbanda e desde que migrou para o Cancelão, frequenta o Centro Nossa Senhora Aparecida e, quando voltou de Pelotas, foi novamente batizada e tem os padrinhos vivos até hoje:

Rosane: Desde que você se lembra frequentando, que centro vocês iam? Lucilé: Começamos lá na quarta zona, só que lá eu não lembro mais o nome do Centro. Depois quando a gente mudou cá pro Cancelão, a gente frequentava o Santo Antônio que era lá no Caneleira. Mas tinha o Centro do Seu Aidir no Cancelão, mas a gente frequentava lá que era o Centro do meu padrinho na Católica. E a gente ia a pé, eu acho que era... Não me lembro se era todos os sábados, ou se era de quinze em quinze dias, mas eu sei que a gente ia sempre que tinha. Depois eles mudaram pra Fumaça, e a gente continuou indo, e aí depois com o tempo o meu pai começou a ficar velho e acabou falecendo e terminou o Centro Santo Antônio. Aí, tinha no Seu Aidir que era onde a gente ia117.

Continuando com seu relato sobre religiosidade, Lucilé fala que participou também de muitas missas:

Lucilé: Agora que faz tempo que não vou a missa. Acho que as missas de hoje não são as mesmas de antigamente, mas nada contra. Se eu tiver que ir, eu vou. Se eu tiver que ir numa igreja, eu vou. Se eu tiver que ir numa igreja, o que às vezes acontece, a gente participa, a gente ajuda. Eu acho que a umbanda, é sempre em relação ao ajudar o próximo, por causa que eu acho que independente de qualquer religião, ajudar o próximo sempre é bom118.

O relato de Lucilé aponta que o trânsito de uma religião à outra nunca é irreversível. A própria Dona Carlota, mesmo se assumindo como pentecostal, possui em um canto de sua sala uma imagem de N. S. Aparecida com uma vela na frente, a qual dá sinais de uso, o que significa que apela também para a santa em determinadas situações.

A diferença religiosa não tem sido obstáculo para a manutenção de relações densas de afeto entre as pessoas da comunidade negra do Cancelão, estejam na

116Entrevista realizada em 25 de janeiro de 2019, com Lucilé Garcia. Acervo do Projeto de Extensão

Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.

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Entrevista realizada em 25 de janeiro de 2019, com Lucilé Garcia. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.

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Entrevista realizada em 25 de janeiro de 2019, com Lucilé Garcia. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.

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organização quilombola ou não. É uma amizade que foi trazida do interior do município de Piratini onde residiam. Uma relação familiar, estabelecida pela vizinhança e o companheirismo. Daí o mérito do respeito pela diferença religiosa.

Não apenas há uma convivência, como um auxílio mútuo por meio da religião...: Dona Carlota: Aqui somos todos como uma família, não importa a religião. Quando os evangélicos se sentem mal, pedem ajuda para a tia Santa, pedem benzedura e se tia Santa não está bem, precisa de ajuda, os evangélicos oram por ela. A tia Santa é do bem, a gente tem que orar por ela119.

Dona Santa explica que a relação dela com Dona Maria, sua irmã, que também se converteu para a Igreja do Evangelho Quadrangular, é muito boa, pois não percebe se há diferença ou não, porque uma respeita a outra. A diferença se dá, quando cada uma está nos espaços próprios de cada religião:

Dona Santa: Porque a gente sabe que a separação que existe é material, não é espiritual. Porque Deus é um só, Jesus é um só. A diferença é só aqui, então eu confio... Onde eu chego em uma igreja, ou numa casa de pastor, eu respeito a Deus porque eu tô respeitando o meu Deus daqui, eles que separaram. Aquilo ali foi material, não é espiritual. Porque não tem dois Deus120.

As diferenças religiosas não afetaram as relações de sociabilidade, possibilitando momentos inclusive, de ajuda mútua, como no caso de promover eventos que visem conseguir recursos, ou mesmo, momentos de confraternização nos espaços de cada culto religioso, como se observa no relato de Dona Santa a seguir:

Dona Santa: Se eu faço uma rifa aqui pro centro ou faço um bolo pra vender que eu queira tirar uma verba pra não mexer no caixa, a primeira coisa que eu vou é lá [na Igreja Evangelho Quadrangular]. Ou pra Dona Lessi ou pra Maria. Elas saem e vendem, tu entendeu? Se elas vão fazer qualquer coisa lá na igreja, a primeira coisa que elas vem é aqui: ‘nós temos esse projeto de fazer lá na igreja, estamos vendendo carreteiro, botamos a vender um galeto’. Eu junto a minha turma aqui da vila e todos nós vamos comprar. E vamos, sentamos lá na igreja e saboreamos junto com eles. Então é assim, bem unido. E o pastor da Maria todos os aniversários dele, eu vou, lá na igreja dele, ele me manda o convite especial. E aí eu vou e me sinto bem121.

119Entrevista realizada em 10 de abril de 2019, com Carlota Domingues da Silveira. Acervo individual

da pesquisadora.

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Entrevista realizada em 26 de janeiro de 2019, com Santa Rosália Ulguim da Silva. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.

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Entrevista realizada em 26 de janeiro de 2019, com Santa Rosália Ulguim da Silva. Acervo do Projeto de Extensão Etnodesenvolvimento e Direitos Culturais em Comunidades Quilombolas e Indígenas.

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Por algumas vezes participei de festas realizadas no Centro de Umbanda Nossa Senhora Aparecida e, também no Espaço Umbandista, localizado no local denominado Passo da Vila. E nestes momentos, não só as pessoas participantes do Centro se envolvem, mas também, aquelas como Dona Maria e Dona Lessi, que professam a religião Evangélica, ajudam na organização das festas. Ajudam a servir o bolo, ou na cozinha, a vender ingressos no caso de promoções com fins de arrecadar recursos. Da mesma forma, Dona Santa conta que também ajuda, nos almoços na igreja Evangélica, e vende ingressos. Há uma troca de “dons e serviços”.

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